Campista Cabral

  • De quando não havia internet

    Você sabia que já existiu uma vida completamente diferente da que temos hoje sem internet? Sim, conseguíamos viver sem internet!

    O telefone servia simplesmente para que pudéssemos falar com alguém! Falar de fato! Falar diretamente com alguém! Estranho falar com alguém hoje pelo celular! Muitos preferem os intermináveis áudios ou a já consagrada mensagem de texto!

    Tudo hoje é urgente! A resposta precisa ser imediata! Caso contrário, pode acontecer a terceira guerra mundial!

    Antes, a gente esperava e tinha que esperar de qualquer jeito! Exercitávamos a paciência! Escrever uma carta e esperar semanas ou meses pela resposta! Esperar aquela revista incrível chegar nas bancas para ler as novidades! Acompanhar o ritual da compra do jornal do final de semana e ler os vários cadernos sossegadamente! Pacientemente!

    Tudo hoje é urgente! Você marca uma coisa e depois de uns dez minutos, desmarca e torna a marcar e, por fim, o encontro, a reunião e a ida ao cinema acabam não acontecendo.

    Antes, se marcássemos alguma coisa, palavra dada, a presença era certa, a menos que, a terceira guerra mundial tivesse começado literalmente e impedisse alguém de ir ao local combinado! Simples assim!

    Tudo hoje é urgente! Falar com pressa! Amar com pressa! Assistir alguma coisa, com os olhos na tela do celular, com muita pressa!

    Antes, ficávamos sentados com os amigos em uma calçada conversando e rindo horas e horas sobre os mais variados assuntos!

    Tudo hoje é urgente! O tempo é dividido e subdividido para que todos os segundos sejam ocupados com alguma coisa! Na maioria das vezes, esse precioso tempo é gasto com horas e horas rolando a bendita tela do celular!

    Antes, ficávamos horas sem fazer nada! E isso era bom! Na verdade, era ótimo! Sabe a ideia do ócio criativo?

    Voltando ao telefone… Ah! Que saudade do chamado orelhão! Sim, orelhão! Uma cabine pública em que qualquer pessoa com as desejadas fichas poderia falar com outra! Colocava-se uma ficha atrás da outra para conseguir falar! Cada ficha representava um pouquinho de tempo (eu não vou lembrar agora exatamente quanto tempo, o que sei é que se fosse uma conversa mais longa, você deveria comprar muitas, muitas fichas…)

    E o ritual da música? Pegar um álbum (o chamado LP – Long Play) e curtir a capa, o encarte com as letras, as fotos… Ouvir o lado A, geralmente mais comercial, e ouvir o lado B, geralmente mais conceitual… Aguardar o próximo álbum sair em alguns meses ou anos! Esperar!

    E aqui fica mais evidente a crítica a estes tempos, a falta de espera! A impaciência, a correria e a urgência destruíram o importante e necessário processo das coisas e das gentes!

    O humano precisa esperar!

    É o tempo pra maturar os sentimentos, os olhares, os gostos, as conquistas e os fracassos, os compassos e as histórias.

    A nossa história é toda ela feita de esperas!

    Quando não respeitamos o tempo de tudo, somos atropelados!

    Tudo hoje é frenético, performance, lacração, engajamento…

    Antes, era a própria vida nas suas insinuações e contradições!

  • Poema #15: Um Soneto da Lua

    Ainda que sejam versos pequenos…
    Uns simples versos que sejam ao menos,
    os ventos os empurrarão no tempo
    onde serão o eterno consentimento.

    Toda a lua brilha alta e resplandece
    porque deseja muito o amor do mar.
    Acaricia um instante e depois reflete:
    é a busca de nunca encontrar.

    Como um solitário que ri na estrada
    é toda ela amor…uma imagem vaga,
    tempero de emoções, fogo que estala.

    Sendo certo o errado e não sendo
    a peleja da busca, o contratempo,
    ainda que seja um verso pequeno.

  • Quando deixamos de ser heróis

    É… Não sei em que ponto e não sei e talvez nunca saiba o momento exato em que deixamos de ser heróis para nos transformarmos em vilões!

