Cães & Pessoas

  • Você sacrificaria o próprio cão por ele ser agressivo?

    Foi o que fez o ator americano Max Emerson, de 37 anos, ao autorizar a eutanásia de seu cão, Sarge, depois de ser mordido no rosto e precisar levar pontos. A decisão veio acompanhada de justificativas públicas no Instagram. Ele afirmou que já não havia como reverter o comportamento do animal e que, desde filhote, Sarge apresentava sinais de reatividade, sobretudo nas interações com outros cães.

    Disse que tentou adestramento, que conversou com veterinários e que, após explorar todas as opções, concluiu que “a coisa mais humana” a fazer por Sarge seria pôr fim à sua vida.

    Li o máximo que pude sobre o caso para tentar construir um argumento minimamente defensável para Max. Não consegui. Torna-se difícil respeitar e sustentar sua decisão com base em alegações tão frágeis, ainda que eu compreenda a frustração e a angústia de quem não consegue conviver com o próprio cão — um animal que, pelas imagens divulgadas, era tratado com carinho e afeto.

    É evidente que nem todas as alternativas foram exploradas.

    Já estive diante de casos extremos. Cães de grande porte, com histórico de ataques, como um rottweiler que me marcou pelo risco real que representava. Depois de tentativas frustradas de adaptação com seus donos, a solução não foi a morte, mas a mudança. Concordamos que encontrar alguém com perfil, experiência e condições adequadas para adotá-lo seria o melhor caminho. O cão não apenas encontrou equilíbrio como nunca mais apresentou episódios de agressão.

    Sacrificar um cão é uma medida extrema. Deve ser considerada apenas quando não há mais o que fazer, quando o animal já não tem qualquer possibilidade de recuperação ou de sobrevivência digna. Estatisticamente, a eutanásia é mais frequente em casos de câncer terminal e sofrimento irreversível.

    Na minha opinião, esse caso revela um cenário em que a fragilidade humana cede lugar a decisões precipitadas. Há um fenômeno contemporâneo que vem alterando profundamente a relação entre cães e humanos. Casos como esse tornam-se mais frequentes. De um lado, a desinformação; de outro, o ativismo ideológico. Desde que os cães passaram a ocupar lugar de destaque dentro das nossas casas, o romantismo passou a se sobrepor à realidade. Criar, educar e treinar são dimensões complementares, mas distintas.

    Quando falo em desinformação, refiro-me à pressão social para que tratemos cães sob um prisma exclusivamente humano. Não é permitir que o cão suba ao sofá que o humaniza. Isso, por si só, não significa nada. Mas, sem critérios claros, pequenas concessões podem abrir espaço para conflitos. Deixar o cão deitar na cama não é o problema; o problema é não estabelecer regras claras de convivência e hierárquica dentro da própria casa.

    A primeira regra de uma boa convivência é construir um padrão de confiança, segurança, intimidade e autoridade. Há quem defenda que não existe dominância na relação entre cães e humanos. Essa negação, sim, é um passo decisivo rumo à humanização ingênua.

    Desde sempre, em qualquer grupo social, há hierarquias. Se o humano abdica de seu papel de autoridade, é natural que o cão, com suas próprias habilidades e instintos, tente ocupar esse espaço.

    No caso do ator, pelos próprios relatos, a escolha foi pela saída mais rápida. E, talvez por isso mesmo, a mais previsivelmente humana.

    Não faltou a Max Emerson amou ao seu cão, faltou entender como gerar intimidade sem perder o controle das coisas.

  • Uma Crônica Canina – parte 3

    Um é obediente, calmo, regrado, um gentleman.

    A outra é impulsiva, agitada, desobediente, uma doida…

    Um é devagar, sonolento, brincalhão.

    A outra é rápida em tudo e uma excelente saltadora! Parece um canguru!

    Ambos são carinhosos e demonstram uma lealdade sem igual!

    Para fechar a sequência dessas crônicas caninas, não poderia deixar de falar dos meus cães! Todd, um golden retriever, e Chiara, uma vira-lata de dar nó em pingo d´água!

    Todd vem de uma linhagem de nobres e educados cães das montanhas friburguenses.

