Conto de Quinta

  • A loja de despedidas

    Na estação rodoviária da cidade, entre um quiosque que vende lembranças para turistas e uma lanchonete, há uma loja de despedidas. Ali, os viajantes solitários — aqueles seres que transitam de um lugar para outro sem que haja ninguém que se despeça deles — podem escolher a melhor forma de partir da cidade. Há despedidas para todos os gostos, ânimos e possibilidades financeiras. Os atores contratados pela loja, de todas as idades, são muito experientes e treinados nesse mister, e sabem demonstrar a dose exata de emoção que momentos como esses pedem.

    A um preço bem camarada pode-se comprar um aperto de mão, daqueles que acontecem entre dois conhecidos cordiais, pulso firme e olhos nos olhos. Ou então um abraço sincero de um amigo querido, de quem se sentirá muita saudade. Outra despedida bastante procurada é aquela que envolve a família toda, com direito a lágrimas e a recomendações como “ligue quando chegar lá” e “proteja-se do frio”. Esse tipo de despedida tem como bônus um abraço coletivo e emocionado entre pais, filhos, tios e sobrinhos do viajante.

    A despedida mais solicitada é, sem dúvida, a do beijo e abraço da namorada. É o produto mais caro da loja, mas os viajantes solitários não se importam com o preço. Acreditam que é um dinheiro bem gasto aspirar o perfume que sai dos cabelos da moça quando ela se aproxima sorrindo e de braços abertos. Sua voz sussurrada no ouvido do viajante, dizendo o quanto sentirá a falta dele, o quanto o ama e o quanto sofrerá com sua ausência, é música para quem está sozinho na rodoviária, cercado por desconhecidos. Por um pequeno valor adicional, o viajante poderá ainda desfrutar de uma caminhada de braços dados com a namorada pela plataforma, com direito a olhares de amor, carinhos no rosto e um último abraço apertado pouco antes do ônibus arrancar.

    A lembrança das despedidas compradas pelos viajantes solitários costuma acompanhá-los durante boa parte da viagem, confortando seu coração e seus pensamentos. Assim, fica um pouco menos dolorosa a sensação de exílio que experimentam a cada partida.

  • O magro, o gordo e o miúdo

    Os três dividiam a cela. Um era alto, magro de olhos pequenos e negros, outro era gordo e de corpo nervoso, o terceiro era miúdo e de pouco espírito. Foram condenados à morte por um tribunal improvisado. Isso era tudo o que sabiam a respeito de seu destino. Nem se preocuparam em ler a sentença, conteúdo já sabido pelos três. Também não lhes disseram quando seria a data fatal. Eles só esperavam, jogando baralho e alguma conversa fora. De vez em quando interrompiam o jogo e apuravam os ouvidos para escutar as vozes e os gritos vindos do pátio, e em seguida o barulho dos tiros. Assim que o silêncio se impunha, eles voltavam às cartas.

    Passou o tempo e a rotina da espera da morte entrou nos ossos dos três como uma febre que os deixava inquietos. Os nervos gritavam, e por pouco não chegaram às agressões físicas. Não seria bom para nenhum deles. Sossegavam depois de uns minutos e logo cada um ia para um canto. O gordo às vezes lambia o reboco da parede em busca de outro sabor que não o da comida rançosa que serviam ou da saliva grossa de tabaco que inundava sua língua. O miúdo estacionava os olhos no muro alto na frente da janela; tinha ouvido falar que um tal Leonardo da Vinci fazia isso quando precisava de inspiração: olhar para um ponto e deixar os olhos esquecidos lá até… O magro escrevia um romance; não num papel, que isso não tinha na cela, nem lápis ou caneta ou giz: escrevia na mente. Construía as frases com cuidado, corrigia, lia os parágrafos em voz alta, comentava o enredo com os companheiros, corrigia de novo. O romance progrediu junto com os dias e as horas e chegou a quase trezentas páginas, duzentas e oitenta e nove em conta certa, com espaço dois entre as linhas e fonte Times New Roman. Bem memorizado, uma noite o magro o leu de uma só vez para os outros dois, que gostaram muito da história.

    Mas que inferno se torna a vida quando a espera brinca com a exasperação! O magro, o mais sensato deles, propõe que os três leiam o livro que escreveu. Foi tanta leitura, que o gordo conseguiu memorizar todas as páginas. Fez correções e sugeriu alterações no rumo do enredo. O autor acatou e corrigiu o original. E teve uma ideia: se algum deles se salvasse da morte, deveria publicar o romance em papel. Os três concordaram que aquela era a melhor história que já tinham lido na vida, e o mundo merecia saber disso. O romance ficou ainda melhor com as leituras e correções seguintes, até o ponto em que, quando vieram buscá-los para a execução, nenhum deles duvidava de que se tratava de uma obra-prima.

    O primeiro a ser levado foi o magro, e era um dia de sol quente; bastou um tiro. Depois foi a vez do gordo, e no dia em que o mataram chovia; foram necessários dois tiros porque o corpo dele era grande e a gordura, espessa. O miúdo e de pouco espírito foi indultado. Saiu da prisão e foi para casa, onde ninguém o esperava. Não se lembrou do romance que o magro tinha escrito. Sua memória, tão rachada quanto o muro em que costumava deitar os olhos, nas longas horas dentro da cela, foi incapaz de reter todas as palavras, todos os parágrafos, todos os capítulos da história. Não se lembrava sequer do fio do enredo. Mas afirmava, para quem quisesse ouvir, que era uma obra-prima, o melhor romance que alguém já escrevera. E repete isso até hoje, trinta anos depois do tempo em que dividiu a cela com o magro de olhos pequenos e negros e com o gordo de corpo nervoso.

  • Morrer pela segunda vez

    Orfeu chorou tudo o que pôde quando Eurídice desceu ao mundo dos mortos. Suas lágrimas encheram oceanos até seus olhos ficarem secos. Vendo que o pranto havia desaparecido, e como forma de manter viva a memória da esposa a quem amava sobre todas as coisas vivas, passou a cantar. E viu que cantar era bom e que todos os que o ouviam se deleitavam. Os passantes, antes de tomarem o metrô, jogavam moedas e um sorriso para o músico maltrapilho sentado no chão na entrada da estação. Aplaudiam, pediam bis e ele cantava mais. A tristeza de Orfeu não tinha fim e sua voz não conhecia cansaço. Cantava dia e noite a ausência da mulher adorada.

    Com a força de sua canção, Orfeu decidiu buscar Eurídice no mundo das trevas. Manifestou o seu amor com todas as canções que conhecia, o peito repleto de agonia, tristeza e saudade. Hades, o poderoso deus do Reino dos Mortos, se comoveu:

    — Eu devolvo sua esposa ao mundo dos vivos com uma condição: que ela o siga pelos caminhos de volta à vida e você não olhe, nunca, para trás, até que ela esteja inteiramente sob a luz do sol. E também, sob hipótese alguma, nunca mais cante uma canção. Nenhuma canção. Jamais uma nota musical deverá sair de sua garganta enquanto houver sinal de alma em seu corpo. Caso contrário, você a perderá para sempre.

    Orfeu aceitou a condição. Tomou Eurídice pela mão e deram início à jornada de regresso ao mundo dos vivos, ele olhando para a frente, ela seguindo seus passos.

    (Não olhe para mim, Orfeu. Ouça minha voz, escute os meus passos, sinta as batidas do meu coração. Estou bem aqui, perto de você. Não olhe para trás. Não permita que eu morra pela segunda vez — suplicou Eurídice).

    Enquanto andavam, e já próximos da saída, iluminados por uma réstia do sol que brilhava lá fora, Orfeu se recordou de suas canções e do quanto elas agradavam a quem as ouvia. Lembrou-se dos aplausos e das esmolas que lhe davam. Sentiu saudade desse tempo. Percebeu que seria impossível viver sem cantar e sem plateia. E então, como quem sabe que tristeza não tem fim, com o coração doído e apertado, girou a cabeça para trás e olhou para Eurídice.

  • GUERNICA

    Um dia o azul desapareceu. Olhamos para o céu com cara de espanto. Alguém palpitou que uma tempestade se aproximava, mas aquele cinza parecido com aço sobre a cabeça de todos não tinha nada a ver com os temporais costumeiros do mês de abril. Era diferente. Havia um cheiro, um quê desconhecido que tornava aquele dia distinto. O amarelo também sumira. Ao anoitecer a luz acabou. Os namorados não se encontraram, as ruas ficaram vazias e o silêncio se impôs, tão duro que se podia cortar com faca. Nem carros, nem bulício, nem passos: a cidade estava muda.

    Pouco a pouco, como se fosse mágica, todos vimos o verde sumir diante de nossos olhos e até o carvalho milenar, parte inseparável de nossa paisagem diária, perdeu a pujança. Alguma coisa desconhecida sugou lentamente sua seiva, o tronco já apresentava rachaduras e a árvore imponente logo viria abaixo. Quase ninguém teve coragem de sair para a roça. Quem se atreveu, por força da rotina, regressou coberto de cinzas, como se um grande incêndio tivesse devastado o vale em que vivíamos.

    O choque foi maior quando percebemos que o vermelho também desaparecera e, incapazes de distinguir o sangue do barro, erguemos nossos punhos e gritamos com as gargantas cheias de poeira. O céu despencou com fúria, ferro e fogo sobre nossa cabeça.

    Na tela branca, Pablo desenhou formas delgadas, línguas apontando para o alto, corpos retorcidos em ângulos improváveis, animais em agonia, mães que choram. Foi o que ele viu. Em seus olhos nublados estava refletida a imagem de uma guerra em tenebroso preto e branco.

  • O grande acontecimento

    Ele tinha se tornado a principal atração daquela cidade à beira do mar. Quem lá fosse certamente ouviria na volta: “E aí, foi ver o…? O que achou?”, “Me conte, como é o…?”, “Não me diga que não foi ver o…!”. Era quase uma obrigação, para qualquer turista, visitar o… Ver o… era a revelação de um segredo, a que só pessoas especiais tinham acesso.

    No dia mesmo de minha chegada fui avisado pelo guia turístico de que naquela noite haveria o grande acontecimento: o… iria aparecer. Para vê-lo, eu deveria ir à praia junto com os demais visitantes. Estava já anoitecendo quando uma multidão, em silêncio, pisou a areia. Com devoção e seriedade, todos fixaram o olhar na espuma branca sobre a água escura. Ficamos ali, atentos por horas, esperando o surgimento do… Não se ouvia um pio nem se via movimento ou qualquer gesto de impaciência. Tínhamos todos o sentimento de que iríamos presenciar algo jamais visto. “O sublime”, alguém se atreveu a sussurrar. “A Pombagira, tenho certeza”, murmurou outro. “O enviado do céu”, choramingou a senhora de lenço na cabeça e terço na mão.

    A noite avançava e, quando já não se enxergava nada além da brancura das ondas, um homem saiu do mar. Surgiu da imensidão líquida, de onde não é possível que alguém surja. A água circundava sua cintura quando pudemos vê-lo com nitidez. Tinha barba, altura mediana e o olhar esgazeado, como se olhasse para tudo e nada visse. Chegou até o ponto onde o mar lambe a areia e se ajoelhou. Ergueu os olhos para o céu e assim ficou por muitos minutos. Depois baixou a cabeça e, tão lentamente quanto uma vaca se abaixa para abocanhar o capim, beijou a areia e em seguida escreveu algo com o dedo no chão molhado. Todos esticamos o pescoço para ver o que era, mas o mar foi mais rápido e apagou tudo. O homem virou-se de costas e, assim como veio, desapareceu na água escura sem que entendêssemos como.