    Não deveria ser assim, mas é…

    Quando crianças, olhamos nossos pais como nossos heróis, prontos para nos defender! Entretanto, com o passar do tempo e o embaçar ou desembaçar das horas, passamos a olhar de forma diferente. E olhamos, ou melhor, questionamos essa imagem!

    Mas… e quando nós somos olhados dessa forma?

    Deixamos o uniforme de herói para virarmos vilões. E revelamos, conscientemente ou não, nossas fragilidades e nossos erros…

    E, sim, ficam à mostra homens e mulheres com suas fraquezas, suas rabugices e suas limitações!

    E, sim, ficam à mostra homens e mulheres com seus genuínos defeitos, marcas, cicatrizes atemporais…

    E a vida segue!

    Afinal, o baile não para e não pode parar!

    Entre palavras não ditas e seus silêncios perturbadores, entre palavras que não deveriam ser ditas, mas foram à exaustão, entre reticências e pausas provocadas ou não, vamos nos construindo e nos desconstruindo, tudo ao mesmo tempo…

    E ser um herói durante muito tempo não impede que você se torne um vilão! É assim, num deslize, em uma contramão… Mas como disse, nunca sabemos esse momento exato…

    E desse jeito, viramos o vilão da história ou das histórias! E não, não é vitimização, mas a mais objetiva e sincera constatação!

    No meio disso tudo, vamos sobrevivendo e aprendendo, reaprendendo e ensinando, entre lágrimas e sorrisos, olhares e soluços… Seguimos!

    E talvez seja essa a grande essência da nossa caminhada, um aprender continuamente!

    Não somos perfeitos e nunca seremos.

    E justamente na nossa imperfeição, vamos escrevendo as nossas várias histórias.

    Histórias de conquistas, histórias de fracassos, histórias de amor, histórias de horror, simplesmente, histórias humanas…

  • A última crônica do ano – amanhã há de ser outro dia

    E terminamos mais um ano. Mais um ano que corre e corremos juntos para não perder a viagem! Empacotamos novos e velhos sonhos para o ano que virá…

    O mês de dezembro é assim: o último mês do ano é tão apressado, mas tão apressado que parece querer o novo calendário!

    E correm as pessoas com as festas de Natal e as festas da virada. Roupas, nomes, mensagens, sorrisos, promessas, presentes, viagens…

    E terminamos mais um ano.

    As velhas e repetidas canções de natal, de todos os natais, embalam as ruas e as casas, embalam a fraterna pressa tão típica de fim de ano, todos os anos…

    Mas…

    Mesmo que façamos as mesmas coisas (ou pelo menos, boa parte delas), guardamos dentro de nós mesmos uma certa urgência e uma necessidade verdadeira de acreditar que as coisas vão mudar, vão se acertar… E colocamos confiança, fé, esperança em um novo momento, como se fosse um presente, um bálsamo, um afago que nos dá força para continuarmos a grande aventura da vida…

    Assim, enfeitamos a casa, arrumamos a mesa, chamamos os amigos, colocamos luzes nas janelas, nas varandas, nos quintais…

    Assim, preparamos a melhor roupa, damos um trato no cabelo, organizamos a melhor ceia e colocamos no rosto o melhor sorriso.

    Seguir em frente é preciso… É preciso!

    Termino esta última crônica parafraseando o velho mestre Chico Buarque…

    Apesar das bombas, da cara feia, dos políticos e suas politicagens, dos malandros e das suas malandragens, amanhã há de ser outro dia!

    Apesar das intempéries da vida e dos sobressaltos diários, amanhã há de ser outro dia!

    E daqui a alguns dias, há de ser natal!

    E daqui mais alguns dias, há de ser um novo ano!

    Com toda certeza, será um outro dia!

  • Uma crônica quase poesia

    Uma crônica leve bem leve. Uma crônica como se fosse um beijo. Isso. Como se fosse um beijo. Uma crônica limpa. Sem manchas de maldade ou de egoísmo.

    Ambição de conto? Nem pensar! Uma crônica suave e mansa. Dessas que o vento leva de tão leve e descontraída.

    Uma crônica bem medida de sol e mar e sal. Uma crônica desenhada e bem cuidada. Música ao fundo. Olhos de ressaca. Ressaca de mar que é pro Bruxo do Cosme Velho não ficar zangado.