    Chiara veio de uma feira de adoção que o meu filho insistiu duzentas vezes para que eu ficasse. Detalhe: eu morava em um apartamento e, a julgar pelo tamanho do filhote que ele me apresentou, parecia que eu estava prestes a adotar um rottweiler

    É difícil adequar um espaço pequeno e um cão grande ou médio! Pelo menos pra mim! E assim foi a aventura de ter mais uma vez um cachorro em casa!

    Chinelos e móveis mordidos, pé em cocô, reclamações dos vizinhos… Enfim, uma loucura só! Até que conseguimos nos mudar para uma casa e o tão sonhado quintal!

    Pronto! Agora podíamos ficar com os dois cães!

    Outro detalhe: Todd tem guarda compartilhada! Ele fica um período comigo e depois volta para Friburgo na casa dos meus sogros!

    Todd fica dentro de casa! Chiara fica fora! Todd pede para ir ao banheiro! Chiara não precisa pedir! Todd passa quase o dia todo dormindo! Chiara passa quase o dia todo correndo e latindo para o nada!

    E você pode me perguntar: como eles conseguem ficar juntos? Eles ficam! E se respeitam quase sempre!

    Passeiam muitas vezes juntos. Se alguém estiver com algum alimento na mão (não importa o que seja), os dois vão abrir bem os olhos! Os dois vão ficar olhando até você dar um pedaço (ou não)!

    Todd tem uma mansidão quase budista. Chiara parece em ebulição!

    Mas o curioso disso tudo é ver que, mesmo tão diferentes, possuem a graça e a simplicidade que todo cão tem!

    Hoje, entre latidos e muitos pelos, vejo que a felicidade está realmente nas pequenas coisas…

    Termino esta sequência de crônicas caninas com a certeza de que os cães sabem mais da vida do que nós…

  • Uma Crônica Canina – Parte 2

    Bem, voltamos ao tema! Voltamos às quatro patas!

    Na última crônica escrita, a primeira crônica canina, eu falei um pouco das minhas experiências com cães: Apolo e Baggio. Um vira-lata e um setter irlandês!

    Depois que Baggio partiu (dezessete anos de muitas brincadeiras), meus pais relutaram bastante em ter um novo cão. A fala que ambos sempre diziam: a gente se apega muito a eles!

    No entanto, minha irmã… Aqui eu preciso abrir um parágrafo para falar da minha irmã. Sabe aquela pessoa que simplesmente ama cães? Pois é… Minha irmã, se pudesse, levaria para casa todos os cachorros que porventura encontrasse na rua. Uma cara de pidão e um rabo abanando seriam o suficiente!

    Parágrafo escrito. Continuemos…

    Meus pais não conseguiram manter a promessa de não ter outro cachorro.  Minha irmã levou para eles um cocker spaniel comedor de melão: Thor!

    Pense em um cão super carinhoso e que não desgruda de você por nada… Pensou? Thor é exatamente assim! Pense em um cão mimado, dengoso, metódico e cheio de manias… Pensou? Thor é exatamente assim!

    Thor vai receber você com uma cara de quem não recebe atenção de ninguém!

    Thor obriga o meu pai ou a minha mãe (depende de quem esteja na cozinha) a ir para a varanda metodicamente após o café!

    Se você estiver com uma fatia de melão nas mãos, vai observar que os olhos de Thor se abrem de maneira expressiva e sobrenatural! Melão acima de tudo!

    Mas brincadeiras à parte, o que sei é que Thor tem alegrado a vida dos meus pais já idosos.

    Um cão é companhia, leveza, cumplicidade e o clichê de todos os que possuem um amigo peludo: um amor incondicional!

    Thor é já um senhor. No acumulado dos seus pelos brancos, ainda corre atrás das coisas e pede carinho a quem quer que chegue!

    Penso em todos os momentos bons que um cão pode nos dar e Thor tem feito um excelente trabalho!

    Bem… ainda falta falar de uma dupla que parece óleo e água, mas isso fica para a última crônica…

  • A tragédia dos pitbulls: o que ainda podemos fazer?

    Durante muito tempo, sempre que a mídia destacava um ataque envolvendo pitbulls, sobretudo quando havia feridos graves ou mortes, eu me via quase instintivamente na defesa da raça, devolvendo a responsabilidade aos donos. Essa convicção, de fato, não se alterou. No entanto, diante da sucessão de episódios recentes, muitos deles de extrema gravidade, incluindo o ataque mais recente a uma criança de quatro anos que perdeu a vida, sinto-me obrigado a revisar e aprofundar o meu posicionamento.

