Byung-Chul Han

  • Oscilações

    Um corpo que envelhece, expressões sem fôlego. Vera move-se em vaievéns curtos, sem, contudo, se entregar à queda. No espelho, vendo o que não queria – ou tentando não o fazer; momentos antes, a caixa… dezenas de momentos em papel fotográfico, seu os tantos sorrisos congelados em uma linha torta e encantadora de tempo. Via-se em cada instante eterno, ainda feita de sonhos. Como se o vento do mar Tirreno jamais tivesse parado de soprar em seus cabelos, tingidos tantas e tantas vezes, de tantas cores, desde então. Quase quarenta anos em um sopro. Sequer precisava fechar os olhos: bastava respirar para que o passado lhe viesse inteiro, sem convite ou pedido de licença.

    Sente um burburinho atravessar a caixa e está de volta a Rimini, Maranello, Venezia, Napoli, Capri, Milano. Quatro décadas resumidas em quarenta segundos, alisar dos dedos em unidades fotográficas brilhantes. Quarenta amontoados de papéis dentro da mesma caixa, tudo mofo e saudade.

    Não só quarenta, nunca são; os passaportes perfurados pela aposentadoria documental precoce, carimbos:
    ■ Sofia, a língua complexa, as construções monumentais, neve, amigos, entender a palavra банан (banana), se encantar com o suco de sua fruta favorita e, desde então, fazê-lo sempre para as visitas em sua casa;
    ■ Budapeste – o rio Danúbio e os deslumbramentos de passear à noite e em pleno domingo cheio de vida urbana;
    ■ Bruxelas – sabor das belgium fries, batatas fritas duas vezes, chocolates, o manneken pis que urina orgulhoso na fonte desde 1619, os raios de luz dentro das Igrejas.
    ■ Fez – com o arrastar do sari pela medina, todas as compras inusitadas dentro de uma farmácia, os curtumes e hortelã, o passar pela Al Quaraouiyine, mais antiga universidade do mundo;
    ■ Deserto do Saara – com suas tempestades de areia e neve, babuínos e artistas que pareciam entender e responder todas as línguas do mundo;
    ■ Londres, com seus ônibus duplex vermelhos, táxis pretos; pubs, cultura, chuva e a inesperada gentileza e atenção inglesas;
    ■ Paris e seus odores particulares – deveras compreensível o lançamento das fragrâncias mundiais tão emblemáticas -, os picnics pelos bancos, a surpresa de ver Notre Dame (antes do incêndio) pela primeira vez, percurso com os olhos fechados por dedos carinhosos e as lágrimas que não cessavam perante tanta beleza;
    ■ Versalhes sem adentrar o Palácio, mas vivenciando a cidade, as feirinhas locais.
    ■ Poissy para única e exclusivamente conhecer in persona os sete pilares do modernismo original, a morada do sonho coletivo de então;
    ■ Plovdiv, as ruínas romanas, a cidade repleta de pedras.
    ■ Praga, suas pontes, seus artistas, tantos passos ao sabor do que quis fazer sozinha.
    ■ Porto – restrito ao Porto da mesma cidade, as passagens vívidas pelas janelas do trem.
    ■ Lisboa, pastel de Belém, teleférico com vista para o Tejo e um cartão postal em cortiça.
    ■ Barcelona, as ramblas, o desejo de experimentar ser uma local.

    De além mar:
    ■ Montevideo e
    ■ Colonia del Sacramento, chorizo, cerveza e lindas recordações de registros perdidos nos Hds da vida.

    A maioria dos cartões dos hotéis, notas fiscais de restaurantes, supermercados, rastros das experiências cuja tinta despreende-se da realidade. Croquis apressados em cadernos de capa mole, telefones que não levarão a lugar algum, trajetos riscados à caneta bic, nanquim e grafite 0.7 de lapiseira. A coleção de bótons de cada país visitado. Uma miscelânea de coisas que só para ela são tesouro. Para o resto do mundo, apenas tralha.