    Uma crônica tão curtinha. Coitada! Não dá tempo de dizer um oi! Uma crônica assim bem simples deixando as coisas. Deixando tudo e todos. Uma crônica não para ficar intrigado e reflexivo. Não! Uma crônica para sorrir. Uma crônica para abraçar. Uma crônica para cheirar e apertar e acarinhar. Uma crônica leve, bem leve…

    Uma crônica de dezembro, voando no calendário já anunciando o Natal e o fim de mais um ano. Tudo passa tão rápido, não é? Imagina a crônica?

    Fica, então, esta crônica leve, ligeira, perfumada de palavras e mais palavras, quase poesia, quase nada…

  • A fome

    Uma mão vasculha alguma coisa que se possa comer no meio do papel, do plástico…

    Outra mão manuseia as teclas de um computador em um lugar distante e escreve este texto…

    Alguns olhos procuram nas calçadas e nas caçambas de lixo um alimento qualquer…

    Em uma esquina de uma grande cidade, outros olhos observam o espetáculo de luzes e imagens nos telões expostos na avenida.

    Como podemos viver, ao mesmo tempo, tantos avanços tecnológicos e ainda presenciarmos a fome?

    Carros elétricos, robôs, cirurgias a distância, redes sociais, mas há gente passando fome.

    O ser humano já foi à lua (mesmo que haja gente que não acredite), mas não resolvemos a fome do outro.

    O ser humano faz foguetes, pontes, edifícios gigantescos… Perfura o fundo dos oceanos em busca de petróleo, cria satélites e uma estação espacial, mas a fome, a fome de doer a barriga e tirar a dignidade, nunca é resolvida!

    É sintomático perceber que a ganância e a perversidade vão construindo o painel do paradoxo: luxo e lixo, vida e morte, paz e guerra… Indissociáveis? Maquiavelicamente indissociáveis…

    A fome desfigura as pessoas, tornando-as objetos das cidades. Estes seres, carregados de esquecimento, tristeza e fuligem, transitam pelas ruas atônitos, perdidos dentro da própria fome…

    E sente fome a criança que equilibra bolas em um sinal.

    E sente fome a mãe que não tem trabalho, mas precisa alimentar desesperadamente o seu filho.

    E sentem fome centenas de milhares de homens sem nome, uma legião de espantalhos vivos espalhados pelo mundo…

    Fazemos planos mirabolantes, erguemos cidades inteiras no meio do deserto, desenvolvemos mais e mais ferramentas para facilitar as demandas do dia a dia, mas a fome, bruta, pesada, palpável… a fome, continua…

    Ao redor do globo, toneladas e toneladas de comida são jogadas fora.

    A fome, implacável, escancara um mundo difuso e contraditório.

    E esta crônica se encerra com o silêncio…

  • Uma Crônica Canina – Parte 2

    Bem, voltamos ao tema! Voltamos às quatro patas!

    Na última crônica escrita, a primeira crônica canina, eu falei um pouco das minhas experiências com cães: Apolo e Baggio. Um vira-lata e um setter irlandês!

    Depois que Baggio partiu (dezessete anos de muitas brincadeiras), meus pais relutaram bastante em ter um novo cão. A fala que ambos sempre diziam: a gente se apega muito a eles!

    No entanto, minha irmã… Aqui eu preciso abrir um parágrafo para falar da minha irmã. Sabe aquela pessoa que simplesmente ama cães? Pois é… Minha irmã, se pudesse, levaria para casa todos os cachorros que porventura encontrasse na rua. Uma cara de pidão e um rabo abanando seriam o suficiente!

    Parágrafo escrito. Continuemos…

    Meus pais não conseguiram manter a promessa de não ter outro cachorro.  Minha irmã levou para eles um cocker spaniel comedor de melão: Thor!

    Pense em um cão super carinhoso e que não desgruda de você por nada… Pensou? Thor é exatamente assim! Pense em um cão mimado, dengoso, metódico e cheio de manias… Pensou? Thor é exatamente assim!

    Thor vai receber você com uma cara de quem não recebe atenção de ninguém!

