CONTO DE ADRIANO ESPÍNDOLA SANTOS

  • Consciência econômica

    Não tenho mais medo do futuro. Minha mulher sempre me falou para curtir o presente, que “a vida é o agora!”. Mas, filho de um pai escrupuloso, tive a tendência de seguir os seus passos seguros. Criado por ele, devia ter uma “consciência econômica” – esta frase ecoa ainda hoje – quanto aos gastos, inclusive com a alimentação. Não se podia tomar mais de dois copos de café por dia.

    Não se podia comer mais de um pão francês. Tudo era racionado, fracionado, e nos regalávamos de migalhas. Havia momentos, claro, em que ele não estava em casa, e eu comia um pouco mais de açúcar, com o maior prazer do mundo, porque um adolescente em crescimento, hoje eu sei, precisa se alimentar muito bem – e fui privado disso, pela bendita consciência econômica de um pai contador, alucinado por números.

    Meu pobre pai faleceu na pandemia, aos setenta e cinco anos, e mal aproveitou a aposentadoria. Um fato inusitado é que encontrei, um dia depois de sua morte, ao arrumar a casa com a Gerusa, a antiga empregada, embaixo de sua cama, um monte de dinheiro vivo, inclusive dinheiro que nem valia mais, como cruzeiros-novos. Era absurdamente uma cena que só se ouve falar ou se vê em filme.

    Nessa brincadeira, ele deixou uma herança monstruosa de quase meio milhão – havia, ainda, seis contas em bancos, e eu não imagino o porquê; perguntei a alguns gerentes se ele movimentava, e a resposta era quase óbvia: “Não!”. Poderia ter usufruído. Poderia ter viajado, comprado um carro bom, mas tudo para ele era seguir a régua da “simplicidade”.

    Tinha um carro velhinho, bem cuidado, é verdade, mas muito fora de moda, com pelo menos vinte anos de uso. Seguir a trilha do meu pai me fez, por muito tempo, um homem nervoso, preocupado e irritadiço. Lembro-me, por exemplo, de jantar muitas vezes banana na faculdade, com medo de acabar o reles dinheiro que meu pai me dava todos os dias, como se fossem dez reais. Lanna, minha esposa, foi quem me tirou desse perrengue eterno. Ela não suporta avareza. E eu, apaixonado, tive de segui-la – de início foi muito doloroso. Fui abraçando (e sendo abraçado) e me libertando.

    A imagem de meu amado pai passou a ficar escassa, jamais esquecida. Até os vinte e sete anos, data em que conheci a minha mulher, me sentia extremamente reprimido – exatamente quando foi lançada aquela música homônima dos Menudos. Nós ríamos disso; ainda hoje ela canta quando dou sinais de pão-durismo. Hoje, com a pequena bolada do meu pai, ao invés de investir em imóveis, como boa parte das pessoas faz, invisto no meu tempo de qualidade, com meus filhos e minha esposa.

    Amamos Buenos Aires, então viajamos regularmente para passarmos as “vacaciones”. Quem dera pudesse ter levado meu pai a Buenos Aires. Ele amava Carlos Gardel. Queria ter proporcionado a ele uma vida de alforria – embora, é bem verdade, ele pudesse tê-lo feito por si próprio.

  • O peso da vida

    Tento não crer nessa tristeza que me abala. Já são muitos os motivos para sofrer. Tá pensando que é por coisas externas, como a falta de minha mãe? Não, absolutamente. Perdi-a, como perdi o meu pai, num acidente de trânsito, ainda na infância. Fui criado por uma tia pobre e carrasca. Ela se satisfazia em me ver padecendo. A comida era fracionada. Seus filhos comiam mais. Nunca fui com a cara de nenhum, todos bandidos, literalmente; são assaltantes finos. Perdi o contato com eles quando o mais velho foi preso, em outro estado. Também não faço questão de tê-los por perto. Na verdade, é um grande alívio não ver titia e os seus filhinhos, que para ela não têm nenhum defeito. Disseram-me para procurar ajuda psicológica, e ri disso, porque ninguém vai saber o que sinto por dentro. Mesmo que eu fale, eles estarão passivos, esperando a minha melhora. Por que sei disso? Porque já fui a um par de psicólogos que me relegaram à sorte da insanidade. Tenho problemas com o que mora dentro de mim. Muitas vezes me acocoro ou me deito no chão para passar a ânsia da dor que me invade – é uma alternativa que me dá um pouco de consolo; e o faço em locais diversos, mesmo no shopping, quando fui pela última vez, há dois anos. Tenho medo dessa solidão, que não tem por quê. Já tive amigos, mas os perdi com o tempo, com a minha modorra, com o meu pouco-caso, por que estava preocupado com as minhas loucuras, com as necessidades geradas por um país capitalista. Mas como poderia trabalhar, se não me dava bem com gente? Sim, tenho muito medo de gente. Um médico, amigo da família, numa simples olhada, disse que eu era bipolar e fóbico. Saí arrasado do consultório. Como pode uma irresponsabilidade tamanha de sequer me ouvir?! Ele não me escutou, tirou o parâmetro por causa do meu histórico familiar, principalmente do meu pai, que era atendido por ele. Não me deu perspectiva nenhuma, maldito. Morreu na covid, com os bolsos estufados de dinheiro e soberba. Sinto muito, mas não sei mais quem sou. Perdi-me em desalinhos, em desconexões da minha mente atulhada de sentimentos vazios. Um único amigo que me restou disse que eu era capaz, que podia superar essa dor. Sei que tenho apoio moral, por causa dele; ele me salva nos momentos mais difíceis. Mas suas palavras, às vezes, se perdem no ar, como se ele estivesse falando com o nada, com o limbo do meu ser. Sou um homem triste do fim dos tempos. Não me acalanto com qualquer pegada. Nenhum evento social me agrada. Na verdade, como disse, me dá um medo desesperador. Quero fugir, e, quando não consigo, vou ao banheiro e passo o tempo necessário para me restabelecer minimamente. Evito os eventos sociais. Nilo, meu amigo, disse que preciso enfrentar, mesmo com medo, e o faço por ele, em encontros na sua casa, onde reúne a patota da infância. É o único momento que sinto ser possível, mas logo, no outro dia, recai sobre mim o peso da vida.

