Cães

  • Uma Crônica Canina – Parte 2

    Bem, voltamos ao tema! Voltamos às quatro patas!

    Na última crônica escrita, a primeira crônica canina, eu falei um pouco das minhas experiências com cães: Apolo e Baggio. Um vira-lata e um setter irlandês!

    Depois que Baggio partiu (dezessete anos de muitas brincadeiras), meus pais relutaram bastante em ter um novo cão. A fala que ambos sempre diziam: a gente se apega muito a eles!

    No entanto, minha irmã… Aqui eu preciso abrir um parágrafo para falar da minha irmã. Sabe aquela pessoa que simplesmente ama cães? Pois é… Minha irmã, se pudesse, levaria para casa todos os cachorros que porventura encontrasse na rua. Uma cara de pidão e um rabo abanando seriam o suficiente!

    Parágrafo escrito. Continuemos…

    Meus pais não conseguiram manter a promessa de não ter outro cachorro.  Minha irmã levou para eles um cocker spaniel comedor de melão: Thor!

    Pense em um cão super carinhoso e que não desgruda de você por nada… Pensou? Thor é exatamente assim! Pense em um cão mimado, dengoso, metódico e cheio de manias… Pensou? Thor é exatamente assim!

    Thor vai receber você com uma cara de quem não recebe atenção de ninguém!

    Thor obriga o meu pai ou a minha mãe (depende de quem esteja na cozinha) a ir para a varanda metodicamente após o café!

    Se você estiver com uma fatia de melão nas mãos, vai observar que os olhos de Thor se abrem de maneira expressiva e sobrenatural! Melão acima de tudo!

    Mas brincadeiras à parte, o que sei é que Thor tem alegrado a vida dos meus pais já idosos.

    Um cão é companhia, leveza, cumplicidade e o clichê de todos os que possuem um amigo peludo: um amor incondicional!

    Thor é já um senhor. No acumulado dos seus pelos brancos, ainda corre atrás das coisas e pede carinho a quem quer que chegue!

    Penso em todos os momentos bons que um cão pode nos dar e Thor tem feito um excelente trabalho!

    Bem… ainda falta falar de uma dupla que parece óleo e água, mas isso fica para a última crônica…

  • Uma Crônica Canina – Parte 1

    Como escrever uma crônica canina?

    Lambidas, olhar pidão, um rabo que tem vida própria e muitas alegrias!

    É a minha primeira crônica canina! Experiência com cães eu tenho, desde pequeno! Lembro de um dálmata lindo que tive quando era criança! Duquesa! As lembranças são poucas porque era muito criança!

    Mas do primeiro cachorro que levei pra casa (sem contar obviamente para os meus pais) eu tenho as primeiras memórias afetivas que marcaram a minha vida! Apolo era o nome de um vira-lata baixinho, troncudinho e esperto que adorava lasanha, pizza e espetinho de frango! Corria atrás de bola, fugia de casa com frequência e matava as galinhas da casa da minha avó com uma patada só!

    Apolo viveu bem sua vida: correndo, brincando e viajando. De todos os cães que tive foi o que mais viajou, embaixo do banco do carona onde sentava a minha mãe, ficava ali quietinho até uma parada! Quando parávamos, ele atacava dois espetinhos de frango e estava pronto para seguir a estrada…

    Infelizmente, como todos os bons cães, ele não pôde ficar aqui nessa vida com a gente e nos deixou por causa do coração!

    A outra experiência foi com um cão fofoqueiro! Sim, fofoqueiro! Ele passava muitas horas do dia pendurado no portão da garagem olhando a rua e prestando atenção a todos os movimentos. O nome dele era Baggio! Sim, o nome do jogador italiano que perdeu o pênalti e deu o tetra ao Brasil. O nome quem deu foi o meu pai e nunca entendi o porquê do setter irlandês nunca ter sido chamado de Dunga, Bebeto, Romário, enfim… Ficou Baggio mesmo!

