Adriano Espíndola Santos

  • Consciência econômica

    Não tenho mais medo do futuro. Minha mulher sempre me falou para curtir o presente, que “a vida é o agora!”. Mas, filho de um pai escrupuloso, tive a tendência de seguir os seus passos seguros. Criado por ele, devia ter uma “consciência econômica” – esta frase ecoa ainda hoje – quanto aos gastos, inclusive com a alimentação. Não se podia tomar mais de dois copos de café por dia.

    Não se podia comer mais de um pão francês. Tudo era racionado, fracionado, e nos regalávamos de migalhas. Havia momentos, claro, em que ele não estava em casa, e eu comia um pouco mais de açúcar, com o maior prazer do mundo, porque um adolescente em crescimento, hoje eu sei, precisa se alimentar muito bem – e fui privado disso, pela bendita consciência econômica de um pai contador, alucinado por números.

    Meu pobre pai faleceu na pandemia, aos setenta e cinco anos, e mal aproveitou a aposentadoria. Um fato inusitado é que encontrei, um dia depois de sua morte, ao arrumar a casa com a Gerusa, a antiga empregada, embaixo de sua cama, um monte de dinheiro vivo, inclusive dinheiro que nem valia mais, como cruzeiros-novos. Era absurdamente uma cena que só se ouve falar ou se vê em filme.

    Nessa brincadeira, ele deixou uma herança monstruosa de quase meio milhão – havia, ainda, seis contas em bancos, e eu não imagino o porquê; perguntei a alguns gerentes se ele movimentava, e a resposta era quase óbvia: “Não!”. Poderia ter usufruído. Poderia ter viajado, comprado um carro bom, mas tudo para ele era seguir a régua da “simplicidade”.

    Tinha um carro velhinho, bem cuidado, é verdade, mas muito fora de moda, com pelo menos vinte anos de uso. Seguir a trilha do meu pai me fez, por muito tempo, um homem nervoso, preocupado e irritadiço. Lembro-me, por exemplo, de jantar muitas vezes banana na faculdade, com medo de acabar o reles dinheiro que meu pai me dava todos os dias, como se fossem dez reais. Lanna, minha esposa, foi quem me tirou desse perrengue eterno. Ela não suporta avareza. E eu, apaixonado, tive de segui-la – de início foi muito doloroso. Fui abraçando (e sendo abraçado) e me libertando.

    A imagem de meu amado pai passou a ficar escassa, jamais esquecida. Até os vinte e sete anos, data em que conheci a minha mulher, me sentia extremamente reprimido – exatamente quando foi lançada aquela música homônima dos Menudos. Nós ríamos disso; ainda hoje ela canta quando dou sinais de pão-durismo. Hoje, com a pequena bolada do meu pai, ao invés de investir em imóveis, como boa parte das pessoas faz, invisto no meu tempo de qualidade, com meus filhos e minha esposa.

    Amamos Buenos Aires, então viajamos regularmente para passarmos as “vacaciones”. Quem dera pudesse ter levado meu pai a Buenos Aires. Ele amava Carlos Gardel. Queria ter proporcionado a ele uma vida de alforria – embora, é bem verdade, ele pudesse tê-lo feito por si próprio.

  • O peso da vida

    Tento não crer nessa tristeza que me abala. Já são muitos os motivos para sofrer. Tá pensando que é por coisas externas, como a falta de minha mãe? Não, absolutamente. Perdi-a, como perdi o meu pai, num acidente de trânsito, ainda na infância. Fui criado por uma tia pobre e carrasca. Ela se satisfazia em me ver padecendo. A comida era fracionada. Seus filhos comiam mais. Nunca fui com a cara de nenhum, todos bandidos, literalmente; são assaltantes finos. Perdi o contato com eles quando o mais velho foi preso, em outro estado. Também não faço questão de tê-los por perto. Na verdade, é um grande alívio não ver titia e os seus filhinhos, que para ela não têm nenhum defeito. Disseram-me para procurar ajuda psicológica, e ri disso, porque ninguém vai saber o que sinto por dentro. Mesmo que eu fale, eles estarão passivos, esperando a minha melhora. Por que sei disso? Porque já fui a um par de psicólogos que me relegaram à sorte da insanidade. Tenho problemas com o que mora dentro de mim. Muitas vezes me acocoro ou me deito no chão para passar a ânsia da dor que me invade – é uma alternativa que me dá um pouco de consolo; e o faço em locais diversos, mesmo no shopping, quando fui pela última vez, há dois anos. Tenho medo dessa solidão, que não tem por quê. Já tive amigos, mas os perdi com o tempo, com a minha modorra, com o meu pouco-caso, por que estava preocupado com as minhas loucuras, com as necessidades geradas por um país capitalista. Mas como poderia trabalhar, se não me dava bem com gente? Sim, tenho muito medo de gente. Um médico, amigo da família, numa simples olhada, disse que eu era bipolar e fóbico. Saí arrasado do consultório. Como pode uma irresponsabilidade tamanha de sequer me ouvir?! Ele não me escutou, tirou o parâmetro por causa do meu histórico familiar, principalmente do meu pai, que era atendido por ele. Não me deu perspectiva nenhuma, maldito. Morreu na covid, com os bolsos estufados de dinheiro e soberba. Sinto muito, mas não sei mais quem sou. Perdi-me em desalinhos, em desconexões da minha mente atulhada de sentimentos vazios. Um único amigo que me restou disse que eu era capaz, que podia superar essa dor. Sei que tenho apoio moral, por causa dele; ele me salva nos momentos mais difíceis. Mas suas palavras, às vezes, se perdem no ar, como se ele estivesse falando com o nada, com o limbo do meu ser. Sou um homem triste do fim dos tempos. Não me acalanto com qualquer pegada. Nenhum evento social me agrada. Na verdade, como disse, me dá um medo desesperador. Quero fugir, e, quando não consigo, vou ao banheiro e passo o tempo necessário para me restabelecer minimamente. Evito os eventos sociais. Nilo, meu amigo, disse que preciso enfrentar, mesmo com medo, e o faço por ele, em encontros na sua casa, onde reúne a patota da infância. É o único momento que sinto ser possível, mas logo, no outro dia, recai sobre mim o peso da vida.

