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nov- 2025 -24 novembro
Rupestres
Zími saiu para comprar cigarros e desceu pela escada porque o elevador estava demorando. Morava no sexto andar, e quando passava pelo terceiro, parou para pegar, perto da lixeira, um suplemento de cultura do jornal do dia anterior, com a Patti Smith na primeira página. O assinante daquele jornal leu apenas o caderno de esportes, que estava desmembrado, deixando o resto dos suplementos intocados. Antes de guardar o jornal na mochila e sair, estava lendo uma
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23 novembro
Therian: Espanto no Parque
Semana passada, no parque, me deparei com um grupinho de adolescentes usando máscaras de felinos. Saltavam, subiam em troncos, miavam uns para os outros. A princípio, achei que fosse ensaio da escola — alguma versão alternativa de Cats, quem sabe. Mas logo vi que não era teatro. Eles se enroscavam nas árvores, ronronavam e se olhavam com uma intensidade… estranha. Curiosa — ou ligeiramente assustada — abordei um garoto que ria da cena. — Isso aí? Therian.
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22 novembro
Pena de vida
“Sou a favor da pena de vida, se o sujeito cagou, pisou na bola, tem que resolver aqui, não pode sair fora” (Pedro Luís e a Parede) É assustadora a frequência com que ocorrem nos EUA massacres perpetrados por armas de fogo em escolas, que deveriam ser ambientes seguros de sociabilidade e aprendizado. Famílias são destroçadas, crianças com uma vida pela frente são executadas friamente por razões fúteis. As motivações para tais atos bárbaros podem ser racism
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22 novembro
Retalhos
Sobre o que o tempo leva, e o que ele nunca tira. Graças a Deus, sou forte. Sou guerreira. Sou abençoada. E por isso, os retalhos das minhas memórias não pesam. Não me ferem. Não me entristecem. Sou apenas espectadora deles. É bom quando se olha para uma casa velha, caindo aos pedaços, e o que vem à mente não é a ruína, mas o gramado verde na frente, as cadeiras onde eu me sentava para observar as meninas brincando, os cachorros correndo soltos, o picoleze
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22 novembro
O Diabo é ardiloso, mas eu sou malandra
Por tudo se paga um preço nessa vida. Inclusive, pelo saber. Minha vó costumava afirmar: “a ignorância é uma benção.” Certamente, esse era seu jeito de dizer que certas verdades são difíceis de digerir. Na época, eu ouvia suas frases enigmáticas, mas o sentido íntimo desses ditos não me tocava a pele. Hoje, voltam à mente vestidos de significado. Cada vez mais, percebo que saber é temer. Listo a seguir as descobertas divulgadas na internet, nessa última se
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21 novembro
Página virada
Virar na vida uma página é mostrar atitude. Existem páginas mais pesadas, outras que quase se rasgam no manuseio e aquelas que praticamente pedem para ser viradas. Mas tenha certeza que na vida sempre há alguma página a ser virada. Quer você queira, quer não. As razões para se virar uma página em nossas vidas existem e nunca são poucas. Deixar para trás uma parte da própria história é um momento forte, de decisão firme que não permite vacilo. As motivações
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20 novembro
Avis rara!