    Baggio viajou pouco! Ele não curtia ficar muito tempo dentro de um carro e, por isso, perdeu algumas oportunidades que o Apolo soube bem aproveitar!

    Mas, a despeito das viagens e das estradas, tanto Apolo quanto Baggio mostraram em cada olhar e em cada lambida a intensidade que todo cão vive a vida. A intensidade de todas as esperas! A intensidade de fazer a criatura humana feliz…

    Continua…

  • O paradoxo das leis de proteção aos cães no Brasil

    De vez em quando, o Brasil acerta na proteção aos animais. O Governo de São Paulo, por exemplo, tomou uma decisão justa ao proibir o acorrentamento de cães e gatos no Estado. Uma lei que soa óbvia, mas que só agora, em pleno século XXI, recorda o que qualquer responsável sempre soube: prender um animal pelo pescoço não é educar, é torturar. Cães não nasceram para viver sob grilhões. Nasceram para correr, farejar, vigiar, proteger e amar. Quando lhes roubam esse direito, não é apenas a liberdade que se perde, é a dignidade de um ser senciente que é negada.

    Nem toda lei criada pode ser chamada de necessária. Muitas vezes, são apenas cortinas de fumaça que não atingem o problema em seu cerne. A falta de conhecimento leva a legislar mal. Foi o que aconteceu em Campinas, onde vereadores propuseram proibir de vez o uso das coleiras eletrônicas, os chamados e-collars. A boa intenção é inegável. Afinal, quem gosta da ideia de dar choque em cachorro? Só que a vida é mais complicada do que a pauta de uma sessão de Câmara Municipal. Essa lei pode acabar virando um tiro no pé: condenando justamente os cães que poderiam ser salvos por um último recurso. A vida não cabe em generalizações. Há cães que não se enquadram no “sempre” ou no “nunca”. E é justamente aí que mora o perigo de uma proibição cega.

    A ciência já mostrou que reforço positivo pode ser um caminho mais adequado para substituir métodos arcaicos. Cães educados sem violência tornam-se mais estáveis, confiantes e felizes. Bater, ameaçar, causar dor, nada disso é linguagem canina. Além de não educar, semeia medo e alimenta a agressividade. Mas a realidade, áspera como é, também impõe exceções. Nos registros silenciosos das estatísticas aparecem os casos extremos: cães que se tornam ameaça constante, que atacam seus próprios donos, que colocam em risco vizinhos e famílias inteiras. Donos exaustos, depois de verem todas as técnicas falharem, encontram-se diante de um dilema cruel. Nesse contexto, sob protocolo clínico, técnico e ético, o e-collar deixa de ser castigo e torna-se ferramenta de resgate.

    A filosofia já dizia, muito antes de a ciência confirmar: a virtude está no meio-termo. Aristóteles chamava de phronesis, a prudência. Nem a tirania da dor, nem a ilusão permissiva do “tudo pode”. Entre esses dois extremos ergue-se o ponto de equilíbrio: autoridade sem crueldade, firmeza sem violência, atitude sem condenação. No Treinamento Invisível seguimos essa linha. A guia funciona como extensão do corpo, o olhar age no instante preciso; o gesto conduz sem brutalidade. Tudo isso vale mais do que qualquer mecanismo elétrico. Mas também sabemos reconhecer o imponderável. Em situações complexas, uma ferramenta pode significar a diferença entre a vida e a morte. Negar sua existência pode soar confortável, mas na prática é condenar cães ao abandono ou à eutanásia.

    Por isso, é preciso afirmar sem rodeios: sou contra cães acorrentados. A imagem de um animal acorrentado é, por si só, angustiante. Mas sejamos honestos: em alguns casos extremos, recorrer ao e-collar para evitar um fim trágico pode ser a única saída. Não é escolha fácil, nem deve ser banalizada. Só se justifica quando ciência, ética e circunstância caminham juntas, quando tudo já falhou e não restam alternativas. O risco, nesses momentos, não é apenas técnico: é moral.