  • Matei

    Nada que pudesse dizer me livraria do pecado. Eu havia matado, ainda que por puro instinto e defesa. Naquela noite, eu lembro, estava afobado e cansado. Entrei em casa arrastando a bolsa do trabalho no chão. Havia brigado com o meu chefe Roberto por causa da sua implicância comigo; ele tem a mania de dizer que faço corpo-mole, e isso é mentira: dou o meu sangue para a empresa. Cheguei em casa como um verdadeiro verme ambulante. Não tinha estímulo para nada. Amanhã seria um novo dia bosta de trabalho. E não tinha com quem conversar (Raul, meu filho, viajou, pela terceira vez, com a namorada para a sua casa de praia). Aliás, não tenho amigos, e isso parece ser um grande defeito. Não acredito nas pessoas. Já levei muito cano, então prefiro me afastar de todo mundo, principalmente da minha família, que acha que tenho dinheiro e vive a me pedir uns trocados. O cachorro Brandy foi o primeiro a dar o alarme. Soube que estava em perigo. Armei-me, no ato, para pegar o que fosse capaz. Mais uns barulhos, notei a presença de alguém na casa. Era certo que havia alguém no local, mas tive medo mesmo foi de fantasma. Não gosto de ficar só em casa por isso. Você pode se perguntar se um homem adulto pode ter medo. Tenho porque já vi meu bisavô passeando pela casa. Foi um dia que deu uma tremenda confusão; atirei a esmo, e a vizinhança chamou a polícia. No final, felizmente, não deu em nada. Não identificaram de onde saiu o disparo. Então, perguntei quem era e o que queria. Nenhuma resposta. Não sou covarde. Repeti o chamado, e nada me respondeu. Quando vi a criatura na minha frente, plantada, sem reação, atirei três vezes. O carinha agonizou e morreu rápido. Não deu tempo de a ambulância chegar, já estava morto. Era uma experiência incrível, abominável para mim. Eu havia matado uma pessoa. Nunca havia pensado nisso, que poderia, de fato, matar alguém. Que merda! Não queria que terminasse assim. Pensei em me matar (minha vida já estava uma bosta mesmo). O policial que me prendeu e me levou à delegacia me demoveu da morte. Ele disse que eu teria de prestar esclarecimentos. Depois soube que o homem que invadiu a minha casa era um vagabundo morador de rua, de nome Glauber. Eu o matei e não dei chance de se explicar. Agora, não consigo dormir de remorso. Será que ele queria comida, o miserável? Na verdade, não queria matar. Merda! Dei à polícia a minha arma. Não quero mais me meter com isso. Meu filho veio me ver e disse que arma foi feita para matar, que nunca compactuou que eu tivesse uma em casa. Só faltou dizer que matei um inocente. Meu filho passou mais um dia comigo e se debandou para a namorada. Só choro e não tenho com quem desabafar. Que noite terrível! Agora, é saber elaborar, com os meus cacos, esse triste desfecho.

  • A falta

    Na falta de Ana, me apeguei a Larissa. Não é que fosse um pai relapso, mas dei muita importância ao meu trabalho, e deixei a infância de minha filha de lado. Não sou também um pai muito amoroso, apesar de tentar. Minha filha sempre procura chamar a minha atenção com conversas desconcertantes, como paquera e outras coisas do gênero. Não consigo ver sexualidade numa menina de oito anos. Por que ela está pensando tanta besteira? Meu Deus, às vezes me dá um aperreio incomum quando penso que ela pode engravidar cedo, e falo, ríspido, que não me venha com essas conversas de adulto. Quando Ana partiu, há seis meses, vítima de um câncer brutal, percebi que só havia eu e Larissa. Ela, também, fez de tudo para ter a minha atenção. Não quero que sofra um pingo do que sinto. Mas é inevitável, perdeu a mãe, a quem tanto ama. Para isso, não tenho explicações. A menina está rebelde e revoltada com a vida; não aceita que Deus tenha levado o seu grande amor. Ela jura não crer mais num Deus carrasco, que destruiu a nossa família. Tento amenizar, mas não tenho forças, e acho até que ela tem um pouco de razão nessa revolta toda. Marina, minha irmã, diz que há um presente de Deus que eu devo guardar com todas as minhas forças (que me restam), a presença física e o amor da minha filha. Minha irmã é muito católica, daquelas fervorosas e exageradas, então eu escuto o que tem a dizer com parcimônia, nem tudo levo a sério. Ela disse que minha filha é um anjo que Deus colocou na terra para cuidar de mim. Não penso exatamente assim, porque minha filha tem suas arengas, seus defeitos, suas implicâncias comigo, que até cheguei a duvidar, quando minha esposa era viva, se devia mesmo ter sido pai, porque não tenho tanta paciência, sou um pouco estressado com rebeldia desnecessária. A menina agora cismou que quer uma bicicleta motorizada, para ir sozinha à escola, porque jura que já é grande e tem capacidade para isso; porque moramos a cerca de três quadras do colégio. Não vou comprar uma bicicleta motorizada para uma pirralha se achar a dona do mundo, para andar por cima da carne seca (seus amiguinhos). Lutei muito para conseguir as minhas coisas, então lhe disse que terá de trabalhar, na idade certa, para ter os seus bens, inclusive a bicicleta motorizada; não vou dar essa colher de chá, apesar de ainda ter muita pena dela. Na verdade, estamos, os dois, de luto. Apoiamo-nos na medida do possível. Mas permito que ela elabore a perda irreparável, e isso resulta em gritos e pontapés; é uma cena pavorosa de se ver. Ana amou demais, por isso foi tão amada. Só fez o bem. Até eu mesmo me revolto com Deus. Isso não é justo. Ana não merecia ir tão rápido. Ela era uma alma esplendorosa na Terra. Iluminava aonde chegava. Agora estamos órfãos de um amor dadivoso. Não sei como isso vai terminar.