    O mar voltou à mesmice de sempre e todos se levantaram e saíram da areia pensativos. Apenas eu permaneci lá, sob a lua, aguardando o grande acontecimento.

  • STRIPTEASE

    De longe só se vê que há luz no quarto, mas pouco se distingue o que acontece lá dentro. Com meu binóculo, escondido atrás da cortina no apartamento do prédio em frente, tenho visão privilegiada e posso ver tudo com detalhe. Posso vê-la tirar a roupa, por exemplo. Como agora. Ela acabou de entrar no quarto. Jogou a echarpe no chão e sentou-se na borda da cama para tirar os sapatos de salto. Joga-os num canto. Começa a desabotoar a blusa. Noto que está um pouco mais cansada que o habitual, as rugas da testa estão mais acentuadas e as olheiras, mais fundas. Imagino o dia puxado de trabalho que ela teve e me comovo.

    Agora de pé, abre o zíper da saia e a deixa cair até os tornozelos. Com um movimento da perna direita, joga a peça em cima da cama. Vai de um lado ao outro do quarto, olhando em volta, como se procurasse algo. Para e inclina-se para tirar a meia-calça, que larga no chão. Assim, de blusa e calcinha, descalça, solta o coque e balança a cabeça enquanto os cabelos lhe cobrem as costas. Parece que encontrou o que buscava. Acende o cigarro e fuma na frente da janela, olhando o movimento da rua.

    Volta para dentro do quarto e apaga o cigarro no cinzeiro da mesinha de cabeceira. Retoma o ritual de desnudamento. Tira as rugas, aquelas que ainda povoam seu rosto, resistindo ao creme hidratante. Arranca também as manchas dos braços e as olheiras escuras que lhe dão penumbra nos olhos. Desfaz-se completamente das varizes e estrias das coxas e panturrilhas. Respira fundo como se tomasse coragem e puxa de uma só vez a cicatriz da cesariana. Aos tufos e com movimentos bruscos das mãos, livra a cabeça dos indesejados cabelos brancos que envelhecem a moldura de seu rosto. Olha-se de costas no espelho grande da penteadeira e arranca de uma vez a gordura acumulada nas nádegas. Agora de frente, elimina por completo, com a ajuda de uma esponja, o olhar sombrio que tinha até então. Por último, esfrega os seios e o sexo, empurrando para o chão todos os homens que escreveram a história do seu corpo.

    Completamente nua, o olhar sereno, fecha as cortinas e apaga a luz.

  • Moça em janela de hotel

    Olho pela janela: é o Rio de Janeiro nublado e muito frio. Oculto. Imenso. Quase irreal. Ouço em meu headphopne um dos CDs que ele me deixou. Agora, uma grupo sinfônico que toca música do Metallica. Músicas de vários estilos e artistas estão misturadas num CD que ele me deu, pois ele é viciado em montar coletâneas, mais ou menos como faz aquele personagem do livro Alta Fidelidade, do Nick Hornby. Antigamente ele fazia com fitas, agora são CDs. Agorinha mesmo entrou nos meus ouvidos Jefferson Airplane – nada a ver. Legal e nada a ver. Mas ele é assim mesmo. Daqui a pouco pode pintar um samba com Los Hermanos que só fãs da banda de rock podem conhecer. Vá saber. Suas coletâneas são incoerentes. Como o seu vestuário tosco com alguns esporádicos e inesperados toques de requinte que só no corpo magro, leve e lindamente desengonçado dele podem parecer requintados. Ele só é coerente com uma coisa: suas incoerências.

    Sei que lá fora é frio. Mas o quarto é quente e sou bela. Hoje sou a mais bela mulher do mundo, com minha camiseta branca e calcinha também branca, a me espreguiçar. A TV sem som é um pequeno papel de parede, um quadro vivo, uma caixa preta cheia de gente pequenininha se mexendo e sendo feliz. Volto pra cama e sinto mais uma vez os cheiros de deixamos no lençol e penso em como é bom ser mulher. Vontade de passar o dia nessa cama lembrando da noite que foi. Eu faria isso fácil, fácil. Mas, melhor não. Como o hotel não tem serviço de quarto é melhor eu subir logo para o restaurante e tomar o meu café, enquanto ainda é servido. Engraçado como os dois homens no elevador, que sobem também para o café, me parecem feios. Um barrigudo e com jeito de pseudo-intelectual e o outro, negro, com alguma elegância, porém sem graça. Mas não dá pra ver outros homens agora como machos. Não num dia como hoje. Só os consigo ver como seres humanos assexuados. Não os vejo com antipatia ou desagrado – até gosto de vê-los –, mas o fato é que depois da noite que passou – eu junto ao meu pequeno deus – todos os homens são pra mim seres sem sexo, com exceção dele, obviamente, que é – penso brincando com minha fantasia – o inventor do sexo.

    O café do hotel é muito bom. Muitas frutas e muitas coisas pra escolher. Estou faminta e devo comer como nunca. Na noite que passou, parte do meu corpo se perdeu em suor e demais líquidos. O alimento que ele, o re-inventor do meu sexo, me deu na cama não alimenta o corpo. Muito embora aquilo, de calibre e sustância, seja puro corpo, não sustenta o meu corpo, apenas consumindo-o. É uma pequena morte que me torna viva e com mais fome. Sinto-me leve, não posso negar. Mas é um estado meio vampiresco. O corpo dele junto ao meu e dentro do meu não me satisfaz como um alimento. Aquilo é como um sangue a meio copo. Um vinho a meio copo. Um copo d’água pela metade, que alivia um pouco a sede, mas não a sacia completamente – e isso parece deixar a água mais saborosa que qualquer outra coisa. E ele em mim é melhor que água, melhor que vinho, talvez melhor que tudo. E tudo o que ele faz comigo… Ele só não é melhor que a completude por que a completude não existe. Hoje esses meus olhos que agora olham pelas grandes janelas do restaurante para uma Guanabara cinza são capazes de transformar tudo em beleza. E é disso que eu preciso, de instrumentos que transformem coisas simples em coisas belas. Sempre as janelas. Janelas são fábricas de vida. Graças a estes olhos outrora tão habituados a ver o feio do dia-a-dia da roda semi-viva, e que agora só parecem saber ver o bom das coisas, o meu dia começou assim, agraciado com belezas, onde até um lavatório com a torneira enferrujada é belo. E quanto a ele? Ele, o mais belo dos esquisitões. Como ele estará agora? O que estará passando pela cabeça daquele que tanto me faz sorrir? Sorrir com risadas, sorrir por dentro, e até sorrir chorando…

    Desço. Ruas molhadas. Cachorro na calçada sorri pra mim. Uma velhinha que anda com muita dificuldade sorri pra mim. Policial sorri pra mim. Um lindo bebê no colo de sua mãe faz o mesmo. Bem. Vejo que o mundo sorri pra mim. Só voltarei a vê-lo à noite. Que tipo de dia terei nesta cidade tão bela e tão enigmática? Sou mais estranha no Rio do que seria em Nova York. E o Rio me é por demais estranho. Eu não entendo o Rio. No Rio eu não sei quem eu sou – e isso me aproxima de mim. É o tipo de lugar onde me sinto a todo instante pronta para uma gafe. Só que hoje não. Hoje eu sou da gema. Marisa Monte e Chico Buarque já muito me ensinaram sobre carioquices. E tenho aprendido até que ser carioca é não ser carioca. Não há, por exemplo, coisa mais boba que um carioca sair falando que é carioca. Seria como gente ter que falar que é gente. Não se diz “sou carioca”. Triste do carioca que precisa dessa afirmação. E cariocas não deveriam ser tristes.

    Well. Depois de ter andado um bocado pelas ruas, praças, museus, Metrô, acho que vou beber algo. Chope? Vinho? Chope? Vinho? Não está tão frio assim: chope. Espuma gostosa. Lembra o beijo de ontem com gosto de cerveja. Penso em como eu demorei na vida a gostar de cerveja. Nossa… Demorei a gostar de tanta coisa. Acho que demorei a gostar de homem. E veja hoje como estou… Apaixonada por um. Paixão: esse negócio que o Freud parece ter tratado como desvio comportamental. Não sou especialista em Freud, mas assim li algo a respeito. Eu, finalmente uma mulher apaixonada. Mas quem sou eu? O que posso falar de mim? Meu nome é Michele. Sou filha de mãe brasileira com pai francês. Não conheço meu pai, a não ser pelas lembranças de minha mãe, além de uma fotografia dos dois tirada com uma antiga câmera Canon automática equipada com timer, vejam só, num quarto de hotel. Seus olhos sorriam na foto. Eles se conheceram num carnaval, de onde eu fui concebida. Então ele partiu pra não mais. Não gosto de carnaval. Não que eu não goste de bagunça e de climas orgíacos. Gosto de farra. Pode ser um traumazinho básico, relacionado a meu pai, a quem um dia pretendo conhecer. Eu preciso rever esse negócio com o carnaval. Se eu nasci de um carnaval, e se eu gosto de existir, logo eu deveria gostar de carnaval. É. Mas não gosto por enquanto. Gosto de passar a noite na balada, mas não muito. Prefiro o dia. E não gosto de natal também porque acho que todos ficam hipnotizados – e outros acordados demais, o que os faz mergulhar em tristeza. Também não gosto de ano novo. No entanto, gosto sim de certas celebrações. Difícil entender, eu sei. Sou de Touro, mas isso não faz a menor diferença, pois não acredito em astrologia. Minha cor preferida é o vermelho. No entanto, não uso roupa vermelha. Se eu botar vermelho eu não fico meia hora sem ir a um espelho. Sei lá. Acho que o vermelho é sagrado. Só é bom pra vestir modelo de revista e pra propagandas de Coca-cola. Até batom vermelho na minha boca me acanha. Não acredito em Deus. Tenho muito medo da morte e da velhice. Às vezes quase me pego rezando – rezando não sei em nome de que ou de quem. É a falta que um deus faz. Mas é foda. Deus se foi como o Papai Noel. Mas eu continuo acreditando em um monte de coisas que seriam absurdas para um físico ou astrônomo. Parece uma piada até pra mim: eu costumo acreditar em metade da laranja. E pelo que tenho vivido com esse cara… Puta que pariu… somos as metades de uma laranja. Ah. Que nada. Ele é apenas alguém a quem adoro porque me faz gostar de mim como eu nunca havia gostado. Obviamente isso não é pouco. E, saiba-se, pra eu adorar algo, é porque o objeto é digno de adoração.