O filme Maestro com Bradley Cooper traz a história de Leonard Bernstein às telas mundiais, que foi o gênio da regência dos anos 1950 a 1990. É uma oportunidade de conhecer e entender por que Bernstein sempre foi o centro das atenções em qualquer reunião, e de como ele hipnotizava a todos, homens e mulheres, através de uma combinação de sedução e exortação para compartilhar sua paixão estética ou política. Muitas vezes parecia que ele desejava levar todos p
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20 novembro
A CULPA
Não estavam cômodos nem se sentiam confortáveis naquele lugar, mas nenhum dos dois tomou a iniciativa de se levantar e sair dali. Olhavam, cheiravam, procuravam com a ponta dos dedos a origem do desconforto, tudo em vão. Não era a temperatura (que estava apropriada), nem a cor das paredes (que era acolhedora), nem as poltronas (que eram adequadas e anatômicas). A razão não era outra senão eles mesmos. Mas isso eles não admitiam, ainda. Sabiam, no fundo, qu
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19 novembro
Diarista
Ana me sensibilizou. Foram só cinco ou seis palavras para ela mostrar a que veio. Num dia gris, apareceu em minha casa. Chamei por intermédio de uma colega, para a qual ela já era diarista e muito bem recomendada como uma “exímia profissional”. À primeira vista, Ana não parecia carente ou necessitada de bens materiais, pobretona – foi essa a imagem preconceituosa que fiz dela e de que me arrependo profundamente. Foi, no entanto, uma surpresa encontrá-la, v
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18 novembro
Seu Paventino
Seu Paventino, um idoso aposentado e viúvo, não gosta de ficar em casa. Por isso, seu maior passatempo é passar os dias no boteco do João, na esquina de sua casa. Lá ele é figura tão presente que já faz parte do folclore local. O maior divertimento de Paventino é abordar novos clientes de João e fazer uma pergunta bem clássica: — Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Esse senhor possui um ritual próprio. Sai de sua casa assim que o boteco abre pela man
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18 novembro
A guerra íntima de todo leitor
Quando ia escrever seus livros, o escritor Moacyr Scliar aproveitava, como dizia nas entrevistas, os intervalos da vida: a poltrona de um avião, a palestra do fulano, o aeroporto — qualquer brecha que, entre um compromisso e outro, a rotina oferecesse. Para nós, leitores, não é diferente. Lemos na sala de espera do médico, no sacolejo de uma viagem de ônibus, no aeroporto, esperando um amigo no shopping. Quem lê há muito tempo sabe bem o que é isso. Tenho
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17 novembro
Poema #45: Saldo
De cotidianos resíduosarrancados na solidão de prisioneiroem que todo o meu ser se devora,tento compor uma imagem humanaque me faça aceitável a mim mesmo. No silêncio da morte aparentena qual me recolho ao túmulo previstonão sei com que ânsia mórbida de calma,procuro juntar os cacos de culpa diáriaque reunidos formam um apelo ao suicídio. E não é só o remorso das manhãs doentiaspelo que na noite se desfez em delíriosde humana fraqueza cansada de si mesma,é
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17 novembro
Logística Mambembe
Zími entregou a Mila Cox uma sacola para discos com um LP dentro. Ele não a havia presenteado em seu aniversário, dois dias antes. Conhecem-se desde o nascimento de Mila Cox, e trocavam presentes eventualmente, mas sempre com alguma zoeira sutil envolvida. Era uma edição nacional e comum de uma coletânea da Siouxsie and the Banshees, em bom estado de conservação. A contracapa, no entanto, trazia uma dedicatória escrita com esferográfica, que deixava claro
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16 novembro
Presença de Espírito: Pena que Não Vem com Manual
Sabe aquela habilidade de reagir rápido, com graça, esperteza e a frase perfeita? Pois é… não veio no meu pacote. Diante de situações inesperadas, viro uma estátua com sorriso de paisagem. Meia hora depois, claro, surgem respostas brilhantes — todas atrasadas, todas inúteis. E eu fico furiosa comigo mesma. Por isso admiro profundamente quem tem presença de espírito. Aquela gente que rebate na hora, cria na hora, brilha na hora. E dois casos sempre me vêm à
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15 novembro
Então é Natal!