  • Inferno

    Numa terça qualquer, à tarde, sol a pino, estavam todas as roupas estendidas no varal. Salete tirou tudo o que já enxuto, para que, quando o marido chegasse do trabalho, estivesse tudo arrumado. Jonas não gosta de bagunça. Salete sabia desde o dia em que se casou. Mudança brusca de comportamento. E eles ainda foram morar em outra cidade, longe dos familiares e dos amigos. Salete conheceu quem era o Jonas de verdade, o abusador. Ameaças e pequenos bofetes passaram a ser corriqueiros. Elementos para o emprego da submissão. Estupro era o que Jonas praticava todas as vezes em que Salete dizia “Não!” – e todas as vezes ela dizia não, e isso parece que servia somente para amadurecer a fúria do carrasco. Daí, Jonas aplicava os mesmos métodos às suas filhas, Julia e Ana. Não saiam de casa, a não ser para ir à escola. Para Salete, o alerta era expresso: “Sair só para o supermercado, porque odeio fazer compras… Ir num pé e voltar noutro!”. Salete estava exaurida da vida que levava, só para servir ao seu carrasco. Muito mais quando via o sofrimento das filhas, apavoradas com medo de serem mortas numa investida radical do mal. Salete alimentava dia sim, dia também, a coragem para livrar principalmente as pequenas indefesas. Juntas, desenharam a vingança; queriam se libertar e acabar com Jonas, literalmente. Passaram a oferecer-lhe sopa todas as noites, tudo do bom e do melhor, com pitadas de veneno (água sanitária), para que sofresse e morresse aos poucos. Jonas não resistiu: no terceiro mês, morreu de infarto, já com graves problemas nos intestinos. O corpo estava em frangalhos de tanto vomitar e sentir dores. Evacuava sem cessar. Já não conseguia trabalhar. Salete, Julia e Ana se regozijavam do resultado do plano. O homem foi enganado pela falsa docilidade das mulheres, que, nesse período, passaram a fazer tudo o que ele mandava. Mas Jonas não tinha forças para mandar. Era um fantoche, agora, nas mãos da redentora. Ela nunca imaginou que isso seria possível. Contudo, para a desesperança geral, uma autópsia detectou a causa mortis. Salete foi presa, e as filhas menores passaram a ser tuteladas pelo Estado. No primeiro encontro, depois da prisão de Salete, abriram sorrisos largos e se congratularam, com o olhar, pela liberdade de que agora podiam disfrutar, que já era demais, ainda que Salete estivesse sob as grades. Após o julgamento, no tribunal do júri, Salete foi inocentada, por justamente ter defendido a dignidade e a sobrevivência de sua família diante de um grande criminoso, que por anos praticou as mais absurdas brutalidades. Somente então puderam curtir uma verdadeira vida familiar e descartaram, eternamente, a ideia de qualquer homem passar os seus muros. Homem era sinônimo de desventura. Salete batia na boca quando tinha de falar o nome do falecido. Desejavam que ele ardesse no inferno – o que supostamente era crível.

  • A dor do outro

    Almir não tinha escrúpulos. Abusava de nossa mãe de todo jeito. Quase a deixou na falência e a induziu à morte. Sempre foi um cara problemático. Quando nosso pai era vivo, aí, sim, ele tinha certo respeito. Nessa época, não vilipendiava o lar sagrado. Papai impunha moral, colocando-o rente ao chão, se preciso fosse, para entender o sentido de ter uma família. Se chegava bêbado, dormia na varanda, enrolado em trapos, para aprender. E não foram poucas as vezes que aconteceu isso. Papai sofria, silencioso, para não demonstrar fraqueza, mas no seu íntimo se doía de tamanha irresponsabilidade do único filho homem. Perguntou a mim, chorando, o que teria feito para Almir desandar na vida; pagara os melhores colégios… – teve, de fato, uma educação exemplar, mas, quando se tornou adolescente, começaram os problemas na escola, inclusive com a vizinhança, que reclamava de pequenos malfeitos. Papai morreu de desgosto, decerto, com o coração dilacerado; sofreu um ataque fulminante, que não houve tempo sequer de tentar uma reanimação. Nessa hora, como em todas as outras problemáticas, Almir não estava presente para ajudar. Tentamos de tudo, para que se livrasse das drogas, mas ele dizia que era algo resistente, entranhado, que nunca conseguiria abandonar o vício. O grande mal é que roubava as coisinhas de mamãe, que juntou com tanto sacrifício, para vender ou trocar por droga. A casa de mamãe estava totalmente desabitada de coisas; era um vão oco e infernal. Eu mesma não me sentia bem em visitá-la; o ambiente era catastrófico, que humano nenhum poderia resistir, exceto mamãe, que não queria sair. Almir, em seus acessos de loucura ou de abstinência, já chegou a agredi-la. Tenho pena de mamãe, que não quis de jeito nenhum largar a casa, alegando que, se saísse, o filho tomaria de conta com os comparsas da vagabundagem. E é verdade, Almir já tentou expulsá-la para ocupar o lugar com seus “amigos”. Como sou cristã, ao mesmo tempo tenho pena do Almir; ele estava endemoniado. Já conversei com ele sobre Jesus e ele me mandou para “aquele lugar”. Tenho a esperança de que alguma palavra tenha semeado o bem em seu coração, e que ele tenha se arrependido dos malfeitos. No final de semana, Almir foi morto da pior forma, encontrado numa viela perto de casa. Corpo estendido no chão. Tinha inúmeras escoriações, resultado de brigas ou coisa do tipo; ou mesmo morto a pauladas. Havia um rombo enorme na cabeça. Poderia estar devendo aos traficantes. Nunca saberemos. Que dó! Nessa hora cheguei a pensar em quantas oportunidades meu irmão teve na vida, mas preferiu recusá-las; ou não foi forte o bastante para recusar. Pelo menos, parou de sofrer e de trazer dor de cabeça à mamãe. Pena, muita pena, do pobre Almir, que viveu para sofrer.

