Conto de Quinta

  • A doença

    Olhei no espelho e vi uns olhos que não eram os meus. Esse rosto assim magro, assim pálido, assim descolorido, não era o meu. No entanto, era eu que estava refletido, era eu que me olhava. Baixei os olhos, quem sabe a imagem do outro lado desaparecesse e eu voltasse a me ver como era antes. Levantei o olhar e vi, de novo, esse rosto assim magro, assim pálido, assim descolorido. Suspirei, conformado, e comecei. Passei a espuma nas bochechas e fiz massagem delicada com o pincel. O cheiro era agradável, mistura de menta e madeira. A lâmina descia suave sobre a pele, arrancando os pelos indesejados.

    Então me lembrei dela, a maldita. A lembrança se materializou e ela surgiu atrás de mim, olhando-me calada. Senti um calafrio na espinha e medo, muito medo. Sua imagem refletida no espelho me assustou, sua aparência não era bonita, mas isso não tinha a menor importância, não naquele momento em que uma fera se prepara para o bote. Virei-me e a encarei. Precisei pensar se a deixaria ficar ali ou não. Decidi que não. Disse num sussurro: “Seu lugar é no inferno, não aqui, no meu corpo. Vá!” Sem nada responder, ela me mostrou sua mão e nela havia uma ferida, como a chaga de Cristo, aquela produzida por obra de prego e martelo impiedosos.

    Parei segurando a lâmina no ar, a cara ainda cheia de espuma. Ela tentou grudar a chaga em meu peito, como uma tatuagem, uma identificação. Fiz um gesto brusco: “Não seja estúpida!” Não queria ficar marcado para sempre — “Ali vai o homem marcado, que o destino escolheu. Coitado.”

    “Não seja estúpida!”, repeti. Ela recuou. Olhou com medo para a lâmina que eu empunhava e desapareceu. Voltei a ficar de frente para o espelho e continuei escanhoando meu rosto. A espuma foi sumindo e o que surgiu foi meu rosto limpo, ainda magro, ainda pálido, ainda descolorido. Mas agora já o considerava meu de novo.

  • Um dia, uma mosca

    Ainda que não soubesse, não percebesse nem desconfiasse, ele estava esperando por ela. O seu corpo engordurado de suor era como um pote de mel para a mosca que entrou pela janela e se precipitou em voo rasante na direção dele. A modorra da tarde, o calor entorpecente, a ausência de vento e a sala vazia não fosse ele ali deitado, lendo: a mosca recém-nascida começava a apreender o mundo.

    Ele a afasta com um gesto de mão, inútil, os olhos postos no livro. Não entende que, naquele momento, está convertido num banquete de oito talheres para um ser faminto. A mosca volta a se aproximar, sem cautela, decidida. Quer lambê-lo, acariciá-lo, beijá-lo, chafurdar nas lagoas de suor formadas entre as dobras da pele. Amor: ela ama e é dessa maneira que ela ama. Novo desprezo, gesto de mão mais enérgico, tão inútil quanto o anterior. Ela o olha, pousada na borda da mesa. Ele não se dá conta, entretido na leitura, embora tenha perdido um pouco a concentração. É difícil manter-se atento às palavras impressas quando uma mosca – a sua mosca! – está aí tão perto.

    Ela o estuda. Prepara nova investida, tomada pelo desejo incontrolável, lascivo, de se misturar ao cheiro podre que emana daquele corpo suado. Rechaçada uma e outra vez pela mão violenta dele, ela pousa não muito longe dali, perto da janela. Uma lâmina aquosa quase imperceptível desliza, como orvalho, por seu rosto diminuto e brilha durante um décimo de segundo sob o sol daquela tarde. Ela chora a rejeição. Pouco tempo depois estará morta, possivelmente esmagada pelo tapa que ele lhe dará quando ela menos esperar. Pronto. Assim, ele voltará à leitura e à tarde modorrenta, e continuará a suar sem ter nunca a consciência de que um dia houve uma mosca que o amou mais do que ninguém.

  • Juno

    — Não tenha vergonha de olhar para mim.

    Ele falava com uma senhora muito elegante, cujo cão tinha parado para fazer suas necessidades perto de onde ele estava sentado, sobre um papelão sujo, com as costas apoiadas na parede de uma padaria no centro de São Paulo. A senhora, que esperava o bicho se aliviar, olhava de soslaio para ele: o corpo magro, a barba branca que lhe cobria quase o rosto todo, os cabelos compridos e também brancos, os andrajos imundos, os pés pretos de sujeira enfiados em velhas havaianas, uma mochila surrada ao lado. Perto, um copo de plástico com duas ou três moedas, uma garrafa de água, um guarda-chuva, uma sacola de supermercado com algumas frutas.

    — Não tenha vergonha de me olhar, já estou acostumado. Posso suportar. — Ele repetiu, esboçando um sorriso.

    A senhora se agachou com um saco plástico na mão para recolher o cocô do cachorro e, ao se levantar, manteve os olhos baixos.

    — O senhor pode suportar, mas eu não. — A mulher deu um nó no saco plástico com as fezes do animal e olhou em volta, procurando a lata de lixo mais próxima.

    — Senhor não, não precisa. Pode me chamar de você. Meu nome é José Núncio. A turma me chama de Juno.

    — Maria do Carmo. Desculpe, o meu cachorro fez sujeira bem perto de você.

    — Não tem problema. Vejo que você carrega um livro.

    — Sou professora. De História.

    Juno pegou a mochila e tirou de dentro um exemplar de História do Mundo Contemporâneo: um velho livro de bolso com as folhas encardidas pelo manuseio.

    — Já li outros livros, mas este foi o único que me sobrou. Ler é instrutivo e eu gosto muito.

    — Ler é uma das coisas mais importantes da vida. — Maria do Carmo concordou, ainda procurando onde jogar o saco com o cocô do seu cachorro.

    — Uma vez ouvi dizer que só existem duas maneiras de se ganhar conhecimento: viajar e ler. Como não posso viajar, eu leio.

    — Se você quiser, amanhã trago outro livro para você.

    — Como não vou querer? Se puder, me traga um sobre o mundo antigo, para comparar com esse de história contemporânea que tenho aqui. Ficarei agradecido.

    Maria do Carmo fez um aceno com a cabeça e se despediu. Andou oito ou nove passos e voltou para deixar algumas moedas no copo de plástico.

    — Não precisava ter se incomodado.

    — Não foi nenhum incômodo.

    — Deixe comigo também o saco de cocô do seu cachorro. Tenho que me desfazer do meu cocô também.

