A reciclagem

  • A reciclagem

    Passei a semana aturando o discursinho mequetrefe de que quase todo mundo se transforma no trânsito porque falta empatia. É isso mesmo, vou até repetir: quase todo mundo se transforma no trânsito porque falta empatia. Dá pra acreditar? Imagina só, aguentar três horas e meia sem intervalo nem cafezinho, por cinco noites seguidas, ouvindo um gordo mórbido de voz fina soltando esses impropérios, um atrás do outro. O seu vocabulário por certo tinha escolhido a empatia como termo-mãe. Uma frase terminava com empatia, outra tinha empatia no meio, logo depois, a empatia embalava mais seis ou sete palavras para que a próxima, novamente, terminasse com empatia. Empatia, empatia, empatia. PeloamordeDiós, quem aguenta?

    E pior, ele falava meio mastigado, por obrigação, como se contasse os minutos para degustar a próxima coxinha. Além disso, sequer olhava para mim ou para os outros delinquentes com a carteira suspensa. Na primeira noite, fixou os olhos em algum ponto da parede no fundo da sala e assim recitou, hora após hora, versinhos decorados, como se ensaiasse um monólogo contemplando alguma capa da Playboy. Pensando bem, acho que ele mirava mesmo um grande bolo de chocolate, babava um pouco do lado esquerdo, inclusive. Ou teve um AVC, não sei. Mas, puta merda, aquilo realmente era um longo e triste monólogo.

    Perder a carteira e ter de aguentar a conversa fiada dos taxistas e motoristas de Uber foi fichinha perto desse martírio. Cogitei até a possibilidade de ofertarem o curso de reciclagem exatamente desse jeito para nos torturar. Aliás, isso é obvio. A tortura sempre foi e sempre será uma alternativa. É aquela coisa, o seu filho fez algo terrível? Faça-o assistir aos jogos do Grêmio. Repetiu a traquinagem? Piore tudo, faça-o assistir aos jogos do Grêmio ouvindo um sertanojo universitário. Se mesmo assim não funcionar, entregue-o para adoção. Não dá, nem tudo tem conserto.

    Eu tinha. Quer dizer, eu tenho. Na verdade, eu nem merecia passar por uma reciclagem. Sejamos razoáveis, dessa vez não ameacei ninguém com um facão nem causei grandes problemas. Tudo isso por conta de três ou quatro multinhas de trânsito. Cadê a empatia do governo nessas horas? Santo Deus. Haja empatia, empatia, empatia. Aliás, aquele gordo com fala fina nunca coube dentro de um carro. É fisicamente impossível. Nem se retorcendo muito. Ele então deve ser um daqueles donos de caminhonetes gigantes com micropênis que fecham todo mundo por aí e se acham os reis da estrada. É tudo uma questão de compensação, no fim das contas, quase senso comum.

    Eu até sonhei com alguém declamando: empatia… empatia… empatia… Depois a gente surta e a culpa é nossa. Falando sério, não sei se consigo imaginar o trânsito sem xingamentos. É como a espuma do chope, sabe? Acho que o pessoal da empatia deveria considerar também o insulto como algo terapêutico. A gente sai do trabalho depois de um dia tenso, xinga um ou outro retardado no trajeto e chega em casa mais tranquilo. É isso. E tem mais: uma ofensa morna e sem ameaças, que não leve à luta corporal, não deixa de ser um xingamento com empatia.

    Não vou mentir. Apesar de tudo, esse troço repetido mil vezes no cursinho de reciclagem me obrigou a refletir sobre algumas coisas. Não muitas, é verdade. Mas, talvez eu até tire o tacape do porta-malas. Estou começando a achar que é melhor não ter armas no carro porque quase todo mundo se transforma no trânsito. Empatia é o caralho.

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