  • Eternidade

    Quanta solidão. A todo tempo me vejo irremediavelmente só. O meu quarto é o meu abrigo, de onde vejo o céu escasso, tetos e paredes rachadas. Ainda me pergunto, qual foi o grande mal que fiz? Não sei. Mariazinha, minha irmã, muito preocupada, se derretia em atendimentos a mim, seu único irmão, doente. Vinha pelo menos umas três vezes na semana para me visitar. Ficou doente, de uma hora para outra, e eu que ia lhe visitar aos sábados ou domingos, pois na semana não costumo sair. Meus sobrinhos a enchiam de mimos, porque, realmente, ela era uma mulher muito digna e boa. Mas a doença logo se espalhou e Mariazinha morreu se vendo de dor. Ela não merecia isso. Pedi tanto a Deus para me dar o sofrimento dela. Quando ela se foi, me vi mais perdido. Passei meses em casa sem receber uma visita sequer, a não ser de Raimunda, a empregada da casa vizinha, que vez ou outra se compadecia de mim e deixava uma sopinha. Não fui capaz de amar, eis a questão crucial. Todos os meus relacionamentos foram baldados, curtos e ínfimos. Logo eu me enjoava dos pedidos de amor eterno, etc e tal. Podia ter suportado mais a Anna, que era a mais cautelosa, de poucas palavras, mas, com minha ira sem nome, me fartei de sua palidez. Ela foi boa, até demais, a ponto de me impregnar de desejo de ter um filho. Mas ela saiu muda, e para sempre se foi de mim, nunca mais tive notícias. Mariazinha, que parece que mantinha ainda contato, disse que ela, de desgosto, teria ido morar no interior, em Mauriti, voltado ao aconchego dos pais. Agora estou aqui, velho, doente, sem um socorro. Não tive filho algum. Era o meu sonho, mas em nenhuma barriga a minha semente vingou. Foi assim que pensei por anos. Até que na terça-feira passada me surgiu um homem de seus quarenta e tantos anos. Disse que me conhecia por fotos. Pediu para entrar. Não permiti, dado que não o conhecia e que a casa estava uma bagunça. Então, soltou que era meu filho e queria me conhecer melhor; que sua mãe Anna o teria prevenido de que eu era uma pessoa muito difícil de lidar; que tivesse cuidado para não ser escorraçado de sua casa. Na hora, chorei feito uma criança. Mostrei a ele o meu lado sensível, humano, escondido há anos, que só ele merecia ter e ver. Teria um colo e um abrigo, quando precisasse. A minha fome era tanta, de ter alguém ao meu lado, que não pedi exame de DNA, já o considerei aí meu filho. Agora estamos buscando aplacar o tempo, porque, além de tudo, sou avô de duas crianças lindas. Tenho fé de que teremos condições de recuperar o nosso processo, inacabado. Falei a ele, ali, ainda do outro lado da porta, que o amava muito; que tinha pena dele, de não poder ter tido tempo de me conhecer antes, para eu paparicá-lo. Veja, não sou um homem mal, mas iracundo, ranzinza, pela crueza da vida. Pedi que entrasse e me desse um abraço. Um abraço que durou a eternidade.