    “Posso me sentar aqui?”, ela pergunta. Tenho certeza: é a senhora idosa que arrastando os pés sorriu pra mim quando eu saía do hotel. “Sim, fique à vontade”, respondo. “Mas… a senhora, quem é? Nos conhecemos?” Ao que ela me responde com uma pergunta, no mínimo, estranha: “Você gosta muito de cinema, não é, querida? Gosta da ‘trilogia das cores’ do Krzysztof Kieslowski, não é mesmo?” Essa foi mesmo surpreendente: uma senhora tão velhinha falando de um assunto tão específico. Ainda que ela seja uma cinéfila, a pergunta é desconcertante. Se ela gosta de cinema, esperava-se que fosse falar sobre algum filme antigo, tipo Casablanca, sei lá. Mas Krzysztok Kieslowski foi demais. “Você já me viu antes de hoje”, ela continua. “Sou aquela que aparece nos três filmes, ‘A Liberdade é Azul’, ‘A Igualdade é Branca’, e ‘A Fraternidade é Vermelha’, tentando colocar uma garrafa numa grande lixeira, mais alta que minha estatura, somente conseguido no terceiro filme”. Então trata-se de uma atriz, que coisa legal. “Sim, é claro que me lembro das cenas. Aquelas cenas fizeram muita gente pensar em muita coisa, a senhora deve saber disso. A senhora é atriz profissional?”.

    Sei que todo tipo de estória já foi contada, e que meu caso é só mais um. Já li coisas muito estranhas, como, por exemplo, um livro em que uma menina conversava com sua vagina. Acontece que se acharmos que não falta mais nada pra se mostrar, a literatura pára, a música pára, a arte pára, a imaginação pára, o sonho pára, a vida pára. E sei também que o aconteceu comigo foi real, não é ficção, eu juro. Aconteceu comigo num momento em que eu estava inundada de sentimento. Porém sóbria – não duvidem –, como poucas vezes estive em toda a minha vida. Que coisa chata essa de pensarem que os apaixonados estão dentro de um surto psicótico. Todos tentam viver uma vida emocionante. Gostam de se emocionar com os filmes, de se excitar com as viagens, de ficarem exultantes com a apresentação teatral do filho na escola… Mas quando alguém se apaixona – é isso é a grande emoção do ser – é tratado hoje como um insensato. Apaixonar-se por dinheiro pode. Apaixonar-se por gente é tolice, como parece dizer o novo senso-comum. O dinheiro é o verdadeiro deus deste mundo. Ele passou a ser a premissa para qualquer coisa que chamem de amor ou paixão. Por ele as pessoas vivem e morrem. “Deixe-me esclarecer uma coisa, minha bela menina”, continuou a falar. “Eu jamais tive o privilégio da juventude. Sempre fui velha. Sabe por que? Porque eu não sou uma mulher como você e como as que conhece. Sou uma personagem sem nome dos filmes do Kieslowski. A pobre mulher idosa que mal consegue andar. O que não quer dizer que eu não exista, pois personagens de filmes são mais reais que o que aprendemos a chamar de gente de verdade. O que tive em minha vida? Uma rápida aparição em três filmes. Pode parecer pouco. No entanto, isso me eterniza e me faz existir, compreende? Não se preocupe, você não está ficando maluca. Você está apaixonada, é verdade, mas não louca. Eu estou aqui, pode me tocar”. Levei minhas mãos até as dela e soube que era ela real. Suas mãos enrugadas e manchadas pela idade eram quentes. Subitamente chorei. Sem barulho, chorei com minhas mãos envolvendo as dela. Ela também estava emocionada, porém sem lágrimas – o que é típico de pessoas daquela idade. “O que a senhora faz aqui? Porque me procurou?” Com a voz cansada e mais doce do mundo: “Minha querida… Nós, personagens de filmes somos, imortais e onipresentes, mas não somos oniscientes. Portanto eu não sei o que me trouxe aqui. Talvez o Grande Diretor saiba.” “Grande Diretor? A senhora está me dizendo que Deus existe?” “Todos dizem que sim, não é mesmo? Muito embora eu tenha estado em toda parte e nunca o tenha visto. Eu sou criação da mente de um cineasta. Isso me faz preferir achar que as coisas são criadas por alguém. Já pensou que neste momento você pode estar sendo dirigida, fazendo parte de um filme? Consegue se lembrar, por exemplo, como foi parar naquele quarto de hotel? Você pode me dar um cigarro?” “Sim, claro”. Acendi o cigarro para ela, que tremia. Nesse instante fumávamos juntas, e isso é puro cinema. Pensei em voz alta, com os olhos parados: “Na verdade eu não consigo me lembrar de como cheguei ao hotel. Lembro-me da minha infância até. Mas não de como cheguei ao hotel”. Ela tossiu. “Não interessa ao roteirista, meu amor, explicar como você chegou ao hotel. Eu preciso ir embora” “Não! Por favor, fique mais!” “Adeus, linda moça!”. Ela levantou-se com bastante dificuldade e foi embora vagarosamente. Não sei porque motivo eu não tive forças para me levantar da cadeira e acompanhá-la. Fade out. De repente, como aconteceu com Juliette Binoche em “A Liberdade é Azul”, o sol veio bater suavemente em meu rosto ali na mesa daquele bar. Como é lindo um raio de sol no meio de uma nublada tarde de inverno no Rio. O sol veio como música. Podia ouvir o seu calor em meu rosto. Foi numa situação mais ou menos assim que a personagem de Juliette vislumbrou a velhinha a andar na rua com enorme dificuldade, possivelmente a pensar “e quando eu ficar velha?”.

    Já no hotel, sentada no chão do box, com a água super quente batendo na minha cabeça, com os dedos indicadores tapando os ouvidos pra poder ouvir melhor o barulho da água chocando-se contra meu couro cabeludo sem a interferência do barulho da resistência elétrica do chuveiro, fiquei a pensar em tudo o que havia acontecido. Já não pensava mais no meu homem, mas apenas no que havia representado meu encontro com a velha senhora que me sorriu e me disse aquelas coisas. Engraçado: nos filmes ela não parecia ser o tipo de pessoa capaz de sorrir fácil. A personagem, sorrindo, se modificou pra mim – e como eu gostaria que alguns personagens que margeiam minha vida se modificassem pra mim. Egoísmo, eu sei. Porém seria aquela sempre a velhinha corcunda, ainda que pudesse sorrir, como não tivera a oportunidade de fazer nos filmes onde aparecera tão brevemente. E quanto a mim? Poderia eu voltar a sorrir depois de tudo o que houvera passado naquele dia. Alguém pode sorrir em meio a um turbilhão de dúvida? Alguém pode sorrir ao pensar nas desgraças do mundo, e se existe Deus, etc? Alguém pode sorrir enquanto pensa se sua vida é real ou se está dentro de um filme?

    Seco os cabelos, ainda nua, frente à janela que dá para a Baia de Guanabara. As luzes do anoitecer carioca nesta janela de hotel podem trazer tantos pensamentos que acabamos por misturá-los de tal forma que chegamos a um estado de quase-não-pensar. Tento também não fazer esforço para ter pensamentos recorrentes sobre tudo o que aconteceu. Distraio-me olhando para o meu corpo, meus pequenos seios, meus pêlos pubianos muito negros, minhas pernas finas… Meu magro e belo corpo. Mais magra do que eu gostaria, é verdade. Mas tudo bem. Afinal, quem está cem por cento em paz com seu corpo? Acho que ninguém. Tenho força. Tenho poesia. Tenho pensamentos. Tenho um apaixonado – parece que ele está apaixonado por mim. Já ia me esquecendo, ele vai chegar daqui a pouco. Neste instante gostei de pensar nele, de quem já havia me esquecido. Campainha toca. Visto-me antes de atender. Ao abrir a porta, sorrio. Sorrio finalmente. Ele entra. Pergunto se ele está bem. Nos abraçamos com calor. Sentamos na cama sem muitas palavras. Nos damos as mãos. Venha o filme.

    *

  • Um pássaro

    Duvidou. Não era mais momento para dúvidas, estava já com uma perna sobre a mureta da ponte, mas duvidou mesmo assim. Viu o pássaro que, não fazia um minuto, pousara perto dele e o observava com os olhinhos apertados de ave. Pelo menos foi isso que imaginou: aquele pássaro adivinhou o que ele estava prestes a fazer e veio para dissuadi-lo.

    Foi aí que duvidou. Num repente, a vida não pareceu tão bruta. Sentiu um pouco de alegria, a primeira vez em anos. Havia agora um pássaro em sua vida. Tinha que repensar. Ato contínuo, tirou a perna da mureta da ponte. Iria recomeçar, percebeu-se pronto. Virou-se decidido a ir para casa e celebrar a vida nova que teria dali em diante. Não viu o caminhão que vinha veloz pelo outro lado e o pegou em cheio. Deu três piruetas no ar antes de se transformar numa pasta de ossos, sangue e vísceras em cima do asfalto. Assustado com o barulho, o passarinho voou para longe.

    A hora fatal nem sempre se apresenta como a literatura conta ou como os filmes mostram. Às vezes ela tem a aparência inocente de um pássaro, tem olhos e jeito de pássaro. Com alguma sorte, pode-se até ouvir um trinado como se fosse uma canção de despedida.

  • Tem coisas nesta vida que a gente não esquece

    Minha mulher, Maria da Graça, há dez anos padece de esquecimento. Seus olhos enxergam, mas não veem e, quando veem, não reconhecem o que viram, como se tudo que se apresentasse na frente deles fosse novidade: o vaso azul de porcelana, o relógio perto da janela, o caminho de crochê na mesa de jantar, a cortina de veludo — velharias cujo registro a memória já apagou. Há muito tempo a casa está vazia de sua voz e seu abecedário. Nos últimos meses ela tem se dedicado à atividade de caminhar do quarto para a cozinha, passando pelo corredor e, de novo, da cozinha para o quarto, até que suas pernas lhe digam “Basta!” A cada dia ela aguenta esse passeio mais vezes e suas panturrilhas estão bem fortalecidas pelo esforço. Gostaria de saber se algum maratonista faz tantos quilômetros por dia como minha mulher.

    No início, tive pena vendo o sacrifício dela para vencer cada etapa da caminhada, mas agora vejo sua atividade como algo bom. Penso: “Que maravilhosa sorte uma pessoa tem de se esquecer de tudo, que felicidade é dar um passo sem ter a mais remota ideia de quantos já dera anteriormente e de quantos será capaz de dar no futuro!”

    Hoje me sentei no sofá disposto a também esquecer algumas coisas, talvez pelo enorme desejo que tenho de voltar a fazer algo em conjunto com minha mulher. Começo por esquecer sua doença, por exemplo, e vejo seu passeio como aquilo que é — um passeio apenas, que começa no quarto e termina na cozinha, e depois recomeça na cozinha para finalmente terminar no quarto. Pode ser que, num momento raro, ela se detenha no corredor, olhe para mim e se aproxime para, ao meu lado no sofá, ver um pouco de televisão.

    Também procuro esquecer quem é essa mulher com quem divido a casa. Fico atento ao toc-toc do andador na madeira do assoalho. Quando ela aparece no corredor, olho-a e vejo-a como se fosse a primeira vez:“Que mulher linda! Acho que vou me apaixonar”. Ela me olha, nos olhamos, e ela me fala, depois de anos de silêncio: “João da Alegria, João, meu querido, tem coisas nesta vida que a gente não esquece.” Eu a ajudo a se sentar e ela põe sua mão debaixo da minha. Juntos olhamos para a tela à nossa frente.

