1berto de Almeida

  • Como era gostoso o meu Pasquim!

    Quando o primeiro Pasquim chegou às bancas de jornal e revistas, como o sol de uma canção daquele compositor baiano, era 26 de junho de 1969. A memória, ainda sem os muitos livros, discos e filmes que hoje ocupam suas prateleiras, lembra daquela boa notícia que me foi trazida por Flávio, sujeito mais velho, experiente e o mais letrado entre os colegas que conheci no bairro da Torre, e que gostava de ler e colecionar Tex Willer.

    Eu, que nunca tive tendência ao babonato, à babação ou coisa parecida, sem qualquer vocação para ser um ex-croto, quando vi a capa que o Ziraldo — um craque nessa área, o nosso camisa 10 — fez em homenagem ao JK, que acabara de ser convidado para ouvir e cantar o seu Peixe Vivo em outra cidade, confesso: vivi e me vi babando. Nada mais bonito e poético do que um JK subindo ao céu, com as demais letras presas ao corpo gráfico.

    Se, aos sábados, costumava dar uma voltinha no Ponto de Cem Réis — o “escritório” que um dia foi do meu injustiçado amigo Livardo Alves* — para verificar in loco como ele está ficando de cara nova, moderna, numa morosidade de matar Salvador Dalí — e o daqui — de tédio, naqueles outros sábados, tomado por uma fome de leitura de anteontem, corria à banca mais próxima para pegar o meu Pasquim.

    A fome pasquinesca era tamanha que “comia” a capa e, mesmo que os olhos gritassem de fome de ver/comer, guardava o resto — Fausto Wolff, Sérgio Augusto, Henfil, Paulo Francis, estes, particularmente — para depois da ressaca das muitas cervejas que Bil (The Kid) nos servia no Blitz; e Dantas, o careca, com Pilsen supergelada, acabava de nos matar na Flor da Parahyba.

    Acho que foi o primeiro hebdomadário, o nome feio (botem feio nisso), com que eles, uns gozadores, chamavam esse tabloide que furou, de verdade, o cerco da sisudez de um regime sem graça e autoritário.

    Tempos bons. O Pif-Paf, à época quase um desconhecido para este escriba, editado por Millôr e recentemente (re) apresentado, em seus únicos oito números, pelo intelectual, bom caráter e ótimo sujeito Márcio Roberto, muito antes de Drummond vaticinar, era apenas um quadro na parede da minha memória de papel.

    O Pif-Paf fez 60 anos há dois anos — insuportável essa história de “há dois anos atrás”, que nossos cultos e incultos políticos, repórteres e entrevistados costumam usar para aumentar e ratificar uma distância que o “atrás” dispensa. O Pasquim, um pouquinho mais novo, no ano da graça de 2026, completa 57 anos. Lembro que a primeira capa trazia a cara de Ibrahim Sued, então o mais famoso colunista social da imprensa brasileira.

    Se não bastasse um tabloide que, em apenas dez semanas — um pequeno pulo para uma turma genial, mas um gigantesco salto para a história da nossa, de novo, verde e amarela imprensa brasileira —, saltou de 28 mil exemplares para 200 mil, além desse gigante do qual falei no começo do parágrafo, trazia um furo tão grande que dava para ver, a olho nu, o que acontecia na terra de Akira Kurosawa.

    Enquanto a grande imprensa disputava, discutia e gritava em letras maiúsculas, tentando descobrir quem seria o sucessor de Costa e Silva, o Pasquim anunciava que o próximo presidente seria Emílio Garrastazu Médici (o mesmo Garrastazu que Tim Maia batizou como nome de seu esconderijo secreto, onde se trancava, sozinho, bem ou mal acompanhado, para fumar maconha e cheirar cocaína), a mais perfeita caricatura de ditador que ainda trago na memória.

    Mas, com todas as devidas vênias do mundo, achei a capa do Ibrahim Sued tão comum quanto — força de expressão — o sabão que minha mãe usava para lavar as caçarolas enegrecidas pela fumaça do carvão do seu fogão a lenha. Porém, capa mesmo, Márcio, inesquecível, foi aquela do JK subindo para o céu.

    Bons – bons?! – tempos aqueles, hein?

    Livardo Alves nasceu em João Pessoa, no dia 21 de setembro de 1936, e faleceu no dia 16 de fevereiro de 2002, em João Pessoa*.