  • ESCOLHAS

    Pode-se não dizer nada (e isso talvez não seja tão difícil). Pode-se guardar as palavras, esquecer os substantivos, calar os adjetivos, ignorar os verbos. Pode-se não pensar no toque de peles mornas nem em anoiteceres compartilhados, muito menos em entardeceres com cheiro de comida. Pode-se não intuir nem imaginar. Pode-se tirar tudo da frente dos olhos: os relógios, os mapas, as geografias, as histórias, as memórias, o passado e o futuro. Pode-se não ler livro algum. Pode-se ler todos os livros. Pode-se queimar todos os livros do mundo. Pode-se cancelar os nomes e as coisas, confundir as línguas, negar as emoções, camuflar as lágrimas, dissimular os sorrisos, refrear os abraços, interromper os diálogos, prantear ou não os mortos. Pode-se fingir que a lâmina não fere rente.

    Pode-se fazer tudo isso e segurar as consequências nos dentes. Ou então se sentar na frente de uma montanha, passar a vida contemplando-a e morrer lentamente de morte natural.

    Está posta a escolha.

  • Agora não é hora

    Agora não é hora, e peço que não me perguntem quando e como aconteceu. Se fazia frio ou calor, se a lua estava cheia girando no céu ou, ao contrário, se havia nuvens se juntando para a conspiração da chuva, se a cidade estava tranquila ou era o formigueiro habitual de cotovelos se chocando, se os pássaros gloriosos de Harold e Maude singravam a amplidão ou se havia quietude no firmamento, se os carros tiravam faíscas do chão ou se o asfalto dormia seu silêncio: não me perguntem nada, nem queiram saber de nada.

    Perguntem-me, isso sim, se me lembro de sua blusa florida aberta até a altura dos seios, de sua saia rodada que terminava perigosamente na altura dos joelhos, de seus sapatos pretos que faziam círculos na terra sob o banco em que estávamos sentados sob aquele céu, naquele parque, naquele dia. Não tenham receio de querer saber se ainda me recordo de seu pescoço descoberto, com a cascata de cabelos cuidadosamente depositada sobre um dos ombros, deixando o outro exposto para a contemplação e o desejo. Sim, disso tudo eu me lembro.

    Minhas retinas também não esquecem suas mãos, sempre nervosas, seus olhos, inquietos todo o tempo, e seus lábios, de onde saíram as palavras que me mataram por dentro. Perguntem-me sem medo se ainda sinto o contato de seus dedos no meu rosto, nas minhas pernas, no meu cabelo, mas não queiram saber se havia pessoas ao redor ou se algum cachorro latiu naqueles momentos intermináveis de agonia. Disso eu não sei.

    Perguntem-me pelo rosto dela, ainda que não saiba defini-lo nem descrevê-lo e ainda que ele esteja gravado em minha memória. Mas não me perguntem pelas lágrimas que brotaram daqueles olhos, por aquela forma de chorar que me cortou o coração, que era a forma líquida, junto com a concretude das palavras, de me matar. Nem falarei de como ela enxugou o rosto com o dorso das mãos, de como se soltou de meus braços, de como se levantou e caminhou pelo parque, se distanciando de mim, perdendo-se entre as pessoas, sumindo na cidade para entrar definitivamente nos meus sonhos: ela, convertida em sombra; eu, em nada.

    Eu sou esse nada sentado sozinho nesse banco, nesse parque, sob esse céu que ainda não se decidiu se despeja a chuva ou se mantém lá no alto a lua cheia girando sem sentido, sem razão, sem porquê. Mas não me perguntem nada, agora não é hora.

  • O velho piano

    Com as costas curvadas e as mãos apoiadas nos joelhos, o velho Amadeu contabilizou o produto de sua semeadura: recolheu duas cenouras que tinham brotado no meio das alfaces e das couves. Gostou da surpresa. Analisou e viu que as cenouras eram boas. Preparou e comeu uma salada fresca no almoço. No mesmo dia, resolveu experimentar algo novo: plantou no meio das abobrinhas uma flauta, um violino, duas partituras de Bach e um Dó Maior. Cobriu tudo com muito cuidado, apalpou com força a terra, regou e foi descansar. Sentou-se na varanda e contemplou o bom trabalho que fizera. Cuidou da plantação por dias, semanas. Arrancou as ervas daninhas e nunca deixou que faltasse água. Uma manhã, quando abriu a janela, gritou de alegria. Chamou os vizinhos e apontou sua horta, onde reluzia um majestoso piano de cauda.

    Tinha brotado ali, por sua dedicação e cuidado, o mais belo piano de cauda que todos jamais viram. A notícia correu a cidade e virou assunto de todas as conversas. Logo a multidão chegou para ver e passar os dedos sobre a madeira cintilante. Discutiram sobre a excelência da marca, a qualidade das teclas, o branco tão branco e o negro tão retinto que até doía nos olhos. Que instrumento imponente! Não tardou os professores e artistas da cidade organizaram concertos, aulas de música a preços camaradas, concursos para descobrir novos talentos musicais em toda a redondeza. O velho Amadeu não cabia em si de contentamento. Quando perguntavam, dizia que o segredo daquilo tudo era… um segredo. E mais não contava.

    Numa tarde de abril, o velho Amadeu levou as mãos ao peito e fechou lentamente os olhos. Estava sentado na varanda olhando o piano no meio de sua horta. Pensava nas belezas sonoras que brotariam daquela madeira reluzente. Quem o encontrou disse que ele partira com um sorriso.

    O tempo e sua crueldade se encarregaram de diminuir o viço daquela novidade extraordinária. Uma manhã, quando somente os passarinhos visitavam o piano e o limo cobria quase todo o teclado, veio uma máquina e levou o velho instrumento para o depósito municipal de sucatas e ferro velho. E lá ele permanece até hoje, silencioso e coberto de poeira, ao lado do projetor de filmes, dos aparelhos de som, do foguete espacial e de outros objetos que já não têm mais nenhuma importância ou serventia nos dias de hoje.

  • Striptease

    De longe, só se vê que há luz no quarto, mas pouco se distingue o que acontece lá dentro. Com meu binóculo, escondido atrás da cortina no apartamento do prédio em frente, tenho visão privilegiada e posso ver tudo com detalhe. Posso vê-la tirar a roupa, por exemplo. Como agora. Ela acabou de entrar. Jogou a echarpe no chão e sentou-se na borda da cama para tirar os sapatos de salto. Joga-os num canto. Começa a desabotoar a blusa. Noto que está um pouco mais cansada do que o habitual, há rugas acentuadas na testa, olheiras fundas. Imagino o dia puxado de trabalho que ela teve e me comovo.