  • Nova idade

    Nunca imaginei que fosse me apegar. Não fui do tipo dado a animais. Não porque os odeie, mas, sim, porque achava que os bichos não deveriam ser criados como gente e por gente. Tia Beta trata os seus cachorros melhor que muita gente por aí, e isso nunca entendi. Ela tem para além de oito animais, juntando até papagaio, e os cria com roupinha, chazinho e tudo o mais. Achava um exagero sem tamanho, me enojava da paparicada. Onde já se viu dormir na cama com um gato? Pensava e a recriminava. “Titia, isso pode dar alguma doença para a senhora! A senhora não tem mais idade para brincar!”, e queria convencê-la de que lugar de bicho é na natureza. Penso que o trauma veio justamente por conta de meu pai, que criava inúmeros passarinhos silvestres e empestava a casa de gaiolas. Eu me sentia literalmente numa delas. O velho fazia questão de mostrar um a um às visitas que chegavam, e não se importava de deixá-los presos: “Se cantam, é porque estão gostando do tratamento…”, dizia mil e uma baboseiras como essa, para justificar sua sina de sacrificador. Naquela época eu era doido para ter um cachorro, e não conseguia, porque podia interferir nas relíquias de papai, machucá-los, e ele fazia de tudo para subordinar a minha mãe às suas vontades. Mamãe não se importava com os bichos, era indiferente, nem amava nem odiava, meio-termo. Uma vez, com raiva de papai, prometeu dar boa parte dos pássaros, aí o velho se empetecou, disse que era ele e os animais, que, se quisesse, era assim. Mamãe, a partir daí, criou uma aversão por bichos de qualquer tipo, nem um porquinho da índia, que ganhei do meu primo, pude criar; ela o soltou literalmente na rua. Até hoje não sei do seu paradeiro. Mas, voltando ao que eu queria contar: tudo mudou até Bem chegar. Ele veio para me fazer repensar a vida em suas minúcias. Foi amor à primeira vista. Ajuda a sarar as minhas feridas, depois da morte de Inara, minha esposa, que sofreu uma longa luta baldada contra o câncer – e talvez avalio que tenha sido ela quem colocou Bem no meu caminho. Encontrei-o na rua, num dia de chuva, embaixo do meu carro. Eu tinha ido ao supermercado. Ao sair, notei o vendaval e corri para o carro. Fiquei todo ensopado. Num lance, vi o pequeno saindo debaixo do veículo e vindo à minha direção, como se precisasse de socorro. Ele pedia, com os olhinhos brilhantes, para ter um lar. Pensei e resolvi em segundos. Levaria na condição de dá-lo à adoção. Mas, com um pouco mais de dois meses, se chegava manhoso, pequeno e frágil, para se aninhar nos meus braços. Dormia muitas vezes aos meus pés. O amor cresceu, naturalmente. E o que mais me anima são as suas brincadeiras, que me fazem rir leve e ir além dos problemas cotidianos. Hoje faço questão de tê-lo ao meu lado. Somos crianças, amantes da vida. Reaprendi a viver.

  • Beleza

    Naiana não me deixa em paz. Quer que eu mude de vida. Mesmo sabendo que ando muito sedentário, não tenho o menor interesse de ir à academia. Ela chegou a me levar três vezes. Para mim, que tenho autismo, nível de suporte um, é algo arrasador ter de lidar com aquela multidão de gente descolada, revezar máquina, ter de escutar músicas horríveis – levei um fone tapa-ruído, mas não teve o menor efeito ante a descarga de som eletrônico. Bati o pé e disse, novamente, que não iria mais. “Mas você já tem quarenta e três anos, Alberto!”, vem ela com a sua repetida argumentação. Não sou obrigado a fazer academia, mas, me exercitar, sim. Botei na cabeça de comprar uma bicicleta ergométrica, para fazer exercícios em casa, e me matricular no Pilates. A verdade é que ainda não tive tempo de ir ao Pilates. Sempre as prioridades me atulham, tanto do trabalho quanto da minha vida acadêmica, de pesquisador. Não tenho muito tempo. Ainda dou atenção, de muito bom grado, ao meu filho Albertinho, que agora completou seis anos. Estou consciente de que devo mudar, a “catatonia” tem me colocado cada vez mais no buraco da depressão. Compreendo, agora, que o corpo foi feito para se movimentar, como faziam os nossos antepassados Neandertais, em suas caçadas para se alimentarem. Mas ruim, ruim mesmo, é ter de ouvir as queixas de Naiana, que, segundo ela, dentro de vinte quatro horas sempre há tempo para “treinar”. Não minto quando digo que Naiana é um exemplo. Por ser mãe e trabalhar dois expedientes, é uma guerreira, de quem eu me orgulho bastante. Mas esta semana ela me veio com outra ideia singular, para tirar a minha cara dos livros. Naiana me impôs sete dias de beleza. O que isso significa? Contemplação. Olhar os mínimos recursos naturais e encontrar graça mesmo numa caixinha de fósforo, que Naiana pega para transformar em arte – de fato, uma bela arte, que ela junta para dar ao nosso filho, e assim também o orienta a fazer. Naiana é inventiva, e coloca nosso filho para pensar, o que é grande coisa. Eu mesmo, ocupado com as minhas atividades, tenho feito o trivial para Albertinho, e isso me pesa, pois desejo ser lembrado, mais lá na frente, como um pai participativo e brincalhão. Não quero que meu filho reclame da minha ausência. Por ele tenho percebido o mundo, em suas minúcias, como tem, também, me norteado Naiana… Por último, ela veio com a novidade de pedir que eu olhe o mundo com olhos de criança. Talvez pelo fato de eu reclamar muito da dureza do dia a dia. Falou-me de Manoel de Barros e suas delicadezas. Tenho visto coisas fascinantes. Já não sou mais o mesmo, felizmente. Pequenos gestos me fazem chorar. Naiana tem razão. E agora tenho para mim que serei um simpático ermitão.