  • Fala, Memória! Belchior Vive!

    Ao lembrar, agorinha, da troca de roupa e mudança para outra cidade do nosso “Bigode” cearense, esse que não cantava tanto quanto aquele outro que cantava, o Bievenido Granda do Perfume de gardênia, no mesmo ano em que perdemos também os ótimos Luiz Melodia e Vander Lee, a porteira da memória foi aberta.

    Agora, com a fazenda de porteira aberta, casa destelhada e também de janelas abertas, lá fui eu de volta para os anos… 90 (?), na API, nossa ex-Associação Paraibana de Imprensa, hoje transformada em um self service ou coisa que o valha, encontrar-me com o excelente compositor de Alucinação e alucinações outras.

    Foi lá, ainda passeando pelas “Coisas do Momento”, vizinho da “Letra Lúdica” do excelente Hildeberto Barbosa Filho, amigo de priscas eras, no jornal do mesmo nome (O Momento), fundado e dirigido pelo saudoso Jório Machado, editado na época pelos saudosos Oduvaldo Batista e Maria José Limeira, que me encontrei pela primeira — somente o encontraria uma segunda — vez como ele, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes.

    Nesse dia, no auditório — era esse o nome? — da API, ele ainda curtindo o sucesso do seu “rapaz latino americano”, dava um relaxada coletiva. Estava presente. Assim por acaso. Tomando umas e outras naquele barzinho que respirava cultura, meio as piadas e a performance do “artista” Moura, então responsável pelo bar, subi para ver esse que foi o melhor compositor daquela safra de nordestina que invadiu o Sul maravilha, com as suas histórias “a palo seco”, onde desfilavam pavões misteriosos.

    Hoje, passados os anos, confesso que não o achava tão diferente desse compositor cheio de ideias, filosofias e letras em que se transformou. O mais culto de sua geração. Sem dúvidas. Um compositor excelente. Autor de letras que quase não cabiam nas músicas que a sua cabeça em constante revolução fabricava.

    Naquele dia, lembro-me bem, os estudantes estavam nas ruas. Não buscando mudar o mundo, mas contra o aumento no preço das passagens de ônibus. Nada mais comum. Não havia um só cara-pintada. Todos de caras limpas. Negócio seguinte: foram ver o ídolo. E, aproveitando a oportunidade, pediram o seu apoio “à causa”. Lembro-me bem. 

    O protesto tem sentido… Lutar. Lutar. Lutar. Sempre. Mas, nesse momento, estou aqui como artista…

    Como?!

    Obtemperei.

    Sei ainda que, naquele momento, o papo, o nosso papo nada tinha a ver com o fato. Ou teria?

    Não entendi. Então quer dizer que o Belchior se preocupa apenas em vender o seu produto, e acha tudo muito legal quando a estudantada sai para comprá-lo? É isso?! Agora quando essa mesma molecada precisa do seu apoio numa reivindicação justa e legal, ele diz “Nada a ver com isso eu tenho, pois sou um artista? Estás parecendo aquele outro que não tá nem aí para o que acontece aqui fora, porque o seu único desejo é estar Odara!

    E aí? O que você quer dizer com isso?

    Agora foi a vez de ele Obtemperar.

    Sou um artista, Faço arte. Quer discutir arte comigo?!

    Não queria. Não quis. Não discuti. Não havia necessidade. Sabia. Era um artista e muito bom, e fazia uma arte muito boa. Mas o papo não era por ai.

    Tentei ainda lhe dizer que seria deixar que os Estudantes brigassem por ele, enquanto ele — fiz questão de abusar do “ele” — ficava em casa “contando o seu metal.” Aquele mesmo que a Elis Regina, por livre e espontânea vontade, resolveu transformar (e cantar) em “vil metal”. Disse-lhe. Mas, entre mortos e feridos, encontramos motivos para novas canções.

    Tive ainda a oportunidade de estar outra vez, mais uma vez e apenas uma, dessa vez em São Paulo, com o compositor da bela e datada “A Palo Seco”. Aquela famosa que fala no ano de 1973 (Chile). Ou teria sido no ano de 1976 (Soweto?)?

    Fala, memória, invoco Nabokov! Bons tempos aqueles, hein?!