    Não deposito culpa no cão, jamais. Mas é inegável que a raça entrou num estágio crítico provocado pela irresponsabilidade de alguns donos. Eu não gostaria que tivéssemos chegado a este ponto; era para termos mais controle sobre tantas tragédias. A realidade, contudo, se impõe. E ela exige que abandonemos certas ilusões regulatórias: não adianta criar novas leis quando não existe fiscalização capaz de sustentá-las.

    É verdade que qualquer apaixonado pela raça pode desejar ter um pitbull. Mas desejar não é o mesmo que estar preparado. A raça demanda conhecimento, equilíbrio emocional, senso de responsabilidade e humildade para aprender. Como treinador, reafirmo o que sempre disse: um cão só se torna perigoso quando cai nas mãos de pessoas despreparadas, muitas delas movidas por vaidade, impulso ou fantasia de poder.

    Sempre defendi que todo interessado em ter um cão da raça deveria obrigatoriamente passar por um treinamento sério, capaz de oferecer compreensão real sobre o temperamento, as necessidades e os riscos envolvidos. Hoje, reconheço que isso não basta. É preciso algo mais: leis mais rigorosas, fiscalização presente, punições claras e multas severas para quem desrespeitar as normas.

    O problema — e aqui se revela uma ferida antiga — é que a fiscalização raramente alcança os criadores clandestinos. É nesse subterrâneo que a raiz do desastre se instala. Ali, multiplicam-se cães sem critério, sem ética, sem qualquer responsabilidade. Enquanto isso, os criadores sérios, que trabalham com transparência e compromisso, acabam carregando um peso que não lhes pertence. No Brasil, infelizmente, a lógica costuma ser essa: pune-se quem faz certo, ignora-se quem faz errado.

    E quem perde com isso? Perde o cão, que não tem voz para se defender. Perde a raça, marcada injustamente por estigmas que não nasceu para carregar. Perde a sociedade, que desperdiça a chance de aprender com as tragédias e impedir que se repitam. Perdem também aqueles que sempre amaram o pitbull com consciência, respeito e responsabilidade. Se existe algo a salvar, começa por admitir o óbvio: o problema não é o pitbull. O problema é o caminho torto que alguns humanos insistem em trilhar.

    É por isso que deixo aqui um alerta que não nasce de teorias, nem de exageros, tampouco de histeria coletiva. É constatação dolorosa de quem convive com cães todos os dias: estamos colocando o pitbull à beira de um abismo que ele não cavou. Se continuarmos tratando a raça como vilã, permitindo que criadores clandestinos se multipliquem impunemente, entregando cães potentes a pessoas despreparadas e fingindo que leis sem fiscalização resolvem alguma coisa, teremos um fim irreversível.

    O pitbull precisa de nós agora. Não de capas de jornal inflamadas, nem de discursos vazios, muito menos de ondas de ódio ou de um sensacionalismo que o confunda com qualquer outro cão de cabeça larga e focinho profundo. Isso, sim, é injusto. O que ele precisa é de responsabilidade, educação, vigilância e coragem pública para enfrentar o problema onde ele realmente nasce.

    Se nada for feito, poderemos ter mais mortes. Ou perderemos a chance de corrigir um erro que não é deles. Este texto é, ao mesmo tempo, um alerta e um pedido de socorro. Salvemos a raça antes que a ignorância a condene definitivamente.

    Menino de quatro anos morre após ser atacado por pitbull na zona norte do Rio
  • Uma Crônica Canina – Parte 1

    Como escrever uma crônica canina?

    Lambidas, olhar pidão, um rabo que tem vida própria e muitas alegrias!

    É a minha primeira crônica canina! Experiência com cães eu tenho, desde pequeno! Lembro de um dálmata lindo que tive quando era criança! Duquesa! As lembranças são poucas porque era muito criança!

    Mas do primeiro cachorro que levei pra casa (sem contar obviamente para os meus pais) eu tenho as primeiras memórias afetivas que marcaram a minha vida! Apolo era o nome de um vira-lata baixinho, troncudinho e esperto que adorava lasanha, pizza e espetinho de frango! Corria atrás de bola, fugia de casa com frequência e matava as galinhas da casa da minha avó com uma patada só!