Faça a conta. Faça a compra. Faça a lista. Afinal, dentro de poucas semanas será Natal. “É apenas mais um”, dirá o jovem. “Talvez seja o último”, pensará o idoso. “Vou ter que gastar meu décimo terceiro”, pensa o pai. Ou a mãe. “O serviço vai dobrar”, lamentam a vendedora, a empregada, o patrão, o carteiro. “Preciso variar e garantir o estoque”, diz o quitandeiro gourmet. Ovos, uvas, pêssegos e toda a sorte de frutas ditas natalinas. Ah, sem esquecer
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15 novembro
A lei do retorno
Eu sempre tive implicância com a segunda-feira. Para mim, segunda era igual a prima chata que a família faz questão de enaltecer na sua frente, porque é obediente e comportada, ou aquele irmão mais velho que serve de referência para tudo o que você não faz direito, ou aquela amiga da escola muito boazinha, que por isso mesmo não servia como companhia para as aventuras da adolescência. Segunda sempre funcionou como aquela régua social que mede os procrastin
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14 novembro
Toxidade a conta-gotas
Sair da vida de alguém é uma decisão unilateral. Não há consulta nem aviso prévio. Às vezes, se o processo é lento, a outra pessoa percebe. Às vezes, não. Os motivos para a ruptura na convivência podem ser vários. O mais comum é dar um basta em uma relação tóxica. Depois dos mais variados episódios, das pequenas descortesias até insultos de diferentes graduações, finalmente se toma a decisão. Para alguns ela vem logo, para outros muito além do tempo razoáv
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13 novembro
Caminho factível com prazer!
A imagem dos demônios dos cristãos foi desenvolvida a partir da figura dos sátiros. Eles foram semideuses da Mitologia Grega e viveram como devassos, libertinos de carteirinha. A Bíblia sagrada costuma apresentar os sátiros como sinônimos de demônios, principalmente pelo corpo parecido com bodes. Não que fossem criaturas que promovessem o mal, mas sim pela aparência associada à quem veio para te levar para o inferno. O escritor Javier Marías conseguiu desc
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13 novembro
Negra Lili Marlene
Negro, Escrevo-te estas mal traçadas pra me despedir. Não me culpe, não me leve a mal nem me mande catar coquinho. Fiz, sim, e não me arrependo, e tu sabe por quê? Pra te ajudar, homem. Não faça juízo errado da minha pessoa nem me deseje má sorte, porque isso não vai ser bonito. E depois tu me conhece, sabe que eu não sou dessas, mesmo que pareça. Fui embora do cafofo, tu já deve ter percebido que peguei umas mudas de roupa e caí fora. Foi para o teu bem,
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12 novembro
Melancolia
A melancolia me invadiu e fez morada – há tempos, desde que me entendo por gente. Pequeno, ainda, me apegava a objetos desimportantes e canções tristes, principalmente, que me levavam ao processo de reflexão. Não participava da maioria das brincadeiras que meus amiguinhos brincavam no colégio. Colecionador, mantinha intactos álbuns de figurinha e ficava lendo e observando cada uma delas na hora do recreio. Tinha, por isso, todas as mais raras, que eram obj
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11 novembro
No fim sempre dá certo
Engraçado: sou fã de carteirinha de muita gente séria e focada que vejo pelas ruas. Parece que, de tão preocupadas, vão resolver o problema da humanidade, todas as injustiças do mundo. Gente que não se distrai nunca, não perde tempo, não olha pro lado. Queria ser assim, mas não sou. Estou mais preocupado, claro, com coisas que se passam dentro de mim: uma música que ouvi e não me saiu da cabeça, uma piada que me faz rir sozinho na rua, uma saudade de um am
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10 novembro
Poema #44: Numa Janela do Mundo
As nuvens tecemuma história diáriae sem antecedentes.Não sei se podechamar de trabalho(o trabalho das nuvens)o que parece ser maisum deslizar contínuode um sonho que nãose sabe a si mesmoe apenas escorrepara um vazio profundo. Eu, que estou na janela,vejo as nuvense não enxergo a razãode se estar a vê-lassem que se possainterferir ou sustara sua indiferença.A vida humana é mesmo esseestar-sempre-dependuradoa uma janela da inérciafechada para o infinito. In
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10 novembro
