Conto de Quarta por Adriano Espíndola Santos

  • Enfim, Carnaval…

    Já sei bem que é Carnaval. Os sons da rua anunciam a jornada – repare que até os pássaros são proibidos de cantar, com a arruaça que se desorganiza pelo Centro da cidade. Ronaldo, meu vizinho, saiu cedo, às 5h, e me deu notas de como serão as suas aventuras pelas praias do Ceará. Falou que iria de Beberibe a Paracuru, com os detalhes de ser uma grande viagem em família. Parariam nas praias para curtir um pouco do que tinham para dar. “Sou folião nato, Inojosa, desde que era pequenininho seguia o meu pai nessa trilha!”. Ele sabe que não gosto de festa nem nada, e mesmo assim, por educação, me chamou, num carro lotado com filhos, esposa e bugigangas. Onde já se viu eu participar de um fuá desse?! Coisa de gente maluca! Na verdade, na mente, eu pedia que ele fosse logo e me deixasse em paz – ele conversa pra burro, além do mais. Nem quando Lourdes era viva gostávamos de carnaval. Uma vez ou outra íamos para um bloquinho, mais por ela, e eu fazia a sua vontade. Víamos, no Centro, o passeio das escolas mixurucas daqui, onde os carnavalescos passavam bêbados e desinteressados na beleza. Hoje, me escondo, até mesmo de meus filhos. Eles também não são muito chegados a Carnaval, mas topam ir a uma praia desfrutar, coisa que jamais tenho ânimo de fazer. Carnaval é período de tristeza infernal, não sei bem o porquê. Fico mais depressivo se vejo na televisão o passeio das escolas de samba. A alegria dos outros me incomoda? Não é bem isso, não gosto de ver pessoas mais tristes do que eu; tampouco a felicidade exagerada me atrai. Todo o drama deve ter a ver com o meu pai, que era muito farrista, e minha mãe que ficava em casa chorando, “cuidando” dos filhos, também chorosos por causa da mãe. Era um desastre. Uma lamúria que fazia a minha avó passar os dias de Carnaval enfurnada em nossa casa, para pelo menos fazer a nossa comida, para se preocupar com a casa e com as criancinhas desprotegidas – enquanto minha mãe, como disse, se acabava de chorar; por isso não gosto de pessoas mais tristes do que eu. Ah, sim, deve ser por isso que odeio Carnaval. Não suporto Sapucaí e seus afins. A Bahia, então, tão linda, para mim, no Carnaval, vira o buraco do cão. Por isso eu me circundo, me enclausuro. Mando até Mariana, a minha filhinha mais querida, pastar. Ela veio me pedir para passar este Carnaval com ela, em casa, enquanto o marido se “distraía” em uma praia qualquer – olha a história se repetindo. Cada qual que cuide do seu Carnaval. No meu apartamento não há espaço para som, especialmente no meu quarto, com janelas contra ruídos. Aqui está tudo pronto para o fim. E, assim, deixo o Carnaval passar – simplesmente passar –, como todos os vendavais.

  • Fervor

    Não tinha nenhuma pretensão de me esquivar. Sou jogo aberto, embora um pouco carrancudo. Apesar da minha masculinidade exacerbada, dei total liberdade aos meus filhos. Paulinho era o único que não se abria muito. Vez ou outra, mesmo depois da separação de sua mãe, tentava uma saída só nossa, para assistir a um filme ou tomar uma. Ele sempre desconversava, e eu sentia uma saudade danada. Paulinho, depois dos dezessete, notei, se tornou introvertido. Um menino superativo na infância havia se tornado tímido, retraído, por conta, decerto, da pressão social. Lógico percebi a mudança de voz, ou uma leve mudança de voz. Acompanhado a isso, traços de feminilidade transbordavam, não tinha jeito, por mais que tentasse camuflar. Nunca toquei nesse assunto, para não o atordoar com bobagens. Que me importava se meu filho fosse gay? Porra, nunca tive preconceito algum! Paulinho não me permitiu ser seu amigo como gostaria de ser. Outras pessoas da família, sim, pegavam no pé, e eu mandava todos se ferrarem. Peguei uma briga foda com parte da família sacana, cacete, bolsonarista – agora, não me faz a menor falta. Nada poderia atacar o meu menino doce e humano. Quando pequeno, na casa dos dez anos, Paulinho começou a ir aos hospitais para cuidar de crianças com câncer. Ele ia vestido de palhaço, com sua trupe, e eu ficava superenvaidecido. Sensibilidade à flor da pele. Paulinho só queria viver sua vida tranquilo, em paz. Os irmãos não o incomodavam. Jorginho e Juninho não metiam o bedelho, e era uma festa quando se encontravam, apesar da diferença de idade – Paulinho era bem mais velho que os novos rebentos de um outro casamento. Estou, na qualidade de pai e amigo, pegando na mão de meu filho neste segundo e rezando para que esse pesadelo passe logo. Ele está na UTI porque consumiu grande quantidade de remédios. Os médicos e a polícia fizeram um calhamaço de perguntas sobre a tentativa de suicídio; se eu sabia qual era o motivo; se alguém poderia ter influenciado essa atitude desvairada. Respondi que a merda da sociedade era que tinha arrebentado o coração do meu filho. “Seu guarda, meu filho só queria ser gay em paz, entende?!”. A psicóloga do hospital veio conversar comigo, para que eu me desarmasse quando meu filho voltasse à vida. Disse a ela que eu era o seu maior incentivador; que isso não era problema algum. Está sedado agora. Mas pode me escutar, eu creio. Prometi que ele seria a bicha mais linda do mundo, ou a mulher que desejasse ser. Que eu faria de tudo para que, de uma vez por todas, ele fosse feliz. Percebi uma lágrima caindo de seu olho esquerdo. A verdade é que vamos sair daqui direto para um salão de beleza, e Paulinho, ou Paulinha, se sentirá a mulher mais bela do Brasil. Todo meu dinheiro será empregado para isso. Nenhuma dor assolará mais o coração de meu filho.