  • O maestro Edino Krieger passou por aqui

    Ele nasceu em Brusque (Santa Catarina), no dia 17 de março de 1928. Estão fazendo as contas? Pois é. Edino Krieger, esse mesmo que pede que “por favor” não o chame de “Édino”, com esse “E” maiúsculo acentuado, um dos maiores compositores do mundo. Pois é. O Maestro passou por aqui.1 Por acaso o convite veio em forma de Rosa também fui convidado para o mesmo aniversário em que o Maestro convidado também fora. Um encontro festivo e familiar. Ou vice e versos. Nesse dia, muito bem acompanhado, recebi do Maestro Edino uma alegre e divertida aula sobre a vida e a música. Tudo sem esquecer a minha bela e gostosa música nordestina, essa que para o Maestro é uma das mais ricas do mundo.

    — Ah, 1berto! Eu gosto muito da música de vocês! Admiro muito o Repente. As Emboladas e Cantadores de viola. Maravilhosos! As imagens poéticas que eles conseguem criar são maravilhosas! Tem mais: métricas perfeitas e versos redondos!

    O Maestro ainda contou boas histórias sobre os nossos Eleazar de Carvalho (Iguatu – CE) e José Siqueira (Conceição-PB). Sobre o primeiro, lembrou as “peças” pregadas por alunos e regidos. “Eleazar tinha uma memória fenomenal! Bastava uma leitura da peça e… estava tudo na cabeça!”. José Siqueira? “Ah, esse teve uma importância histórica na valorização do músico brasileiro! Não era muito de composição. Mas, nesse campo, – valorização – os músicos devem muito a ele”.   

    O papo com Edino, aos 89 anos ou quase isso, considerando que na próxima semana a essa idade chegará, graças a Deus, mesmo com toda a erudição musical que o mundo conhece, respeita e admira não tem nada de professoral. É todo sorriso a flor da pele. E se não bastasse, livre gargalhada espalhada entre uma história e outra.

    E a do filho Edu, versado nos “mistérios existenciais” ou coisa parecida, que lhe perguntou no dia em que fazia 68 anos, sabendo que nessa idade ele perdera o pai, se não entrava em crise pelo fato de estar fazendo exatamente a idade em que o seu “mestre da banda” trocou de roupa e se mudou para outra cidade?

    — Não tenho a idade do meu pai, seu avô, como parâmetro. Mas a da minha mãe, sua avó, que viveu por aqui quase 100 anos!

    Edino é assim. Nada de professoral nas conversas. Sempre o mesmo. Estando em festa de aniversário ou depois de uma de suas muitas apresentações por aqui e alhures. Nunca destoa. Assim, por mais que insistam em dizer que de perto ninguém é normal, o maestro Edino Krieger é normalíssimo. Não existe entre ele e o mais leigo dos fãs aquele que se sinta constrangido numa aproximação.

    Se essa sua rara qualidade por si não bastasse, simplicidade a toda prova, coisa mesmo de gênio, pessoa capaz de contar uma piada e sorrir com a piada contada como se estivesse contando a referida pela primeira vez, tem ao seu lado a companheira de mais de 40 anos, Neném, por todos assim chamada carinhosamente, que é somente sorriso e alegria. Um fato, esse perceptivo por todos, que a torna dezenas de anos mais jovem.

    Mas nada melhor que ouvir esse mestre sem nenhuma pretensão de ser engraçado. Edino não precisa.  O seu humor é tão natural quanto o seu “Canticum naturale” (1972), composto em “parceria” com os pássaros, esse fazendo coro, e os sussurros da Amazônia.  

    Sem aquele chato ar a professoral, repito, o maestro discorreu sobre a sua terra e família, e contou histórias que mereciam ser encerradas em um “capa dura”. Um homem de mil histórias vividas. E todas merecedoras de um livro somente para elas.  

    Ali, nesse dia, sábado passado, num papo entre sorrisos e suaves doses de uísque, não se encontrava o crítico de música e colunista do Jornal do Brasil (caderno B) e Tribuna da Imprensa. Mas o menino que contava – sem mesmo que fosse perguntando — sobre o porquê do seu “estranho nome”. “O Edino foi uma homenagem do meu pai a um colega de farda”.