  • Espectro

    Laura é do tipo cismada e encabulada. Quando quer as coisas, vem logo no colo do pai pedir para que eu resolva. Desde pequenininha é assim, manhosa. No começo, eu aceitava, por ser tão pequena e não ter condições de resolver suas questões. Agora, com dez anos, isso me incomoda profundamente, porque eu mesmo fui criado para me virar por mim mesmo: desde cedo morando no interior, com parcas condições de vida, arranjava trabalho do que se pudesse imaginar. Na idade que ela tem, eu já roçava, capinava, fazia de tudo, só para ter o de comer no dia. Meu pai se debandou com um rabo de saia e deixou uma família de sete pessoas, contando com a minha mãe, coitada, que mal sabia limpar a casa. Mamãe tinha algum problema mental, não diagnosticado – hoje eu entendo porque ela passava o dia zanzando pela cidade e deixava os filhos ao deus-dará. Era uma mulher de poucas palavras. Já eu, jurei sair de casa quando ela estava barriguda de um novo filho; se lhe perguntássemos de quem era, ela não dizia – ou, de fato, não o sabia. Em outras palavras, a situação se complicava dia após dia, e por isso tive de me virar ainda mais. Não fosse meu irmão Airton, teria ficado no interior, só que, como gostava muito de mim – eu era o caçula –, me trouxe junto para a cidade. Ele já tinha mais de quinze anos, podia trabalhar naquela época, e foi ser engraxate no Fórum; acompanhei-o, para aprender o ofício. Logo sabíamos que tínhamos de estudar, e voltamos às primeiras letras. Foi duro, sofrido, mas conseguimos avançar rápido, principalmente com o curso de madureza – como se fosse o supletivo de hoje. Dormíamos de primeiro nas ruas, mas, depois, uma senhora bondosa, dona Rita, permitiu que passássemos um tempo em sua hospedagem, e em contrapartida eu arrumava a casa e lavava a louça, para ela se sentir agradada. Mais adiante, arranjamos um local insalubre para alugar. Era na favela do Dedê, mas dava direitinho para as nossas necessidades. Lá também tive de provar que era homem, mesmo sendo criança, porque um rapaz que morava ao lado queria abusar de mim. Não tive opção: esfaqueei-o com um canivete que tinha. Não deu em nada. Segui a vida no mesmo ritmo, e foi dura a batalha até chegar aqui. Por isso minha preocupação com Laura. Sempre pensei que iria criar filhos independentes, mas Laura veio para me provocar. Semana passada, no restaurante, disse que pedisse o seu prato, e ela quase se recusou a comer. O garçom perguntava, e Laura não respondia, só de birra. Muitos pensam que é uma menina mimada, mas não é nada disso; ela não tem tudo o que quer. Lúcia, minha esposa, deseja que ela faça uma avaliação cognitiva, para saber se isso tem a ver com autismo. De início, não dei bola, mas pensei e vi que tem fundamento. Nossa filha pode ser assim justamente por conta de uma condição inata. Ou seja, não tem culpa. E eu que a forcei tantas vezes a se virar sozinha, fico com peso na consciência. Se for, Laurinha será o resto da vida protegida por mim, fiz essa promessa.

  • Diarista

    Ana me sensibilizou. Foram só cinco ou seis palavras para ela mostrar a que veio. Num dia gris, apareceu em minha casa. Chamei por intermédio de uma colega, para a qual ela já era diarista e muito bem recomendada como uma “exímia profissional”. À primeira vista, Ana não parecia carente ou necessitada de bens materiais, pobretona – foi essa a imagem preconceituosa que fiz dela e de que me arrependo profundamente. Foi, no entanto, uma surpresa encontrá-la, vista pela janela, com um carrinho velho, mas em bom estado de conservação. Chegou no horário marcado. Veio só e com alguns apetrechos para limpeza, para facilitar o seu trabalho, como um aspirador de pó e vassouras. Pelo visto, ela contava só com os materiais de limpeza que o dono do apartamento devia comprar, como desinfetante, água sanitária e afins. Quando insinuei perguntar se era mesmo diarista, ela, adivinhando, me disse que entrou nas diárias por opção. Já que gostava de limpar a sua casa, preferiu incrementar no serviço e indicar para as pessoas. Simplesmente Ana, ela pede para chamá-la assim. Não adentrei muito em sua vida, deixei que a contasse, se fosse conveniente, se se sentisse em paz para isso. Moro sozinho, com os meus gatos, e acho que também ela sentiu pena de mim. Não há motivo para pena, tentei demonstrar, sem que perdêssemos o rumo da conversa. Estava interessante saber sobre a sua vida – fato é que sou frustrado por não ser antropólogo ou psicólogo, por gostar tanto de saber das histórias das pessoas. Ela me disse que tinha um único filho doente, com síndrome de down e outras complicações, como problemas cardíacos, e que talvez fosse preciso, às vezes, trazê-lo em alguma diária ou levá-lo ao médico… O tempo foi passando e me acostumei ao sorriso envergonhado de Luan, seu filho – além disso, ele não esboçava muita reação, só um certo enjoo à mãe, que o paparicava. Ele não dá um pingo de trabalho, fica sentadinho na sala assistindo à televisão. Ana disse que, quando não está nas diárias, leva o filho à APAE. Que ele adora o lugar, como se fosse a sua segunda casa. Há dias em que Luan não vem, e sinto sua falta. “Por você não trouxe o Luan, Ana?!”. Ela me respondeu que o filho fica uns dias com o pai e outros com sua irmã, também Ana, que ela chama de D’Lourdes. Faz duas semanas que Ana não vem, está doente dos rins, vai precisar ficar em casa e fazer exames, para ver o quadro. Não deixei de passar o valor das suas diárias. Combinamos que, depois, quando isso tudo passar, ela irá repor – mas jamais vou cobrar isso. Fiz assim para que ela recebesse. É muito cavilosa, como minha avó chamava as pessoas escrupulosas demais. Espero que ela venha logo. No apartamento, nos viramos, eu e os gatos; não tenho tanta fixação por limpeza. Só quero que minha amiga volte bem.