    Thor obriga o meu pai ou a minha mãe (depende de quem esteja na cozinha) a ir para a varanda metodicamente após o café!

    Se você estiver com uma fatia de melão nas mãos, vai observar que os olhos de Thor se abrem de maneira expressiva e sobrenatural! Melão acima de tudo!

    Mas brincadeiras à parte, o que sei é que Thor tem alegrado a vida dos meus pais já idosos.

    Um cão é companhia, leveza, cumplicidade e o clichê de todos os que possuem um amigo peludo: um amor incondicional!

    Thor é já um senhor. No acumulado dos seus pelos brancos, ainda corre atrás das coisas e pede carinho a quem quer que chegue!

    Penso em todos os momentos bons que um cão pode nos dar e Thor tem feito um excelente trabalho!

    Bem… ainda falta falar de uma dupla que parece óleo e água, mas isso fica para a última crônica…

  • O Rio sangra

    Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar crianças, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”Darcy Ribeiro

    Desde que me entendo por gente eu escuto, ouço e vejo  a mesma “fórmula” para combater a violência e o narcotráfico no estado do Rio, sobretudo, na capital: Matar!

    E morre traficante, policial e todo ser vivente que ousar respirar no meio do fogo cruzado!

    E morre o próprio Rio, envenenado!

    Esta fórmula é por si só o fracasso já sabido e anunciado.

    Os verdadeiros e grandes donos do negócio nunca são alcançados! Engravatados e graúdos, estão protegidos nos seus castelos e privilégios…

    O Rio sangra! E sangram gerações de cariocas e fluminenses…

    O Rio sangra! E sangra há bastante tempo!

    Como se costuma dizer nas rodas de conversa de tantos e tantos lugares da cidade: chove-se no molhado e enxuga-se gelo!

    Com isso, há décadas a violência assola o estado. E a coisa só piora!

    Avenida Brasil interditada. Linha Vermelha interditada. As cenas de motoristas abaixados nas estradas por causa do tiroteio são fartas e fáceis de se achar. Os corpos empilhados nos becos e nos morros é rotina e se tornou banal. Mães chorando seus filhos é notícia de quase todo dia!

    A violência no Rio virou banalidade! É assunto diário. Pisado e repisado! Reprisado!

    O descaso das autoridades é revoltante!

    O saudoso Darcy Ribeiro, homem das letras e das ações, criador do melhor projeto educacional que o estado e o Brasil já tiveram, os CIEPS, disse certa vez que se em 20 anos os governantes não construírem escolas, faltará dinheiro para construir presídios.

    Darcy já alertava no final dos anos 80! O caminho passa pela educação. Crucial, fundamental, urgentemente necessária. A educação não é milagrosa e, sozinha, não surtirá qualquer efeito, mas sem ela é praticamente impossível pensar um país!

    Darcy não foi ouvido.

    A metáfora viva do descaso é ver aqui e ali em vários pontos do território fluminense algum CIEP (também chamado de Brizolão) arruinado, tomado pelo mato, pelo abandono, pelo tráfico…

    Darcy não foi ouvido.

    E muitos meninos e meninas do Rio tiveram suas infâncias interrompidas. Seja por uma bala perdida, seja pelo aliciamento da marginalidade.

    Darcy não foi ouvido.

    Ou melhor, foi solenemente ignorado.

    Hoje, cercado por facções diversas e por milícias, o estado do Rio possui um “estado paralelo”! Este estado se sobrepõe ao oficial, tem suas próprias leis e sua própria dinâmica e, com seus tentáculos, envolve e absorve políticos e agentes públicos, tornando-se um problema cada vez mais complexo.

    Darcy não foi ouvido.

    Os professores fluminenses recebem o pior salário da federação. Escolas sucateadas. Dinheiro que some pelo ralo… Alunos com pouca ou nenhuma perspectiva! Educação não é prioridade!

    E a massa de jovens no crime só aumenta e alimenta uma máquina…

    A máquina de moer gente prossegue seu trabalho e sua função: matar!

    O Rio sangra…

  • A procura da poesia

    Ah! Carlitos! Se você soubesse da correria desse mundo!