    Agora de pé, ela abre o zíper da saia e a deixa cair até os tornozelos. Com um movimento da perna direita, joga a peça em cima da cama. Vai de um lado ao outro do quarto, olhando em volta, como se procurasse algo. Para e inclina-se para tirar a meia-calça, que larga no chão. Assim, de blusa e calcinha, descalça, solta o coque e balança a cabeça enquanto os cabelos lhe cobrem as costas. Parece que encontrou o que buscava. Acende o cigarro e fuma na frente da janela, olhando o movimento da rua.

    Volta-se para dentro e apaga o cigarro no cinzeiro da mesinha de cabeceira. Retorna ao ritual de desnudamento. Tira as rugas, aquelas que ainda povoam seu rosto e que resistem ao creme hidratante usado diariamente. Arranca também as manchas dos braços e as olheiras escuras que lhe fazem penumbra nos olhos. Desfaz-se completamente das varizes e estrias das coxas e panturrilhas. Aos tufos, e com movimentos bruscos das mãos, livra a cabeça dos indesejados cabelos brancos que envelhecem a moldura de seu rosto. Olha-se de costas no espelho grande da penteadeira e arranca de uma vez a gordura acumulada nas nádegas. Agora de frente, elimina por completo, com a ajuda de uma esponja, o olhar sombrio que tinha até então. Esfrega os seios e o sexo, empurrando para o chão todos os homens que escreveram a história de seu corpo. Por último, respira fundo como se precisasse tomar coragem e puxa de uma só vez a cicatriz da cesariana.

    Completamente nua, o olhar sereno, fecha as cortinas e apaga a luz.

  • Uma nova quadrilha

    Carlos gostava dos dias frios. Laura, dos ensolarados e quentes. João, dos chuvosos. Laura assistia a todas as telenovelas. Carlos, às partidas de futebol. João preferia os livros. Laura falava muito, sempre. Carlos, um pouco menos. João, só o necessário. Laura acreditava em Deus sobre todas as coisas. Carlos era ateu. João, agnóstico. Carlos adorava dançar e era ótimo nos bailes. Laura gostava mais dos concertos; ficava louca com Debussy. João era cinéfilo e sabia de cor os diálogos de Cidadão Kane. Laura se vestia com simplicidade e descontração. Carlos sempre combinava o sapato com o cinto. João não abria mão do jeans e camiseta.

    Carlos, Laura e João eram grandes amigos. Colegas de faculdade, não se largavam. Iam os três ao cinema, para que João ficasse feliz. Ou aos concertos, para que Laura pudesse chorar de tanta emoção. E aos bailes, para que Carlos mostrasse suas habilidades de bailarino. Laura amava Carlos, mas não era correspondida porque Carlos amava João. E João não escondia sua paixão por Laura. Até que Laura, num concerto de Stravinski, conheceu Edgar e se casou com ele (morria de medo de ficar para tia). Carlos mudou de sexo, adotou o nome artístico de Kátia e fez carreira como cantora lírica na Itália. João ficou solteiro e tornou-se escritor; Laura, Edgar e Kátia foram convidados para o lançamento de seu primeiro romance, Quadrilha

  • Os esquecidos

    Existe esse bairro do qual pouco se ouve falar, encravado na periferia extrema de uma grande cidade. Um lugar miserável feito de papelão, barro e lata velha, com cadeiras coxas nas portas e arremedo de jardim sem flores debaixo das janelas. Nesse ermo, sempre deixado de lado, vivem os esquecidos, uma gente feia à qual a gente da cidade entende por bem dar as costas. É um aglomerado de mortos-vivos que perambulam, comem quando conseguem o que comer, transformam coisas em cores e só têm olhos para onde seus pés pisam.

    Um dia desses, um dia qualquer desses, algo surpreendente aconteceu no mundo. A terra tremeu e rachou, o mar se agigantou para além do que é ser gigante, bilhões de insetos romperam os ovos ao mesmo tempo, a lavoura secou, os animais caíram doentes, os homens e as mulheres sentiram o pavor na pele e choraram pelo destino de seus filhos. A água que se bebia ficou podre, a comida escasseou, o mato cresceu e tapou a paisagem, uma enfermidade veio após a outra, o ar se encheu de poeira, a lua se aquartelou atrás de um planeta desconhecido, o sol perdeu seus raios e pareceu esfriar.

    Enquanto tudo isso acontecia, o bairro dos esquecidos, de tão esquecido que era, foi deixado de lado. Em lugar já tão miserável, não havia espaço para mais miséria. Quis a sorte que as latas velhas e as pessoas que viviam dentro delas sobrevivessem ao apocalipse.

    Agora é com eles, com os esquecidos, e só com eles, que está esse negócio de crescer e se multiplicar de que falava um tal livro que eles nunca leram.

  • Trama subjetiva nas mentes!

    O poder político mantém certas ideias para gerir uma nação, desenha caminhos fartos de opções no cotidiano do povo, que está a espera de sua colaboração e sustento. 

    O poder da biologia carrega em suas raízes a capacidade de escrever a data de seu velório. 

    O poder espiritual, sustenta a igreja com certas regras e posturas limitadas pela fé, diferenciado substancialmente com espírito e alma aos pés de sua prole. 

    Carrega a eternidade como salvação das almas e mantém o religioso atento às esperanças de paz no céu após sua partida. 

    Como entender o predomínio de um poder que tal data manda, tal povo, tal decisão e aspirações, se os propósitos parecem distintos e as forças diferenciadas? 

    No tempo de Milcíades, um jovem General Helenico que comandou a vitória sobre os Persas no mundo mediterrâneo, ignorava-se a existência do mundo extremo-oriental, e o poder exercido em tal época não tomava conhecimento de absolutamente nada mais, além da poderosa Atenas, maior potência da antiga Grécia. 

    Esse isolamento vaidoso, transformou esse general soberbo em um derrotado, e preso, ao final malogrado. 

    De maneira similar faziam os guerreiros de Atenas, para suas mulheres. 

    Elas Teceram para seus homens, soldados, ausentes além da morte, dedicadas aos filhos e sustento da família. Subservientes a supremacia masculina, talentosas, entregaram suas vidas e desejos ao se dedicarem exclusivamente as lides domésticas, a servidão sexual, a procriação, para alimentar a guerra, e por isso sofreram suas perdas.

    A Grécia Antiga não era uma nação, mas sim um conjunto de cidades-estados cujos povos possuíam algumas características em comum, como a semelhança linguística, por isso foram chamados genericamente de gregos. 

    Porém, ninguém jamais exerceu tanto poder na terra quanto a soberania da opinião pública, que é a força radical, e que produz, nas sociedades, o fenômeno de mandar e descobrir o que é verdadeiro.