  • Melancolia

    A melancolia me invadiu e fez morada – há tempos, desde que me entendo por gente. Pequeno, ainda, me apegava a objetos desimportantes e canções tristes, principalmente, que me levavam ao processo de reflexão. Não participava da maioria das brincadeiras que meus amiguinhos brincavam no colégio. Colecionador, mantinha intactos álbuns de figurinha e ficava lendo e observando cada uma delas na hora do recreio. Tinha, por isso, todas as mais raras, que eram objeto de troca, literalmente, somente para dar aos coleguinhas mais chegados a figura que lhes faltava. Uma vez meus pais viajaram com meu avô materno, para Uruguai, Argentina e Paraguai, em um passeio muito realizado à época, pela empresa Soletur, de ônibus, que saía exatamente do Rio de Janeiro com direção ao Sul do País e adjacências. Não conto as vezes em que chorei amalgamado às perturbações e tristezas provocadas pela solidão e abandono. Não entedia que meu pai e minha mãe fossem voltar. Minha avó, já idosa, não dava muita bola, mas me deixava escutar as canções que passavam no rádio. Uma bem famosa era Hunting High and Low, do a-ha, que me fazia chorar em desabalada desesperança. Talvez por isso, na vida adulta, tenha me apegado às músicas desse gênero, que trazem uma dorzinha no coração, como as da banda Toto também. Para falar mais sobre a melancolia, devo dizer que não me esqueço das palavras do poeta João Cabral de Melo Neto, que dizia ter a melancolia entranhada – e parece que já se acostumara com isso; relatara o fato a seu psiquiatra, que já não sabia o que fazer. De fato, com o tempo, aprendi, a partir de estudos aprofundados, que a melancolia é diferente da depressão. Na Psicanálise, a depressão é a perda da experiência, do desejo, da vontade, enquanto a melancolia é possuir um corpo sensível muito aguçado, para o bem ou para o mal. Mas não vim aqui falar de teorias. As pessoas não entendem que nasci assim, e que não é culpa minha ser melancólico. Já perdi amizades por isso, pela minha introspecção, por não entenderem que não estou sempre à disposição, que tenho meus momentos de angústia e solidão, necessários à minha sobrevivência. Quando criança, fui tido como depressivo e, pasmem, “um projeto de homossexual”, dada a minha hipersensibilidade. Nunca liguei. Coisa de gente pequena. Meu pai mesmo comprava revista de mulher pelada para um menino de cerca de dez anos e me dava, para me “divertir”; sem nem eu saber o porquê disso. Descobri tantas coisas, como a minha capacidade para as Artes… E não há nada que me impeça de viver da minha forma, neurodivergente, pois que, além do mais, sou autista, nível 1 de suporte. Levei tempo para me acostumar comigo. Agora quero ser feliz assim.

  • O Sol

    A fluidez da manhã me capacita a digressões. Ainda me espanto e me encanto com o nascer do sol. Sinal de estar vivo. Sinal de uma tal de esperança que ainda vive em mim. Vou tomar uma medida para ser, sempre, amante do sol – desta feita, rigorosamente, como um penitente eterno. Apreciar, tomar o meu bom café, calmamente, para, só assim, encarar as profundezas do dia. Lorena não tem me deixado escapar da fadiga do dia como desejaria. Ela acorda tarde – e reclama de insônia –, e é um auê para arrumar o nosso filho. Portanto, como bom apreciador do nascer do sol, acordo invariavelmente às cinco da manhã. Já é o relógio biológico ativado que me desperta, não dependo, portanto, de apetrechos maquinais. Carlos Augusto volta e meia acorda mais cedo que a mãe e quer assistir à televisão, antes de ir ao colégio. Faço uma merendinha rasa, para que não fique morrendo de fome – já que a merenda do colégio é às 10h –, e o pobre infante não dá bola ao Sol. Fico chateado. Tento entretê-lo com a beleza do raiar do dia, mas ele, já com oito anos, diz que isso é besteira, que o dia nasce todo dia, e por isso não há nada de novo e interessante. Lorena, quando quer me irritar, inventa um exame pela manhã, e temos de sair aos sopapos cedo de casa. Semana passada fomos eu e o Carlos Augusto fazer um bendito exame de sangue. Não que isso atrapalhasse completamente a minha sanha de ver o Sol, mas o via de relance, sem o contemplar, e isso me aborrecia profundamente. Lorena, às vezes, só para me chatear, diz que eu preste atenção ao volante, que eu tenho filho e mulher para criar. Verdade seja dita, fico abobalhado, mas não amalucado. São duas coisas completamente diferentes. Mas o melhor dos mundos é quando pego Luna, a nossa labradora, para passear pela manhã. Tenho preguiça, gosto de acordar levemente como o Sol, mas, para agradar a minha bela cachorrinha, vou pelo menos três vezes na semana passear pela manhã com ela. Isso varia, também, pela tarde, no pôr do sol. Mas o pôr do sol é difícil para mim, porque ainda estou voltando do trabalho, e, por vezes, tenho de quarar na janela do carro vendo o Sol “se amostrar”. Já me chamaram de doido e de bestalhão – Lorena, principalmente. Ela, incauta, pensa que fé é só para os santos e congêneres. Não, me apego ao Deus Sol, como os Maias e tantas outras civilizações. O Sol é o meu Deus, e não há de se questionar, porque não existe explicação que me faça demover disso. Quando o Sol se deita, irradia beleza – uma luz que, ao se apagar, lentamente, se expande – e eu me abro às facetas de uma bela vida. Não me distraio muito, admiro, para melhor saber da sua sina; sobre o que ele tem para mim. Acredito no sol para acreditar em tudo que há.

  • Apocalipticamente

    “Subverter a ordem, apocalipticamente!”. Foi assim que Luan nos apresentou, numa conversa desleixada, “o projeto”. Devíamos chocar, como os Mutantes e Secos e Molhados – indicou-nos, inclusive, as referências, que eu nem conhecia. Não vou mentir: tive medo. Agarrei-me a certos exageros para continuar. Já tocava e queria tocar mais. Era o baterista do colégio e tinha, inclusive, o meu fã-clube. O sonho era viver de música, “da minha arte”, e esse era o medo de meu pai, que queria me afastar da vida mundana, me colocando, forçosamente, na trilha dos estudos: “Ou estuda, ou nada!”.

