beat

  • Sucesso

    Diana Duran, cantora e compositora, planejava lançar seu novo álbum com músicas inéditas. Algumas faixas em inglês. Quando Diana cantava em outro idioma, inventava erros linguísticos somente pela graça do viés poético. Adorava aliterações, repetições de sons para dar ênfase ao conceito. Para ela, certos sons se encaixavam melhor nas canções, ainda que pudessem soar algo inusuais.

    As letras simples falavam de amor e solidão. Tinha um tipo de poesia blasé com um toque nostálgico, um gênero que nem saberia direito explicar. Suas melodias, em algum momento, passavam uma certa levada de bolero pop e balada new age.

    Para seu novo trabalho, decidiu que o formato ideal seria a simplicidade de voz e violão. Convidou um velho amigo violonista. Os dois resolveram que os arranjos mereciam um beat a mais e acrescentaram batidas e sintetizadores em algumas faixas.

    Discutiram a respeito da divulgação, palavra-chave para o sucesso do lance. Devido a uma lombalgia crônica e a uma crise existencial, Diana Duran havia ficado um tempo afastada dos palcos. Isso pesava um pouco contra. A favor, uma grande quantidade de amigos. No conjunto, seu público era, na maioria, underground e imprevisível.

    A ideia inicial era divulgar o trabalho nos shows começando pela periferia. Diana desejava cantar todas as músicas novas, mas como se tratava de um disco curto, poderia acrescentar também hits de outros artistas, fazendo questão de esclarecer não se tratar de covers, e sim, de releituras.

    Diana e seu violonista ensaiavam exaustivamente. Os encontros seguiam no apartamento dela, causando desavença com vizinhos e uma longa discussão com a síndica do prédio. Ao se sentir pressionada, Diana optou por terminar os ensaios em um estúdio.

    Muito esforço e, enfim, tudo pronto.

    Agora era definir data e local para o show de lançamento. Conseguiram um bar com ambiente dark fashion, que Diana adorava. Um lugar alternativo, um pequeno palco improvisado e uma vontade imensa de acertar.

    Diana se desdobrou em mandar os convites, dar pequenas amostras do disco na internet, elaborar a lista amiga e providenciar o figurino. Comprou à prestação sua roupa, assentada em mistério, poder e sensualidade consciente. O preto como cor predominante. Escolheu uma peça com transparência, blusa top e short de couro com textura wet look para uma vibração mais gótica e punk, combinando com suas tatuagens e piercings. Tudo bem calculado nos detalhes.

    Chamou para o show alguns artistas conhecidos, que ela, na verdade, não contava que fossem. Mas, nunca se sabe…

    Um ator de teatro amador, amigo de infância, prometeu prestigiar. Como Diana tivera vários romances casuais, temeu convidar todos para o show. Podia surgir um clima ruim. Dane-se. Não poderia se dar ao luxo de dispensar ex-ficantes: tinha dado garantia ao dono do bar da presença de, no mínimo, trinta pessoas, correndo o risco de o espetáculo não acontecer. Era dura a vida da cantora nova.

    Terça- feira, 22 horas, tudo acertado.

    Diana chegou antes para a passagem de som. Notou que seu violonista aparentava um certo nervosismo. Procurou acalmá-lo e o aconselhou a não beber. Uma dose para esquentar, mas que não fosse encher a cara. Ela era a voz e ele o violão, necessitavam estar em completa sintonia…e minimamente sóbrios.

    Umas duas horas antes do horário do show, despencou um temporal. Muito azar. Só podia ser olho grande. Pegou um táxi, apanhou o violonista, a aparelhagem de som e partiram rumo à glória efêmera ou ao fiasco retumbante debaixo d’água.

    Quando Diana chegou, um grande susto. O interior do bar, apesar da chuva, lotado. Gente em pé. Seu coração bateu forte diante de tanta responsabilidade. Cumprimentou pessoas e bebeu um chope com um antigo namorado.

    Passava das 22:30. Tinha chegado o aguardado momento. Diana não queria admitir, mas sentia um vazio enorme. O violonista entrou no palco e checou o som. Não foi notado. Após alguns minutos, Diana surgiu. O pessoal continuou bebendo e conversando. Pessoas de algumas mesas a observavam. Diana encheu-se de coragem, deu sinal ao violonista e começou a cantar.

