Noite após noite, eu acordava com o grito da gaivota, lancinante, como se viesse de um abismo de loucura. Eu me debruçava no alto do farol, e via lá embaixo, estatelada numa pedra enorme, batida pelos vagalhões, a gaivota. A pedra brilhava banhada pelo sangue da gaivota.
Eu não podia dormir com o terror que o grito e a imagem da gaivota infundiam. De manhã lavava e lavava a pedra, com uma esponja de aço, que me comia os dedos, fazia de tudo para limpar o sangue seco, incrustado entre as ranhuras negras. E nada da gaivota. Somente o sangue, ressecado, velho, incrustrado na pedra.
Na próxima noite, novamente o grito. E era como se o sangue jorrasse do meu peito.
Tantos dias e noites de solidão, sem nenhuma companhia a não ser o mar, e as gaivotas mortas – num baque surdo, com um grito sangrento, e longínquo, como se viesse do fundo do poço da loucura, ali na minha porta.
Por fim, decidi pôr em pratos limpos a minha sanidade. Uma noite, rolei escada abaixo, me batendo, urrando desvairado, como um animal acuado. Queria ver a gaivota, que eu nunca encontrava, que eu via e escutava só do alto, e me enlouquecera.
Mas o que eu encontrei foi uma mulher, banhada de sangue, sobre a pedra. Foi ela quem me chamou: “Me sepulta, maldito!” Eu fiquei paralisado de medo, de terror. Quando consegui me mover, sepultei a mulher como pude. Desde esse dia, a gaivota desapareceu.