Coluna ‘Cães & Pessoas’ de quarta

  • A brevidade da vida – parte 1: A inefável decisão da eutanásia

    Não era meio-dia quando entrei em casa e vi Rex andando, em seu passinho lento, ao redor da mesa. Paty na cozinha, Duque deitado aos seus pés: uma cena comum do meu dia a dia. Dei um beijo em Paty, afaguei a cabeça do Duque e fui falar com Rex. Desde que ele apresentou a demência, minha atenção se voltou inteiramente para a sua segurança.

    Nossos cães são cegos de nascença, mas vivem confortavelmente nessa condição, apesar da idade avançada. Ainda que pese a saúde fragilizada de ambos, Rex recebe nosso cuidado mais atento, embora seja Duque quem tome um monte de remédios e carregue um coração cansado.

    Notei Rex cambalear mais do que de costume naquela manhã. Nesse instante, caminhou em minha direção e caiu diante de mim. Peguei-o no colo e o levei para a cama. Era quarta-feira quando ele mergulhou em um sono profundo de quase 24 horas: sem comer, sem beber, sem reagir aos nossos estímulos.

    Na manhã seguinte, nosso veterinário veio vê-lo. Encontrou-o naquele estado quase vegetativo, sem reação ou sinais de melhora. O que disse não foi nada animador: algo neurológico, sem grandes perspectivas. Para nós, restava esperar e alimentar esperanças. Confiamos plenamente no Dr. Maurício. Eu o conheço há mais de duas décadas e sei que, naquela sua maleta de medicamentos, ele pode carregar muitas esperanças.

    Na sexta-feira, depois de quase dois dias acompanhando um Rex catatônico, falamos pela primeira vez em eutanásia. “Não podemos deixá-lo morrer de inanição”, disse Paty. Decidimos que seria no domingo, com todos em casa e tempo suficiente para uma despedida tranquila.

    No sábado, Carol veio. Eu sabia que ela viria — não só por Rex, mas, principalmente, por Paty. Carol tem essa sensibilidade de chegar e abraçar quando mais precisamos. Coisa rara em muita gente.

    Uma vizinha sugeriu que fizéssemos uma oração com Rex, e eu a fiz na calada da madrugada, antes de o dia amanhecer, justo no dia em que o veterinário viria para fazer as duas aplicações que poriam fim àquele sofrimento.

    No domingo pela manhã, Rex ergueu o tronco e deu alguns passos antes de arriar novamente — para, enfim, sair da inércia, beber água de coco e conseguir comer sem a nossa ajuda.

    Adiamos a eutanásia. Era o certo. Pelo menos enquanto houver qualquer resquício de dúvida.

    Hoje é terça-feira. Rex conseguiu comer um pouco de carne moída. Voltou a urinar em pé e, depois de seis dias, a andar ao redor dos móveis novamente. Há vida pulsando dentro dele, neste exato momento.

    Há uma frase da escritora Camila Appel que diz: “Evitar falar da morte não afasta o fim”.

    Mas há algo que ela não diz, e que a vida ensina à força: às vezes, quando nos preparamos para a morte com toda a lucidez possível, é a própria vida que nos surpreende e pede mais um pouco de tempo.

    E, nesse pouco, cabe tudo, inclusive, cultivar a esperança.

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