Bangu no Maracanã

  • O vaticínio

    Um pouco de tradição e nostalgia guarda o que há tempos foi um clássico do futebol carioca: Flamengo x Bangu. Lembrando que craques como Zizinho, Domingos da Guia e Zózimo já vestiram a camisa dos dois clubes.

    O primeiro título do Flamengo no Maracanã foi em cima do Bangu, o Torneio Início (aquele do jogo em 15 minutos e no final a disputa por pênaltis) de 1950. Embora na estreia do Flamengo no estádio, o Bangu tenha vencido por inacreditáveis 6×0 – até hoje a maior goleada sofrida pelo rubro-negro no Maracanã (igualada uma vez, pelo Botafogo, em 1972, com direito a resposta digna e à altura no 6 a 0 do gol do Andrade, no Carioca de 1981).

    Exceção feita à briga generalizada, capitaneada por Almir Pernambuquinho na final de 1966, o Flamengo foi feliz em decisões com o Bangu. Em 1915, se sagrou bicampeão carioca, e em 1943 a história se repetiu, com o Flamengo conquistando novo bicampeonato ao vencer o Bangu. Em 1948, o Flamengo jogou com o Bangu na inauguração do Estádio de Moça Bonita e, como bom convidado, perdeu o amistoso por 4 a 2.

    Duas conquistas da Taça Rio pelo Flamengo foram em decisões com o Bangu, com igual placar e gols do mesmo jogador. Em 1983, o Flamengo conquistou a Taça Rio no Maracanã, com gol de Adílio; e em 1985, voltou a conquistá-la, vencendo o Bangu no Maracanã, coincidentemente com gol de Adílio.

    Deslizes, glórias e tragédias à parte, o retrospecto histórico aponta uma grande superioridade rubro-negra.  Assim, são 217 partidas, com uma larga vantagem do Flamengo, com 136 vitórias, 32 empates e 49 derrotas.

    A favor do Bangu o fato de ter sido um dos pioneiros do futebol nacional a contar com jogadores negros e operários em seu elenco, o que levou outros clubes a seguirem o exemplo, transformando a prática do futebol – até então um esporte elitista – num espaço bem mais democrático.

    Apesar de o Flamengo ser o clube das massas, e muitos atribuirem ao Vasco da Gama a primazia da inclusão de negros no time, na verdade foi o Bangu (mais um vice do Vasco). Em 1905, Francisco Carregal foi o primeiro jogador negro a praticar futebol oficialmente no Brasil, atuando pelo Bangu e depois se tornando tesoureiro do clube. O enfrentamento ao racismo não foi uma tarefa simples. O Bangu se retirou do Campeonato Carioca, em 1907, e só voltou quase dez anos depois, quando finalmente a federação aceitou os seus atletas negros.

    Como se vê, inescrupulosos e incompetentes no comando das federações de futebol vêm de longa data.

    Mas o jogo do Flamengo e Bangu que me interessa contar aqui, e que não decidiu nada e nem teve maiores consequências, é bem pouco conhecido e se passou numa esquecida noite de 19 de julho de 1973. Naquele tempo a televisão não transmitia as partidas porque os dirigentes temiam que isso retirasse os torcedores dos estádios.

    Era também época da novidade do videotape, e as tevês podiam apresentar o jogo horas depois do seu término. A opção do torcedor para asssitir ao jogo com mais emoção era não saber o resultado e ver pelo videotape, mais ou menos no começo da madrugada, quase no fim da programação. Naquele dia 19 de julho, eu fiz o recomendado: não liguei o rádio, tomei o cuidado de não saber o resultado e aguardei com paciência o jogo no videotape.

    A televisão que passava a partida, se não me engano, era a Tupi, tinha como comentarista esportivo o saudoso Ruy Porto. Gaúcho de Garibaldi, inicialmente locutor e que hoje é nome de uma rua na Barra, ficou famoso quando, na Copa de 70, chamou a bola de “leviana” ao comparar o seu peso, mais leve do que nas outras competições…

    O jogo transcorria e o primeiro tempo terminava com a vantagem rubro-negra de dois gols. Nos comentários de praxe no intervalo, nosso Ruy avisava que o Flamengo tramava bem, criando jogadas e finalizando, mas que o Bangu se encontrava vivo na partida e poderia reagir. Foi quando alertou os telespectadores, na maioria torcedores do Flamengo, tratar-se de um jogo parelho e que todos não se iludissem, esperando por um jogo fácil. Era aguardar a segunda etapa e certamente aquele jogo não viraria uma goleada, de cinco, seis, sete ou oito a zero, por exemplo.

    Vieram os anunciantes e o jogo reiniciava seu segundo tempo. O Flamengo, avassalador para desespero do Ruy, marcava um gol após o outro e, diante do locutor sem graça e de um comentarista agora calado, aplicava contundente goleada. Final: Flamengo 8 x 0!

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