Ímpios
Zími e Silvano tinham várias piadas sobre o fato de Mila Cox às vezes pensar em inglês. Quando criança, ela conviveu bastante tempo com sua tia Sara Cox, que havia morado muitos anos na Inglaterra, depois de viver a juventude numa casa proletária no bairro da Penha. Sara tinha ido para lá aos dezoito anos, para estudar. Seus pais economizaram dinheiro por muito tempo para que isso fosse possível, assim que ela atingisse a maioridade. Então casou-se com um
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9 novembro
Uma pitada de sal, não basta
É notório o saber de que o sal, numa casa, nunca acaba. O “nunca”, aqui, refere-se a um tempo deveras alongado. Em uso mais direto da nossa língua coloquial, eis o papo reto: quando o sal acaba, meu amigo… tu tá com um pepinão para descascar. Ninguém pede sal ao vizinho — pede-se açúcar. Sal é usado aos poucos; “pitadas” são suas medidas em praticamente todas as receitas. Já o açúcar costuma ser contabilizado em quantidades de xícaras. Saquinhos ou caixas
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9 novembro
Pandora
Certo dia resolvi organizar as fotos que ficavam naqueles albunzinhos que as Fotóticas da vida ofereciam junto com os filmes revelados, da época em que se revelava fotografia e colocava em álbuns. Foram guardados numa grande caixa, esperando o dia em que eu ia me dispor a organizar. O tempo passou, não fiz isso quando deveria ter feito e, agora, essa se tornou uma Caixa de Pandora. De vez em quando olho para ela, pensando se gostaria ou não de abri-la. Lá
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8 novembro
Nem sempre é céu de brigadeiro
Passeando pelo Instagram e lendo as primeiras linhas daquelas matérias aleatórias, esbarrei em uma que capturou a minha atenção: um britânico de 52 anos, Malcolm Myatt, sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) e perdeu a capacidade de sentir tristeza. Meu primeiro pensamento foi: que sorte poder viver no conforto da alegria, não se abalar com os sacolejos do destino, se decepcionar com os invejosos, acordar com os olhos inchados de mágoa. Estava quase ac
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8 novembro
O Bairro Novo
As calçadas são cinzas. Os muros também. Opa! E as casas? Cinzas! E “harmonizam-se” com a cor preta e outros tons da mesma cor… Que moda é essa? Qual o guru da arquitetura moderna foi o precursor dessa escolha? Sigo com o Google Maps aberto, como quem caminha sem saber o caminho, mesmo tendo um mapa na mão. É um bairro novo, de classe média alta. As casas, recentes, seguem o mesmo modelo arquitetônico: fachadas altas, linhas retas, vidro escuro
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7 novembro
Um Xamã para o meu piano
Vou te contar o que vim fazer aqui. Faz algum tempo, uns meses já, que meu desempenho ao piano não avança. Estava muito preocupada em especial quando tentava executar “A Chegada da Rainha de Sabá”, de Handel. Pela sua cara nunca escutou, mas não tem problema é uma composição alegre, um pouco difícil eu admito, mas que merece ser tocada com precisão. Vai daí que ultimamente não tenho obtido nenhum progresso. Meu professor tem me olhado feio e insistido que
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7 novembro
O tempo da praça
Vários dos pedestres que percorrem aquela avenida, em meio ao tráfego acentuado e aos estabelecimentos comerciais, mal imaginam que, logo ali, há um espaço independente de toda essa atmosfera. Muito menos quem faz uso de automóveis; o vidro fechado isola o motorista, algo que ele próprio almeja, mas que obnubila sua relação com o mundo. Incrustrada nesse meio e em contraste com ele, tomando a forma de um enclave, encontra-se uma praça. Como uma ilha ou uma
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6 novembro
Maria Mercedes se olha no espelho
Nunca tinha ido à escola e se envergonhava quando perguntavam se sabia ler e escrever. Respondia Não e mudava de assunto. Agora, aos sessenta anos, começou a aprender as letras nas aulas noturnas da escola municipal. Saía da casa de dona Elza deixando tudo pronto: as panelas e o chão brilhando, a comida do jeito que a patroa gostava e a roupa passada. À noite, na escola, escrevia bem devagar o que a professora ditava, passando a língua nos lábios enquanto
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