    Corremos ainda mais! E não prestamos atenção em quase nada! Acelerados em quase tudo! Sentimos com pressa! Amamos com pressa! Brigamos com pressa! Desviamos com pressa! Olhamos com pressa! Chegamos ao despudor de morrermos com pressa!

    Os tempos pós-modernos são intensos e corrosivos! Tempos controversos e destrutivos!

    Ah! Carlitos! Se você soubesse…

    O seu humano máquina se transformou ainda mais em produto! Ele não aperta mais os parafusos, mas continua sendo vigiado, monitorado, controlado, etiquetado… incansavelmente!

    E não dormimos direito! E não descansamos direito! E não comemos direito! E não vivemos direito!

    Ah! Carlitos! Se pudéssemos mudar isso tudo!

    O mundo precisa com urgência da poesia do seu andar.

    O mundo precisa com urgência da poesia dos seus gestos.

    Como temos pressa para tudo, não temos mais tempo para a poesia! Ela, coitada, está em algum lugar que não é possível ver na confusão das coisas.

    Mas ainda há esperança…

    Existem criaturas teimosas que leem e que procuram a poesia nas ruas, nas casas, nos muros, nos becos, nos rostos…

    Estas criaturas, resistência destes tempos apressados, não têm pressa e, por isso, procuram a poesia de cada dia em tudo que encontram.

    Ah! Carlitos! Saudade do vagabundo, do garoto, das risadas e brincadeiras ingênuas.

    O mundo já estava se transformando e não tínhamos a menor noção de tudo o que viria, entretanto, no seu tempo, a poesia era mais visível e palpável…

    Em meio aos chips e à fumaça poluidora, a poesia se esconde…

    Em meio ao tremor da luz azul das telas, a poesia se fragmenta…

    Em meio aos gritos e delírios das redes sociais, a poesia se encolhe…

    Mas, de todo o jeito, esse ofício de escrever é de uma teimosia sem igual…

    E enquanto houver olhos que leem e entendem palavras, a poesia será a porção de sensibilidade de que precisamos durante a caminhada…

  • Poema #13: As Naus e o Sonho

    Entre as naus e os sonhos de antes
    Anterior à memória, objeto estranho…
    o mar era só… sem os seus navegantes.
    Calmo, vário e tamanho,

    As águas, um mistério, um senão
    porém, quando teima a criatura humana
    o desejo insistente instiga a mão
    a alcançar tudo, com toda a gana…

    brota na alma um querer
    mais que tudo e muito mais!
    Indo sem ir e vendo sem ver
    do precipício à beira do cais.

    Da imagem fez-se o nobre canto
    do canto nobre fez-se a triste sina
    da sina triste revelou-se, no entanto,
    o mundo de todos, de todos a cisma

    de içar ao alto a mais alta vela,
    cortar as ondas e caminhos abrir
    aos gritos triunfantes da sentinela,
    vendo sem ver, indo sem ir…

    Vendo sem ver, indo sem ir
    A história do tempo mostrou
    Lágrimas, morte, um pesado porvir
    O que figura humana jamais imaginou…

  • Poema: #12: Exercício Pessoano

    A chuva veio tomar
    os meus pensamentos
    e me puxou pelo braço… assim inteiro
    e já não me sou…deixei de ser…
    somos e não somos.
    Várias vozes… absorção.
    Um senão!

    E fica a impressão
    de que a vida se abandona
    na brevidade acelerada das coisas…
    e não somos! Fingimos ser…
    Inventamos, copiamos, fazemos um rascunho…
    E nos deparamos com o sentido inoportuno
    de não querer entender
    e somos!

    Vencido o humano,
    bandeiras ao vento, mastros,
    coração tremulando aos farrapos…

    Quando se escreve, há o momento da perda…
    e, no perder-se, encontramos
    o que no cotidiano…
    damos o nome de poesia.

  • Na ponta do lápis

    Na ponta do lápis, o cronista passeia pelo Rio e vê o mar e o barulho do mar. Na ponta do lápis, o cronista espera o sinal abrir para poder atravessar a avenida que corta o Aterro. Os carros são muitos e ligeiros e, ao que parece, ninguém dá muita atenção ao que está à volta. Mas os olhos do cronista buscam ruas, buscam pessoas e as suas mãos deslizam na folha em branco e procuram as cores e o cheiro da cidade.