  • Matei

    Nada que pudesse dizer me livraria do pecado. Eu havia matado, ainda que por puro instinto e defesa. Naquela noite, eu lembro, estava afobado e cansado. Entrei em casa arrastando a bolsa do trabalho no chão. Havia brigado com o meu chefe Roberto por causa da sua implicância comigo; ele tem a mania de dizer que faço corpo-mole, e isso é mentira: dou o meu sangue para a empresa. Cheguei em casa como um verdadeiro verme ambulante. Não tinha estímulo para nada. Amanhã seria um novo dia bosta de trabalho. E não tinha com quem conversar (Raul, meu filho, viajou, pela terceira vez, com a namorada para a sua casa de praia). Aliás, não tenho amigos, e isso parece ser um grande defeito. Não acredito nas pessoas. Já levei muito cano, então prefiro me afastar de todo mundo, principalmente da minha família, que acha que tenho dinheiro e vive a me pedir uns trocados. O cachorro Brandy foi o primeiro a dar o alarme. Soube que estava em perigo. Armei-me, no ato, para pegar o que fosse capaz. Mais uns barulhos, notei a presença de alguém na casa. Era certo que havia alguém no local, mas tive medo mesmo foi de fantasma. Não gosto de ficar só em casa por isso. Você pode se perguntar se um homem adulto pode ter medo. Tenho porque já vi meu bisavô passeando pela casa. Foi um dia que deu uma tremenda confusão; atirei a esmo, e a vizinhança chamou a polícia. No final, felizmente, não deu em nada. Não identificaram de onde saiu o disparo. Então, perguntei quem era e o que queria. Nenhuma resposta. Não sou covarde. Repeti o chamado, e nada me respondeu. Quando vi a criatura na minha frente, plantada, sem reação, atirei três vezes. O carinha agonizou e morreu rápido. Não deu tempo de a ambulância chegar, já estava morto. Era uma experiência incrível, abominável para mim. Eu havia matado uma pessoa. Nunca havia pensado nisso, que poderia, de fato, matar alguém. Que merda! Não queria que terminasse assim. Pensei em me matar (minha vida já estava uma bosta mesmo). O policial que me prendeu e me levou à delegacia me demoveu da morte. Ele disse que eu teria de prestar esclarecimentos. Depois soube que o homem que invadiu a minha casa era um vagabundo morador de rua, de nome Glauber. Eu o matei e não dei chance de se explicar. Agora, não consigo dormir de remorso. Será que ele queria comida, o miserável? Na verdade, não queria matar. Merda! Dei à polícia a minha arma. Não quero mais me meter com isso. Meu filho veio me ver e disse que arma foi feita para matar, que nunca compactuou que eu tivesse uma em casa. Só faltou dizer que matei um inocente. Meu filho passou mais um dia comigo e se debandou para a namorada. Só choro e não tenho com quem desabafar. Que noite terrível! Agora, é saber elaborar, com os meus cacos, esse triste desfecho.

