“Subverter a ordem, apocalipticamente!”. Foi assim que Luan nos apresentou, numa conversa desleixada, “o projeto”. Devíamos chocar, como os Mutantes e Secos e Molhados – indicou-nos, inclusive, as referências, que eu nem conhecia. Não vou mentir: tive medo. Agarrei-me a certos exageros para continuar. Já tocava e queria tocar mais. Era o baterista do colégio e tinha, inclusive, o meu fã-clube. O sonho era viver de música, “da minha arte”, e esse era o medo de meu pai, que queria me afastar da vida mundana, me colocando, forçosamente, na trilha dos estudos: “Ou estuda, ou nada!”.
Luan era nosso líder e queria uma banda de rock subversiva, “apocalíptica”. O nome da banda, obviamente, já estava dado, era “Apocalipse Now”. A divisão de tarefas foi feita no ato da primeira reunião, no parquinho, enquanto espantávamos as crianças que queriam se divertir. A única certeza era a de que eu ficaria na bateria, pela lógica. Luan queria ser vocalista e guitarrista, como Max Cavalera, mas, infelizmente, não tinha a voz rouca – e falava que, para ser igual ao seu ídolo, teria de “esfarrapar” as cordas vocais, com muito cigarro. Só que ele não conseguia fumar; tossia e ficava doente, ficava doente e tossia. Junior foi para o baixo, e Marcos para a guitarra solo. Os nossos ensaios eram, no começo, no salão de festas. Alguns seres sobrenaturais apareciam para bagunçar a cabeça com o nosso rock incompreensível e diabólico. Lembro de um namoradinho de uma amiga, peruano, que sabia cantar em inglês e fazia os vocais mais pesados de Nirvana. Quase entrou para o grupo, se não tivesse acabado o namoro.
Deixamos de falar com a menina, porque teria arruinado o nosso sonho. Por conta da zoada e da impregnação de alguns moradores, invadimos o que era uma sauna desativada, para colocar os nossos instrumentos e caixas de som. Tocávamos moídos e suados, no verdadeiro caminho do rock. Com pouco tempo, já atacávamos em festinhas de colégio e de bairro. Era o auge dos Titãs (Cabeça Dinossauro) e do Nirvana.
Sabíamos tudo. Ensaiávamos como loucos – inclusive em horários escolares, porque faltávamos às aulas de inglês e o caralho. Ainda assim, na sauna hermeticamente fechada, éramos motivo de reclamação. Arranjamos um novo lugar, num estúdio que ficava na casa de um amigo de um amigo. Para compensar os ensaios, emprestávamos nossa aparelhagem de som. O que aconteceu no primeiro mês: o bandido, dono do estúdio, vendeu os nossos bens. Ficamos sem nada. Não podíamos mais tocar. Bateu a depressão e a impotência. Mas roqueiro não podia se abater. Prometemos explodir o espaço, e assim o fizemos. Numa noite, fomos lá na casa do bandido e soltamos bombas preparadas por nós. Já sabíamos que não seríamos presos, porque éramos menores de idade. Os pais do bandido pensavam que o mundo estava acabando. Ríamos, histéricos, vencedores. Nunca mais vimos nosso som, mas não deixamos de tocar o terror.