    Apolo viveu bem sua vida: correndo, brincando e viajando. De todos os cães que tive foi o que mais viajou, embaixo do banco do carona onde sentava a minha mãe, ficava ali quietinho até uma parada! Quando parávamos, ele atacava dois espetinhos de frango e estava pronto para seguir a estrada…

    Infelizmente, como todos os bons cães, ele não pôde ficar aqui nessa vida com a gente e nos deixou por causa do coração!

    A outra experiência foi com um cão fofoqueiro! Sim, fofoqueiro! Ele passava muitas horas do dia pendurado no portão da garagem olhando a rua e prestando atenção a todos os movimentos. O nome dele era Baggio! Sim, o nome do jogador italiano que perdeu o pênalti e deu o tetra ao Brasil. O nome quem deu foi o meu pai e nunca entendi o porquê do setter irlandês nunca ter sido chamado de Dunga, Bebeto, Romário, enfim… Ficou Baggio mesmo!

    Baggio viajou pouco! Ele não curtia ficar muito tempo dentro de um carro e, por isso, perdeu algumas oportunidades que o Apolo soube bem aproveitar!

    Mas, a despeito das viagens e das estradas, tanto Apolo quanto Baggio mostraram em cada olhar e em cada lambida a intensidade que todo cão vive a vida. A intensidade de todas as esperas! A intensidade de fazer a criatura humana feliz…

    Continua…

  • O que há por trás do movimento antivacina em cães?

    Um burburinho crescente nas redes sociais revela que muitos donos têm evitado vacinar seus cães. Como jornalista, pesquisei e apurei relatos de especialistas, estudos e depoimentos de famílias, e concluí que o preço também está embutido nessa crítica. À primeira vista, porém, a explicação mais repetida remete a ecos de movimentos políticos que já conhecemos. Foi assim na pandemia, quando a incerteza sobre a eficácia das vacinas abriu espaço para a desconfiança. Essa sombra ainda paira sobre parte da população.

    Na internet, o termo “antivax” ganhou força. Designa os que rejeitam vacinas ou diminuem sua importância. Uma pesquisa do portal IG mostrou um dado alarmante: cerca de 40% dos responsáveis temem que a vacinação cause autismo em cães. É uma crença sem base científica, mas que se espalha com rapidez, como rumor em feira livre. No Instagram,também circulam frases de efeito como “pet que não sai não precisa vacinar”, “vacina é só para gripe”. Mensagens curtas, fáceis de compartilhar, que acabam banalizando uma medida vital para a saúde animal e, por consequência, também para a nossa.

    Para conter essa onda de desinformação, a Associação Britânica de Veterinária (BVA, na sigla em inglês), antecipou-se e divulgou uma nota posicionando-se contra os movimentos antivacina. O tom foi direto: não há qualquer evidência científica que relacione vacinas a casos de autismo em cães. Portanto, podem levar seus animais ao veterinário sem medo.

    Entretanto, atribuir a resistência às vacinas apenas à ideologia é uma visão simplista. Acompanhei, ao longo dos anos, a relação entre cães e pessoas e percebi fatores mais concretos nesse movimento. O custo das vacinas, por exemplo, é um dos grandes obstáculos. Ainda que alguns veterinários se esforcem para oferecer preços acessíveis, para muitas famílias a imunização tornou-se inviável.

    Há também a questão da exigência de várias doses antes de liberar o filhote para passear. Em certos casos, entre cinco e sete. Isso compromete severamente o desenvolvimento social dos cães, sobretudo na fase inicial da vida. Quando barreiras financeiras e práticas se acumulam, muitos donos ignoram as recomendações e acabam levando seus cães às ruas antes do fim do ciclo vacinal completo. E, uma vez quebrada a regra, a lógica se impõe: se o filhote já pode ter contato com o ambiente externo, por que continuar arcando com tantas vacinas caras? O resultado é um efeito dominó que mina a confiança.

    Não se trata de condenar a prática veterinária, mas é impossível ignorar a engrenagem maior que sustenta esse cenário. Quanto mais vacinas, maior o lucro da indústria farmacêutica. Reconhecer esse fato não é aderir a teorias conspiratórias, nem enfraquecer o valor da imunização. Pelo contrário: vacinar continua sendo indispensável para a saúde e a longevidade dos cães. O desafio real está em outro ponto: tornar o processo viável, transparente e acessível, para que ninguém precise escolher entre proteger o animal ou pagar as próprias contas.