    Um enjoo sem causa, nascido do nada, como se o mundo oscilasse para frente e para trás: ecos de músicas, um acordeão inesquecível em um beco em Perugia desafia o artista performático – que toca instrumentos demais concomitantemente – em uma ponte praguense. Sol de inverno, chuva de verão. O amigo mexicano ao lado, rindo com ela. Perugia volta ao seu coração como quem pisca. Quatro anos depois, o mesmo acordeonista a reverencia em uma foto já desbotada. Era um festival de chocolates, o sabor dos baci ainda grudados na língua.

    Mais uma vez um mal-estar súbito. O visco da pele fotográfica parecia o mesmo, até confrontar-se com o espelho. O chão parece escapar-lhe dos pés. O amor pela vida sobrevive, mesmo com as desventuras insistindo em fazer fila nos últimos anos. Tem certeza de ser a mesma dos registros instantâneos de outrora.

    Havia ainda outros retratos: a terma solitária, na qual fora seguida por um brutamontes local, nenhum falando a língua do outro, o pânico. A terma seguinte, cheirando a enxofre, com o namorado que durou. A famosa rua vermelha holandesa, maconha única e sem efeito – pura imersão cultural -, um ex-marido rindo. A saga por casas de um euro com o namorado que costurara sua vida, tantas histórias que nunca se tornaram registros. Cartas de amores e amigos. Um affair da internet que mandava envelopes pelo correio, um namorado da faculdade que a fizera conhecer o sul do Brasil em um evento como se fosse aluna de outro curso. O primeiro passeio de metrô e de barca, a primeira vez na Confeitaria Colombo, todas as primeiras coisas com o primeiro amor, quem a ensinou a jogar xadrez, a escrever e a dirigir. Os planos de uma viagem com um ex que se tornou amigo e nunca aconteceu. A promessa de desbravar o mundo, sozinha ou acompanhada.

    Tudo em um breve e intenso espaço de quarenta anos… – como passa depressa..!

    “La vita è adesso” (a vida é agora), diria um Renato Russo confinado em CD de capa amarela. “La vita è troppo breve per mangiare e bere male” (a vida é breve demais para comer e beber mal) – a máxima estampada em um mercado italiano que já chegou ao Brasil, e que faz todo o sentido.

    Sobre o sofá-cama aberto, esse objeto solitário como Vera, feito para viver entre duas funções e seguir indefinido, a caixa, uma taça de vinho tinto, pães e azeite. Um vinil garimpado em sebo toca no portátil que presenteara ao pai, e lhe coubera de herança. A conversa muda entre Marcel Proust e Byung-Chul Han sobre a busca de outro tempo e o tempo perdido. O tempo nunca cronológico, sempre perfume, presença, ferida, doce, salgados e amargos e mergulhos num passado por vezes modificado. Um pretérito que perfura o presente, deixando de fora smartfones. A roomate turca, o último passeio no mini-metrô perugino. Ela radiante pela liberdade enganosa de não ter que usar véu fora de seu país, o noivo que a impedia pelo telefone de passear com os novos amigos. Tudo aconteceu há tanto tempo..! Perderam contato, Vera se pergunta sobre a felicidade atual da amiga, quando o véu já não é mais obrigatório por lei em Istambul. Quase irmãs, graças al bel paese. Quase desconhecidas, graças ao tempo.

    O chiado da agulha pede o outro lado do vinil. A garrafa de vinho parece um conta gotas com o que resta do líquido. As quinquilharias jazem à meia-luz, inertes na indecisão do mobiliário entre cama e sofá. Um odor extasiante de recortes e invencionices inocentes, lembranças de outrora – utopia juvenil? – impregna todo o ambiente, mas termina por adquirir o sabor cítrico, crítico e desilusório na memória de uma adulta de avançada idade. No banheiro estreito, metálico, Vera outra vez no espelho sorri. Atenta como há muito não fazia. Os lábios suavisam, vê-se vazia, pele enrugada, olhar triste e perdido. A vida já passara por ali, agora vinha como aquela visita inesperada, que ninguém quer receber.

    Aurora, quase. Água quente na pia. Rosto refletido, defletido, molhado. Não sabe o que vem vindo: pela janela escotilha só água, único horizonte. Dizem que tudo se cura em água salgada: suor, lágrimas e mar. Vera sorri; o navio balança. É a vez do mar.

    — Memória datada de 07 de setembro de 2045, no Estreito de Gibraltar (35.972705, -5.702652).

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