    Em Brusque, cidade natal, não havia o que chamamos por aqui de Quartel ou departamento outro parecido. Era “Tiro de Guerra”. Instituição militar do Exército Brasileiro encarregada de formar atiradores e ou cabos de segunda categoria (reservistas) para o exército, Voces sabem. Assim, o seu pai, Aldo Krieger, foi enviado para servir (de verdade) em outra cidade. E saiu dela já como “maestro” de banda de música da cidade.

    Assim, por lá, graças a um superior hierárquico, o musico foi descoberto enquanto executava serviços gerais no quartel onde servia. Resultado: em pouco tempo era quase o “dono” da banda. Pois bem. Foi lá que conheceu o “Edino”, nome esse que mais tarde, em homenagem ao mesmo, batizou o seu musical filho.

    O papo com Edino não tem nada daquele ar professoral nem clima de erudição, Ele não posa de “professor”. Mestre? Nem pensar. Nenhuma importância se não encontra no meio um ouvinte no mesmo nível do papeador. Suas histórias são todas contadas com o humor típico de quem estar s de bem com a vida.  Sempre. Todas assimiladas por todos. Em atos rápidos e engraçados.

    Nessas historias são muitos os personagens famosos que merecíamos conhecer. Não digo gozar da amizade que esses tinham – muitos tem ainda – com o maestro. São muitos. Paulo Moura, para quem escreveu/transcreveu obras para o seu sax alto, (brasiliana?) e ele gostou tanto que “fugiu” com a partitura. Vinicius de Moraes, o poetinha de quem ainda guarda boas histórias, parceirinho seu na instigante “Fuga e antifuga, quarto lugar no Festival Internacional da Canção, do ano de 1967. Maestro Hans-Joachim Koellreutter, Claudio Santoro, Guerra-Peixe e Eunice Catunda, esse que formavam o Grupo Música Viva… Mas falar sobre o compositor, o crítico musical e o produtor cultural é correr risco de ficar pelo caminho sem mostrar toda a “genialidade” do virtuose menino que iniciou estudos de violino aos sete anos com seu pai, realizando recitais no Estado dos nove aos 14 anos.

    Depois do papo com esse “jovem” de 89 anos, isso mesmo, lucidez em cada frase e marcando essa com um humor típico de quem estar sempre de bem com a vida, não se leva a impressão de que ali estava um dos mais importantes compositores eruditos do mundo em atividade. Mas aquele colega que acabou de contar mais piada sobre o amigo Vinicius de Moraes. Esse mesmo que lamentava o fato de ser grande poeta, mas pequeno no essencial que tanto desejava: “Se houver reencarnação, acreditem, desejaria voltar como Vinicius mesmo. Só uma coisa: quero voltar com o pau um pouquinho maior”. E encerra a história numa gargalhada incontida.

    Esse sem dúvida é o maestro Edino Krieger, um exemplo acabado da simplicidade que faz dos mestres e/ou gênios merecedor de todo o nosso respeito e admiração. Edino é esse exemplo acabado.

    A minha benção, maestro!

    1. O maestro e compositor Edino Krieger morreu na noite de terça-feira, aos 94 anos, em decorrência de complicações respiratórias e renais. Ele morreu no Centro de Terapia Intensiva da Casa de Saúde São José, no Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro. ↩︎

    *Texto publicado originalmente em 17 março de 2017, no portal Crônicas Cariocas.

  • Um beijo é só um beijo ou qual é o filme?

    “Um beijo é só um beijo”. Esse é titulo do livro do crítico literário e cinematográfico João Batista de Brito. Editado pela Manufatura, aqui mesmo nestas plagas parahybanas, o livro foi lançado em 2001. Pois é. Eu conheço muito bem o seu autor. Somos, talvez eu mais do que ele, jaguaribenses, do bairro de Jaguraibe, capital da Parayhyba.

    Sabia há muito, uma noticia passada por ele mesmo, que o livro havia sido lançado e muitos cinéfilos e não cinéfilos correram para comprar o dito cujo. Mas, infelizmente, andando por aí, presente no meio dessa gente eu não estava.

     Anos depois, mas precisamente 15 anos após o seu lançamento, por acaso, visitando um dos nossos sebos culturais encontrei o seu – dele – “Um beijo é só um beijo”.