    Luan era nosso líder e queria uma banda de rock subversiva, “apocalíptica”. O nome da banda, obviamente, já estava dado, era “Apocalipse Now”. A divisão de tarefas foi feita no ato da primeira reunião, no parquinho, enquanto espantávamos as crianças que queriam se divertir. A única certeza era a de que eu ficaria na bateria, pela lógica. Luan queria ser vocalista e guitarrista, como Max Cavalera, mas, infelizmente, não tinha a voz rouca – e falava que, para ser igual ao seu ídolo, teria de “esfarrapar” as cordas vocais, com muito cigarro. Só que ele não conseguia fumar; tossia e ficava doente, ficava doente e tossia. Junior foi para o baixo, e Marcos para a guitarra solo. Os nossos ensaios eram, no começo, no salão de festas. Alguns seres sobrenaturais apareciam para bagunçar a cabeça com o nosso rock incompreensível e diabólico. Lembro de um namoradinho de uma amiga, peruano, que sabia cantar em inglês e fazia os vocais mais pesados de Nirvana. Quase entrou para o grupo, se não tivesse acabado o namoro.

    Deixamos de falar com a menina, porque teria arruinado o nosso sonho. Por conta da zoada e da impregnação de alguns moradores, invadimos o que era uma sauna desativada, para colocar os nossos instrumentos e caixas de som. Tocávamos moídos e suados, no verdadeiro caminho do rock. Com pouco tempo, já atacávamos em festinhas de colégio e de bairro. Era o auge dos Titãs (Cabeça Dinossauro) e do Nirvana.

    Sabíamos tudo. Ensaiávamos como loucos – inclusive em horários escolares, porque faltávamos às aulas de inglês e o caralho. Ainda assim, na sauna hermeticamente fechada, éramos motivo de reclamação. Arranjamos um novo lugar, num estúdio que ficava na casa de um amigo de um amigo. Para compensar os ensaios, emprestávamos nossa aparelhagem de som. O que aconteceu no primeiro mês: o bandido, dono do estúdio, vendeu os nossos bens. Ficamos sem nada. Não podíamos mais tocar. Bateu a depressão e a impotência. Mas roqueiro não podia se abater. Prometemos explodir o espaço, e assim o fizemos. Numa noite, fomos lá na casa do bandido e soltamos bombas preparadas por nós. Já sabíamos que não seríamos presos, porque éramos menores de idade. Os pais do bandido pensavam que o mundo estava acabando. Ríamos, histéricos, vencedores. Nunca mais vimos nosso som, mas não deixamos de tocar o terror.

  • Bichanos

    Larissa me pregou uma peça. Chegou em casa com uma gatinha filhote, embrulhada em sua camisa da malhação. Disse que a pobrezinha estava embaixo de seu carro, no centro da cidade, abandonada, que ela não poderia ficar assim. Logo rebati, mandando que levasse para doação. Larissa, com mil beijinhos e abraços – é assim que ela faz quando quer alguma coisa –, suplicou que ficássemos com a “neném”. Fiquei emburrado e desajeitado com a nova integrante, mas, aos poucos, coisa de horas, ganhou a minha afeição. Ela de fato é muito meiga e carente, está sempre nos meus pés, pedindo algo – penso que a ânsia da fome por que passou a deixa assim. Achei estranho que nos primeiros dias ela procurava um lugar para se esconder. Arranjou um esconderijo dentro do nosso guarda-roupas. Fez do lugar um ninho, literalmente. Um mês depois, já estava com a barriga por acolá. Meu Deus, entrei em pânico, a neném estava doente ou o quê? Levamos à veterinária, nossa amiga, a Sara. Assim que tocou na neném, disse que estava grávida. Que no primeiro cio teria engravidado! Ou seja, uma gravidez adolescente, complicada, no mínimo, pois não tinha mais do que seis meses de idade. Eu não queria bicho nenhum em casa e agora teria uma grande família de bichanos. Que horror! Como seria possível isso? Tivemos uma conversa séria, e disse à Larissa que a pequena teria os bebês, mas não ficaríamos com nenhum, iriam todos para a adoção. Larissa ainda implorou para que ficássemos com pelo menos um, para fazer companhia à neném. Não disse que sim nem não. Eu estava completamente alvoroçado com essa notícia, e não sabia agir diante de tamanha questão. Era, para mim, um grande desafio, já que teria criado, na adolescência, somente um cachorro, o Téo, que morreu com treze anos e deixou muita dor. Prometi a mim mesmo que não queria outro bicho, porque não tinha capacidade emocional para lidar com a situação, de alguma doença ou mesmo a morte. Fato é que, na verdade, só teríamos que esperar e ver no que ia dar. Fomos à veterinária no sábado, e a neném teve os bebês na segunda, sozinha. Chegamos em casa, e vimos cinco miúdos, lindos, parecendo uns ratinhos. Me empolguei e quis arranjar um lugar no nosso quarto para ela ficar. Aliás, separei o lugar que ela, a neném, já tinha escolhido. Larissa estava tão feliz quando um pinto no lixo. Mas não conseguia pegar as criaturinhas. Eu que seria, portanto, o intermediário entre a mãe e o mundo dos humanos. Os dias foram passando, e os bebês foram crescendo. Eu já repensava em doá-los. Mas claro que não dizia à Larissa. Com um mês e meio os lindinhos estavam prontos para a adoção e resolvemos, em conjunto, ficar com todos. Isso já faz dois anos. Temos maravilhosos seis gatos, que amamos muito. Cada um com sua personalidade, mas todos amáveis e carinhosos.

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