  • Herança

    Não há palanque para bobeira. De minha parte, não vou dar cartaz. Lícia tem a mania de aparecer, de se fazer chamativa na internet. Quer ser influenciadora. Mas de quê, meu Deus? Não tem modos. É exagerada. Uma pessoa pobre, insuportavelmente sem intelecto. Não gosta de ler. Já falou que abomina os livros – espero que não diga isso para os seus influenciados – que também não têm nada na cabeça, só pode, para seguir uma pirralha metida a sabichona. É praticamente um dinossauro falante. Uma coisa absurda, que solta fuligem pela boca, para falar, muitas vezes, sobre sexo. Um dia desses assisti a um de seus vídeos. Ele tinha cerca de trezentas mil visualizações. Ela falava sobre o prazer e o gozo, com a espontaneidade de quem tinha anos de experiência. Ela só tem dezenove anos. Até onde pude, proibi. A mãe também é uma desleixada, não cuida da filha como ela merece e precisa. Faz as vontades da pequena guria, para não a ver birrenta pelos cantos da casa. Por último, comprou um celular ultramoderno, desses da Apple, porque ela disse que precisava muito de um material bom (excelente) para fabricar as suas matérias. Além do mais, a pirralha tem um namoradinho baixo-nível, um sujeitinho como ela, com pouca instrução. Quando o conheci, ele teve a decência de pedir a mão da minha filha em namoro, então desarmei. Sentamo-nos para conversar enquanto minha filha se trocava para saírem. Comecei conversando amenidades, depois parti para a guerra em Gaza. Ele não tinha a menor ideia do que seria o Estado de Israel e Gaza; não sabia onde se localizava no mapa; gaguejou ao falar que de fato não sabia o que estava acontecendo. Depois que minha filha saiu do quarto, perguntei a ela se teria alguma noção do que seria a guerra em Gaza. “Ah, pai, lá vem com as perguntas moralistas, para me deixar com vergonha na frente do meu namorado…”. Enfim, enrolou e não falou sobre isso. Para que ela faz vídeo para a internet, se não sabe o que os inocentes passam numa guerra sem sentido? Noutro bendito vídeo, a que assisti pela metade, a menina falava sobre suas maquilagens – algo que domina como ninguém –, e igualmente, como naquele vídeo, tinha uma porção de visualizações. Ela quer mesmo ganhar a vida assim. Deixou a Faculdade de Direito ainda no primeiro ano. Tudo bem, se diz que não tem nada a ver com ela, mas que faça outra faculdade; nem isso ela quer. O namoradinho, Jamal, é cantor de rap. Nada contra, inclusive gosto de Racionais, mas o que ele pode fazer de diferença, se não tem noção do mundo que o rodeia?! São dois bobocas. Minha filha me disse que se baseia em outras influenciadoras. Ou seja, reúne nada com nada na cabeça. Mas é minha filha e eu vou ter de dar um jeito nisso, porque não quero essa exposição tola, essa babaquice como herança.