    E é nesse contraste que mora o paradoxo: São Paulo quebra as correntes para que os cães vivam. Campinas ameaça abolir a última porta para que alguns condenados continuem vivos. Uma lei que liberta, outra que, se não refletida com prudência, pode aprisionar de outra forma. Entre as duas, está o desafio maior: compreender que educar não é prender nem castigar, mas também não é cruzar os braços diante do irremediável. A vida pede equilíbrio. E os cães, mais do que ninguém, estão entre nós para ajudar a trazer discernimento.

  • Uma história fictícia em homenagem à cadela Cerys

    Era cedo, e o céu pendia sob o peso das águas. As botas afundavam-se na lama espessa. O cheiro, áspero, pungia o ar. Podiam-se enganar os olhos. Podia-se calar um país inteiro. Mas o odor… o odor jamais mentia. Em qualquer busca, servia-se de um estalar de língua. O som seco bastava: cadela e bombeiro seguiam juntos. Ela, sem guia; ele, sem alarde. Unidos não por coleira ou comandos, mas pela tarefa silenciosa e nobre de socorrer o próximo.

    O homem-bombeiro desceu do caminhão com rapidez e silêncio. Ao seu lado, a companheira canina. Toda pretinha, o pelo endurecido pelos dias de trabalho ininterrupto. Cão de busca. Fêmea. Pronta para salvar uma espécie que não era a sua. Para o mundo, não precisava de nome. Mas tinha. Chamava-se Cerys. Nome simples, de origem galesa, que significa “amor”. E talvez não houvesse nome mais justo. Ela não amava com gestos humanos, amava com o faro, com o silêncio, com a entrega. O filósofo Emmanuel Levinas dizia que o rosto do outro é um chamado ético. Cerys, ao farejar corpos sob a lama, respondia a esse apelo sem precisar ver rostos. Bastava-lhe seguir o instinto, mover-se com a nobreza dos que servem sem calcular o esforço.

    A cidade estava submersa. E sob as águas, escorria a lama. E sob a pastosa camada da terra, os corpos. Centenas deles. Cerys sabia. Farejava. Não chorava. Não latia. Não tentava consolar. Só cumpria. Enfiava-se entre os destroços com o faro tenso, feito corrente de aço pendendo do pescoço. Era isso que fazia. Era isso que sempre fizera.

    — Vai — disse o homem-bombeiro, com a voz de quem sabe que não adianta pedir desculpas por nada.

    Só naquela manhã, foram três.

    Um corpo de mulher, rosto já indistinto. Depois, um velho, metade preso sob os escombros da própria casa. Por fim, uma criança. Pequena. Encolhida. Como se ainda esperasse que alguém dissesse: “Calma, já vai passar.”

    Na mão da criança, um ursinho inchado de água e silêncio.

    Cerys sentou-se ao lado do corpinho sem vida. Apenas isso. Sentou. O homem-bombeiro entendeu. Aproximou-se devagar, como quem não quer acordar o que já não sonha mais. Agachou-se. Fez um afago sincero atrás da orelha da cadela. Disse baixo:

    — Mais um, parceira.

    Depois, nada. Nada além da lama. Do cheiro da morte. Do silêncio.

    No noticiário, um representante do governo apareceu para acalmar a população. Disse que o sistema funcionara. Que a resposta fora rápida. Disse estar orgulhoso do trabalho das autoridades. E que, em breve, haveria lares para todos os desobrigados. Promessas falsas.

    Não falou da cadela.
    Não falou do homem-bombeiro.
    Não falou da criança.

    E o silêncio, aquele mesmo que já havia sido farejado ali por dois seres que sabiam escutar com a alma, espalhou-se feito mofo em parede úmida.

    O homem-bombeiro sabia: seu sacrifício não seria lembrado. Já Cerys, essa não podia saber. O tempo que havia dado ao ser humano não lhe traria fama. Morreu jovem, aos cinco anos, em decorrência de uma leptospirose contraída no lamaçal. Morreu sem saber da glória. Mas soube servir. E isso, talvez, seja o que resta de mais nobre no que ainda ousamos chamar de amor.

