Coluna Cinema – por Carlos Collet

  • O Céu de Suely

    O “Céu de Suely” é um filme brasileiro do ano de 2006, dirigido por Karim Ainouz. Esse filme contou com as interpretações de Hermila Guedes, Marcélia Cartaxo e Zezita Matos.

    O filme inicia com a personagem principal, Ermila, em um campo de terra junto com o pai de seu filho. Nessa cena, a personagem dança com um ar de muita felicidade, enquanto recita as promessas que seu companheiro, Marcelo, fez dizendo que faria dela feliz por ser o grande amor da sua vida. Tudo começa prometendo ser um grande romance…

    No entanto, o céu que Ermila, depois Suely, materializa em torno dessa promessa de seu ex-companheiro logo cai. A personagem, então, aparece retornando a sua terra natal junto de seu filho, Marcelo Jr., com a promessa de Marcelo de em breve ir encontrá-la na cidade onde se conheceram. Daí em diante, a vida de Ermila vira um misto de decepções e… sonhos. Sim, mesmo passando pelas mais diversas crueldades da vida, Ermila jamais deixa de sonhar.

    Essa história espelha a de muitas mulheres no Brasil que, acreditando na paixão, são enganadas pelos seus parceiros e passam a viver a realidade cruel da maternidade solo. Essa tarefa que é cansativa, por gerar a necessidade de cuidar de um ser humano e gerar sustento para o lar, e cruel, mas que mostra a força dessas mulheres diante desses desafios injustos impostos pela vida.

    “O céu de Suely” nada mais faz do que narrar uma realidade. Aquela que se constrói por meio de sofrimentos, mas também muita esperança. Nesse sentido, merece destaque a trilha sonora do filme que é carregada de regionalismo e mostra a riqueza cultural que o Brasil tem.

    Tudo isso que foi comentado, faz dessa uma obra muito interessante para ser lembrada como uma das grandes produções brasileiras. Esse é apenas o segundo longa-metragem de um dos diretores que considero, na atualidade, um dos grandes do cinema brasileiro. Vale a pena conferir.

    O Céu de Suely
    2006 | 16⁩ | Drama
    Sinopse: Para conseguir dinheiro, uma mãe decide rifar o próprio corpo para uma noite de paixão, chocando a cidadezinha onde vive com seu empoderamento feminino. Elenco: Hermila Guedes, Georgina Castro, Maria Menezes, João Miguel, Zezita Matos, Mateus Alves, Gerkson Carlos. Direção: Karim Ainouz.

  • Sobre “A melhor mãe do mundo”

    Nos últimos dias, tenho percebido nas redes sociais a grande repercussão que o filme “O Filho de mil homens” tem tido. Trata-se, realmente, de uma obra muito interessante e sobre ele quero comentar após ter lido o livro que o originou, de Walter Hugo Mãe. No entanto, gostaria de usar esse espaço para falar sobre outro que foi cotado para ser indicado ao Oscar e, também, está disponível na Netflix. Ou seja, “A melhor mãe do mundo”, de Anna Muylaerte.

    Ele retrata uma série de acontecimentos na vida de uma catadora de lixo chamada Gal (Shirley Cruz). Nele, a personagem é obrigada a fugir da casa onde vive com seu companheiro Leandro (Seu Jorge) em razão das agressões que vinha sofrendo deste pelo consumo de álcool. Ela pega seus dois filhos, Rihanna (Rihanna Barbosa) e Benin (Benin Ayo), e inicia uma grande epopeia pela cidade de São Paulo.

    Nesse sentido, me chama atenção o fato de o filme não estar sendo tão comentado quanto deveria, pois diferentemente de atores famosos, o protagonismo fica com aqueles que ainda não são muito conhecidos. Entretanto, esse fato não tira o mérito das atuações, Shirley Cruz entrega uma excelente atuação no potente papel que lhe foi conferido. Os intérpretes de seus filhos também estão muito bem.

    Um dos fatores que merece destaque é a construção dos personagens. Isso porque, diante de uma atmosfera de miséria e precarização, não seria um crime se eles não dessem nenhum espaço para a felicidade. No entanto, a história demonstra um espírito brasileiro que, mesmo diante de sérias dificuldades, não renuncia às pequenas gigantes coisas que os mantém vivos, ou seja, seu churrasco, cerveja ou time de futebol, pois elas são essenciais para viver e sobreviver. Como diria o grande filósofo Zeca Pagodinho “Deixa a vida me levar”.

    Gal é, então, uma sobrevivente que utiliza a felicidade e a fantasia como recurso para a fuga de uma realidade cruel. Esse fator me fez associar o filme ao clássico de Roberto Benigni, A vida é bela. Eu diria que “A melhor mãe do mundo” é a versão brasileira desse filme com todas as adaptações que a realidade do país exige. A cena do banho na Fonte dos Desejos, especialmente, me levou a essa comparação.

    Vale, ainda, ressaltar a coragem de Anna Muylaerte ao trazer à tona a importância das ocupações diante da tragédia causada pela especulação imobiliária no centro de São Paulo. Embora eu nunca tenha morado e conheça pouco a cidade, sei que o tema é amplamente discutido e nele são evidenciadas injustiças sociais nuas e cruas do sistema capitalista. Por isso, falar sobre movimentos sociais, em um momento em que o fascismo faz coro para incriminá-los, é essencial.

    Por fim, destaco que esse texto não se trata de uma crítica ao protagonismo de “O filho de mil homens” pois esse é um filme que trata de importantes temas e merece ser assistido. No entanto, precisamos começar a olhar com carinho para a realidade dos esquecidos e marginalizados por nosso sistema e “A melhor mãe do mundo” é importante pois ajuda a fazê-lo.

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