    Na ponta do lápis, o cronista sente seus passos sobre a calçada. E vê gente de todas as cores e idades e jeitos e trejeitos. Na ponta do lápis, o cronista imagina um céu bem limpo e um sol bem quente. Na ponta do lápis, há mundos e fundos e há urgência. A urgência de escrever sobre a cidade. O Cristo, lá em cima, observa silenciosamente o movimento das coisas e dos seres: barcas, aviões, pessoas e mais pessoas.

    Na ponta do lápis, o cronista pensa que o Rio de Janeiro deveria ser assim o ano inteiro: um dia calmo, com sorrisos e abraços, com cordialidade, com aplausos e afagos. Na ponta do lápis, o cronista pensa ainda que uma mão sempre deveria ajudar outra mão. Levantar um corpo cansado e abatido pelo tempo é tarefa árdua, mas gratificante.

    Entretanto.

    O lápis escorrega da mão e a ponta acaba por se quebrar. Não há mais nada a fazer. O Rio é o que há: dia nervoso, sinal fechado, obras, correria, calor abafado. Olhos amedrontados, vidros fechados.

    O lápis cai ao chão.

    O Cristo, ainda lá em cima, vê pacientemente o caos, o tumulto, o barulho, a confusão, os gritos, acenos desesperados, a multidão.

    O cronista pensa em mudar de profissão. Talvez ser poeta. Ir na contramão. Talvez ser vagabundo. Encontrar um menino e um cão. Fugir da escuridão. Não pode. Não é José, mas não pode fugir. Não pode. Não pode não!

    Mas.

    O lápis volta à mão.

    E o cronista prossegue o seu trabalho de ver e de dizer o dia a dia. E o que diz é importante. O que vê é delirante. Entretanto há outros olhos e um senão: a recriação. O trabalho de inventar a si mesmo.

    Assim, na ponta do lápis, o Rio de Janeiro se faz uma vez mais prosa, verso e canção.

  • O dia em que não havia mais nada pra sonhar

    Olhou para o lado e não havia mais árvores…

    Olhou para cima e, o céu cinza, cheio de fumaça, impedia qualquer ser vivente de ver o sol!

    Olhou para o outro lado e… não havia mais água!

    Resolveu caminhar entre pedras e destroços, cascalhos, plásticos, objetos já sem valor algum.

    E havia no chão coisas que nunca foram usadas, sacolas e mais sacolas de todas as cores e espessuras. Sacolas cinzas, sacolas verdes, sacolas transparentes…

    Caminhou por um bom tempo sem ver vegetação alguma!

    Caminhou por um bom tempo sem ver água corrente!

    Depois de tanto caminhar, sentou-se perto de um veículo abandonado. Não sabia nem o porquê de estar ali! Qual era seu nome e sua história? Não sabia de nada!

    Sabia apenas que tinha fome e que tinha sede…

    Viu que usava um casaco de muitos bolsos e resolveu procurar nos últimos e óbvios espaços!

    Tirou de um dos bolsos algumas notas! Era dinheiro! Disso sabia! Disso se lembrava! E lembrava que comprava muitas coisas com o dinheiro!

    A fome apertava e a sede aumentava!

    Num gesto rápido, colocou as notas na boca, mastigando cada pedaço e engolindo os valores que nela se estampavam. Cinco. Dez. Vinte.

    A única coisa que pode fazer foi chorar. Soluçar…

    Depois de tudo, adormeceu seu último sono e não sonhou mais porque não havia mais nada para sonhar!

  • Nada de Novo no Front

    Nada de novo no front.

    Mais uma guerra… E as guerras não têm nada de bom…

    E esta crônica, infelizmente, se repete. Mais uma crônica sobre as guerras, quando não se deveria escrever crônicas sobre guerras!

    Contudo, mais uma vez, preciso escrever que não há nada mais estúpido do que a guerra!

    A guerra interrompe o canto. Paralisa o jogo. Congela sentimentos.

    A guerra separa amores, aniquila sonhos, pulveriza infâncias, desmaterializa as coisas e desumaniza os humanos.

    A guerra vive de farrapos e de figuras esquálidas. A guerra se alimenta do medo!