    A verdade é algo instável, resultado de uma negociação, porque a história é contada com a versão de cada narrador, e o poder é a questão central de nossa existência, é a maneira como estamos dispostos a aceitar o valor de certos discursos contra outros. 

    E isso depende de quem está falando, se é poderoso, homem ou mulher, branco ou negro, sempre irá exercer uma trama subjetiva nas mentes do povo, que se mantém na expectativa do próximo passo, que o leve a redenção. 

    Além da morte, não sabemos ao certo o que é verdade, apenas até o seu momento.

  • Diário do comandante do grupo de sobreviventes

    Segunda-feira, 15 de março

    Cruzamos a linha que tínhamos marcado no chão como limite infranqueável e com isso provocamos esse desastre que nos trouxe até aqui, à beira do abismo. Fomos imprudentes e as consequências não tardaram. Acredito que nada possa piorar. É grande a sensação de que fodemos com tudo. Quase podemos sentir a respiração dos inimigos em nosso pescoço, o bafo quente deles em nossa nuca. Estamos vulneráveis, mas ainda armados e lutando e nos defendendo todos os dias. Abatemos três esta manhã.

    Sexta-feira, 26 de março

    É hora de levantar e respirar um pouco. Temos que recobrar os ânimos e buscar a cor verde para alegrar as pupilas de todos. Precisamos ver árvores, florestas, bosques, passarinhos piando entre as folhas. Para onde estendemos os olhos só vemos o cinza, a fumaça, o céu preto. Está na hora de nos abraçar e começar de novo. Necessitamos de um pacto entre nós. Sobreviver, para poder viver.

    Tenho animado a tropa na medida do possível, quando o tiroteio dá uma trégua. Não está sendo fácil, mas vou conseguir.

    Quinta-feira, 2 de abril

    Esse tem sido o meu maior erro nos últimos tempos: ignorar a verdadeira natureza do ser humano, que é capaz de produzir o desastre mais inacreditável sobre ruínas já existentes. Não nos contentamos com o ruim, queremos sempre chegar ao pior.

    Perdemos o Desidério, ele se deu mal no corpo a corpo com o inimigo. O Anacleto pisou numa mina que estraçalhou seu corpo, tivemos que enterrá-lo aqui mesmo, perto da trincheira. O Negro quase pisou também, mas viu a tempo e conseguiu se salvar.

    A comida está perto de acabar. A água também. Todos comemos uma vez só ao dia. Estamos economizando a ração que nos resta.

    Aqui o tempo demora a passar. Às vezes parece que nem passa.

    Quarta-feira, 15 de julho

    Não há mais razão para continuar lutando. Tudo degringolou de maneira que ninguém poderia imaginar. A catástrofe de alguns meses atrás foi somente um prelúdio inocente em comparação com o que ocorre agora. Estou escondido numa cova com uns poucos soldados. Eles resistem com bravura, mas não sei por quanto tempo estarão dispostos. Eles são cada vez em menor número e dia após dia perdem o entusiasmo. Tenho que ser criativo para animar a tropa. Não é sempre que consigo.

    Sexta-feira, 17 de agosto

    A bravura dos soldados se esfumaçou. A vida deles também. Enterrei um ao lado do outro. Pus um pedaço de tábua com o nome de cada um para identificar quem era quem. Fiquei só. A comida está no limite. Água, só a que está dentro do meu cantil.

    O tempo ainda demora muito para passar.

    Sábado, 18 de agosto

    Esta guerra, qual é mesmo a razão dela? Já não me lembro mais por que tudo começou. Ou como viemos parar aqui. Ou quem nos mandou para cá. Não vejo a hora de voltar para casa, tenho muita saudade.

    Domingo, 19 de agosto

    Estou só. O inimigo teve tantas baixas quanto nós. Percebo que no outro lado há apenas um também. Já o localizei com a mira telescópica da metralhadora e tenho a cabeça do sujeito no alvo. Sei que ele também aponta sua arma para o meio da minha testa.

  • Os imitadores

    São excelentes na arte de fingir que vivem e que respiram como nós. Imitam com tanta perfeição os movimentos humanos, que só a constante e mecânica repetição de gestos e olhares os denunciam como bonecos de palha. Homens, mulheres e crianças vagam pelas ruas e cidades parecidos com o que pretendem ser e são bastante convincentes. Só não têm alma ou qualquer vestígio de emoção. Não salivam de alegria na frente de um sorvete de morango nem piscam de excitação diante de uma obra de arte. Nada os desequilibra ou impede que se multipliquem e invadam todos os lugares, casas, restaurantes, escolas, museus, parques, transporte público. Estão por toda parte e é fácil identificá-los: orgulham-se de sua semelhança com os humanos e demonstram isso falando alto em público e gargalhando de maneira esganiçada para chamar atenção.

    O dono desses seres exercita sua habilidade criadora nos menores detalhes: forja à perfeição o brilho da pele, o volume da carne, o torneado dos músculos, o arregalado dos olhos, o floreio das mãos, o sorriso na visita ao zoológico. Um homem tem tique nervoso, uma mulher esboça de maneira permanente um meio sorriso, uma criança resfriada engole o muco que desce do nariz como se fosse gelatina.

    Tudo transpira a humano, mas não é. São criaturas manipuladas como títeres, sujeitadas por cordões invisíveis e se movimentam e agem de acordo com a orientação que receberam quando vieram à luz: “Façam o que os humanos fazem, suguem como esponja as palavras e os gestos deles, misturem-se à multidão, aos pedestres que zanzam nas ruas e avenidas. Em pouco tempo serão como eles são. Boa sorte a todos.”

    Se são quase perfeitos na imitação da vida, eles se superam na perfeição absoluta da morte: quando ela está para chegar, o rosto deles é tomado por uma palidez inicial e, aos poucos, ganha tonalidades intensas de vermelho, marrom ou roxo, o corpo perde os movimentos e a elasticidade e, de maneira surpreendentemente rápida, apodrecem. O destino, implacável, cuida do resto: a sobrevida dessa gente artificial se dá por pouco tempo, em alguma fogueira aleatória. É no meio das chamas que estrebucham pela última vez, contorcendo o corpo e agitando os membros em súplica. Transformam-se rapidamente em cinzas, que é o fim de tudo o que cai na língua do fogo. O vento termina o serviço.

