Elisa sempre quis ser advogada. Formou-se bacharel em Direito e exerceu a atividade jurídica durante quatro anos numa firma de advocacia, especializada em Direito Familiar. Após a graduação, passou em concurso público para ocupar o cargo de Juíza Substituta. Começou a atuar ao lado de um Juiz Titular, para adquirir experiência. Depois de cinco anos, foi promovida a Juíza de Direito.
No seu fazer cotidiano, lidava com divórcios amargos, disputa por guarda de filhos e acusações de violência doméstica. Era obrigada a conviver com decisões sobre pensões alimentícias, investigações de paternidade e partilha de bens. Aos poucos foi se sentindo exaurida e descrente no ser humano.
Nunca se soube se por estresse natural do ofício, por concentração excessiva no trabalho ou mesmo por sua natureza, desenvolveu um transtorno mental crônico: o desejo irresistível e irracional de furtar coisas. Em geral, objetos desnecessários e de preferência com baixo valor comercial. Estava cada vez mais complicado controlar seus impulsos. Eram estojos de anzóis, sem que ela tivesse a mínima intenção de sair para pescar; bolas de tênis sem nunca ter segurado uma raquete; mamadeiras e brinquedos de criança, sem que pudesse engravidar ou pensasse em adoção. Enfim, uma obsessão descabida. Ainda mais para uma Juíza de Direito de uma Vara de Família. E isso a estava deixando, com razão, preocupada.
Durante as audiências, via os rostos dos réus e dos advogados com seus olhares acusadores, como se soubessem de sua mania de furtos ocasionais. Vieram a seguir os constantes pesadelos, sendo flagrada, julgada e sentenciada como uma ladra contumaz. Sua foto nos jornais e na tevê. Escândalo.
Aquilo precisava ter um fim. Sabia que seu problema tinha cura com medicamentos e psicoterapia, mas a vergonha era maior. Como imaginar uma Senhora Juíza de Direito reles gatuna. Teria de se livrar daquele infortúnio sozinha e do seu jeito. Na marra.
Os esforços foram inúteis. Numa loja de souvenirs pegou um daqueles modelos da estátua do Cristo Redentor para turistas e colocou na bolsa. Surpreendida pela funcionária da loja, disse que havia se esquecido de ir ao caixa pagar.
Na semana seguinte, saía de um restaurante sem pagar a conta. O garçom a conhecia e não ousou ir atrás. Na certa, a Juíza tinha se esquecido e voltaria. Elisa não retornou.
Os atos compulsivos cada vez mais frequentes. Era forçada a admitir que a cada pequeno roubo sentia um grande alívio emocional.
A Excelentíssima Juíza sofria e não enxergava uma saída.
Durante uma sessão, deu a guarda de uma menina de oito anos a um pai suspeito de ser abusivo, somente por que a mãe usava a menina para efetuar pequenos roubos. Como uma autopunição. Os colegas começaram a notar que Elisa aparentava oscilações de humor e parecia distante. Eram evidentes seu cansaço e falta de motivação.
Elisa decidiu procurar um clínico geral e ouviu dele que talvez estivesse padecendo de síndrome do esgotamento profissional. Burn out. De resto, a saúde ia bem. Receitou-lhe comprimidos para reduzir a compulsão e que tirasse uma licença para descansar.
Elisa resolveu viajar. Sair do país, esquecer seu trabalho, as responsabilidades, dar uma escapada desse mundo. Não iria mais se policiar. Chega de cobranças, basta de comportamentos repressores. Soltar a franga.
Decidida, Elisa entrou num shopping para comprar uma mala nova para a viagem. Depois de procurar, pegou uma Sansonite vermelha, último lançamento, uma belezura. Com toda a classe de Juíza, saiu sem pagar com calma e elegância, como se aquela mala de rodinha naturalmente já lhe pertencesse. Segundo o Artigo 331 do Código Penal Brasileiro, daria ordem de prisão a quem a acusasse de qualquer delito típico caso de desacato à autoridade. A Excelentíssima Juíza Elisa tinha pensado bem e decidido: perderia de vez o juízo.