    Politizar o debate é perigoso. Cães fazem parte de todas as camadas sociais, e muitos responsáveis simplesmente não conseguem arcar com o custo de certos imunizantes. Em um país onde famílias esperam meses por atendimento médico, não surpreende que os animais também sofram os efeitos do sucateamento da saúde pública.

    Mesmo assim, não faltam histórias de donos que se sacrificam, abrindo mão do próprio cuidado para garantir a proteção de seus cães. Esse gesto, ao mesmo tempo nobre e doloroso, revela o tamanho do vínculo que une pessoas e animais, mas também expõe, com clareza, as falhas de um sistema que deixa ambos desassistidos.

    No fim, a matemática é implacável: quando o dinheiro falta, meus caros leitores, não há retórica que resolva. Não é descuido, tampouco crença, mas realidade que nenhum afeto consegue ultrapassar. A conta não fecha. Entre pagar um boleto, comprar o gás ou investir em vacinas, muitos acabam escolhendo o imediato. É duro reconhecer, mas a verdade se impõe com a frieza dos números: amor não basta quando a sobrevivência está em jogo.

    Como dizia meu pai, com a sabedoria de quem viveu de tudo: “Se não tem remédio para a situação, remediado está.”

  • O segredo do nervo vago

    Dentro de nós e dos cães corre um fio invisível chamado nervo vago. Ele não aparece em exames, mas é peça central do sistema nervoso autônomo. Atua como maestro da calma: regula os batimentos cardíacos, conduz a respiração, organiza a digestão e até equaliza o tom da voz. O fisiologista Stephen Porges, criador da Teoria Polivagal, chama esse nervo de “ponte biológica da segurança”, pois traduz nossos estados emocionais em respostas corporais.

    Nos cães, esse nervo também está presente, mas sua ativação acontece de forma natural. Basta observá-los deitados de lado, barriga entregue pra cima, respirando devagar: nesse instante, o corpo inteiro se ajusta em harmonia. Para eles, o descanso não é estratégia; é vida. Eis a razão pela qual têm o dom de não se prender ao passado nem ao futuro. Já nós, humanos, tendemos a desafinar: corremos mais do que o coração suporta, comemos sem mastigar, falamos alto demais e tomamos decisões precipitadas. Assim, os instintos se confundem e a ansiedade toma espaço. Como lembrava Epicuro, “quem não sabe viver com simplicidade, não sabe viver com serenidade”.

    O aprendizado silencioso

    Quando passamos a mão no peito de um cão, percebemos algo que a ciência confirma: o toque lento e constante estimula o nervo vago, reduzindo a frequência cardíaca e induzindo calma. É nesse instante que surge a pergunta inevitável: afinal, quem ensina quem? Eles, que vivem o óbvio, ou nós, que inventamos protocolos para reencontrar o caminho da tranquilidade? O filósofo Viktor Frankl recordava que o ser humano precisa de um “sentido” para suportar a vida. Talvez o cão nos lembre justamente disso: respirar com atenção, mastigar devagar, confiar no vínculo e viver o presente.

    No fim, o nervo vago não é apenas uma linha que liga órgãos e funções: é o elo entre corpo, mente e laço afetivo. Em nós, exige disciplina e consciência. Nos cães, acontece como respiração: sem esforço, sem cálculo. E é justamente nessa diferença que se oculta a lição – aquela que nos distancia deles. Os cães vivem o que, muitas vezes, para nós sequer faz sentido.

    Cada respiração lenta, cada mastigada devagar, cada toque silencioso é um convite para retornar ao essencial. O cão não nos pede teorias; pede ação, plenitude, compreensão. E talvez seja essa a maior prova de sabedoria: enquanto nós buscamos protocolos para reencontrar a paz, eles a oferecem de graça, no simples gesto de existir tal como são.

    Assim, quando dono e cão respiram juntos, não é apenas o corpo que se acalma; é a vida que se afina, como dois acordes vibrando em uníssono, lembrando ao mundo que a serenidade não se explica, apenas se pratica.

    A seguir, uma sugestão prática para ativar diariamente o seu nervo vago.

    🐾 Ativando o nervo vago junto do seu cão

    1. Respiração conjunta:
    ■ Sente-se ao lado do seu cão, em silêncio. Busque um ambiente sossegado.
    ■ Coloque a mão suavemente sobre o peito dele, sentindo o ritmo da respiração.
    ■ Inspire fundo pelo nariz e solte o ar devagar. Ele tende a espelhar seu ritmo.
    ■ Repita por 3 a 5 minutos.