  • O que acontece dentro de casa

    O que acontece dentro de casa deve ficar dentro de casa, eu acho. É assim que eu penso, e por isso nunca o denunciei. Minhas amigas sempre me diziam que era o que eu devia ter feito desde o início, mas, o senhor há de compreender, a gente nunca quer que as pessoas saibam o que acontece entre as quatro paredes de um lar. A vergonha me paralisava e eu ficava quieta como um caramujo dentro da concha, e ele se sentia livre para fazer o que quisesse. Eu chorava quando ele saía para a rua.

    Antes era diferente: ele não me batia. Soltava palavrões, me insultava, quebrava as coisas que estivessem perto. Eu me escondia atrás da porta da cozinha e ele descontava sua fúria na madeira. Está vendo essas rachaduras aqui?

    As humilhações foram só o começo de tudo. Um dia ele rasgou minha roupa e me fez desfilar nua pela casa, tocando meus órgãos genitais. Fez com que eu me masturbasse na frente de um espelho enquanto ele bebia e gargalhava.

    Na primeira surra ele quebrou meu maxilar com o punho fechado. Perdi dois dentes e ganhei essa cicatriz aqui no queixo, está vendo? No hospital, ele me pediu perdão e disse que isso nunca mais iria acontecer. Mentira. Aconteceu sim, muitas vezes depois.

    Até que um dia eu apontei a espingarda na direção dele, e ele não conseguiu esconder o espanto. Parou e levantou os braços. E sorriu. Sim, senhor, ele sorriu. As últimas palavras que me disse foram: Você não tem força nessa boceta para apertar o gatilho, mamãezinha!

  • Os homens da montanha, os homens do mar

    Era bonito o lugar onde ficava aquela cidade: de um lado o mar, de outro a montanha. No meio, a vida calma e comezinha de quem nada ambiciona e é feliz assim. A terra ainda não estava cansada e dava de comer a quem andava sobre ela. Era fácil e bom viver lá, onde o tempo parecia não passar.

    Numa ocasião, quando podavam as roseiras, um homem saiu das águas e, com estardalhaço, balançando as mãos como alucinado, gritou que viera até ali como amigo e em missão de paz. Queria informar que a cidade corria perigo. Uma onda de ódio e fúria tinha surgido na montanha, e as pessoas que lá viviam estavam se preparando para descer e invadir o vale. Iriam matar os homens, estuprar as mulheres, abandonar as crianças e pôr fogo em todas as casas. Que todos se prevenissem para salvar a cidade da destruição certa. Assim disse o homem que veio do mar e, tão repentinamente quanto viera, desapareceu no meio da água barulhenta.

    Todos se mobilizaram para resistir ao ataque dos homens da montanha. Aos poucos a vida dos habitantes da cidade se transformou. Tinham pressa para estocar alimentos e água, fechar as portas e as janelas, recolher o gado, cercar a plantação, proteger as nascentes. Olhavam para a montanha e tentavam imaginar quando eles viriam. As mulheres faziam uma cruz sobre o peito e não descuidavam das crianças. Uma só certeza apertava o coração de todos: dariam o sangue e o que mais fosse preciso para salvar a cidade.

    Noite dessas — quando tudo não passava de silêncio e escuridão, e os homens se revezavam como sentinela, e as mulheres se apressavam para assar os pães, e as crianças ficavam quietas nos cantos, e os olhos de todos não desgrudavam do brilho da fogueira que vinha da montanha —, a cidade foi invadida, os homens, mortos, as mulheres, estupradas, as crianças, abandonadas à própria sorte, as casas, queimadas. Quem invadiu e saqueou a cidade foram os homens vindos do mar.

  • Um conto de Natal

    Não faltam tipos iguais a ele no mundo: cabelo longo e embranquecido como o de um hippie fora de época, o rosto com uma sombra de tristeza, o olhar atônito. Não tem família. Faltam-lhe dentes. Roupas também não tem muitas, só as que veste e uma blusa de lã para o inverno, que, nos dias quentes, fica amarrada à cintura. Perambula, desocupado. Pede algo para comer a quem passa ao lado dele na rua e na porta dos restaurantes. Às vezes dão, às vezes não dão, então ele só come às vezes. Tivesse Jesus chegado aos sessenta anos, certamente seria parecido com ele. Em dias de sorte, um dos rapazes, um de seus iguais, lhe arranja um copo de vinho só para puxar conversa e ouvi-lo falar em aramaico, língua que aprendeu quando criança com um tio que tinha vindo lá do Oriente.

    Na noite de Natal, costuma se esconder para não ser cumprimentado pelo aniversário nem passar pelo incômodo de posar para fotos, coisa que detesta. Os turistas que nesses dias invadem a cidade são insistentes — Tu é a cara dele, posso tirar uma selfie? — e ele fica cansado de tanto recusar. Prefere se isolar e esquecer a data. Na hora em que todos trocam presentes e soltam rojões, fica bem quieto nalgum canto de um bairro distante do centro, matutando sobre a vida, conversando com seu estômago e vendo o brilho dos fogos no céu. Assim, aparta-se da comemoração ruidosa de seu nascimento — “Mas que droga, mais um ano” —, embora não fique a salvo de uma hora dessas ser crucificado por aí, como acontece todos os dias com outros sujeitos tão miseráveis quanto ele. Respira fundo e solta o ar devagarinho: “Aqueles sortudos”.

  • Pelos olhos de um cavalo

    Subi até o Morro do Gavião e de lá olhei a cidade. Não era uma cidade grande, mas era bela, e mais bela ainda vista de cima em toda a sua extensão. Abraçar uma cidade inteira com o olhar não é simples, exige senso de contemplação e silêncio. Vi o rio marrom que a corta pelo meio, observei o lado norte, a parte sul, as casas iguais, esquadrinhei seus telhados. Era mesmo bela aquela cidade.

    A poucos passos de mim estava um cavalo olhando quieto a paisagem estendida lá embaixo. Parecia uma estátua, não fosse o vento balançando seu rabo e sua crina. Quando me aproximei dele, percebi que era cego. Matutei um instante: ali estava um cavalo cego olhando uma cidade do alto de um morro. Isso não era pouca coisa, era um acontecimento.

    Perguntei a ele o que fazia ali sozinho, sem sela nem monteiro. Ele respondeu, na linguagem dos cavalos, que sempre quis ver a cidade de cima, por inteiro, mas nunca pôde; precisava puxar carroça, função para a qual tinha nascido. Que quando se puxa uma carroça só se olha para a frente e o que se vê é pouco, só alguns metros adiante. Que a visão dos cavalos é curta, limitada. Que não se conhece o céu tendo uma carroça às costas. Que só houve uma maneira de se livrar dessa sina: tornando-se imprestável, inútil. Que cegou-se por vontade própria. Tornei-me cego. Cego não vê por onde anda e, se não vê, não pode puxar carroça nem fazer outra coisa. Cego não presta para nada. Foi assim que ganhei minha liberdade, completou ele.

    — Mas, cego desse jeito, você não consegue enxergar o céu nem a cidade lá embaixo — retruquei.

    — Não tem importância. Eu posso imaginar — o cavalo encerrou a conversa.

  • Lurdinha

    No exato instante em que Lurdinha nasceu, exclamaram Coitada!

    Com o passar dos meses, acrescentaram ao Coitada! a frase Olhe a cabecinha dela, que pequenininha! Lurdinha cresceu com sua pequena cabeça e foi feliz, mesmo que não entendesse tudo o que a mãe lhe dizia e ensinava. Chegou à avançada idade de oito anos sem assimilar muita coisa, embora compreendesse o necessário.

    Se tivesse que perguntar algo na rua — por exemplo, onde ficava a casa de chocolate em que morava sua amiga Filó — Lurdinha, coitada! não conseguia prestar atenção ao que lhe diziam. Fixava os olhos nos gestos do interlocutor, escutava sua voz e divagava. As palavras que ouvia passavam como brisa fresca por seu cérebro e iam embora. Filó certamente se cansará de esperar pela amiguinha.

    Lurdinha saboreava com os olhos apertados os gestos, os silêncios, o jeito e o olhar daqueles que falavam com ela. Descobria os segredos, os desejos, as tristezas, as esperanças, as mágoas, as alegrias. Seu corpo às vezes doía com tanta informação. Outras vezes sentia o coração pulsar mais rápido com a poesia que, sem esforço nenhum, conseguia criar na brevidade de uma pergunta.

    Em sua meninice, e com a cabeça tão pequenininha, Lurdinha, coitada! usava a lógica natural: Acho que não vou encontrar a casa da Filó assim, de primeira, mas com poesia o caminho até lá vai ficar bem mais bonito.

    E lá ia Lurdinha, coitada! procurar a casa de chocolate da amiga Filó lambendo com gosto um picolé Chicabon.

  • Como no Cinema

    De pé na frente do último cinema de rua da cidade, Seu Alírio leu mais uma vez, com vagar, o cartaz que anunciava a demolição daquele edifício. Do seu edifício, hoje mais decadente que ele próprio e tão velho quanto. Aquele lugar tinha sido sua casa por quase oitenta anos e não podia permitir que viesse abaixo sem se despedir. Triste, respirou fundo e entrou.

    Percorreu os corredores escuros já conhecidos de memória, abriu a cortina que dava acesso à sala de projeção e avançou. O ruído estrondoso dos aplausos fez com que encolhesse os ombros, tão pesado era. Olhou em volta e reconheceu os amigos com quem convivera ao longo dos anos. Todos estavam ali por ele, e sorriam, e Seu Alírio lhes devolveu o sorriso, comovido. Não faltou ninguém: os elegantes Rhett Butler e Scarlet O’Hara o cumprimentaram com um aceno de cabeça; Don Corleone, sempre fiel a seus amigos, fez-lhe um gesto gentil com a mão; Norman Bates e sua adorada mãezinha apenas o olharam com discreta admiração; Gilda, a mais bela de todas, tirou as luvas antes de mandar-lhe um beijo com os dedos; o senhor Charles Foster Kane deu-lhe uma piscadela e apontou para Rosebud, encostado num canto da parede, como se dissesse: “Viu só o que eu quis dizer?”; Ilsa Lund, vestida como se fosse viajar de avião pra muito longe, sussurrou: “You must remember this, a kiss is still a kiss…”; a senhorita Mary Poppins veio até ele levitando sobre as poltronas e o conduziu a seu lugar de honra, no centro da sala. As luzes se apagaram, a grande tela se iluminou e Don Lockwood apareceu dançando e cantando debaixo do maior toró que já houve naquela cidade.

    Horas depois, quando as lembranças já não cabiam em sua memória e a saudade iria a qualquer momento fazer seu coração explodir, Seu Alírio deixou a sala, percorreu de volta os corredores escuros e ganhou a rua. Foi devagar para casa, arrastando o peso quase centenário de seu corpo. Ia cruzar a avenida quando um homem baixinho, vestindo um terno preto muito sujo e amarrotado, lhe ofereceu uma flor. Não disse nada. Apenas sorriu, coçou o bigodinho, virou as costas e saiu com seu andar desajeitado, fazendo piruetas no ar com a bengala. Seu Alírio aproximou a flor do nariz e aspirou. Fechou os olhos e compreendeu que a vida pode ser, sim, como no cinema: basta que se acredite nisso. E ele acreditava. Entrou em casa assoviando baixinho a canção Smile.