    A travessia de Cerys foi feita em cortejo, ladeada pelos companheiros de farda do respeitado Corpo de Bombeiros de sua cidade. E a ela, enfim, foram rendidas todas as honras.

    *História fictícia em homenagem à cadela Cerys, especialista em salvamentos em locais de difícil acesso.

  • Ataques de pitbulls

    Incidentes envolvendo pitbulls têm provocado comoção nacional e acirrado debates nas redes, nos porcões pets e até no Congresso. As vítimas — algumas fatais — incluem desde crianças de colo a idosos e, em alguns casos, os próprios donos. O episódio mais recente aconteceu na Cidade Ocidental, em Goiás. Stefane Xavier da Silva, 31 anos, foi atacada e morta pelo próprio cão dentro de casa. Segundo a Polícia Civil, ela estava acompanhada da esposa e do filho de apenas quatro meses.

    Outro caso emblemático, que simbolizou o auge da preocupação, foi o da escritora Roseana Murray, de 73 anos. Ela caminhava em Saquarema (RJ) quando foi brutalmente atacada por três pitbulls. Perdeu o braço direito e teve ferimentos graves, mas sobreviveu graças a um atendimento intensivo.

    Uma escalada de ataques

    Em São Lourenço da Mata (PE), um bebê de três meses morreu após um pitbull invadir a casa da cuidadora e atacá-lo no colo da babá. Em Ribeirão Pires (SP), um pedreiro de 52 anos foi morto pelo cão da casa onde trabalhava. Dias antes, em São Paulo, duas crianças de 11 e 12 anos ficaram feridas ao serem surpreendidas por pitbulls em um parquinho público.

    Os dados preocupam

    Segundo o Ministério da Saúde, 53 pessoas morreram em 2023 vítimas de ataques de cães — um aumento de 33% em relação a 2022. Entre 2021 e 2023, foram 126 mortes registradas. No mesmo ano, 1.430 pessoas precisaram de atendimento médico após ataques. É o maior número em décadas.

    Embora qualquer cão possa morder, a raça pitbull aparece com frequência nos casos mais graves. Em 2024, 13 ataques envolvendo pitbulls resultaram em seis mortes, segundo levantamento da CNN. Só no estado de São Paulo, a maioria das fatalidades em 2023 envolveu raças consideradas de grande porte e força.

    Entre leis, focinheiras e polêmicas

    Diante do cenário, alguns estados impuseram regras mais rígidas. No Rio de Janeiro, pitbulls, filas, dobermans e rottweilers são classificados como “animais ferozes”. Eles só podem circular em locais públicos com focinheira, guia curta e sob condução de um adulto. O descumprimento pode resultar em multa, apreensão do animal e até perda da guarda.

    São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso e Minas Gerais seguem caminhos semelhantes, exigindo uso de equipamentos de segurança e penalizando condutas negligentes.

    No plano federal, o Projeto de Lei 1265/2024, apelidado de “Lei Murray”, propõe proibir a criação, comercialização e importação de pitbulls no Brasil. Também sugere a castração obrigatória dos exemplares já existentes.

    Para o autor do projeto, deputado Gilberto Nascimento (PSD-SP), é preciso impedir a “proliferação de sub-raças com genes de violência”. A afirmação, polêmica, encontra apoio em parte da opinião pública, especialmente após tragédias com crianças.

    O verdadeiro foco: responsabilidade

    Não se trata de julgar uma raça. O pitbull — já injustamente estigmatizado — não é, por natureza, o vilão. O alerta vai além: é sobre a responsabilidade de quem convive com cães de grande porte e potência. A adoção desses cães não pode se basear apenas em boa intenção ou no impulso de “resgatar”. É preciso preparo. Regras claras. Compromisso diário com a educação do animal.