  • Eternidade

    Quanta solidão. A todo tempo me vejo irremediavelmente só. O meu quarto é o meu abrigo, de onde vejo o céu escasso, tetos e paredes rachadas. Ainda me pergunto, qual foi o grande mal que fiz? Não sei. Mariazinha, minha irmã, muito preocupada, se derretia em atendimentos a mim, seu único irmão, doente. Vinha pelo menos umas três vezes na semana para me visitar. Ficou doente, de uma hora para outra, e eu que ia lhe visitar aos sábados ou domingos, pois na semana não costumo sair. Meus sobrinhos a enchiam de mimos, porque, realmente, ela era uma mulher muito digna e boa. Mas a doença logo se espalhou e Mariazinha morreu se vendo de dor. Ela não merecia isso. Pedi tanto a Deus para me dar o sofrimento dela. Quando ela se foi, me vi mais perdido. Passei meses em casa sem receber uma visita sequer, a não ser de Raimunda, a empregada da casa vizinha, que vez ou outra se compadecia de mim e deixava uma sopinha. Não fui capaz de amar, eis a questão crucial. Todos os meus relacionamentos foram baldados, curtos e ínfimos. Logo eu me enjoava dos pedidos de amor eterno, etc e tal. Podia ter suportado mais a Anna, que era a mais cautelosa, de poucas palavras, mas, com minha ira sem nome, me fartei de sua palidez. Ela foi boa, até demais, a ponto de me impregnar de desejo de ter um filho. Mas ela saiu muda, e para sempre se foi de mim, nunca mais tive notícias. Mariazinha, que parece que mantinha ainda contato, disse que ela, de desgosto, teria ido morar no interior, em Mauriti, voltado ao aconchego dos pais. Agora estou aqui, velho, doente, sem um socorro. Não tive filho algum. Era o meu sonho, mas em nenhuma barriga a minha semente vingou. Foi assim que pensei por anos. Até que na terça-feira passada me surgiu um homem de seus quarenta e tantos anos. Disse que me conhecia por fotos. Pediu para entrar. Não permiti, dado que não o conhecia e que a casa estava uma bagunça. Então, soltou que era meu filho e queria me conhecer melhor; que sua mãe Anna o teria prevenido de que eu era uma pessoa muito difícil de lidar; que tivesse cuidado para não ser escorraçado de sua casa. Na hora, chorei feito uma criança. Mostrei a ele o meu lado sensível, humano, escondido há anos, que só ele merecia ter e ver. Teria um colo e um abrigo, quando precisasse. A minha fome era tanta, de ter alguém ao meu lado, que não pedi exame de DNA, já o considerei aí meu filho. Agora estamos buscando aplacar o tempo, porque, além de tudo, sou avô de duas crianças lindas. Tenho fé de que teremos condições de recuperar o nosso processo, inacabado. Falei a ele, ali, ainda do outro lado da porta, que o amava muito; que tinha pena dele, de não poder ter tido tempo de me conhecer antes, para eu paparicá-lo. Veja, não sou um homem mal, mas iracundo, ranzinza, pela crueza da vida. Pedi que entrasse e me desse um abraço. Um abraço que durou a eternidade.

  • Peregrinação

    Nikita mandou o recado por Leozinho. Disse que queria me ver morto. Leozinho pediu para eu tomar cuidado, porque o velho Nikita é brabo e vive ameaçando o povo. Mas não sei o porquê dessa desavença toda. Nikita mal me conhece, exceto pelas andanças no bairro. E olhe que mal ando no bairro, a não ser para ir ao trabalho e comprar alguma coisa na bodega do senhor Assis. Evito passear com os meus filhos, porque a pracinha, à tarde ou à noite, é ambiente escuro e arriscado; há bastante consumo de droga e malfeitos, como pequenos furtos. Melhor não dar sorte para o azar. Tenho evitado visitar a minha mãe, que mora num bairro próximo, porque ambos os lados não estão para brincadeira. Antes de comprar o imóvel, conversei com uma porrada de amigos, e eles foram unânimes em dizer que não era uma boa; que, para chegar num bairro assim, do nada, deveria ter contato com alguns moradores, para ser protegido. Pequei, como sempre peco, com a minha ansiedade, com a minha vontade acaçapante. Sou um cara impulsivo, devo admitir. Já entrei em algumas roubadas, fazendo negócios escusos, não por minha culpa (achava que tudo isso era normal), mas porque era influenciado para ganhar dinheiro fácil vendendo motos adulteradas. Felizmente nunca fui pego pela polícia. Saí do ramo quando Roberval foi preso, por receptação de moto roubada. O pobre do meu amigo comeu o pato sozinho, e senti uma sensação forte de me entregar, mas não consegui pela covardia, e porque pensei nos meus filhos e na minha esposa. Voltando à nova morada, quando cheguei aqui, Nikita só me olhava atravessado, botando a mão no cós das calças, dando a “sugesta” de estar armado. Ele me colocava no outro extremo do bairro, como se me enxotasse só no olhar; sentia ódio a mim. Sei que Nikita é um velho policial, com fama de matador – Leozinho me informou com detalhes, e eu fiquei cabreiro por dias, sem dormir direito, porque o cara é, além de mau, frio. Depois da pandemia e da aposentadoria, o dito cujo montou uma bodega, mas nunca pisei lá, claro – e nem pisaria nas minhas piores necessidades. Sei que o sujeito não gosta de mim, não quero afrontar. Ainda fico matutando pra saber o que eu fiz para ser perseguido. Leozinho, meu vizinho, diz que “eu tenho as coisas”, carro, moto, e o velho é invejoso. Além do mais, o que me dá medo, é que parece ser metido em milícia e quer ser o dono do bairro. Segundo Leozinho, volta e meia ele cobra uma cota de “segurança” do bairro – ainda não fui atingido. Vou me adiantar e pegar o beco, antes que seja tarde demais. Terei de vender a casa, que ainda estou pagando. Era meu sonho ter uma casinha como a minha. Não posso botar a vida da minha família em risco. Devia ter averiguado essas coisas antes, mas não conhecia ninguém aqui. O fracasso é a pior das sensações. Estou sendo, veladamente, mandado embora, sob o risco de perder a vida. Melhor sair e viver em paz.

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