  • A CULPA

    Não estavam cômodos nem se sentiam confortáveis naquele lugar, mas nenhum dos dois tomou a iniciativa de se levantar e sair dali. Olhavam, cheiravam, procuravam com a ponta dos dedos a origem do desconforto, tudo em vão. Não era a temperatura (que estava apropriada), nem a cor das paredes (que era acolhedora), nem as poltronas (que eram adequadas e anatômicas). A razão não era outra senão eles mesmos. Mas isso eles não admitiam, ainda. Sabiam, no fundo, que quem sentia o incômodo eram a temperatura, as paredes e as poltronas — se tivessem vida e pudessem, sairiam dali e deixariam os dois no meio do nada, até que se consumissem no vazio de sua última respiração e do seu silêncio, como a fruta que apodrece debaixo do sol.

    Eram eles que incomodavam tudo ao redor e, embora soubessem disso, fingiam que não. Eles eram os observados com desdém e até repugnância pelas poltronas e pelas paredes daquela sala, pelas praias ensolaradas do Nordeste e pelas ruas geladas de Londres — onde quer que estivessem, incomodariam o entorno. Nas páginas dos livros que milhões de pessoas leem, há duas pessoas que se sentem desconfortáveis dentro de uma casa e não adivinham a origem desse desconforto. Mas a história impressa nas páginas tem que prosseguir, então eles permanecem como sempre estiveram e fingem que procuram a razão que justifique tanta melancolia. Fingem até chegarem ao ponto de se matarem de ódio e angústia, perto da página 250. Até lá, até esse desfecho trágico, seguirão dissimulando e, em voz alta dirão, na última linha, que a culpa é sempre do lugar, nunca deles.

  • Negra Lili Marlene

    Negro,

    Escrevo-te estas mal traçadas pra me despedir. Não me culpe, não me leve a mal nem me mande catar coquinho. Fiz, sim, e não me arrependo, e tu sabe por quê? Pra te ajudar, homem. Não faça juízo errado da minha pessoa nem me deseje má sorte, porque isso não vai ser bonito. E depois tu me conhece, sabe que eu não sou dessas, mesmo que pareça.

    Fui embora do cafofo, tu já deve ter percebido que peguei umas mudas de roupa e caí fora. Foi para o teu bem, Negro. Algum dia tu vai compreender todo o tremendo sacrifício que fiz para que tu fizesse sucesso como compositor de samba. Sabe quando tu chega num lugar e todo mundo começa a cantarolar o sambinha que tu fez? Então. Isso tu nunca teve, nunca provou dessa cereja, nunca encostou a língua nesse manjar. Eu te via na dificuldade de inventar uma música para o gosto da comunidade e ganhar algum dinheiro, eu sofria junto de ti, pode acreditar. Então resolvi ajudar te dando um motivo pra ganhar inspiração. Sou boa ou não sou?

    Perdida por ti já fui, que maluca não seria? Tu foi o homem que me deu felicidade, Negro, e isso é coisa que ninguém pode negar. Mas lata d’água já deu, não quero mais. Quero o teu samba, e que tu seja realizado. Faz o teu samba, homem, motivo eu te dou: tua mulher deu o fora. Satisfeito?

    Não pense que te deixei por que ficando do teu lado eu estaria condenada a uma vida de pobreza eterna, e que se eu continuasse no cafofo acabaria me acostumando a comer o reboco das paredes. Não, Negro, não é nada disso, credo! Fui embora porque queria te ver sozinho, triste e abandonado, sem nada ter de teu mais que o violão velho e lascado, porque só assim tu sofreria e conseguiria fazer um samba precioso, e na letra tu falaria sobre a malandra ingrata e cruel, traidora, que só te fez mal. Garanto pra ti que não vou me ofender por isso. Porque o samba só nasce do sofrimento, não é? Então, te faço sofrer pra florescer. Sabe a carta de alforria que o teu avozinho ganhou no passado? Agora sou eu que te dou alforria, Negro. Se quiser, pode me chamar de Isabel, a princesa. Sou a tua princesa que tá te fazendo um bem maior que o mundo, pra que tu conquiste esse mundo mesmo. E agora tu me diz: sou boa ou não sou?

    Ainda, se quiser mais motivo pra incrementar a tua composição, comunico que fui embora na companhia de um cavalheiro que conheci outro dia no Largo da Carioca. Estava vendo vitrine e pensando se aquela saia vermelha ficaria muito justa no meu quadril quando ele se chegou e me disse “Senhorita tão simpática merece ganhar um sorvete duplo de baunilha com morango e um colar de pérolas.” Arrepiei, sabe como? Aí eu respondi “É mesmo? Quero ver se tu não tá mentindo, bonitão de paletó branco. Pode ser framboesa no lugar do morango? Gosto de fruta chique. Tanto calor, não? Ando morrendo pelas tabelas com tanta quentura, Jesus Cristo!” Ele beijou a minha mão e sorriu, o dente de ouro bem na frente. “Evilásio, um seu criado, para servi-la.” Eu não me fiz de rogada: “Marlene, para ser servida.” E beijou mais a minha mão. Escute bem, Negro: beijou a minha mão, igual se beija a mão de uma senhora de respeito. E como uma palavra puxa a outra e as duas lavam as mãos e a cara, no final concordamos que eu iria viver com ele e seria tratada como uma rainha. Sabe rainha? Então. Ele até prometeu me comprar um ventilador pra suportar esse verão, que disseram que esse ano o calor vem pra abrasar a gente. Um ventilador, viu só que luxo? E a francesinha também, toda semana, no pé e na mão. Tu sabe que eu sempre adorei uma francesinha.

    Bota isso no teu samba. Diga que tua negra se vendeu. Não é verdade, mas pode dizer mesmo assim, não levo como ofensa. Não é uma alforria? Eu dei a tua liberdade, Negro. Fala pra todo mundo que eu fui a tua Isabel, te deixei livre pra que tu brilhasse. E agora tu me diz se eu não sou boa. Sou ou não sou boa? Anda, fala!

    Sei que tu deve tá aí chorando as tuas mágoas sobre o violão, e é assim que deve ser: chora tua saudade, tua dor de corno, chora a falta que tu sente de mim. Chora na melodia, molha as cordas do teu instrumento e tira daí a canção mais linda, aquela que te fará famoso. Tu consegue, o motivo tu já tem. Depois descansa e pensa na tua Negra. É assim que tem que ser.

    Adeus, Negro, não jogue a culpa em mim e pensa que tudo o que fiz foi pra que tu conhecesse um pouco de sucesso com uma canção contra mim, contra a tua Negra… Falando mal de mim, ah, que bonita vai ser tua música! E cuida de pagar o aluguel pro seu Vicentino, senão vem ordem de despejo e ele te tira do cafofo. Tem dois meses de atraso, o terceiro ele não deixa passar. Tu não quer morar embaixo do viaduto, quer? Te manda um beijo e um abraço esta companheira que é capaz de tudo pra te ajudar.

    Negra Marlene (agora Lili)

  • Sobre Ester

    Tarde de sexta-feira. Dia dos namorados. Leve frio de começo de junho, nesse clima nunca radical do Estado do Rio, sudeste do Brasil, sul da América, entre os trópicos. Ponho roupa preta, acabada com meu paletó, preto, alemão, de fino corte. É meu único paletó, usado em ocasiões especiais apenas – e, na maioria das vezes, nem nestas. Saio então pelas ruas. Chuva fina. Abro meu guarda-chuva e vou, fugindo das rodas dos carros nas poças. É uma tarde triste. Mas não estou triste, embora meu estado seja, digamos, solene. Meu último encontro com Ester foi na quarta-feira, na casa dela. Naquela tarde, por horas eu a ouvi em seu lindo quartinho branco, com flores e listras verde claro.

    Não estávamos sós, eu e Ester. Éramos quatro naquele pequeno cômodo que mais parece um pequeno templo: eu, dois amigos e ela. Um dos amigos fazia as perguntas. Outro apontava sua câmera de filmar fixada em tripé. Eu apontava também uma outra câmera, também num tripé, mas com movimentos de ida e volta nos detalhes do corpo de Ester, que estava sentada numa confortável cadeira. Imagens em ida e volta, zoom e não-zoom. Detalhes das mãos que não paravam de gesticular, com braços que moviam-se pela emoção daquilo que ela nos falava, terminando em um dedo em riste. Detalhes de sua boca com honrosos dentes amarelados. Detalhes de seus olhos expressivos por trás das lentes que refletiam, às vezes, e de forma mal calculada por nós, a luz difusa de um refletor. Seus cabelos brancos, suas rugas impregnadas de história e poesia, dor e cultura. Cultura poderia ser o nome dessa mulher. Uma mulher, espantosamente, não-triste. Na quarta-feira eu não estava com meu paletó preto.

    Só que hoje meu novo aguardado encontro com Ester seria apenas virtual. Marcamos às quatro na casa do amigo, a fim de dar uma primeira olhada nas imagens captadas na quarta-feira. Ester na tela. Ela ficou bem na tela. E o que ela faz na tela do televisor não pode ser feito por qualquer mulher. Ela nos conta sobre sua infância no Egito, sobre sua vida. Ela nos fala sobre morte. Sobre a morte de parentes ante a foice do nazismo na Alemanha. Sobre a morte do pai – a qual presenciou. Sobre sua passagem na Inglaterra, por Oxford, se não me engano. Reclama que na escola primária, ainda no Egito, as crianças aprendiam “apenas” três idiomas, e que o resto ela teve que aprender sozinha. Ela tem muita história pra contar. Muita. O muito que nos conta, vira e mexe é arrematado com um sorriso maravilhoso – não que ela seja de rir à toa.

    Em nossa frente fotos que ela deixou em nosso poder, para serem digitalizadas. Muitas fotos em preto e branco, evidentemente, de pessoas em sua maioria mortas. Algumas delas mortas em circunstância que não é difícil imaginar. Acho que não me convém – nem a mim e nem a ela – entrar em detalhes agora.

    O que conto é parte da pré-produção do documentário que começa a ser realizado numa parceria entre eu e meu amigo Elano Ribeiro, e com a valiosíssima colaboração de um novo amigo, Janér Baptista. Esther (sim, com “h” no meio) é o verdadeiro nome de uma incrível senhora que conhecemos, a qual nos oferecerá, para um novo projeto, a matéria prima: ou seja, o “livro aberto” de sua vida. De família Judia, nascida no Cairo, formada na Inglaterra, Esther é uma mulher brasileira com oitenta e seis anos. Uma cidadã do mundo. As nuances do mundo de Esther, só poderão saber aqueles que assistirem ao trabalho pronto, que pretendemos entregar ao público ainda este ano.

  • Para que a chuva deixe de doer

    Se naqueles dias de aguaceiro eu tivesse uma corda, e se eu não fosse pouco mais do que uma criança crescida, e se eu pudesse e tivesse coragem, amarraria minha mãe na cama e lhe daria uma surra para ver se ela parava de chorar e de gritar de dor. Quando chovia, os ossos de minha mãe latejavam e ela ficava louca. E me enlouquecia também. Mas eu não tinha uma corda.