  • A falta

    Na falta de Ana, me apeguei a Larissa. Não é que fosse um pai relapso, mas dei muita importância ao meu trabalho, e deixei a infância de minha filha de lado. Não sou também um pai muito amoroso, apesar de tentar. Minha filha sempre procura chamar a minha atenção com conversas desconcertantes, como paquera e outras coisas do gênero. Não consigo ver sexualidade numa menina de oito anos. Por que ela está pensando tanta besteira? Meu Deus, às vezes me dá um aperreio incomum quando penso que ela pode engravidar cedo, e falo, ríspido, que não me venha com essas conversas de adulto. Quando Ana partiu, há seis meses, vítima de um câncer brutal, percebi que só havia eu e Larissa. Ela, também, fez de tudo para ter a minha atenção. Não quero que sofra um pingo do que sinto. Mas é inevitável, perdeu a mãe, a quem tanto ama. Para isso, não tenho explicações. A menina está rebelde e revoltada com a vida; não aceita que Deus tenha levado o seu grande amor. Ela jura não crer mais num Deus carrasco, que destruiu a nossa família. Tento amenizar, mas não tenho forças, e acho até que ela tem um pouco de razão nessa revolta toda. Marina, minha irmã, diz que há um presente de Deus que eu devo guardar com todas as minhas forças (que me restam), a presença física e o amor da minha filha. Minha irmã é muito católica, daquelas fervorosas e exageradas, então eu escuto o que tem a dizer com parcimônia, nem tudo levo a sério. Ela disse que minha filha é um anjo que Deus colocou na terra para cuidar de mim. Não penso exatamente assim, porque minha filha tem suas arengas, seus defeitos, suas implicâncias comigo, que até cheguei a duvidar, quando minha esposa era viva, se devia mesmo ter sido pai, porque não tenho tanta paciência, sou um pouco estressado com rebeldia desnecessária. A menina agora cismou que quer uma bicicleta motorizada, para ir sozinha à escola, porque jura que já é grande e tem capacidade para isso; porque moramos a cerca de três quadras do colégio. Não vou comprar uma bicicleta motorizada para uma pirralha se achar a dona do mundo, para andar por cima da carne seca (seus amiguinhos). Lutei muito para conseguir as minhas coisas, então lhe disse que terá de trabalhar, na idade certa, para ter os seus bens, inclusive a bicicleta motorizada; não vou dar essa colher de chá, apesar de ainda ter muita pena dela. Na verdade, estamos, os dois, de luto. Apoiamo-nos na medida do possível. Mas permito que ela elabore a perda irreparável, e isso resulta em gritos e pontapés; é uma cena pavorosa de se ver. Ana amou demais, por isso foi tão amada. Só fez o bem. Até eu mesmo me revolto com Deus. Isso não é justo. Ana não merecia ir tão rápido. Ela era uma alma esplendorosa na Terra. Iluminava aonde chegava. Agora estamos órfãos de um amor dadivoso. Não sei como isso vai terminar.

  • Herança

    Não há palanque para bobeira. De minha parte, não vou dar cartaz. Lícia tem a mania de aparecer, de se fazer chamativa na internet. Quer ser influenciadora. Mas de quê, meu Deus? Não tem modos. É exagerada. Uma pessoa pobre, insuportavelmente sem intelecto. Não gosta de ler. Já falou que abomina os livros – espero que não diga isso para os seus influenciados – que também não têm nada na cabeça, só pode, para seguir uma pirralha metida a sabichona. É praticamente um dinossauro falante. Uma coisa absurda, que solta fuligem pela boca, para falar, muitas vezes, sobre sexo. Um dia desses assisti a um de seus vídeos. Ele tinha cerca de trezentas mil visualizações. Ela falava sobre o prazer e o gozo, com a espontaneidade de quem tinha anos de experiência. Ela só tem dezenove anos. Até onde pude, proibi. A mãe também é uma desleixada, não cuida da filha como ela merece e precisa. Faz as vontades da pequena guria, para não a ver birrenta pelos cantos da casa. Por último, comprou um celular ultramoderno, desses da Apple, porque ela disse que precisava muito de um material bom (excelente) para fabricar as suas matérias. Além do mais, a pirralha tem um namoradinho baixo-nível, um sujeitinho como ela, com pouca instrução. Quando o conheci, ele teve a decência de pedir a mão da minha filha em namoro, então desarmei. Sentamo-nos para conversar enquanto minha filha se trocava para saírem. Comecei conversando amenidades, depois parti para a guerra em Gaza. Ele não tinha a menor ideia do que seria o Estado de Israel e Gaza; não sabia onde se localizava no mapa; gaguejou ao falar que de fato não sabia o que estava acontecendo. Depois que minha filha saiu do quarto, perguntei a ela se teria alguma noção do que seria a guerra em Gaza. “Ah, pai, lá vem com as perguntas moralistas, para me deixar com vergonha na frente do meu namorado…”. Enfim, enrolou e não falou sobre isso. Para que ela faz vídeo para a internet, se não sabe o que os inocentes passam numa guerra sem sentido? Noutro bendito vídeo, a que assisti pela metade, a menina falava sobre suas maquilagens – algo que domina como ninguém –, e igualmente, como naquele vídeo, tinha uma porção de visualizações. Ela quer mesmo ganhar a vida assim. Deixou a Faculdade de Direito ainda no primeiro ano. Tudo bem, se diz que não tem nada a ver com ela, mas que faça outra faculdade; nem isso ela quer. O namoradinho, Jamal, é cantor de rap. Nada contra, inclusive gosto de Racionais, mas o que ele pode fazer de diferença, se não tem noção do mundo que o rodeia?! São dois bobocas. Minha filha me disse que se baseia em outras influenciadoras. Ou seja, reúne nada com nada na cabeça. Mas é minha filha e eu vou ter de dar um jeito nisso, porque não quero essa exposição tola, essa babaquice como herança.

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