
Maria Mercedes se olha no espelho
Nunca tinha ido à escola e se envergonhava quando perguntavam se sabia ler e escrever. Respondia Não e mudava de assunto. Agora, aos sessenta anos, começou a aprender as letras nas aulas noturnas da escola municipal. Saía da casa de dona Elza deixando tudo pronto: as panelas e o chão brilhando, a comida do jeito que a patroa gostava e a roupa passada. À noite, na escola, escrevia bem devagar o que a professora ditava, passando a língua nos lábios enquanto a mão desenhava as letras maiúsculas e minúsculas de seu nome: Maria Mercedes. Afastava os olhos do papel, entortava a cabeça para olhar por outro ângulo e dizia, satisfeita: Esta sou eu.
Aprendeu também a escrever o que costumava ver todos os dias: mesa, panela, chão, comida, gato, copo, água, vassoura, feijão, menino. E já não sabia que outra palavra escrever, até que lhe ocorreu uma: espelho. Aprendeu a escrever espelho e olhou a curva de cada letra. Leu uma e outra vez em voz alta e ficou olhando a palavra, olhando e olhando. Admirou-se de não se ver refletida nela. E por que não se via naquele espelho escrito, se tudo o que escrevia antes certamente via? Quando rabiscou barriga, viu a dita cuja no filho lombriguento, e disso não tinha dúvida. Encafifou. Pensou que era porque ainda não sabia escrever muito bem e que, quando soubesse à perfeição, veria tudo o que quisesse, bastaria escrever. Se não fosse assim, que vantagem teria aprender a ler e a escrever?, perguntou. Ninguém na classe respondeu. Fizeram silêncio, como se Maria Mercedes tivesse dito algo estranho. Como se ela olhasse para um espelho e, feito um milagre, de repente se visse.