    Num canto do bar, em pé, uma figura de óculos escuros e boné parecia estar filmando no celular. Depois de algumas canções, o público continuava a conversar alto. Diana, então, se apresentou, falou de sua carreira e do disco. A próxima canção era de sua autoria e falava de um amor sofrido. Só o ator amador, amigo de infância, bateu palmas. Diana obteve mais sucesso quando cantou Ronda, do Paulo Vanzolini e Como eu Quero, do Kid Abelha. A plateia mantinha-se fria, palmas ocasionais sempre ao final de cada música. E muito barulho e risadas. O tipo de óculos escuros, no fundo do bar, continuava filmando. Quando ela anunciou a última canção, pairou no ar um certo alívio. Diana agradeceu a presença de todos e saiu. Não houve o bis.

    Na saída, falou com alguns conhecidos, recebeu elogios e se despediu. Quase virando a esquina, ouviu um chamamento: era o cara de boné e óculos escuros. Ele falou que tinha gostado das suas músicas e se apresentou como agente de várias cantoras. Deixou seu cartão e pediu que o procurasse. Ainda sugeriu que ela pensasse em incluir um tecladista e, talvez, um percussionista para o próximo show.

    A chuva tinha parado e Diana sentia-se nas nuvens. Chegando em casa, abriu uma garrafa de espumante nacional e brindou, em silêncio. Pensou em Lady Gaga e imaginou-se a estrela que nascia…

  • Eutanásia

    Um dia, Zími falou para Mila Cox:

    “O seu destino é criar, não cumprir.”

    Ela nunca esqueceu dessa frase, não esqueceu também que naquele dia Zími usava uma camiseta com a cara do Mark E. Smith, mas esqueceu das circunstâncias em que ela foi dita.

    Já fazia anos, foi antes da pandemia, e eles tinham acabado de montar a banda Crop Circles.

    Ela ainda morava com a mãe na Penha, e ele morava sozinho na Bela Vista.

    Agora moram juntos num apartamento na Liberdade. Mila Cox perguntou para Zími se ele já tinha algum hater. 

    Zími respondeu:

    “Eu nunca tinha pensado nisso, então provavelmente não tenho. O que eles fazem? Falam merda na internet? É um pântano cheio dessas criaturas cheias de ódio. Eu tenho certeza que falho na minha promoção pessoal, falho na minha publicidade individual, porque eu cago pra isso. Já existe a publicidade sobre a banda, que você faz da maneira certa, e pra mim é o bastante. Mas se algum cretino que nem me conhece começar a falar mal de mim, a publicidade em cima de mim seria muito maior do que qualquer publicidade que eu mesmo possa fazer. Quando se trata de outra pessoa falando, ganha mais peso, por mais contraditório que possa parecer. Na música, nos manifestamos contra a barbárie e o fascismo, e quem está no sentido contrário terá problemas com o mundo e com a vida, não será comigo. Mas nunca recebi mensagem de ninguém que se declarasse hater. De qualquer forma, se existirem, quero que se fodam.”

    Mila Cox respondeu: 

    “Perguntei só pra ouvir o que você responderia. Eu sei que você não tem haters, eu saberia se tivesse.”

    Zími falou:

    “Quando esse tipo de coisa surgiu, de ter haters ou ter seguidores, eu já tinha idade pra não levar essa merda a sério. Antes da internet já havia a noção geral de que não devemos nos animar com elogios e nem desmoronar com críticas. Mas ao longo desse tempo, o que mais me choca é que existem os “influenciadores”. A pretensão de quem se autodenomina influenciador é algo  que até hoje eu não sei nem mesmo se quero entender. E se formos falar do influenciados, estaremos revisitando as músicas que fazemos, sobre como as massas são teleguiadas e precisam desesperadamente de um líder, que surge em alguém que simplesmente se autoproclama líder. Qualquer picareta com certa audácia é capaz de fazer enormes estragos sociais.”

    Cox foi a primeira garota vista por Zími a usar uma camiseta do Van Der Graaf Generator. Agora ela reclama da domesticação do rock e tripudia a absorção do gênero pelo corporativismo. Critica a auto censura, o silêncio e a conformidade da cidadania diante de escândalos bizarros da elite. Tem vinte e um anos e seu combustível é literatura beat, rock obscuro e tensão urbana. Mas ela nunca saberá como era o mundo antes da internet, e não se importa com isso.

    Ela diz:

    “Isso foi no século passado. Agora é tempo de tentar impedir a agonia da esperança de que estejamos não apenas em um novo século, mas também em uma nova era. Infelizmente estamos em meio à terceira guerra mundial. Pelo menos não falta assunto para novas músicas.”

    Estava com um caderno aberto escrevendo sobre como a sociedade é mais desagradável do que uma noite dormida num terminal de ônibus. Zími dizia que Cox parece a mistura de Lydia Lunch com Harriet Wheeler.

    Ela diz que Zími é a mistura de Slim Jim Phantom com Jello Biafra.

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