    ***

    E agora, quantos dias me aguentando? Demasiados. Já são onze dias que chove sem parar, onze dias de confinamento. Devo ser muito resistente, só pode ser isso. Mas sinto que estou próxima do meu limite. E aqui nesta casa não há ninguém que me ajude. Estou sozinha. O que necessito é deixar de sentir dor. E que pare de chover. Olho o chão do corredor à minha frente, penso num poema para me distrair:

    tábua
    irmã gêmea de outra tábua
    assoalha
    todas as tábuas dão-se as mãos de madeira
    e assoalham
    uma casa inteira

    Onze dias! É a primeira vez que aguento tanto tempo sem chorar. Talvez pudesse aguentar um dia mais: doze. Será? Acho que não. Tudo me pesa e dói: a infância — a lembrança da infância, quero dizer, porque já não sou mais criança —, minha mãe, que enlouquecia de dor em dias assim molhados, meu pai, isolado em sua cabana perto da lavoura em que trabalhava e sempre alheio ao que se passava na casa, minha irmã mais velha — e muito mais esperta, porque soube dar o fora no momento certo —, e esses onze dias com suas onze noites de água.

    É difícil acreditar que uma cidade e seus habitantes possam suportar algo assim: onze dias de chuva ininterrupta, obrigando as pessoas a se encerrarem em casa, quando o que elas mais necessitam é sair para trabalhar, para estudar, para fazer negócios, para tocar a vida. Mas a chuva tem linguagem própria e escreve sua história como bem entende.

    Vejo pela janela embaçada alguma gente corajosa e seus guarda-chuvas no meio das poças, amaldiçoando o céu por despejar tanta água. Vejo uns poucos moleques pulando os charcos, vejo três ou quatro automóveis passando pela rua e espirrando água para todos os lados. Vejo a rua transformada em rio, cortando a cidade com sua correnteza e arrastando consigo lixo, coisas soltas, animais mortos, a paciência e a capacidade das pessoas de aguentarem esse aguaceiro bíblico.

    Já suportei muita chuva, mas nunca uma igual a essa. Onze dias! De verdade, não posso mais! Além disso, meu cabelo eriça com a umidade, pareço um leão alucinado querendo meter os dentes na primeira presa que passe pela frente. Não há nada capaz de domá-lo, alisá-lo para eu parecer ao menos uma pessoa normal, com quem se possa manter uma conversa comum sobre qualquer assunto. Não há normalidade possível quando chove dessa maneira.

    ***

    Minha mãe se desesperava com a dor nos ossos por causa da chuva. Uma dor que brotava de dentro dela mesma e a enraivecia e quase a cegava. Ninguém em casa sabia o nome dessa enfermidade. Para saber, era necessário dinheiro, coisa que não tínhamos. Dinheiro para ir a um bom médico e ouvir dele do que padecia minha mãe quando chegava a temporada das águas. Sabíamos que era uma coisa muito ruim. Se soubéssemos o nome da enfermidade, iríamos providenciar um remédio, um calmante para acabar com seu sofrimento. Mas não sabíamos o nome.

    Doía. Mas não doía só nela, doía em mim também. Não doía em minha irmã mais velha no tempo em que ela morava conosco. Não sei dizer se agora dói, já que nos abandonou e sabe-se lá por onde anda. Com o meu pai posso garantir: ele não sente nada, nem poderia, sempre carrancudo e preocupado só com suas coisas. Quanto a mim, digo: doía muito, doíam os ossos, o coração e o corpo inteiro junto com minha alma. Acho até que a chuva doía mais em mim do que em minha mãe. Ainda dói.

    ***

    Quando minha irmã chegou à maioridade, pediu à mãe e ao pai que a deixassem estudar na capital. Queria ser professora. Dizia que, quando tivesse o diploma, voltaria para ensinar as crianças da cidade. A professora Cris. Porque minha irmã se chama Cristiana, mas ela gosta que a chamem Cris. Se ela tivesse ficado em casa e não tivesse usado todo o dinheiro da poupança para se tornar professora, estaríamos agora juntas e nossa mãe teria chance de ao menos conhecer o nome de sua doença. Mas não foi assim. Cris partiu e disse que voltaria já formada e pronta para trabalhar. No começo mandou cartas, tenho todas até hoje e de vez em quando leio. Depois parou, não enviou mais nada, nem um presente. Não soubemos mais dela. Às vezes acho que morreu, mas só penso nisso quando quero desculpar minha irmã por ter nos abandonado.

    Cristiana recebeu o mesmo nome do pai. Um nome como herança de família.

    ***

    Meu pai se chama Cristiano, mas ele não gosta que o chamem Cris. Ele argumenta: Cris é minha filha, não eu. Trabalhou a vida inteira na lavoura e passava pouco tempo em casa. Não o vi envelhecer, e ele não me viu crescer. Tinha uma cabana perto da plantação de trigo e de milho e sempre ficava lá quando anoitecia, depois de podar a plantação e rastelar as folhas secas. Voltava só no dia seguinte. Gostava de estar perto de suas coisas. Era assim que a vizinhança se referia ao trabalho do meu pai: Cristiano, como vão as suas coisas?

    As coisas de meu pai eram sua lavoura e sua cabana no meio do mato. Não eram minha mãe e eu nem as nossas dores nos ossos.

    Meu pai gostava muito da Cris, mais do que de mim. Gostava dela antes de ela nascer, por isso a batizou com seu próprio nome, um nome digno, segundo ele. Era a herança de família que a filha mais velha carregaria enquanto vivesse. A mim ele batizou Maria. Não havia outra Maria na família. Meu nome não era homenagem a ninguém. Quando Cris foi para a capital e deixou de mandar cartas, meu pai quis ir até lá e trazê-la de volta, mas não foi. Ele não sabia como ir. Tentou pegar o trem, mas ficou com medo de se perder e desistiu. Foi para a cabana do mato. Permaneceu lá vários dias, não sei quantos, talvez onze, lidando com sua solidão. Como eu agora, há onze dias encerrada em casa, vendo a chuva cair e sentindo a dor que ela causa em meus ossos. Meu pai não trouxe a Cris de volta porque não sabia como. Ele nunca soube de nada, só sabia das suas coisas. É que ele é homem.

    ***

    Bem diferentes eram os dias em que não havia chuva, nem gritos, nem dor. O pai ficava mais tempo em casa, a mãe fazia comida e me chamava para ajudar. Pedia para cortar as batatas, depois lavar e secar a louça, varrer o chão, deixar tudo limpo. Não tínhamos empregada. Eu era a empregada.

    Saíamos para passear, cumprimentávamos os vizinhos, líamos as cartas da Cris e dormíamos com a janela aberta. Não me incomodava ser a rejeitada de sempre nem ser só a Maria, a que veio ao mundo sem ter sido querida.

    ***

    Minha mãe sentia nos ossos a aproximação da chuva. Assim que as nuvens escureciam, seus cotovelos e joelhos inchavam e começavam a latejar. Primeiro vinham as reclamações dissimuladas, um “ai, que dor!” baixinho a que eu e meu pai já estávamos acostumados. Bastava o céu despejar a água, ela abraçava a loucura. Esfregava unguento pegajoso nos ossos das mãos, das pernas, dos ombros, do quadril, dos pés, falava que tudo doía, que iria morrer de dor. Ela parecia mesmo morrer. Um dia ela morreu. Eu já estava crescida. Cris não estava mais conosco havia muito tempo e meu pai, já nos primeiros pingos, partira para o mato. Ele, ao contrário de minha mãe, gostava da chuva, dizia que ela fazia bem às suas coisas. A água é uma bênção, faz crescerem as minhas coisas, ele costumava falar assim. Também crescia a dor nos ossos de minha mãe, mas ele nunca deu muita importância a isso.

    Nesses dias de aguaceiro em que minha mãe e eu ficávamos confinadas em casa, ela virava bicho. Chorava, gritava, amaldiçoava as paredes, me espancava. Enchia a casa toda com sua dor e, como alucinada, me agarrava pelos cabelos e me sacudia. Não havia nada nem remédio algum que a livrasse dessa tortura. Eu recebia as bofetadas em silêncio, ela gritava por nós duas. Se eu tivesse uma corda, e se tivesse coragem, amarraria minha mãe na cama e lhe daria uma surra para que parasse de chorar e de gritar de dor. Mas eu não tinha uma corda.

    Quando a chuva cessava, a calma voltava milagrosamente à nossa casa. Como se fosse estrangeira chegando a uma terra desconhecida e agradável, minha mãe se lavava e vestia roupa limpa. Fazia chá e comíamos juntas o bolo feito dias antes de começar o aguaceiro. Esperávamos em silêncio pela volta do meu pai.

    ***

    Ela morreu há dois invernos, quando choveu onze dias sem parar. Estávamos novamente presas e sozinhas dentro de casa, duas mulheres em convívio forçado, uma delas fora de si de tanta dor, vendo a água cair sem trégua. A casa ficou pequena para nós e para todo aquele sofrimento. Os ossos de minha mãe trincaram feito cristal. Seu esqueleto desmoronou. Ela se foi, mas não levou sua dor consigo: deixou-a para mim como herança de família. Porque meus ossos também doem quando chove.

    ***

    Estou há onze dias aguentando a dor sem chorar. Talvez pudesse suportar um dia mais: doze. Será? Acho que não. Confinada em casa e em completa solidão, esqueço as tábuas do corredor e olho pela janela embaçada. Vejo alguns guarda-chuvas, vejo os moleques, vejo o rio correndo pela minha rua. Escrevo com o dedo no vidro gelado:

    a casa
    a rua
    os olhos
    o abraço
    é tarde
    mas ainda dá tempo

    Limpo o embaçado do vidro com a manga da blusa e apago os versos. Só necessito que deixe de chover e de doer.

  • O Menino e Matisse

    Na página aberta de um livro, está um desenho de linhas curvas entrelaçadas. O menino percorre com os olhos cada pedaço da imagem, procurando memorizar o caminho sinuoso de cada pincelada dada pelo artista. Pega uma folha em branco e fecha os olhos. Quer se certificar de que o desenho que acabou de ver está inteiro em sua memória. Traça linhas retas e curvas na folha branca. De vez em quando retorna ao desenho original, e percorre novamente, com os olhos e também com os dedos, os movimentos da figura. Ele está sozinho no quarto e desenha. Nada parece perturbá-lo. Não se trata de um simples traçado, mas de uma imitação livremente inspirada na sedução que uma linha curva sinuosa exerce sobre quem a vê. O desenho que começa a surgir na folha é peculiar: uma espécie de mesa oblíqua formada pelo entrelaçamento de numerosas linhas muito leves. Na superfície, um vaso redondo; abaixo, uma roda cheia de segmentos amorfos. Se não estivesse sozinho, o menino seria interrompido por sua mãe, chamando-o para comer; por seu pai, fazendo perguntas bobas sobre o significado do desenho em vez de perceber a beleza das linhas curvas e das linhas retas; ou por sua irmã menor, que poderia, só de pirraça, rasgar a página. Mas ele estava sozinho, desenhando em uma folha de papel as figuras que viu num livro aberto. Ele se concentrou em seu mister e só o interrompeu quando ficou escuro. Foi até a cozinha e se serviu de um copo de leite. Quando voltou ao quarto, por mais que procurasse, não encontrou a folha de papel. A mesa, a roda e o vaso estavam lá, na página aberta do livro, mas não a folha branca com o desenho que ele criara. Esse jamais reapareceria. O vaso, porém, perguntou-lhe se ele havia jantado; a mesa o abraçou, beijou-o e depois o carregou para a cama; a roda chorou a noite toda, mantendo-o acordado. No dia seguinte, a vida continuou dando voltas, como de costume.

