A certeza que cansa o olhar

  • A certeza que cansa o olhar

    Otto Lara Resende escreveu uma das minhas crônicas favoritas: “Vista cansada”. Li pela primeira vez na faculdade de Letras. Depois, voltei a ela muitas vezes, sempre com o mesmo incômodo. É uma crônica triste, muito triste. Diz que, de tanto ver, chega uma hora em que já não se vê mais ninguém — nem o porteiro, nem a mulher, nem o vizinho.

    Mas o que fica, mesmo, não é só a tristeza. É a suspeita.

    Ao ler Otto, me ocorre que a gente não deixa de ver por distração. A gente deixa de ver por certeza.

    A certeza de que o outro vai estar ali amanhã.

    E é aí que tudo começa a desaparecer.

    Tem marido que se acostuma com o jantar na mesa, sempre na mesma hora. Não se pergunta quem é aquela mulher que cozinha todos os dias. Porque, no fundo, acha que aquele prato vai estar ali para sempre.

    Tem amigo que atende na primeira chamada, que topa uma cerveja em qualquer terça-feira, que escuta, aconselha, insiste. E vira paisagem. Não porque mudou, mas porque parece garantido.

    Tem porteiro que abre o portão, deseja “bom dia”, sustenta um sorriso que nem sempre volta. Passa anos ali, invisível, como se fosse parte do prédio.

    Não são objetos. Mas são tratados como se fossem.

    Eu já fui esse sujeito apressado. Já passei direto, sem dizer um “bom dia”. Já preferi o celular a um rosto. Já tratei como cenário aquilo que era presença.

    Tem mãe que prepara o café, pergunta da noite, espera uma resposta inteira. O café esfria, a resposta não vem, porque, de algum jeito, a gente acredita que aquele gesto vai se repetir para sempre.

    Mas não vai.

    Ou a pessoa morre,
    ou adoece,
    ou se cansa,
    ou simplesmente vai embora.

    A relação acaba — às vezes de forma brusca, às vezes quase sem barulho.

    E o que sustentava a distração era uma ilusão: a de que havia tempo.

    Se há uma certeza, é essa: nada disso é garantido. Nenhum rosto, nenhum gesto, nenhum afeto. A permanência que a gente imagina é uma invenção confortável.

    Talvez por isso a gente não veja.

    Corre-se atrás de dinheiro, de compromissos, de pequenas urgências. Compra-se, paga-se, resolve-se. Os afetos ficam para depois, quando sobra tempo, quando não há nada mais importante.

    Quase nunca sobra.

    A gente não enxerga as pessoas porque, no fundo, acha que elas são eternas. Ou, pelo menos, eternas o suficiente para esperar.

    A certeza embaça a vista, cansa o olhar.

    E então, quando alguém morre — ou adoece, ou vai embora —, vem a pergunta, meio infantil, meio desesperada: “Mas não era para sempre?”

    Não era.

    Nunca foi.

    Talvez baste lembrar disso um pouco antes, no meio da rotina, no meio de um café ainda quente, no meio de uma conversa qualquer.

    Talvez, assim, por um instante, a gente consiga ver.

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