    2. Toque calmante:
    ■ Apoie a mão aberta no peito ou na base da orelha do cão.
    ■ Faça movimentos lentos e circulares, sem falar.
    ■ Permaneça assim por 5 minutos. Observe sinais de relaxamento: bocejo, respiração lenta, olhos semicerrados.

    3. Mastigação consciente:
    ■ Ofereça um petisco pequeno e crocante. A mastigação estimula a deglutição, ativando o nervo vago.
    ■ Observe o ritmo dele e acompanhe com calma, sem distrações ou pressa.

    4. Voz serena:
    ■ Fale com ele em tom baixo, compassado.
    ■ Pode ser uma canção suave, uma oração curta ou apenas sons suaves.
    ■ Controle as suas emoções.
    ■ Mantenha esse exercício por 2 a 3 minutos.

    5. Caminhada atenta:
    ■ Faça um passeio com seu cão e deixo-o explorar, sem agitá-lo.
    ■ Evite o celular e concentre-se apenas nos movimentos dele.
    ■ Observe como ele fareja, para, respira. Acompanhe o ritmo dele, sem pressa.

    ✨ Repita esse ritual uma vez por dia, de preferência em um momento de calma (pela manhã ou à noite). Aos poucos, você perceberá que não é apenas o cão que relaxa: você também se harmoniza.

    Referências: *Porges, S. (2011). The Polyvagal Theory: Neurophysiological Foundations of Emotions, Attachment, Communication, and Self-Regulation. **Epicuro. Carta a Meneceu. ***Frankl, V. (1946). Em busca de sentido.

  • Adotei um border collie com genes recessivos. E agora?

    Havia cinco filhotes naquela ninhada. Quatro pareciam feitos da mesma matéria: pretos, compactos, quietos, como se o tempo, para eles, fosse mais lento. Mas um, o quinto, era diferente: albino, um olho de cada cor e esperto por natureza. Maior, mais firme nas patas, olhos acesos como se lesse pensamentos, o primeiro a alcançar as tetas da mãe, o único a reclamar quando um irmão tentou dividir espaço. Um pai que chegava para escolher o cão ideal para a sua família, viu aquele filhote branquinho e disse, com a falsa intuição de quem se julga conhecedor:

    — Filha, vamos levar esse!

    A garotinha, sem dizer muito, pulou no colo do pai e disparou uma centena de beijos em suas bochechas.

    Levaram-no para casa no banco de trás, entre a filha entusiasmada e a mulher preocupada com o cheiro de urina. Deram-lhe o nome de Pompom, porque era macio, redondinho, quase irreal. Tinha o pelo branco como neve recém-caída, olhos de botão e patas desajeitadas que escorregavam no banco de couro. Talvez, no fundo, acreditassem que o nome pudesse conter o ímpeto daquele filhote que, aos olhos da menina, mais parecia um brinquedo de pelúcia prestes a ganhar vida

    Nos primeiros dias, Pompom dormia como qualquer cão recém-chegado. Mostrava-se assustado, medroso com os ruídos, e choramingava com a ausência da mãe. Mas logo a rotina ganhou outros contornos. Descobriu como explorar a casa, fazer xixi e cocô por tudo quanto é lugar — menos na fralda. Quando arrastou o tapete até o quintal e roeu o que pôde dos móveis da casa, deixou de ser engraçado.

    Não demorou para começar a rosnar ao redor da comida. A mãe estranhou e o chamou de ciumento. Quando passou a latir para carros e motos, ou a correr atrás das pessoas mordiscando calcanhares e cercando o grupo como se fosse gado, o pai ficou desesperado… Ele ainda não sabia, mas adotara um cão de linha de trabalho, descendente de campeões e com um drive altíssimo.

    O pai até cogitou a devolução, mas sentia-se responsável por aquela vida. Ligou para o dono do canil em busca de uma solução imediata, e ouviu, do outro lado da linha, a resposta fria de quem já não podia, ou não queria, se envolver:

    — Esse cão não foi feito pra sofá. Ele precisa de função.