  • Quando o nosso nome estiver gravado na pedra

    Até os dez anos me chamei Donato, embora meus pais nunca tivessem gostado desse nome. Por que me batizaram assim é um mistério. “Não está com o rosto definidoainda”, diziam. “Quando for adulto e sua cara indicar que nome deve ter, mudaremos.” E assim foi. Aos doze, com a mudança de voz, decidiram que Donato já não combinava comigo, e que o melhor nome para meu rosto recém-estreado na adolescência seria Adalberto — Beto para os amigos. Esse nome durou até a noite de núpcias, quando, no momento crucial, minha mulher me chamou de César. “Céeeesar!”, gritou ela, antes de largar o corpo na cama, suado e satisfeito. Ela casou com o Beto e tirou a virgindade do César, meus amigos faziam sempre a mesma piada.

    Desde então mudei de nome em outras três ocasiões: no escritório em que fui trabalhar eu me sentia Oswaldo, e assim me apresentava a todos; na faculdade, Péricles; na mesa de jogo, antes de bater o punho e gritar ‘Truco!”, Evanildo.

    Meus amigos se confundiam. Para facilitar a vida deles, aceitei que colocassem no meu pescoço uma tabuleta com o nome vigente e, mesmo assim, ficavam pouco à vontade quando tinham de me chamar. Achavam essa mudança de nome uma bobagem. “A gente nasce, ganha um nome e fica com ele até o fim, até morrer, não é esse o normal?”, perguntavam sempre. Eu respondia que eles tiveram sorte, que o rosto deles se moldou ao nome que ganharam no batismo e não havia necessidade de mudar. Não era o meu caso, meu rosto não era sempre o mesmo e, por isso, o meu nome precisava se adequar. Para tranquilizá-los, eu acrescentava que, um dia, seríamos todos iguais, teríamos o mesmo rosto e o mesmo nome gravado na pedra.

  • A Melhor Estação

    Ela sabe que já é outono pelo barulho crocante das folhas secas rachando sob seus passos. Ainda que não possa distinguir as cores nem os galhos secos, ela sabe. Não percebe a diferença entre os ocres, os marrons ou os amarelos-avermelhados que forram o chão, mas sente a mudança do ar, que é mais fresco na sua estação preferida. Suspira. Já não sente tanto calor quando passeia pelo parque e ainda não faz um frio que a impeça de se deitar na grama e deixar o tempo passar. Está aliviada. No outono ninguém vai persegui-la ou intimidá-la. É o tempo em que seus hormônios relaxam e ninguém irá machucá-la. Será deixada em paz. Em dias assim, não poder enxergar não lhe causa tristeza. No outono não corre o risco de ser violentada. Enquanto durar a estação, seus dias serão dedicados a desfrutar a platitude de cachorra cega e abandonada nas ruas da cidade.

  • Febre de sentir!

    Algumas pessoas têm habilidade em se doar, sentir que em sua condição humana há mais espaço para atender aos interesses dos outros ao invés de suas próprias dores cotidianas.

    São indivíduos que emocionam em manter uma relação mais frequente com o outro trocando ideias, pensamentos, conversas, sem pedras nos bolsos, que são raras e caras para muitos.

    Já, as pessoas pesadas, pessimistas e invejosas, tornam as relações diárias um prato azedo e temperado com sintomas doentios, sem regras saudáveis e com grande efeito dolorido após um encontro, que mais parece um embate competitivo.

    Os invejosos, que são os que tem satisfação com o fracasso alheio, guardam em si o prazer secreto em oferecer um alívio para sua responsabilidade em buscar o melhor de si. 

    Mas que, na verdade, seus medos, os mantém distantes de qualquer crescimento que perceba facilmente ao seu redor.

    Para quem sofre esse ataque emocional, por vezes não permite ter o ato de exteriorizar o que machuca ou incomoda, de transformar experiências difíceis – físicas, mentais ou emocionais – em palavras, ou linguagem escrita, sem receios ou filtros, o que poderia trazer alívio, clareza e serenidade.

    Uma oportunidade singular de colocar pensamentos, medos, angústias e anseios em perspectiva, é transformar experiências em palavras escritas, dando um passo adiante no reconhecimento de problemas e na busca pelo melhor modo de lidar com eles.

    Segundo a psicanalista Daisy Dalmáz, a escrita por si só é um sinal de evolução. “Sabemos que o mundo das ideias pode tudo, mas quando colocamos todo nesse universo interno na escrita, ocorre um salto de qualidade, pois, ele precisa ser organizado, precisa adquirir sentido, expressando um encadeamento de ideias e sentimentos”.

    O processo precisa ser direcionado para um conteúdo que expresse SENTIMENTOS, e não SITUAÇÕES (por exemplo: “senti raiva” ao invés de “gritei muito” ou “senti tristeza” ao invés de “chorei”).

    Aos poucos, as pessoas que seguem com a prática vão se familiarizando com a elaboração dos textos, além de aguçar a criatividade e a percepção de suas emoções mais profundas, num belo processo de autoconhecimento e fortalecimento interno.

    Como escreveu Fernando Pessoa “Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir”.

  • ARREBATADO

    Quase morto de sede, o homem implorou ao céu por chuva, mas não caiu uma gota. Olhou pra cima e não viu uma só nuvem, só luz e azul. Rogou uma praga. Perambulou pela estrada poeirenta, o sol na cabeça. Viu algo no meio do caminho: uma escultura de madeira que alguém jogou fora. Era um rosto, uma cabeça. Uma cabeça completa. O homem a pegou nas mãos e a acariciou. Limpou a poeira e viu surgirem uns olhos, um nariz, uma boca. Um rosto. O rosto de um santo? Ele não sabia. Beijou aqueles lábios, quis saber que gosto havia ali. Colocou a escultura de pé, encostada numa pedra, e tomou distância para avaliá-la por inteiro. Aproximou-se novamente. “Escute aqui, meu chapa”, começou a conversar, como se estivesse na frente de uma pessoa de carne e osso (é assim que um solitário faz com aqueles que não o ouvem, para que o ouçam: “Escute aqui, meu chapa”).

    Pediu que mandasse chover. Não choveu. Pediu que saciasse sua sede. Não saciou. Por último, implorou que o livrasse da miséria. Continuou tão miserável quanto antes. Desolado, contemplou a imagem, os traços rudes, grosseiros, talhados a canivete. Ia atirar a escultura longe, por inútil, quando percebeu um brilho rápido naquele olhar: o rosto também pedia por alguma coisa. Nos limites de sua madeira estropiada e do seu silêncio, implorava que alguém o encontrasse jogado por ali e o limpasse e lhe dirigisse orações. Suplicava que o adorassem como se adora um deus ante seu altar. Então o homem compreendeu tudo. Perdeu a sede, esqueceu-se de si e da chuva e dançou diante daquela carranca de madeira velha e carcomida. Dançou, dançou como arrebatado.

  • Os olhos dela

    Ele ia deixá-los abertos, os olhos dela, mas decidiu cerrá-los para parecer que dormia.

    Conheceram-se numa festa de final de ano, na casa de amigos. Ele gostou do jeito e da graça com que ela levantou a taça de vinho durante o brinde para a contagem regressiva. Viu quando ela tomou um grande gole no “zero!” e abriu os braços para cumprimentar quem estava próximo. “Quero ela, quero essa boneca pra mim”, ele pensou, excitado. Já era quase de manhã quando caminharam pela calçada, buscando um café aberto. Lá dentro, com as mãos sobre a mesa, trocaram carícias e toques de dedos e unhas. Conversaram muito e marcaram novo encontro, cansados demais para irem para a cama àquela hora. O dia estava quase amanhecendo.

    Na segunda vez em que se viram, ela confessou, rindo muito, que era uma bruxa poderosa e podia ver o futuro num baralho. Disse também que não revelava tudo o que as cartas lhe diziam, não gostava de provocar pânico nas pessoas. Só contava os acontecimentos mais leves, do tipo “você vai se casar com um colega da igreja” ou “seu destino será viajar pelo mundo”, coisas assim, inofensivas. Ele falou vagamente sobre seu trabalho numa instituição financeira, atividade enfadonha e desimportante. Não revelou seu fascínio por bonecas, aqueles brinquedos infantis quase insuportáveis de tão perfeitos. Também escondeu que tinha uma pequena coleção delas em sua casa. Foram para a cama naquela noite e em muitas outras nas semanas seguintes. Criaram um laço afetivo e de muita tensão sexual e apertavam-no um pouco mais a cada encontro.

    Começaram a namorar.

    Num dos tantos encontros, na casa dele, ela concordou em ler o futuro do namorado nas cartas, desde que se reservasse o direito de não dizer tudo. “Fechado”, concordou ele. “Diga-me só as coisas boas, como a data do nosso casamento, por exemplo”, ele brincou. Sentados em volta da mesa forrada com um cobertor, ela espalhou as cartas viradas para baixo e se concentrou. Virou uma a uma e comentou em voz alta e aos risos o que elas diziam. À medida que avançava na leitura dos naipes, seu rosto aos poucos se crispou e se transformou numa máscara de pavor. Olhou para o namorado, que sorria de maneira que ela nunca tinha visto. Fez menção de sair correndo de lá, mas ele a segurou pelo pescoço e o apertou até o corpo dela amolecer.

    Agora ela está deitada na cama como uma dessas bonecas que têm uma bolsa na barriga para guardar o pijama. Ele ia deixá-los abertos, os olhos dela, mas estavam tão mortos que decidiu cerrá-los para parecer que dormia. Levou o corpo inerte para o porão, onde costuma executar os procedimentos de retirada de órgãos e a dissecação do cadáver. Tarefa para a manhã seguinte.

  • Cruel

    — Estou aqui, Maria Helena.

    Quando recebeu o recado, ele não deu pelo motivo. Disseram que ela queria vê-lo, insistia em vê-lo. Estavam divorciados havia mais de dez anos, e nesse período só tinham se visto duas ou três vezes para discutir a separação dos bens. Nessas ocasiões, tratavam-se como estranhos. Ela era francamente hostil, como se o culpasse pela vida amargurada que levava após o fim do casamento. Para ele, as coisas também não tinham sido fáceis: a saída do apartamento, a perda dos amigos comuns, a mudança de emprego. E a solidão. Agora, depois de tantos anos de afastamento, ela queria vê-lo. Ele foi.

    Chegou ao hospital no começo da noite. O quarto estava na penumbra e ela, sozinha. O corpo, cheio de fios ligados a aparelhos, denunciava o seu estado terminal.

    — Mandou me chamar, Maria Helena?

    Ela virou o rosto lentamente em sua direção. Ele pôde perceber, mesmo na penumbra, os olhos embaçados, que nem de longe lembravam o belo olhar que a ex-esposa tinha outrora. Sua cabeça, quase sem cabelos, era agora uma bola acinzentada. O corpo magro e sem carnes parecia ser incapaz de suportar o peso de uma folha de papel. Era um quadro grotesco, difícil de encarar.

    — Queria me ver, Maria Helena?

    Ela emitiu um som débil e fixou seus olhos nos dele. Esticou o braço lentamente para alcançar o interruptor e acendeu a luz. Com o quarto todo iluminado, ele pôde ver o indescritível. Mal teve tempo de sair correndo dali, sufocando um grito, quando ela escancarou a boca sem dentes e expôs as gengivas negras numa gargalhada perversa, sem som e repleta de rancor.