  • CINZAS

    As cinzas dele

    “Espero que me perdoe, querida, pelo trabalho que lhe dou como meu último desejo.” Assim terminava a carta que ela leu com alguma indiferença. Era um pedido do marido (nem quando morto ele deixava de incomodar), que a essa altura estava convertido num montinho de cinzas. Saiu do crematório com a urna embaixo do braço. Pensou durante uns minutos. “Não vou dirigir duzentos quilômetros até o litoral nem morta.” Foi para casa. Parada no meio da cozinha, olhou em volta. Descartou de imediato, por uma questão de higiene, as panelas, a batedeira elétrica e o liquidificador. Pelo mesmo motivo não considerou a banheira nem o bidê. Decidida, foi até a área de serviço e jogou as cinzas na lavadora de roupas. Adicionou uma colher de sal. Escolheu um programa de lavagem rápida e ligou a máquina. Olhou o giro do tambor por alguns minutos, apreciando como as cinzas se misturavam à água salgada. Não era mar, mas parecia. Deu como cumprido o último desejo do marido. Que Deus ou Seja-Lá-O-Que-For o tenha. E pronto.

    As cinzas dela

    Tu tranquila aí, meu bem, que teu marido aqui ainda tem sangue, nervos e coração. Tô com um dilema, matutando aqui, mas vou resolver isso logo. Tu fica aí, quietinha e sem medo, que as coisas se ajeitam. Hum… O vaso grego, tá lembrada? Vai ser dentro dele, acabei de decidir. Sou muito rápido pra cuidar desses assuntos, tu me conhece. Tu quis comprar esse troço cafona porque combinaria com as almofadas do sofá, foi assim que tu disse, mas no mês seguinte tu trocou a estampa das almofadas, tem cabimento? Agora o vaso não combina com porcaria nenhuma nem tem serventia. Bem que pensei em usar a peça como bebedouro do Pipoca, ou então encher de terra e plantar margaridas, mas desisti. Fique sossegada, nada de terra aqui, que não sou um homem desalmado, ora bolas. Não me esqueci da paúra que tu tinha com a ideia de um monte de terra em cima de ti, por isso mandei te cremar. Agora tu é esse montinho de cinzas e não precisa temer mais nada. Tua última vontade foi cumprida: não vai ter terra em cima do teu corpo mirrado. No máximo, coloco na boca do vaso aquela toalhinha de crochê que tua mãe deu, que é pra não entrar bicho. Assunto enterrado, ops, encerrado.

  • Pink Flamingo, o devasso e o certinho

    Peguei o táxi na Visconde de Pirajá como quem vai saltar de paraquedas — eu, sedento pela farra, e o poeta carioca ao meu lado, trajando cachecol marrom e sorriso aberto, pronto para qualquer desvio de conduta. No rádio, Caetano entoava seu inconformismo poético:

    “Vaca das divinas tetas
    derrama o leite bom na minha cara
    o leite mau na cara dos caretas”

    E eu, espremido entre banco e sede de noite, absorvia cada verso como promessa de libertinagem, enquanto o carioca soltava um riso baixo, fingindo anotar tudo num diário imaginário.

    O mineiro acomodado ficou no hostel, reclamando que só queria pizza, redes sociais e cama cedo. “Vai lá e depois me conta”, disse ele pelo whatsApp, sem imaginar que a noite carioca nos devoraria vivos.

    Quando o táxi estancou em frente à Pink Flamingo, cumprimentamos a hostess com um aceno torto — convite formal para o desenrolar da loucura. Em seguida, descemos a calçada e fomos comer uma pizza ali perto, vapor subindo em redemoinhos dourados:

    — Tira foto da minha bunda pra mim?

    — O quê?

    — Uma foto da minha bunda. O jeans tá muito justo.

    O casal chileno da mesa ao lado, estupefato, se entreolhou em silêncio, incapaz de decifrar a pepita de humor brazuca — um homem fotografando a bunda do outro numa pizzaria, só em Copa mesmo.

    O carioca, metódico que nem relógio suíço, tirou do bolso uma folha de papel e começou a riscar cada centavo: táxi, ingresso, pizza, deslocamento do Méier a Ipanema. Tudo anotadinho para a planilha do Excel no fim do mês — certinho com o botão de camisa engomado; eu, já com o cartão pronto pra estourar e a alma pronta pra esgotar quaisquer limites.

    Recarregados pela fome saciada, fomos a pé de volta à Pink Flamingo. A chuva miúda fazia do asfalto um espelho trêmulo, realçando o letreiro cor‑de‑rosa no fim da rua. E foi ali, sob aquele brilho artificial, que vimos a drag Cútis Negra descendo de um Uber, batom borrado e aura de quem invade um palácio. Outras drags se amontoavam, homens de mãos dadas cochichavam segredos e mulheres de saias curtíssimas sacudiam o quadril como lei. Ali, percebi que o escárnio e o êxtase formavam uma única batida — e era nela que eu buscava redenção.

  • O Sótão

    Se desejava chorar, a avó subia até o sótão. Ali cobria o rosto com as mãos para, inutilmente, conter as lágrimas, imaginando que ninguém a escutava. As crianças todas íamos devagar e colávamos o ouvido na porta. Ouvíamos quando ela suspirava, quando assoava o nariz no lencinho, quando ficava em silêncio, esperando que a calma secasse seus olhos. Se algum de nós ficasse com dó e fizesse menção de entrar para fazer um carinho em sua cabeça, a mãe nos impedia com um gesto de “deixe que isso logo passa”.

    Quando queria rir, a avó também subia para o sótão e gargalhava de quase se acabar. Também nessas ocasiões íamos pé ante pé e ficávamos escutando o riso atrás da porta. Mãe dizia que, se o caso era de riso, podíamos entrar no cômodo e rir junto com a avó, mas preferíamos ouvir as gargalhadas ali mesmo, diante da porta fechada.

    Um dia, a avó resolveu que nunca mais iria chorar ou rir, nem que tivesse vontade. Desde então, nós, em dias alternados da semana, subíamos até o sótão para rir ou para chorar. Ignoramos se a avó nos escutava atrás da porta.

  • Compreender a Natureza

    Escapou do cercadinho quando ainda era madrugada e todos dormiam. Teve um pouco de medo, mas percebeu de imediato que o medo era bom e fazia a imaginação voar. Foi para o campo aberto e se maravilhou com os tons de verde e dourado que cobriam a vegetação rasteira. A lua ainda brilhava pendurada no céu, quase desaparecendo já. “Então é esse o mundo de que tanto falam”, disse para si mesmo. Dilatou as narinas: “E esse é o perfume das flores!”

    Descobriu o sorriso na própria boca. Chafurdou nas plantas do rés do chão. Lambeu o orvalho fresco que pingava das pétalas das margaridas. Mastigou os talos tenros e suculentos da grama ao redor. Queria a todo custo fazer parte desse novo mundo. Olhou para o horizonte e pensou o impensável: “Tivesse asas, chegaria até lá.” Tudo em vão, porque compreendeu sua natureza e, por mais esforço que empreendesse, sempre seria um porco.

