Conto de Mário Baggio

  • OS CADERNOS

    “Sempre diremos tudo um ao outro, inclusive o que não for bom. Mesmo o que for desagradável deverá ser dito. Porque calar é perigoso. Não nos separe o silêncio, nunca.”

    Assim foi o pacto que fizeram Carlos e Isabel, tão logo se descobriram apaixonados e dispostos a viver juntos vida afora. “Tem a minha palavra”, disse Carlos. “Tem a minha palavra”, respondeu Isabel. Casaram-se poucos dias depois. Ao cabo de dez anos, com a paixão um tanto esgarçada e frouxa, ainda mantinham o acordo dos primeiros anos.

    Carlos:

    — Sabe, querida, o que seria bom? Que você aprendesse a cozinhar direito de uma vez por todas. As pessoas costumam seguir algum livro de receitas para preparar comida decente, caso não tenham aprendido com a mãe. É fácil, basta saber ler. Outra coisa: seria muito bom também que você perdesse uns quilos. Sua saúde e sua autoestima agradeceriam. Depilar as pernas com mais frequência também é uma ótima ideia. O que você acha?

    Isabel:

    — Eu acho que não vou fazer nada disso, querido. Se fosse para mudar alguma coisa, melhor seria que você tomasse a iniciativa. Sua voz é irritante, parece um pato engasgado. Quando você ri, tenho vontade de enfiar uma faca em sua boca. Falta-lhe inteligência. Essa sua barriga peluda me causa náuseas. Não fosse a minha estranha fixação pelo casamento, já o teria abandonado há muito tempo. Estou bem assim, com esses quilos a mais.

    Os dois logo compreenderam que seu relacionamento estava naufragando e buscaram ajuda. Uma amiga recomendou um terapeuta especialista em casais em crise. Foram vê-lo.

    Terapeuta:

    — A relação de vocês está indo mal pelo excesso de sinceridade. Eu sugiro um remédio simples: o silêncio. Parem de dizer tudo o que pensam um do outro. Acostumem-se a falar pouco e a trocar somente frases cordiais. Habituem-se a escrever o que realmente desejariam falar. Façam isso em segredo, nenhum dos dois precisa saber o que o outro escreveu. Aqui estão dois cadernos, em que anotarão as coisas ruins que deixarão de falar. Desejo sorte ao casal. Sejam felizes.

    Carlos e Isabel saíram do consultório carregando cada um o seu caderno. Durante meses seguiram rigorosamente a orientação do terapeuta. A comunicação entre os dois tornou-se mais afável, embora curta. Os diálogos se reduziram à troca de algumas frases na frente da televisão. No restante do tempo, dedicavam-se a registrar no caderno o que não diziam um ao outro. Quando um volume ficava cheio de anotações, compravam outro. Os cadernos foram se multiplicando com assustadora rapidez e logo a casa começou a ficar cheia deles. Estavam empilhados em todos os cômodos, até no banheiro e embaixo da escada. Cadernos, muitos, uma imensidão deles. Tantos, que Carlos e Isabel tiveram que abandonar a casa e procurar outra moradia. Os cadernos, cheios de frases não ditas, não deixaram espaço para os antigos moradores.

  • O segredo da boa colheita

    Ao entardecer, quando o estranho passou, meu irmão e eu abrimos-lhe o crânio com o grosso ramo de videira que usamos para ocasiões semelhantes. Um único golpe, preciso e sem fúria, nada mais. O chapéu que o estranho usava empoleirado na cabeça rolou alguns metros adiante. Meu irmão o apanhou do barro vermelho e o pôs na sua própria cabeça. Será um ano bom, produtivo e faremos um bom dinheiro — isso foi o que concluímos, meu irmão e eu, apenas com uma troca de olhares.

    Arrastamos o estranho até o paiol e acendemos a lamparina de óleo. A luz embaçada fez brilharem as pás dos ventiladores de teto, espantando os morcegos. Arregaçamos as mangas e estudamos por alguns minutos o corpo inerte do estranho. Era um homem de quarenta e poucos anos, forte e parrudo, farto de carnes, gordura e músculos. Um perfeito fertilizante natural. Abrimos uma vala funda ao pé de uma videira e lá o enterramos com cuidado, como manda a tradição nas vésperas da colheita. Assim, o sangue drenado do corpo sem vida do estranho manchará as uvas, suas carnes nutrirão as raízes e fortalecerão as gavinhas e seus ossos darão vigor novo a esta terra queimada pela névoa e pela geada. A vinha crescerá até que o suco flua, nobre, único, virtuoso de sua fermentação secreta.

  • Os labirintos da noite

    Com o tempo, minha mulher se acostumou com meu sonambulismo. A convivência tem dessas coisas, entre elas o dom de converter nossos atos mais estranhos em aborrecida rotina e agora, quando me levanto no meio da madrugada, ela não mais se incomoda e continua dormindo.

    Há algumas noites uma novidade se incorporou à minha mania de caminhar de olhos abertos, embora estivesse dormindo: o alcance da minha ronda. Antes restritos ao espaço da sala, cozinha e área de serviço, meus passos agora me levam para lugares um pouco mais distantes. Acontece assim: pego a chave, abro a porta da frente, cruzo o jardim e entro na casa vizinha. É uma casa exatamente igual à minha, por dentro e por fora. Na entrada, há o mesmo cabideiro onde costumo pendurar o casaco de inverno; na sala, o televisor ocupa lugar idêntico e na frente dele há a mesma poltrona de veludo marrom. Na parede da direita, a mesma reprodução de um quadro de Volpi e, sobre a mesa de jantar, idêntico vaso de gerânios vermelhos. Igual tapete cobre o chão do corredor. Na cozinha, os armários e utensílios como se fosse cópia. No dormitório, reconheço a mesma cabeceira da cama, em carvalho maciço, as duas mesinhas, uma em cada lado, e o abajur sobre elas. Um casal dorme tranquilamente, e noto como ela é bonita, tão bonita quanto minha mulher.