    E por que fazemos tantas guerras?

    A mesma ganância, o mesmo poder, a mesma influência…

    Às vezes, faz-se guerra pelo simples prazer de guerrear. Assim, animalesco e brutal.

    Às vezes, faz-se a guerra por não ouvir. Por não querer ouvir! Por jamais ouvir o que é diferente!

    Outras vezes, faz-se a guerra por querer gritar verdades específicas que um grupo toma para si como a única verdade!

    No entanto, a verdade mesmo é que as guerras ensinam dor e solidão.

    A tradução de uma guerra está nos olhos marejados de uma mãe que não receberá seu filho.

    A tradução de uma guerra está nos traumas e nas memórias de uma nação inteira que segue enfrentando fantasmas…

    A guerra e os estúpidos que a veneram.

    Estes estúpidos amam bombas, flertam com mísseis, beijam metralhadoras e se insinuam com tanques. Não sabem nada da vida! Não querem vida!

    Tragicamente, são sempre os estúpidos a governar e a iniciar todas as guerras…

    Nada de novo no front…

  • Crônica para Cronistas

    Você que faz crônicas, que olha para a rua, para os rostos, sente o vento e insinua um parágrafo…

    Você que, no banco de uma praça ou em uma calçada, vê o movimento da vida e escreve…

    Você sabe o peso de uma crônica?

    Escrever crônicas é traduzir o complexo jogo da vida. É colocar em palavras o gesto, o beijo, a conversa, a fila e a briga, o trânsito, o nada e a terrível falta de assunto…

    Entretanto, antes de qualquer coisa, é preciso reverenciar quem tornou a crônica esse texto tão especial, multifacetado e acessível!

    Quando penso em escrever uma crônica, peço licença aos mestres que escreveram tantas crônicas simplesmente geniais!

    É impossível pensar na palavra crônica e não pensar em tantos cronistas…

    O domínio do humor em Veríssimo! A sensível ironia de Machado! O manuseio das palavras e o senso de observação de Drummond!

    E a poesia de Rubem Braga!!? Passarinhos e passarada!

    A vida conflitante de Clarice!? Apertos, acertos e desacertos! Quem foi que me disse?

    E ainda apresentam o corte, a força, a leveza e o tempero Paulo Mendes Campos, Lourenço Diaféria, Fernando Sabino…

    Ah! E o cenário carioca sem igual em João do Rio? O Rio tão belo em João, nas suas ruas e nas suas cores! João e sua emoção!

    Você já ouviu falar no Sobrenatural de Almeida? Definitivamente, a crônica esportiva ganhou sua forma com Nelson Rodrigues!

    Gingando com as palavras, soube driblar os adjetivos desnecessários outro cronista do futebol: Armando Nogueira!

    A crítica e o engajamento de Lima Barreto! O Brasil e os seus fantasmas!

    E muitas crônicas certeiras e, por que não, faceiras, escreveram também Cecília, Antônio Maria, Vinícius, José Carlos Oliveira…

    Otto Lara Resende e Stanislaw Ponte Preta.

    A crônica deve a todos os cronistas de ontem a caminhada, a formidável estrada, construída texto atrás de texto!

    A partir do momento em que início uma nova crônica, sei da responsabilidade que tenho ao escrever!

    Sei de todos esses nomes e histórias que fizeram da crônica o texto mais brasileiro de todos: irresistivelmente irreverente!

    Um texto tão feito da gente que parece conversa, olho no olho, fala ao ouvido, abraço convidativo, enfim, a crônica nossa de cada dia…

  • Poema #10: OUÇO RUMORES

    Ouço os passos do vento
    Ouço e estremeço…

    Tempo

    Entretempo

    Ouço rumores de vento

    E penso que sou eu
    o vento
    e o rumor

    Momento…

    E o meu corpo
    descolado das palavras
    é brisa marinha

    As ondas me invadem

    uma a uma
    e a sensação da vida e do amor

    preenchem os espaços outrora vazios

    preenchem cada canto
    o olhar de sal

    e as mãos que se quebram de tanto escrever

    As ondas e o vento
    e o meu corpo ainda intacto

    Depois?