  • Cecília, Paulo e Lucas

    Lucas tem sete anos e mora com Cecília. Cecília é sua mãe. Lucas passa os fins de semana na casa de Paulo. Paulo é seu pai.

    Paulo e Cecília não moram juntos há muito tempo, desde que Lucas tinha um ano. Ou desde que Paulo deu a primeira e única bofetada no rosto de Cecília. Cecília ficou três dias com o olho direito inchado. Saiu sangue de seus lábios. Paulo e Cecília brigaram na frente de um juiz pela guarda de Lucas. Cecília ganhou, era a mãe do menino e esse foi o desfecho natural. Cecília e Paulo quase não se falam, só o necessário e só quando o assunto é Lucas. A escola de Lucas, a saúde de Lucas, as roupas de Lucas, os sapatos de Lucas, o videogame novo de Lucas.

    Paulo vai à casa de Cecília toda sexta-feira à noite para pegar Lucas e todo domingo no fim da tarde para devolver Lucas. Lucas passa os fins de semana jogando videogame e vendo filmes com o pai. Os dois gostam de filmes com muita ação. Quando o bandido toma um tiro, Paulo grita Chupa! Lucas repete Chupa! Lucas se diverte muito vendo filmes com seu pai.

    No último domingo, quando devolveu Lucas para a mãe, Paulo falou: O menino tá com caspa e tem dificuldade com a matemática. Paulo falou essas coisas sem olhar nos olhos de Cecília, como se o problema fosse dela. Cecília passou a semana inteira tentando acabar com as caspas de Lucas. Comprou xampu anticaspa, loção anticaspa, creme anticaspa. Gritou com ele, atrás da porta fechada do banheiro, para esfregar bem a cabeça e o cabelo no banho. Também gastou toda a semana discutindo com Lucas para largar a porcaria de videogame e estudar matemática. Lucas detestava matemática e ficou com raiva de Cecília. Ficou com muita, muita raiva de Cecília.

    Nessa sexta à noite, enquanto Paulo o esperava no carro, Lucas não quis se despedir de Cecília com um beijo, como costumava fazer. Só falou: Estou com raiva de você, vou pedir pro meu pai te cobrir de porrada.

  • O meu amiguinho

    Sei que ele está indo embora, é só uma questão de tempo. Está mais fraquinho a cada dia, alimenta-se mal, come sem apetite. Cabisbaixo, calado, triste, tão diferente de outros tempos, não passa agora de uma sombra do que costumava ser. Sempre achei chato olhar para ele pelas grades da gaiola, mas com o tempo me habituei. Ainda que possa parecer egoísta, eu ficava reconfortado por saber que ele estava ali, pertinho de mim. Sua companhia me fazia bem e eu só posso agradecer por tanta generosidade. Com a presença dele, a solidão pesava menos. E, quando ele cantarolava, eu juntava minha voz à dele e éramos os dois mergulhados numa só melodia.

    A vida prática, porém, ensina que não é bom tomar-se de tanto carinho pelos bichinhos de estimação. Quando eles morrem, a gente fica só, desarvorado. A gente fica sem chão e tudo passa a não ter mais sentido. Como acontece agora. Meu amiguinho está indo embora e eu me sinto muito triste. Perdi a melodia, minha garganta secou. Minhas penas vão logo perder a cor e o brilho. Agora só penso com qual dos dois filhos do meu amiguinho eu vou ficar. O mais velho nunca se importou comigo. Talvez o mais novo queira me levar, não sei.

  • Coisa de louco

    O que comentam é que Gabriel não tinha como saber a verdade, já que fora criado por freiras num orfanato. Não conheceu os pais nem ninguém de sua família biológica. Mal tinha nascido quando uma vidente, dessas que ganham a vida enganando gente ignorante, sussurrou no ouvido da mãe:

    — Essa criança nasceu com olho grande, a cabeça tem um formato estranho e prevejo tragédia no futuro. Livre-se dela o quanto antes.

    Foi o que fez a mãe de Gabriel: entregou-o às freiras, com a concordância do marido. O tempo passou e Gabriel ficou no orfanato até os onze anos. Um dia falou para as freiras com aquele sorriso irresistível:

    — Valeu, meninas, mas agora eu vou vazar. Tô indo, muito obrigado por tudo.

    E jogou a perna no mundo. Vagabundeou até os dezesseis, morou na rua, viveu de pequenos furtos, fumou umas quantas pedras e se deixou levar pela vida. Num dos assaltos em que se meteu, o homem gordo não quis lhe dar a carteira e o celular e Gabriel não hesitou em despachar o tipo com dois tiros na altura do coração. Escondeu-se por um tempo até completar dezoito anos.

    Já maior de idade, com o corpo ganhando contornos de homem feito, percebeu que agradava ao sexo oposto e conseguiu emprego como stripper num clube noturno. Todas as noites se vestia de marinheiro e se despia no palco para o aplauso e o grito das mulheres em êxtase. Foi quando conheceu uma mulher madura, viúva e muito rica, que lhe prometeu dinheiro e proteção em troca de carinho. Gabriel logo foi morar com a amante e em poucos dias virou o homem de confiança da dona da casa. Passou a desfrutar das delícias da vida abastada: dinheiro, carros, passeios, viagens, restaurantes, festas.

    Quando menos esperava, Gabriel recebeu a visita de dois policiais, que tinham provas de que ele assassinara o homem gordo, anos antes. Suas impressões digitais na roupa do morto o denunciaram. E, como o destino não gosta de deboche, o delegado cismou de fazer um exame de DNA em Gabriel e no gordo e o resultado foi uma tragédia, talvez única no mundo: comprovou-se que, na realidade, o homem assassinado era o verdadeiro pai de Gabriel. A prisão, então, era o seu inexorável destino e, sem alternativa, Gabriel pediu ajuda à velha amante protetora. Em vão. A mulher não era outra senão a viúva do homem gordo e, portanto, sua mãe biológica.

    — Meu Deus, que história inacreditável! E Gabriel, o que foi feito dele?

    Pegou prisão perpétua. Ficou que nem louco. E cego. Mal entrou na cela, num acesso de fúria incontrolável, arrancou os próprios olhos para não ter que encarar a realidade: ele tinha matado o pai e ido para a cama com sua mãe.

    — Que tragédia! Não me recordo de ouvir uma história parecida com essa em toda a minha vida.

    Eu também não. Coisa de louco, não?

    — Nem me fale. É de pôr os cabelos em pé.

