À flor da pele

  • BELINDA diante do espelho

    Belinda talvez fosse uma sonhadora. Incurável.

    Não era bonita. Sonhava com o conceito de formosura, camuflado em todas as coisas. Quando ouvia Milton Nascimento na introdução de O que será? (À flor da pele), conseguia enxergar toda a beleza.

    Ouvia dos amigos que o lado físico não era tão importante. Havia o exótico, o magnetismo, a beleza interior. Belinda fingia concordar, mas passava horas no espelho, buscando encobrir vestígios de imperfeição no seu corpo. A verdade era que sempre dera total atenção à aparência.

    Preocupada com o visual, fixava-se nos detalhes, assimetrias ou características que fugiam aos padrões de beleza. Implicava com estrias, sardas, celulite e qualquer mancha na pele. Seu maior problema era o que os outros achariam dela.

    Tinha os dentes um pouco afastados, mas não se dava conta que eram um charme. Os ombros, um pouco largos, tentava disfarçar com vestidos. Achava os lábios grossos, sem perceber serem ótimos para beijar. A longa cabeleira ruiva recebia exagerada hidratação com óleos vegetais e queratina. Toda noite, antes de se deitar, o ritual de limpeza facial, sem que conseguisse evitar o constante aparecimento de espinhas. Sua preocupação com a imagem acabou por se tornar uma obsessão.

    Era complicado, mas teria de superar seu complexo de feiura. Está certo que seu nariz meio adunco não cooperava. Mas ninguém era perfeito. Seus um metro e cinquenta e dois de altura podiam ser resolvidos com saltos plataforma. Baixinha, mas com classe e equilíbrio.

    A fim de se sentir mais confiante, fez uma tatuagem com os dizeres “Eu não sou a minha imagem” na parte inferior direita do abdômen, por cima da cicatriz da operação de apendicite.

    Não costumava sair de casa. Adorava ver filmes, mas nunca ia ao cinema. Preferia a televisão. Revia diversas vezes a versão clássica de Zefirelli do amor trágico de Romeu e Julieta. Sua cena predileta era quando Julieta tirava a própria vida ao ver o amante morto. Belinda era dramática.

    Essencial era evitar a negação psicológica. Até admitia a existência de gordura localizada na cintura, mas considerava um suplício abrir mão da batata frita, do pudim de leite e dos bombons. Juntaria dinheiro para comprar umas canetas emagrecedoras. O importante era ela se sentir feliz com o seu corpo. Belinda seguia tentando.

    Numa noite, enquanto retocava a maquiagem, a grande epifania. Resolveu apagar a luz e olhar-se no escuro. Pela primeira vez viu, no breu, o seu verdadeiro rosto. Ou aquilo que gostaria de ter visto. Acendeu a luz e, com calma, retirou toda a maquiagem e reconheceu seu melhor ângulo na coragem de se mostrar como era, sem artifícios ou truques. Chegou mais para perto do espelho: Belinda, cabelos vermelhos, sardas, meio dentuça, bocão, acima do peso, celulite, espinhas pela cara e imperfeita como toda gente.

    Sempre que ouvia a ária de La Bohème, quando Mimi (Lucia) canta a sua paixão pelo primeiro sol da primavera, as lágrimas rolavam pela face, tomada de espinhas. No fundo, era uma feia romântica. Incorrigível.

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