    Talvez seja a hora de pensar em algo semelhante a uma habilitação, um processo que avalie se o humano tem estrutura emocional, rotina estável e entendimento suficiente para lidar com cães dessa natureza.

    Cães não nascem perigosos

    O comportamento agressivo não vem da raça, mas do ambiente e da forma como o cão é conduzido. Cães que crescem em meio ao desequilíbrio aprendem a se defender com os recursos que têm — e, às vezes, atacam. Por isso, mais do que leis, precisamos de consciência. Mais do que amar, precisamos observar, compreender e educar com responsabilidade.

    Há ainda os que adotam cães potentes como quem escolhe um carro de luxo: para chamar atenção. Confundem força com status, e afeto com aplauso. É a vaidade disfarçada de carinho — o cão vira vitrine, não companhia. Mas um animal não é troféu nem extensão do ego. Quem se exibe com um cão forte, mas ignora suas necessidades básicas, brinca de roleta russa com a segurança alheia. Amar um cão não é colocá-lo numa selfie; é sustentá-lo na correria do dia a dia, no silêncio dos treinos, na coerência dos limites É pedir ajuda, se for necessário. Vaidade, nesse caso, é imprudência com coleira de grife.

    E, como dizemos no Treinamento Invisível: “Treinar um cão é fácil, mas antes de tudo, é preciso transformar a si mesmo.”

  • Qual o Papel do Adestrador?

    O adestrador não é um encantador de cães, um mestre de comandos ou um mágico que resolve todos os seus problemas num estalo. Um treinador canino é, antes de tudo, um tradutor de almas. Ele observa o que, para muitos, é invisível: uma dança sutil entre o ser humano e o cão, onde cada movimento esconde um significado, cada latido indica um pedido, e cada gesto humano expressa uma intenção, seja ela consciente ou inconsciente. O papel do treinador é como o de um guia silencioso que, em vez de apontar o caminho, revela o mapa que sempre esteve encoberto, à espera de ser decifrado. O olhar de um profissional atento percebe o que só os cães sabem.

    No coração dessa relação está a reciprocidade. O cão, com sua determinação e sua linguagem instintiva, ensina lições que o ser humano só perceberá ao aprender a compreender o que se esconde por trás de cada movimento do seu cão. O adestrador, como um maestro, orquestra esse diálogo, mostrando ao dono que o problema nem sempre está no comportamento do cão, mas no reflexo da rotina, na ausência de presença, nos detalhes, no silêncio que nunca se preencheu.

    Há um segredo que o bom treinador carrega em suas ações: educar um cão é, antes de tudo, conscientizar as pessoas. É um ato de transformação e evolução. O cão aprende a se adaptar ao caos da sociedade, enquanto o humano redescobre o valor do aqui e agora. Nesse vínculo, nasce uma lição filosófica: a de que a paciência não é espera, mas cuidado; a consistência não é repetição, mas sensibilidade; e o amor — ah, o amor — é a chave que tudo conecta e transforma.

    Inspirados por essa jornada, percebemos que o treinador canino não foca seu trabalho em treinar apenas cães, mas em cultivar relações saudáveis e harmoniosas, dentro e fora de casa. Ele semeia confiança em terreno árido e colhe uma conexão que transcende o adestramento. Ao final, desaparece como um guia invisível, deixando no coração de quem aprendeu a certeza de que a transformação nunca foi imposta, e sim revelada. Assim, como ensina Aristóteles, “a excelência não é um ato, mas um hábito” — e nessa constância, cuidado e amor, a verdadeira conexão entre homem e cão encontra sua expressão mais sublime.

    E você, já parou para ouvir o que o seu cão está tentando dizer? Talvez, no silêncio que parece comum, ele esteja convidando-o para olhar o mundo com uma nova perspectiva — mais instintiva, mais autêntica e, quem sabe, muito mais humana.

