cinema brasileiro

  • O Último Azul

    Qual é o maior pecado que devemos temer em face de nossa caminhada escaldante, que por vezes é gélida de emoções? 

    A certeza.

    Essa é a grande inimiga da união entre os povos, e da tolerância que espreita nossos atos mais dignos.

     Quando Jesus estava na cruz também não teve certezas, por volta das três da tarde bradou em voz alta: Eloí, Eloí, lema sabactâni? 

    Que significa: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”

    O que realmente nos mostra o valor de seguir com o melhor do entendimento humano, é a fé naquilo que imaginamos ser correto, ou acreditamos ser o melhor caminho para trilhar junto aos nossos mais próximos. 

    A dúvida, que promove a contínua busca pelo auto descobrimento, se torna o estopim na procura pelo sentido da vida. 

    Se houvesse somente a certeza e nenhuma dúvida, não haveria o mistério que cerca a esperança mais digna de esforço. 

    Não teríamos fé em nada, em nenhuma possibilidade de dissimulação, sem continuar duvidando do que se apresenta como certo a frente de nossos olhos. 

    Para pedirmos perdão depois de um erro e sermos humildes no entendimento do que se passa, basta não aceitar como os acontecimentos ocorreram e se permitir seguir mais leve.

    Por vezes somos exigidos a sermos fortes e de ferro, porém, somos feitos de carne e osso, por isso a resiliência é um ato muito humano.

    Mesmo aos 77 anos de vida suas oportunidades desfilam a frente para que no estender de seu braço, sejam escolhidas a esmo, e se tornem a próxima experiência, a ser vivida a partir de seu olhar construído até então. 

    Como mostra o filme‘ O Último Azul’ que ganhou o Leão de Prata no último festival de Berlim, e trouxe á tona o direito de sonhar e a crença de que nunca é tarde para encontrar um novo significado na vida, da importância em reeducar o olhar para um tema tão urgente. 

    O filme conta sobre o sistema perene, criado pelo Governo brasileiro, de isolamento vertical compulsório para idosos com mais de 80 anos, ficarem confinados em uma colônia.

     Teca, representada pela atriz Denise Weinberg, tem 77 anos e mora na aldeia de Muriti, na Amazônia, quando é surpreendida pelo anúncio da redução de trabalho por idade, inclusive de sua faixa etária. 

    Encurralada, ela faz uma intrigante viagem escondida dos oficiais em meio a rios, barcos e o submundo, para tentar realizar clandestinamente seu último sonho, fazer um passeio de avião. 

    Imagino que você esteja escolhendo sua próxima aventura em sua tenra idade, ou talvez, na mais rica de todas.

  • O filme Vitória revela o Rio, tratando a questão do etarismo em interpretação corajosa de Fernanda Montenegro

    Saí do cinema pisando leve. Há uns dias, minha esposa vem dizendo que quer ver Vitória. Confesso que não estava muito empolgado. Sei lá. Talvez por uma frustração pirracenta de não ter podido ver uma penca de filmes nos quais eu estava super interessado, mas que só passam em algumas poucas salas de cinema das capitais, morando eu no interior.

    Pois bem. Nesta tarde, resolvemos o assunto e fomos assistir ao novo (e, dizem alguns, último) filme da primeira dama da dramaturgia brasileira. Entramos no cinema com o filme iniciado há uns dois minutos, no máximo. Não sei explicar o motivo, mas foi sentar e já chorar na primeira cena, com Dona Fernanda andando no calçadão de Copacabana, na pele da aposentada Nina, uma idosa que mora sozinha e faz bicos de massagista. Cenas comuns, sem grande carga emotiva – apesar de dramáticas -, iam se sucedendo, e as lágrimas não paravam de cair. Eu já estava preocupado com o que as pessoas iam pensar ao notarem que eu chorava. Um rapaz, inclusive, ria de cenas não cômicas, algo que já me causava aborrecimento. Pensei eu “Do que esse cara tá rindo? São cenas sérias, com a interpretação séria de uma das grandes atrizes do planeta no que se imagina ser o final de sua carreira”. Cheguei a ficar indignado, com vontade de perguntar ao cara “Qual é a graça?”. Na segunda metade do filme, minhas lágrimas cessaram. Tá certo. Não é um filme pra fazer espectador chorar. Não o espectador médio, normal. Não quero, com isso, dizer que como público de cinema, sou um espectador especial. Longe disso. Na verdade, nem me considero mais um cinéfilo. Meu choro, em boa parte da exibição, fugiu, aliás, da minha compreensão. Talvez eu estivesse muito mais emocionado com Fernanda Montenegro em cena, do que com qualquer outro aspecto.

    Vitória é um filme, a meu ver, irrepreensível. Fernanda está boa de verdade. A atriz praticamente se supera, como se isso fosse possível ou necessário. A personagem por ela interpretada é uma mulher de coragem ímpar. Uma mulher lutando para resolver um problema. Na trama (aqui, um pequeno spoiler), Nina tenta – e consegue – desbancar um esquema de venda de drogas envolvendo traficantes e policiais. Claro, sabemos que o crime no Rio de Janeiro é um negócio que gera milhões, sobretudo para alguns influentes “cidadãos de bem”, e, por isso, não são imagináveis soluções fáceis. No entanto, possíveis soluções não surgirão se os habitantes da metrópole maravilha mutante não fizerem, com alguma dose de coragem, sua parte.

    O que vi foi um filme enxuto, redondinho. Em alguns momentos quase minimalista. Tudo funcionou muito bem, fazendo de Vitória uma parte importante desse momento especial vivido pelo cinema brasileiro. Na figura da idosa Nina e de Fernanda Montenegro, que a interpreta, somos presenteados com um verdadeiro libelo contra o etarismo. Obrigado, Andrucha Waddington e toda a equipe desta produção tão especial, tão séria e tão delicada! Obrigado, cinema brasileiro!

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