    Antes, só não me lembro de quando nem onde, em papo com o autor, perguntei-lhe onde encontrar o referido, pois, não o tendo até aquela oportunidade, cinéfilo de carteirinha que sou, queria adquiri-lo. A resposta? Esgotou. Nem em casa tenho em duplicidade. Mas, como disse neste parágrafo, depois de muito procurar, finalmente, encontrei o procurado em um de nossos “sebos culturais”.

    “Um beijo é só um beijo” é um livro fininho, apenas 129 páginas, como deve ser todos os livros lançados em nossos dias. Isso tudo considerando o fato de que o brasileiro ler apenas 4 livros por ano, sem conseguir, por incrível que possa parecer, chegar ao fim dos 4 livros que resolveu ler. Ah, mesmo considerando aqueles considerar aqueles que “caem” no vestibular. Tem mais; desses chegam ao fim de apenas 2,1 livros. Está na pesquisa.

    “Um beijo é só um beijo” é um livro de pequenas 28 histórias, espécies de miniconto, com cada uma delas, como o autor faz questão de esclarecer na sua apresentação, relacionada a um filme.  Diz mais: é fiel ao filme, mas encontra uma forma criativa de narrar, sem entregar o filme (no sentido do conto) ao leitor.

    Li-o de uma só tirada. É assim que costumo me referir a uma leitura primeira e prazerosa. Ele, porém, o autor, por mais que diga não “entregar o filme” nos seus minicontos, para o cinéfilo, aquele mesmo viciado, a “charada” morre logo nas primeiras linhas. Nenhuma dúvida que o livro intitulado de “um beijo é só um beijo”, também poderia ser muito bem chamado, sem deixar de despertar a curiosidade do leitor, de “Qual é o filme”?

    Uma coisa, porém, mais que ululante e mais ainda que o óbvio que o antecede, é que não assistindo ao filme, por mais que se esforce o cinéfilo, ele não conseguirá “adivinhar” o filme ali transformado em miniconto pelo autor. Verdade. Por outro lado, esse fora da tela, qualquer pequeno cinéfilo tendo assistido ao filme “mincontado”, logo nas primeiras linhas, prestando atenção ao que o “narrador oculto” conta, a charada ou mesmo filme estará resolvido.

    E não é nem pela forma de contar do autor, pois, ma vez que ele, João Batista, tudo faz para esconder o filme “camuflado” nos seus minicontos.  Por outro lado, esse do lado de fora da tela, alguns elementos que ele usa para dar vida a sua narrativa, por mais que se esforce em escondê-los, acaba entregando o filme sem perdão.

    Um exemplo é o conto que deságua no filme Casablanca, “Um beijo e só um beijo”, titulo do livro. Nele, Rick – esse em especial – e Victor, esses dois fortes personagens do drama dirigido por Michael Curtiz, que trazem o nome de Casablanca na pele como tatuagem. E agora?  Só faltou Ilsa. Mas, sendo ela quem narra o conto, seria demais pedir que a própria se identificasse.  Assim a entrega seria, como dizemos por aqui, de bandeja!

    No caso do miniconto “Palavras Cruzadas”, apesar de “suas viagens semanais a Milford”, é a trilha sonora que entrega o nome do filme. E o “marido traído” e perguntando, enquanto faz as suas palavras cruzadas, “Ela gosta de Rachmaninoff, mas por que por a música tão alta?” E a citação do médico que encontra em Milford e com ele jantara?

    Pois é, mesmo sendo um breve encontro, esse ficará na sua memória. Conclusão: só poderia ser Desencontro (Brief Encounter), o filme de David Lean, do ano 1945. Por sinal um excelente e belo filme. O título desse miniconto é um achado -“Palavras Cruzadas”. Um título meio assim como “vidas cruzadas”. Não dá pra esquecer. Fazer palavras cruzadas é uma das manias do marido de Laura (ah, sim, “Laura” também é uma entrega).

    Mas, para ficar por aqui, pois afinal são 28 deliciosas histórias ou minicontos, como ele deseja asism chamar, não se esquecer do Concerto para Piano nº 2 de Rachmaninoff, acelerado, lembrando o trem da partida do personagem. Em síntese, o livro e João Batista, os minicontos por ele escritos são deliciosos.  O cinéfilo que se preza, mesmo com o “produto” em falta no mercado, como vocês viram, deve procurar. Eu procurei e achei.

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