Coluna ‘Falou e Disse’ de Sábado

  • A armadilha do lugar-comum

    Língua é como roupa ou sapato – desgasta-se com o uso.  Precisa ser continuamente renovada para não perder o vigor. A tendência dos falantes e escreventes, às vezes por preguiça mental, é lançar mão de clichês e modismos que debilitam a expressão, reproduzindo chavões cuja obviedade torna o texto raquítico e previsível. Usá-los é como se servir de um estoque já pronto, que dispensa o pensamento. Segundo Alcir Pécora, em “Problemas de Redação” (Martins Fontes), eles são “o túmulo do estilo”; evitá-los é condição fundamental para se pensar e escrever bem.   

    É comum alertar os redatores contra o vício das gírias, que na linguagem formal devem ser evitadas, mas por vezes se esquece de adverti-los sobre um inimigo bem mais perigoso e sorrateiro – o lugar-comum. Prevenir-se contra a gíria é fácil. Bem orientado, o redator evitará palavras como “bacana”, “maneiro”, “barato”. Ou construções do tipo “A polícia levou em cana o traficante”, “O presidente não está nem aí para o aumento dos juros”, “A prova foi beleza”.

    Mais difícil é escapar dos clichês. Eles são frequentes, por exemplo, no vocabulário dos comentadores esportivos. Quantas vezes não lemos que um time conseguiu o empate “ao apagar das luzes”? Ou que a contratação de certa pessoa vinha “preencher uma lacuna”, porém a sua atuação “deixou muito a desejar”? Para se “reverter um mau resultado”, é preciso “garra e determinação”. Time que “não faz o dever de casa” pode se deparar com o “fantasma do rebaixamento”. Quem sofre algum tipo de revés não tem outro remédio senão, a duras penas, “correr atrás do prejuízo” (é curioso que, mesmo tendo sido prejudicado, ainda se deva perseguir o prejuízo, e não dele escapar!).   

    A política, com a sua retórica surrada, é outra fonte de lugares-comuns. Uma das marcas dos clichês políticos é tentar compensar a ausência de ações com o uso de palavras ocas, demagogia verbal. Muitos dizem se candidatar por um chamado da “voz rouca das ruas”. Se, eleitos, não fazem mais pelo povo, é por “falta de vontade política” dos correligionários. Quem não promete em campanha um “combate implacável à corrupção”? Se o governo é acusado de não “fazer o dever de casa”, é por “intriga da oposição” (expressão que de tão frágil naquilo que pretende mascarar – a incompetência da situação –, já se incorporou ao anedotário nacional).

    A par dos lugares-comuns, há os modismos. Estes são como uma enxurrada – vêm com força mas, felizmente, logo vão embora. Alguns aparecem no rastro de programas televisivos, como o famigerado “Me poupe!”. Outros se ligam ao ambiente acadêmico, a exemplo do intragável “fazer uma colocação” em vez de simplesmente “manifestar um ponto de vista”.

    Sempre que trato deste assunto, lembro-me do tempo em que fui aluno do escritor Cyro dos Anjos na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A disciplina era Oficina Literária, e o autor de O amanuense Belmiro, Abdias, Montanha e outros bons romances de linhagem machadiana frequentemente nos alertava para o risco das “chapas” – expressões batidas, frases feitas que se tornaram previsíveis e desgastadas pelo uso contínuo.         

    Certa vez Cyro nos entregou uma relação com várias delas. Por exemplo: implacável destino, esposa exemplar, insidiosa moléstia, virtudes imarcescíveis, radiosa manhã, irresistível impulso, olhar glacial, perigoso meliante, nobre colega, vasto repertório, etc. etc. Guardei esse papel, que utilizo para prevenir os alunos contra a armadilha do lugar-comum.

    É preciso fugir deles… como o Diabo da cruz! Como o leitor pode ver, nem sempre é fácil.

  • Carnaval e Solidão

    “Festa do pecado” – foi com esse tipo de rótulo que o Carnaval, desde cedo, apresentou-se à minha imaginação. Falava-se nele como “festa da carne”, alegria dos baixos instintos, frenesi do demo. Por isso eu sempre o recebi com uma ponta de remorso. Brincar o carnaval era transgredir não sei que piedosas regras, era se comprometer com o inferno. O corpo gozava, mas esse prazer de poucos e efêmeros dias acabava tendo um preço.

    No entanto o Carnaval não é apenas gozo do corpo, prazer dos instintos. Comporta uma outra dimensão, cheia de fantasia e sonho, alimentada pelo dramatismo de paixões que entristecem e dilaceram. Em cada folião ou foliã anônimos, sonhando nas esquinas sombrias com o próximo parceiro, reflete-se a paixão transfigurada de Pierrô, Colombina e Arlequim. Ninguém admite que saia à rua apenas para brincar – pelo contrário: a brincadeira é também esperança de algo maior, transcendente. É o sonho de uma grande paixão, o desespero fantasiado em riso.

    Dos autores que escreveram sobre essa festa, um dos que mais me impressionaram foi João do Rio. Há em suas crônicas e nos seus contos o sentimento do homem dividido entre a alegria e o remorso, e para quem o prazer físico é uma emoção torpe. João do Rio retrata a belle époque, tempo de crise e subversão de valores no qual as contradições, por mínimas que fossem, ganhavam um acento patético. Mesmo descontando-se os exageros da época, ressalta de seus textos, colorida e potencializada pelo impressionismo do estilo, a velha oposição entre carne e espírito, que comumente vem à tona numa época como a de agora. 

    E lá estão, nos textos do carioca, personagens ansiosos por mergulhar na noite, perder-se na devassidão e no abismo de outros corpos. Vão arrependidos, exalando em palavras de autocomiseração e tédio o odor de seus baixos instintos. Até que são punidos por uma espécie de logro que lhes é dado pelo objeto de desejo, que se apresenta horroroso e hediondo.

    Assim, por exemplo, a mulher mascarada e aparentemente linda revela-se, quando lhe arrancam a máscara, doente e disforme. Não é uma Vênus, como parecia; é um aleijão, de cujo nariz jorra pus. Por essa deformação estética, que frustra qualquer possibilidade de satisfação física, corrige-se um desvio ético e revela-se, ao mesmo tempo, o moralismo do autor. O esnobe e homossexual João do Rio, tão criticado pela sociedade da época, não passava de um moralista severo.

    Mas o nosso tempo é outro, bem mais prático e comercial. Longe estamos dos excessos da belle époque. Hoje é o governo que alardeia preocupação com a nossa saúde venérea, incitando-nos ao uso da camisinha. O pecado é não se prevenir, ficar doente, mas não é errado transgredir os limites do corpo. Este parece aberto a todo tipo de prazer. E a virgindade vale muito pouco.  

    Mesmo assim o Carnaval ainda preserva o romantismo de outros tempos. É falsa, mesmo na permissividade da folia, a alegação de que ninguém é de ninguém. Para além do corpo que se oferece, em riso lúbrico e escancarado, sonhamos com alguém que venha e não vá embora. Alguém que fique e nos socorra depois – quando a lembrança do gozo desfeito não for mais que uma evidência de solidão.

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