    Na rua, apoiando-se numa parede para suportar a sensação de cair num abismo, ele subitamente compreendeu tudo: ela o chamara para que ele testemunhasse a sua decadência física e guardasse na memória, enquanto vivesse, aquela imagem medonha feita de pus, secreção e toda a crueldade do mundo.

  • O doce Augusto

    Nasceu palhaço, um grande palhaço, mas não se deu conta disso, e ninguém lhe disse. E então passou os anos fingindo uma seriedade que não tinha. Jamais prosperou: nunca foi capaz de cuspir nem dar pontapé no traseiro dos outros ou fingir que gostava de criança, pois gostava de verdade. Era mesmo um palhaço, só que não sabia que era. E por isso foi infeliz.

    Um dia, numa reunião familiar sem importância, disse com voz de falsete: “Definitivamente, não sou ninguém-guém-guém.” E todos estavam de acordo, não merecia consideração um homem frouxo como ele, que não levantava a voz ou batia o punho na mesa para defender suas ideias. Quando por acaso alguém lhe dava ouvidos, não conseguia evitar um sorriso. “Você poderia ser um grande humorista, um palhaço”, costumavam lhe dizer, “sempre teve grande talento para o humor, deveria investir nisso, ganhar dinheiro, ficar rico fazendo graça.” Ele não acreditava e mudava de assunto. Sentia solidão com frequência, mas nunca perdeu o sorriso. E era um sorriso triste.

    Numa dessas festas de casamento, teve oportunidade de exercitar sua verve humorística. Deram-lhe um microfone e ele subiu num pequeno tablado.

    — Sabem qual é o menor circo do mundo? Uma bombacha, porque nela só cabe um palhaço.

    Ninguém riu.

    — E por que um bebê de proveta não pode ser palhaço, alguém sabe? Porque não nasceu gozado.

    Novamente nenhum riso. Ele não conseguiu continuar, ninguém lhe dava a menor atenção.

    A última vez que o vi foi num encontro casual. Ele usava um chapéu-coco de feltro preto. Nos abraçamos com carinho, ele sempre atrapalhado com os braços. Dei risada e quis saber como ia a sua vida, o que fazia para viver.

    — Minha vida vai bem, muito bem, bem, bem. Sou zelador daquele prédio ali na frente.

    — E o humor?

    Ele ficou sério por um segundo. Depois sorriu: “Ora, isso acabou. Ninguém queria saber das minhas piadas. Achei melhor desistir. Aliás, você sabe o que um prédio falou para o outro?”

    Fiz que não com a cabeça. E ele: “Você tem um andar lindo!”

    Deu tchau com os dedos e foi embora, perdido nos pensamentos e tropeçando nos enormes sapatos coloridos.

  • Pessoa

    E porque viver não é necessário — necessário é criar —, ele dizia para si mesmo nas horas longas em que, de sua janela, à noite, olhava o mar: Ah, Pessoa, tu tens uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais que um espectador de ti mesmo, tens que assistir ao melhor espetáculo que puderes. Acaso não tens em ti todos os sonhos do mundo? Então sonha, homem, sonha…

    Quando se sentia só, nas noites em que apenas os passos miúdos e rápidos de Maria Jesuína, a empregada, indo e vindo pela casa, eram ouvidos, Pessoa convocava seus amigos mais chegados, aqueles imprescindíveis, para uma festa despretensiosa na sua biblioteca: celebrar a literatura com doses generosas do melhor vinho português.

    Álvaro, Alberto, Bernardo e Ricardo se revezavam na criação da poesia mais sublime. Pessoa os olhava, recostado no sofá, sorvendo lentamente sua taça de Porto. Estava embevecido ouvindo-os falar, contabilizando mentalmente quantos e quão belos versos iria roubar deles naquela noite.

    A festa avançava madrugada adentro e só foi interrompida quando Maria Jesuína, mãos na cintura e bigodes em riste, decretou:

    — Pessoa, ainda acordado? Já pra cama!

    Despediu-se dos amigos e deu boa noite a Maria Jesuína. No quarto, pijama de flanela, ouviu o vento que passava além. Olhou seus botões e pensou: Só de ouvir o vento, vale a pena ter nascido. Sentou-se por um momento nos pés da cama, os olhos nos chinelos: Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Pensou nos amigos com carinho e sorriu: São todos fingidores; fingem tão completamente, que chegam a fingir que é dor a dor que deveras sentem. Gostava de tê-los sempre por perto, ainda que fugazmente, porque o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.

    Deitou ainda uma vez os olhos no mar, além de sua janela. A vista daquela imensidão líquida e salgada apertou-lhe o coração e turvou-lhe a alma: Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?

    Dormiu, finalmente.

    *(Citações em itálico: Fernando Pessoa)

  • Laranjas azedas com sal

    É pegar uma laranja azeda, cortar exatamente ao meio, e ir colocando sal, aos poucos, em micro-pitadas, à medida em que se vai chupando. Umas três pequenas adições de sal dão conta. O que se sente? Bem. Um pouco do azedume da laranja, um pouco do salgado, obviamente, e, surpreendentemente, um leve sabor adocicado que não deveria estar ali — pois a laranja não é do tipo doce — mas está. Ele transava, desde sempre, experimentações gastronômicas. Contudo, a laranja azeda com sal aprendera com a mãe e com as tias quando ainda menino. Hoje ele é um homem velho a relembrar o seu passado com as cores fortes de um presente que fosse. Cores e sabores, como o da única laranja que neste dia estava em cima da mesa. Para sua alegria, era uma laranja azeda. E ele a chupou com sal. O gosto era de passado.

    No sol da sua longínqua juventude ele se aquecia. Certo dia, muitos anos atrás, perguntaram-no sobre qual era a coisa de que ele mais gostava, no que ele respondeu, depois de pensar um pouco: “ —Maconha e sexo”. Ele não levou mais de trinta segundos para eleger essas duas coisas como as suas preferidas. E pensou em como estava tanto tempo sem fumar um. E pensou também que já não fazia sexo com a freqüência de meses antes — não que n’algum dia estivesse satisfeito com a freqüência de suas relações sexuais. E o fumo… O fato de o fumo ser ilegal o perturbava, pois isso o restringia na impossível liberdade de fumar onde quisesse. Maconha ilegal, sexo restrito. Ah, o sexo… Este requeria um mínimo de paixão, e, ainda, requeria uma outra pessoa, e essa outra pessoa nem sempre estava apaixonada ou presente. Ele buscava na vida o prazer das coisas do corpo – que é o mesmo que alma. Buscava satisfação. Satisfação, para ele, era uma palavra como Comunismo, ou como Extraterrestre: essas coisas que são lindas, mas que não se sabe se um dia poder-se-á ver.

    Numa tarde, ele pegou seu velho carro, que era uma extensão da velha bicicleta — sempre coisas velhas — e foi em direção ao incerto. Uma estradinha de asfalto centenário — datada de quando quase não existia asfalto. O incerto dele nunca era algo muito distante, em termos automobilísticos e viários, dada a situação do tanque com pouco combustível, sempre com pouco combustível. A velha estradinha sempre o esperava. Em silêncio e acolhedora. Ela o recebia, ele, o eterno menino velho — que sempre seria menino e sempre fora um velho –, com seu carro velho e com seu baseadinho, mas sem companhia para sexo. Numa das curvas ele acelerou mais que o considerado seguro, até que colidiu com um animal de grande porte. Era um burro. Na testa agora um pouco de sangue. No burro, caído no chão, não se via sangue, mas se via um animal tentando levantar sem sucesso — provavelmente uma fratura na bacia, ou na perna. Olhou para os olhos tristes, por fim, do burro, que parecia ter, após muitas tentativas, desistido de levantar. Sentou-se na grama, à beira da estrada, a quatro metros do burro e permaneceu, fitando-o. Sentiu vontade de chorar, mas não chegava a chorar em situações trágicas pessoais – os filmes o faziam chorar com muito mais facilidade. A morte de artistas queridos o faziam chorar, fossem contemporâneos seus ou não. Ali não chorou. Aquela situação, no entanto, era muito triste: um rapaz pobre com seu carro velho com o pára-lama direito amassado, sangue descendo na face, um pobre burro deitado na lateral da estrada, a incerteza sobre o que fazer naquele momento. E um burro, por si só, já é uma coisa triste.

    Fugir e abandonar o animal: pensou. Mas que merda… dois burros, sem ação, à beira do caminho: pensou novamente. E pensou um milhão de coisas. E multiplique-se isso pelo efeito da Canabis-sativa em sua mente. Pensamentos de todas as cores, sabores, cheiros, medos e conclusões diversas. Não seria honroso um burro abandonar o outro. Ele pensava em sua honra, ainda que não houvesse expectadores. O sol, o vento frio, o céu que avermelharia com o ir das horas.

    Milagres acontecem. Ela parou seu carro, bem mais novo, vermelho, e o ofereceu solidariedade, perguntando, primeiramente o que havia ocorrido, e como, e o que fazer, e em que posso ajudar, e como posso ajudar, e como isso foi acontecer, e como você pode mesmo ficar aí parado pensando no burro ferido quando podia dar o fora antes que o dono do burro apareça, e achou como ele era bonito, e ele também achou isso dela, e ela pegou na mão dele, e comoveram-se juntos com a situação, e saíram de perto do burro pra pensar na situação sem a imagem triste dos olhos tristes do triste animal, e ultrapassaram uma cerca, e fumaram juntos, e roubaram umas laranjas, e eram azedas, e aquilo era bom, e ela limpou seu rosto com a blusa molhada no riacho, e fizeram amor, e foram felizes, felizes, felizes… Voltando à estrada ela disse: “— Há uma hospedaria de cavalos perto daqui onde podemos avisar que há um pobre burro com a pata quebrada. Tem veterinário lá. Eles poderão dar um jeito. Não precisamos falar que você o atropelou”. E assim foi feito. E assim eles disseram: “— Até qualquer dia!” E eles nunca mais se viram. E o burro viveria feliz até o fim dos seus dias.

    Voltando pra casa com o velho automóvel, de sua pequena viagem, ele trazia na mochila algumas laranjas azedas. Já na cozinha, as chupou com sal.

    *Publicado originalmente no Crônicas Cariocas em seg., 15 de jun. de 2009, 10:21

  • Na casa do pasto

    Perto do pasto só há uma casa. Em pé na soleira, um homem e uma mulher discutem. Em questão de horas sairá dela outro filho, a parteira já deve estar chegando. As outras crianças, cinco ou seis, já crescidas, brincam na terra com o cachorro.

    Da barriga da mulher escorregou uma menina. Pequena, chorona, magricela, sem muita roupa para vestir, ainda bem que estava fazendo calor. A comida que há na casa do pasto não é suficiente para a fome de todos. A mãe precisa comer mais do que os outros, tem de encher os peitos de leite. O leite vai para a criança que ainda nem abriu os olhos.

    O homem se encarregou de enterrar a menina atrás da casa, abaixo da janela. Cova rasa, que o volume não precisava de muita fundura. Foi sem batismo, porque não deu tempo. Cruz, flores e uma tábua para quem quisesse ler o que estava escrito nela: Marilda. O cachorro vive enfiando as patas na terra em volta da casa, cavucando.

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