  • Rebentada

    Caminha ereta, embora isso custe e doa. Os dois meninos, de cabeças enormes e pernas finas, acompanham como podem o ritmo da mãe. Parecem frangos doentes, ciscando inutilmente num terreno seco. Andam os três sobre uma terra rachada e poeirenta. O horizonte continua distante, tão distante quanto no dia em que iniciaram a jornada a pé. O sol permanece no alto, maltratando os olhos, a pele e a esperança.

    O menor dos meninos, vencido pelo cansaço, senta-se numa pedra e curva a espinha para a frente, até que seu peito quase toque o chão. Visto de longe, parece uma fruta que apodrece aos poucos, mas de perto é só um menino cansado, sujo e com fome. A mãe o ajuda a se levantar e o carrega nos braços, como se levasse um punhadinho de folhas secas caídas de uma árvore, embora naquelas bandas não haja árvore, só deserto.

    Levam já quatro dias andando e ainda faltam mais quatro para chegarem ao campo de refugiados. O outro menino, mais velho e mais esperto, sabe que não vai aguentar. Resolve interromper a caminhada e põe-se de cócoras, as mãos sobre a cabeça. Neste caso não há diferença se visto de perto ou de longe: é um menino que desistiu.

    A mãe põe o pequeno no chão e pensa. Avalia que será impossível avançar com os dois no colo, não terá forças. Levanta os olhos para o céu e chora sem lágrimas, rebentada por dentro. Sabe que vai morrer sob o punhal afiado da escolha, mas não hesita. Olha para um, depois para o outro e recomeça a caminhar, puxando só um deles pela mão.

  • O homem da casa

    Eduardo acorda cedo e, como de costume, não faz a cama. Não tem de se trocar, dormiu de roupa. Toma um café preto e ralo e sai de casa tremendo de frio. Não calçou o Nike, preferiu o sapato velho, já que sabia bem aonde tinha de ir. Como companhia, um cajado pequeno como seu tamanho, dois sacos vazios de supermercado e um lenço que sua mãe lhe amarra no pescoço. Em determinado momento esse lenço vai servir para cobrir seu nariz e sua boca: lá há gases, cheiros, micróbios e outras porcarias. Era o lenço de seu pai, agora é seu, pois virou o homem da casa. A mãe grita da porta: “Não esquece de cobrir os olhos também e não respire a fumaça.”

    Depois de andar por mais de trinta minutos, Eduardo chega ao monte enorme. Percebe que está atrasado e quase não há onde fuçar: mais de cinquenta meninos chegaram antes e fuçaram primeiro. Mesmo assim, Eduardo cobre o rosto com o lenço, mete os pés no monturo e com o cajado espanta os urubus.

  • Disputa

    Não é sempre que acontece, só às vezes, quando aquilo que o Camarão traz não é suficiente para dividir entre os dois.

    Eliseu e Célia primeiro ficam nervosos como bichos famintos dentro de uma jaula. Amaldiçoam o Camarão, a mãe dele e toda a família. Que morram todos! Depois passam à exasperação e, no minuto seguinte, partem para o confronto físico. Os dois rolam pelo chão, aos tapas. Cospem um no outro. Esse confronto nem de longe se assemelha ao que acontece quando Eliseu volta para casa bêbado e chama Célia de “cadela comunistazinha, vagabunda” e ela devolve o xingamento com “chupa-rola, porco reacionário”. Isso é quase todo dia, e isso não é nada. Casamentos, ou qualquer outro relacionamento afetivo, como se sabe, costumam atingir graus de degradação e humilhação que pouca gente imagina.

    O que ocorre, porém, quando o Camarão joga sujo e não faz o serviço direito é uma hecatombe entre duas pessoas que há horas esperam a entrega num quarto mal ventilado e fedorento de suor. Quando a entrega é feita e não é o bastante para os dois, Eliseu e Célia, cada um com sua força, dão início ao confronto furioso e violento. Trocam murros, dão pontapés e cravam as unhas no rosto do outro, no pescoço do outro, na virilha do outro. As cadeiras voam pelo cômodo, os copos espalhados pelo chão estilhaçam, as garrafas rebentam nas paredes. Um ameaça o outro com faca de cozinha ou pica-gelo, o que estiver à mão. Ainda não chegaram a se ferir seriamente. A se ferir de morte, não, ainda não.

    Depois do exaustivo embate de minutos, Célia, muito mais débil do que Eliseu, sabe que desta vez perdeu a parada e se encolhe num canto do quarto, com as unhas cheias dos cabelos que arrancou da cabeça do marido. Chora de dor com o lábio rachado depois das muitas bofetadas que recebeu. Limpa com o dorso da mão o sangue que escorre de uma das pálpebras e engole o ranho que sai do nariz e desce até a boca. Soluça alto e chama Eliseu de “veado de pau pequeno, lambedor de coturno”. Está convencida de que agora não adianta fazer mais nada a não ser xingar.

    Eliseu olha para a mulher encolhida no chão, encostada à parede. Sente pena. Percebe o cheiro de sangue misturado ao de suor no quarto. Abre uma fresta da janela e olha para fora, mas não lhe interessa o que acontece lá fora. Faz o gesto automático de sempre: entrega um lenço para Célia, indicando a ferida na pálpebra. Ela aceita e pressiona o pano contra o olho para estancar o sangue. “Foda-se o meu olho”, diz ela com o que lhe resta de lábios.

    Ele, o mais forte, agora já calmo e silencioso, senta-se na beirada da cama e, com a ajuda dos próprios dentes, amarra a tira de borracha no braço e busca, apressado, uma veia que ainda não esteja seca. Enfia a agulha, recebe o baque, sente o baque, saboreia o baque. Fecha os olhos e respira fundo.

  • Dois homens bons e generosos

    João Alfredo colhe a cada final de semana as verduras e legumes que semeia. Sua horta é cuidada com esmero, o solo é fértil e o produto de seu trabalho é considerado o melhor do povoado. A barraca que tem na feira é concorrida, todos apreciam sua colheita. Como não tem mulher nem filhos, ele costuma distribuir entre os vizinhos e amigos os vegetais que não vendeu. Todos diziam dele:

    — João Alfredo é um homem bom e generoso e as verduras e legumes que saem de sua horta têm muito boa qualidade.

    Assim, quando vai à padaria comprar pão para o café da tarde, quando passeia pelas ruas do povoado ou quando decide descansar e tomar um copo de vinho no Bar do Massa, João Alfredo é sempre saudado com simpatia por quem o encontra:

    — João, suas verduras e legumes são deliciosos. Sempre frescos e tenros. A cada semana se tornam melhores.