    Dando um longo suspiro, o homem se levanta dormindo de olhos abertos e, tão natural quanto o amanhecer ou o pôr do sol, caminha quarto afora. Ele passa por mim sem me notar. Eu ocupo seu lugar na cama junto à mulher adormecida. Ela cheira a alfazema. Vejo pela porta entreaberta que o homem atravessa o corredor, entra no escritório e começa a digitar velozmente no computador. A impressora faz barulho quando cospe as folhas, mas nem assim ele desperta. Em seguida, ouço que ele abre a porta da frente e sai para o jardim, carregando nas mãos um maço de papéis. Pela janela, vejo que ele entra em minha casa, cuja porta eu tinha deixado aberta. A mulher ao meu lado de repente acorda, me abraça e mostra que deseja fazer sexo. Fazemos, entre o cheiro de alfazema, o dos lençóis recém-lavados e o do nosso corpo quente.

    Quando acordo, percebo que estou em minha casa de novo, deitado em minha cama e com minha mulher ao lado. Não pergunto nada a ela, pois não quero saber. Levanto-me e olho para a casa vizinha: as cortinas ainda estão fechadas, o carro segue estacionado na garagem e o jardim, como sempre, com a grama aparada.

    Eu ainda não conheço nossos vizinhos. Enquanto tomava café, perguntei, sem olhar para a minha mulher, de maneira dissimulada, se ela os conhecia. Ela respondeu que só de vista, um “bom dia” e nada mais, e mudou de assunto. Terminei o café na mesa do meu escritório onde encontrei, ao lado do teclado do computador, e como em todas as manhãs, o novo capítulo impresso de um romance. E eu não sou escritor.

  • GUERNICA

    Um dia o azul desapareceu. Olhamos para o céu com cara de espanto. Alguém palpitou que uma tempestade se aproximava, mas aquele cinza parecido com aço sobre a cabeça de todos não tinha nada a ver com os temporais costumeiros do mês de abril. Era diferente. Havia um cheiro, um quê desconhecido que tornava aquele dia distinto. O amarelo também sumira. Ao anoitecer a luz acabou. Os namorados não se encontraram, as ruas ficaram vazias e o silêncio se impôs, tão duro que se podia cortar com faca. Nem carros, nem bulício, nem passos: a cidade estava muda.

    Pouco a pouco, como se fosse mágica, todos vimos o verde sumir diante de nossos olhos e até o carvalho milenar, parte inseparável de nossa paisagem diária, perdeu a pujança. Alguma coisa desconhecida sugou lentamente sua seiva, o tronco já apresentava rachaduras e a árvore imponente logo viria abaixo. Quase ninguém teve coragem de sair para a roça. Quem se atreveu, por força da rotina, regressou coberto de cinzas, como se um grande incêndio tivesse devastado o vale em que vivíamos.

    O choque foi maior quando percebemos que o vermelho também desaparecera e, incapazes de distinguir o sangue do barro, erguemos nossos punhos e gritamos com as gargantas cheias de poeira. O céu despencou com fúria, ferro e fogo sobre nossa cabeça.

    Na tela branca, Pablo desenhou formas delgadas, línguas apontando para o alto, corpos retorcidos em ângulos improváveis, animais em agonia, mães que choram. Foi o que ele viu. Em seus olhos nublados estava refletida a imagem de uma guerra em tenebroso preto e branco.

  • O que acontece dentro de casa

    O que acontece dentro de casa deve ficar dentro de casa, eu acho. É assim que eu penso, e por isso nunca o denunciei. Minhas amigas sempre me diziam que era o que eu devia ter feito desde o início, mas, o senhor há de compreender, a gente nunca quer que as pessoas saibam o que acontece entre as quatro paredes de um lar. A vergonha me paralisava e eu ficava quieta como um caramujo dentro da concha, e ele se sentia livre para fazer o que quisesse. Eu chorava quando ele saía para a rua.

    Antes era diferente: ele não me batia. Soltava palavrões, me insultava, quebrava as coisas que estivessem perto. Eu me escondia atrás da porta da cozinha e ele descontava sua fúria na madeira. Está vendo essas rachaduras aqui?

    As humilhações foram só o começo de tudo. Um dia ele rasgou minha roupa e me fez desfilar nua pela casa, tocando meus órgãos genitais. Fez com que eu me masturbasse na frente de um espelho enquanto ele bebia e gargalhava.

    Na primeira surra ele quebrou meu maxilar com o punho fechado. Perdi dois dentes e ganhei essa cicatriz aqui no queixo, está vendo? No hospital, ele me pediu perdão e disse que isso nunca mais iria acontecer. Mentira. Aconteceu sim, muitas vezes depois.

    Até que um dia eu apontei a espingarda na direção dele, e ele não conseguiu esconder o espanto. Parou e levantou os braços. E sorriu. Sim, senhor, ele sorriu. As últimas palavras que me disse foram: Você não tem força nessa boceta para apertar o gatilho, mamãezinha!

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