    Não ouço mais nada…

  • Admirável mundo novo

    Admirável mundo novo: prédios que desafiam a gravidade, veículos que se movimentam cada vez mais rápidos, produtos e aparelhos eletrônicos que prometem revolucionar a vida de todos nós… E compramos e acreditamos e nos iludimos.

    Admirável mundo novo! Problemas sempre os mesmos. A fome sempre a mesma. A violência sempre afiada. A palavra dos políticos desgastada. O poder e o pudor, desequilibrados e distantes. Caminhos errantes. Mas compramos a ideia. Acreditamos no futuro e nos desiludimos.

    Entre fios e chips e terminais de alta tecnologia, chineses, japoneses e norte-americanos desenvolvem robôs almejando uma cópia fiel do homem. E os cientistas buscam os movimentos precisos, a emoção perfeita, o sorriso certo, o calor medido, o humano. Compramos, acreditamos e nos iludimos.

    Carros andam sozinhos, casas reconhecem seus donos, câmeras espalhadas por todo o lugar. Tudo feito de forma rápida e precisa e direta. Não há tempo a perder porque, afinal, tempo é sempre dinheiro. Não importa o sonho, pela metade ou inteiro…

    Admirável mundo novo: praticidade, estética e velocidade. Precisamos resolver as coisas. As coisas precisam ser belas para nós, assim como nós precisamos ser belos para os outros. Nós e as coisas precisamos ser rápidos. Tudo prático, bonito e rápido.

    Admirável mundo novo! Mendigos e barracos e fuzis e diversos Brasis. O ser ainda humano, cibernético e plastificado, olha, dentro de uma redoma, o novo mundo que inventou. Um mundo cheio de prazeres a preços promocionais, remédios de todas as cores e para todas as dores. O mundo que contempla é de plástico e não há mais água nem cheiro e muito menos verde.

    Mas ainda existem viadutos e criaturas humanas que estão fora da redoma. E ainda há os que choram e que lamentam e que morrem… Ainda há fome e miséria!

    Inexplicável mundo novo!

  • #08 – Ofício

    E todo verso que faço
    Um pedaço de mim está e fica e se vê
    Um outro ninguém sabe, um laço
    que não se sabe onde fica e nenhuma vista lê

    E toda estrofe que nasce
    Meus sonhos e verdades lá estão
    Num outro canto, outras verdades
    No esquecimento ficarão

    Quando o poema, inteiro, surge diante de mim
    É meu o rosto e é meu o nome
    Mas é um outro que não sou eu
    Não sei se isso é o começo ou o fim…

    E então me refaço e me reescrevo
    Junto ou em pedaços o tempo inteiro
    Sou e não sou, tenho ou não tenho
    É este o poeta e o seu ofício primeiro

  • #07 – O Homem dos Muros

    O homem dos muros
    É um ser sombrio,
    Sua imagem causa arrepio
    E gera confusão.

    O homem dos muros
    Grita e divide
    E com força Insiste
    Em mais desunião.

    O homem dos muros
    É uma grande desgraça
    Incita arruaça
    Morte e destruição.

    O homem dos muros
    Nem parece um homem
    A razão e o senso somem
    Na sua louca ambição.

    O homem dos muros
    É um menino mimado
    Birrento e enjoado
    O caos é a sua motivação.

    O homem dos muros
    É o pior presidente
    Não gosta de gente
    Não tem empatia nem coração.

    Coitado do mundo!
    Que dano profundo
    Se um outro discípulo
    Medonho e ridículo
    Pudesse aparecer!

    Coitado do mundo!
    Que dano profundo!
    Se um louco varrido
    De pedra cingido
    Pudesse crescer!

    Ainda bem que no Brasil
    Um país muito gentil
    Isso não há de suceder!

    Aqui o buraco é mais embaixo!
    Tão incerto e tão escuro
    Que não dá nem pra ver!

    Coitado do mundo
    Que dano profundo
    Se outro homem dos muros
    De atos impuros
    Pudesse aparecer!

    Não haveria mais poesia
    Seria tudo monotonia
    Difícil sobreviver!

    Mas enquanto for possível o poema
    Mas enquanto for possível a escrita
    A palavra liberdade estará em cena
    A palavra resistência terá vida!

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