    Foi a primeira vez que a palavra função apareceu. A partir daí, as coisas pareceram desandar entre o cão e o resto do mundo. Um cão que só faz o que quer é incontrolável. Disse a si mesmo:

    — Um cão que só faz o que quer é incontrolável.

    Pompom era, de fato, um legítimo border collie, embora o pai mal soubesse o que isso significava. Não era apenas uma raça, mas uma potência. Um corpo moldado por gerações para pensar em movimento, responder a comandos invisíveis, pastorear o caos. E, mais do que tudo, um cérebro preparado para trabalhar horas a fio com um único propósito: controlar rebanhos vivos. Na ausência de ovelhas, bastava-lhe algo que se movesse.

    Mas ali não havia rebanhos. Só almofadas, tapetes e uma menina que sonhava com um amiguinho. E, quando não se dá uma missão a um cão com a inteligência de um border, ele inventa uma. Pompom pastoreava a casa inteira: cercava portas, montava guarda, rosnava quando o aspirador mudava de direção. Seguia sombras, latia para ventiladores, mordia o próprio rabo. Rodeava, sem parar, a mesa de jantar e até bebia a água da piscina. Tudo parecia brincadeira ou jogo. Para um leigo, era difícil saber.

    O primeiro adestrador tentou o método positivo. Disse que não havia caminho melhor. O segundo, estúpido e apressado, propôs colocar uma coleira de choque no filhote. O terceiro, adepto de florais, também não teve progresso. Restava estudar. Mergulhar nos livros, entender o comportamento canino. E foi assim que, com a ajuda de um novo treinador, começou a compreender as raízes de tantos transtornos.

    Enfim, surgiu uma nova teoria: genes recessivos comportamentais. Traços invisíveis à primeira vista, mas capazes de emergir quando duas linhagens equivocadas se cruzam. Características que não apareciam nem no pai, nem na mãe, mas que, uma vez ativadas, exigiam contenção. E não qualquer contenção: rotina, clareza, estímulo, constância.

    A palavra recessivo ficou martelando na cabeça do pai. Começou a ler. Descobriu que a genética não é destino. É mapa. E que esses genes não vêm sozinhos: carregam comportamentos instintivos que, quando ignorados, explodem. Ansiedade por movimento, obsessão por tarefa, reatividade emocional. Era isso que pulsava dentro de Pompom. Ele não era um cão-problema. Era um cão incompreendido.

    E então, finalmente, o pai fez o que jamais havia feito: olhou para dentro e traçou novas metas.

    Começou a levar Pompom ao futebol. Passou a acordar mais cedo para correr com o cão. Leu livros de comportamento canino com a mesma atenção que antes dava ao noticiário esportivo. Aprendeu sobre epigenética , o modo como o ambiente pode acender ou apagar comportamentos nos cães. Entendeu que amor, sozinho, não basta para dar direção. Que amor sem conhecimento vira pena. E pena, quase sempre, vem seguida de raiva. Frustrações pelas “provocações” que Pompom fazia.

    Como diria Edmund Burke, “a sociedade é um contrato entre os vivos, os mortos e os que ainda hão de nascer”. O pai compreendeu que, entre homem e cão, também existia um pacto silencioso — selado pela ancestralidade, pela vocação impressa na carne. e que esse pacto precisava ser honrado, não ignorado.

    A rotina da casa mudou. Pompom passou a ter tarefas, jogos de olfato, percursos no mato, comandos de espera e recompensa. O treinador ensinou novos comandos, sempre desafiando sua capacidade mental. A ansiedade deu lugar à escuta. O corpo deixou de implodir. O olhar, antes elétrico, tornou-se profundo.

    A menina voltou a brincar com ele. A mãe, a sorrir das travessuras de Pompom. Ele já não mordia, nem destruía os móveis. Deixou de ter posse do sofá ou da comida, mas ganhou um cantinho na cama, toda vez que entrava no quarto devagarinho.

    — Quando ele faz essa carinha, a gente pode deixar entrar!

    O pai compreendeu, por fim, que não havia adotado um ursinho de pelúcia, mas um ser com passado. Que os cães que parecem mais brilhantes, mais ágeis, mais espertos são, muitas vezes, os mais difíceis de manter. Que herança genética não se reverte com agrado, mas se conduz com consciência. E vigiar, para ele, é função. Porque cães como ele não descansam.