  • A fronteira entre pena e amor por um cão

    Entre sentir pena e amar um cão há uma tênue linha que define a profundidade da relação que temos com eles. Sentir pena muitas vezes nasce da percepção de vulnerabilidade do animal — o olhar triste, a situação de abandono ou a incapacidade física. É uma emoção que nos impulsiona a agir para aliviar o sofrimento, mas que, sozinha, não fortalece a confiança mútua.

    A pena excessiva por um cão é como colocar um véu sobre os olhos: faz-nos enxergar a fraqueza antes da força, a dependência antes da capacidade e a carência antes da autonomia. É um sentimento que brota da compaixão, da vontade visceral de zelar, de amparar quem parece não ter como se defender. Porém, essa piedade, por mais nobre que aparenta ser, carrega em si uma armadilha silenciosa: transforma o amor em condescendência e o cuidado em servidão. Ou seja, a pena, em sua forma, é um sentimento exclusivamente humano, reflexo de nossas fragilidades projetadas no outro.

    Amar é diferente. É permitir que o cão enfrente desafios, explore e descubra suas próprias capacidades enquanto trilha o mundo ao seu redor. É compreender que, por trás de cada obstáculo, está uma oportunidade de desenvolvimento, reafirmação de instintos e fortalecimento de sua natureza como um ser pleno, capaz de agir com confiança e liberdade. Amar um cão é respeitar e valorizar sua natureza — suas necessidades biológicas e comportamentais —, sem importar a ele o peso de nossas próprias dores e ansiedades.

    Quando deixamos a pena guiar nossas ações, tendemos a superproteger o cão, ver nele o símbolo do abandono ou do sofrimento que imaginamos, carregando um peso emocional que não é dele, mas nosso. Refletir sobre essa fronteira é essencial, pois, muitas vezes, o ato de sentir pena pode ser confundido com amor. Enquanto a pena pode levar a uma relação paternalista ou mesmo temporária, o amor verdadeiro promove harmonia, sem previsões de inferioridade ou necessidade.

    Isso nos leva a acreditar que temos o poder de eliminar riscos e desconfortos, confundindo proteção com limitações. Mas será que, ao agir assim, estamos realmente amando? Os cães precisam treinar seus instintos de sobrevivência para se sentirem conectados ao ambiente em que vivem. Explorar, errar, sentir o chão áspero sob as patas ou se sujar são partes fundamentais de sua experiência. Privá-los disso é negar-lhes a oportunidade de crescer.

    Amar um cão é permitir que ele sinta o desafio de algo novo. É confiar que ele tem dentro de si as ferramentas para lidar com pequenas adversidades. É um ato de fé em sua natureza. Claro, o cuidado é essencial — assim como os humanos, os cães precisam de ar fresco e proteção contra o asfalto quente. Mas o limite entre cuidado e superproteção está na intenção: ajudamos o cão a crescer ou apenas tentamos preencher nossos próprios medos? É crucial afastar-se de nossas percepções humanas para compreender a mente de um cão.

    Excessos de pena, mesmo bem-intencionados, podem gerar confusão. Para o cão, atos exagerados de carinho podem parecer sinais de instabilidade, de incertezas e até de fraqueza. Isso não significa que devamos deixar de ser afetuosos, mas que precisamos ser conscientes. Cães prosperam em ambientes equilibrados, onde regras e cuidados caminham lado a lado. Liderança equilibrada, baseada na confiança e segurança é o que realmente fortalece o vínculo humano-canino.

    O convite é simples: observe seu cão. Diante de uma dificuldade, antes de intervir, pergunte-se: ele pode resolver isso sozinho? Se a resposta for sim, dê-lhe o espaço para tentar. Esteja presente, pronto para agir apenas se realmente for necessário — essa é a essência de uma relação de verdade. Assim, o amor que oferecemos não apenas protege, mas também expande.

    Sentir pena é uma ocorrência natural humana, mas amar é uma decisão consciente. Escolha amar. Não apenas pelo bem do seu cão, mas pelo vínculo único que vocês irão construir juntos.


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