    Se o seu cão tem genes recessivos, não procure culpados. Não tente corrigi-lo com vídeos da internet. Não espere que ele se adapte ao seu sofá, ao seu tédio, à sua pressa. Porque, cedo ou tarde, o que ele carrega vai emergir. E, quando isso acontecer, você vai ter que escolher entre fugir ou tornar-se melhor.

    Pompom, por sorte, teve pessoas que decidiram mudar hábitos para construir uma relação melhor. Mas a sorte, você sabe, não é o que determina o fim da história. É a escolha. E a coragem de sustentá-la.

  • Vira-lata procura homem de raça

    Vira-lata de estirpe procura ser humano de raça. Pode ser branco, negro, amarelo, vermelho, azul, não importa. A “raça” que realmente conta para um autêntico vira-lata como eu é a fibra, o caráter e o afeto que me garantem perfeita harmonia para os próximos 15 anos. 

    Aviso que sei muito pouco de meus ancestrais. Posso ter sido gerado de um cruzamento de pastor alemão com rottweiler, de labrador com boxer ou de beagle com yorkshire. Ou, mais provavelmente, de um cachorro de raça indefinida com uma cadela de raça ignorada. Isso importa? Sim, se você se preocupar mais com a árvore genealógica do que com a índole.

    Esclareço que sou um vira-lata “raçudo”. Fiel, obediente, amoroso, posso dar minha vida para proteger meu ‘dono’, ou melhor, meu companheiro. Qualidades que você dificilmente vai achar num humano, seja de que raça for.

    Mas isso não me torna especial ou de elite. Sou apenas um cão de rua, marginalizado pela sociedade assim como os mendigos, os poetas e os que lutam por um mundo melhor para pessoas, plantas e animais. Há milhares como eu, largados à própria sorte, expostos em feiras de adoção, cedidos gratuitamente a alguma alma caridosa que possa lhe oferecer um lar. Tão iguais na condição aflitiva, mas com cores, tamanhos e aspectos bem distintos para agradar (ou desagradar) todos os gostos.

    Ignorados pelos bacanas que não vacilam em desembolsar 20 mil reais para ter um cachorro de raça pura ou “pedigree”, seja lá o que isso signifique.  Querem um bichinho de estimação para ostentar suas virtudes congênitas a vizinhos e parentes. Exibi-lo orgulhosos como um item valioso de seu patrimônio assim como seu carro importado ou sua bolsa de grife. Escolhem suas companhias como um vinho num cardápio. Criam cachorros como crianças mimadas, entulhando-os com roupas de frio, brinquedinhos caros, ração importada, spas e outras frescuras. Oferendas que o tornam um cão obeso, acomodado, egocêntrico, vaidoso. Quase como um humano padrão. Gente que não se furta a prover toda espécie de paparicos a seu pet, mas não tem “raça” suficiente para abrir mão de uma migalha de suas posses para auxiliar um semelhante necessitado, abandonado como um cão sem dono, matando cachorro a grito.

    Imaginam poder combater a monotonia de sua vida enfadonha cercando-se de cachorros customizados. Ao sentirem-se em depressão e vítimas de outras patologias da “raça humana” clamam a companhia terapêutica de um cão. Desde que “de raça”.

    Não entendo o comportamento desses humanos desumanos que se dizem com “consciência social”, revoltam-se com o flagelo dos refugiados e de crianças famintas. Ficam com olhos marejados e o coração apertado ao assistirem injúrias cometidas por seres humanos contra seres humanos ou contra animais maltratados. Indignam-se com o racismo e a discriminação. Mas na hora de escolherem um companheiro, exigem certificação de procedência genética…

    Gente assim eu dispenso, muito obrigado. Prefiro continuar livre e solto, um vagabundo sem dama, perambulando pelas vielas da periferia e das pequenas cidades, fugindo da carrocinha e da hipocrisia, junto com outros da minha “raça”.

    Animais não têm preconceitos nem cometem crueldades. Cães ‘de raiz’ como eu só querem viver e deixar viver, ser felizes e levar felicidade àqueles que os acolhem.

    Não tenho grandes exigências, sou de fácil convivência, inteligente, aprendo regras com facilidade e ajudo a proteger a casa de inimigos e de tristeza. Estou à procura de algum humano com bastante raça e com qualidades nobres como as de um vira-lata para iniciarmos uma amizade duradoura e gratificante para nós dois. Mas não estou à venda. Basta me levar para casa.

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