    ***

    Eu também planto e colho verduras e legumes na horta que tenho no quintal de minha casa, mas o meu solo não é tão fértil quanto o de João Alfredo, e por isso a colheita não é tão viçosa. Mesmo assim, é boa para consumo. Na feira, pouca gente frequenta a minha barraca. Também não tenho mulher ou filhos, de maneira que me sinto bem distribuindo entre meus vizinhos e amigos os produtos que sobram. Por causa disso sempre me considerei um homem bom e generoso. Mas quando vou à padaria comprar pão para o café da tarde, quando passeio pelas ruas do povoado ou quando decido descansar e tomar um copo de vinho no Bar do Massa, as pessoas não se mostram simpáticas:

    — Paulo Clemêncio, suas verduras e seus legumes são uma porcaria. Ninguém em casa gosta delas. Acho que nem os porcos gostam.

    Sempre que ouço reações assim fico com um nó na garganta. Mordo meu lábio para disfarçar o desgosto e a vontade de chorar.

    ***

    O tempo passou e todos ficamos mais velhos, inclusive João Alfredo e eu. As verduras e os legumes dele continuaram sendo um sucesso entre as gentes do povoado. As minhas, como sempre, um fracasso. Então, um dia, quando João Alfredo lavrava seu solo fértil e distribuía as sementes e mudas de verduras nos buracos que fazia na terra, eu me aproximei dele por trás e abri sua cabeça com a ponta de uma pedra. João Alfredo caiu e nunca mais se levantou. Com as provas coletadas pela Polícia Civil, um juiz e dois peritos forenses concluíram que João Alfredo tinha tropeçado e batido a cabeça numa pedra. Pobre João Alfredo, estava tão velhinho!

    ***

    Neste fim de semana colhi as verduras e os legumes de minha horta, vendi uma parte na feira e a outra parte distribuí entre os vizinhos e amigos. Depois fui comprar pão para o café da tarde, passeei um pouco pelas ruas e resolvi tomar um copo de vinho no Bar do Massa. Algumas pessoas se aproximaram:

    — Paulo Clemêncio, suas verduras e seus legumes são horríveis, intragáveis. Que saudade do João Alfredo, Deus o tenha!

    ***

    Na semana seguinte joguei veneno para ratos nas verduras e nos legumes que vendi na feira e nas que distribuí entre os vizinhos e amigos. Em poucos dias, grande parte da população morreu. A Polícia Civil investigou e, diante das provas coletadas, um juiz e dois peritos forenses me acusaram de assassinato. Fui condenado a trinta anos e levado à prisão, onde passaria os anos que me restavam de vida. Pensei que não fosse suportar, que morreria de tristeza, mas estava enganado.

    ***

    Estava muito enganado. O diretor do presídio me concedeu um pedacinho de terra ao lado do pátio, para que eu fizesse uma horta e plantasse e colhesse verduras e legumes, atividade que eu sabia executar com esmero. A vida na prisão não tem sido ruim: alimento-me bem, durmo com tranquilidade e ainda cuido da minha horta. Como não tenho a feira para vender nem vizinhos e amigos a quem distribuir meus produtos, compartilho tudo com meus colegas de penitenciária e com os carcereiros.

    Aqui me consideram um preso bom e generoso. Assim, quando passeio pelo pátio, quando descanso num banco para ver cair a tarde ou quando fumo calmamente um cigarro depois do almoço, os companheiros se aproximam:

    — Paulo Clemêncio, suas verduras e legumes são uma verdadeira delícia. Estão melhores a cada semana.

    É quando fecho os olhos e sorrio para mim mesmo, satisfeito e certo de ser um homem bom e generoso.

  • A trama

    Assim que chega a manhã, as esposas dos pescadores se dirigem às docas e ali se sentam, os pés dentro d’água. Todas trazem linhas e agulhas de tamanhos variados e se dedicam à tarefa de fechar os buracos das redes que seus maridos utilizam no trabalho. Cantarolam enquanto cosem, e cosem com diligência e sem distração: ao entardecer, seus homens precisarão das redes prontas antes de saírem para o mar em busca do alimento e do sustento de todos os dias.

    Em determinados pontos da trama, que escolhem cuidadosamente tal qual um segredo bem urdido, elas substituem a linha de tecer por fios dos próprios cabelos, arrancados da cabeça num puxão seco e dolorido, e prosseguem a costura, embaladas pela cantoria que sai das dezenas de bocas em uníssono. Dessa maneira, um pequeno pedaço de cada uma — seus cabelos — acompanha o marido quando o barco em que ele está toma a direção do desconhecido, noite e mar adentro.

    Na manhã seguinte, repetem o ritual da costura e da cantilena e, quando necessário, em conjunto, solidárias, tratam de decapitar as sereias que, por atrevidas e insolentes, sem serem convidadas, aparecem na rede de vez em quando, no meio de centenas de milhares de sardinhas e outros peixes maiores. Deram-se mal, as tais, se tinham por objetivo alcançar a terra firme para seduzir homens que têm dona.

  • Carta para Maria Santa

    Maria Santa, preciso muito lhe dizer umas coisas. Coisas que andam acontecendo aqui em casa desde que você foi embora. Coisas incríveis, sabe? Os primeiros que vi estavam atrás da geladeira. Eu os encontrei numa manhã de setembro, justo naqueles dias de passagem do inverno para a primavera, quando a solidão fica mais pesada. Lembro-me de que fazia um mês que você tinha partido e eu estava me sentindo tão só, tão só, que resolvi limpar toda a casa para me ocupar. Arrastei a geladeira e os vi.

    Eram dois. Não fiquei muito surpreso quando os encontrei. Lembra-se de que falávamos que nossa casa era muito úmida? Além disso, tem chovido bastante nas últimas semanas. O barulho da água batendo na janela sempre me desperta de madrugada, e não pego mais no sono até amanhecer. Não consigo me acostumar a dormir sozinho, Maria Santa, e qualquer bobagem, como o barulho da chuva, faz com que meus olhos permaneçam abertos.

    Poucos dias depois vi mais alguns, debaixo da mesinha de canto e também sob o sofá. Estava arrumando os livros na estante, lembrando-me de como fazíamos isso juntos, e encontrei uma verdadeira colônia deles atrás do móvel, e já estavam se espalhando pelo rodapé. A casa está infestada de cogumelos. Como crescem rápido! Brotam do assoalho como se isso fosse natural. Não consigo compreender, Maria Santa. Parecem suculentos e apetitosos, e poderiam muito bem fazer parte de uma saborosa refeição. Aliás, pensei nisso: convidar você para jantar e conversar. Você ficaria surpresa com as habilidades culinárias que adquiri desde que você foi embora. Procurei na internet o melhor modo de preparar uma boa refeição com essas coisinhas, mas não encontrei nada sobre essa espécie que há aqui. E se forem venenosos?

    À noite, quando procurava meus chinelos, descobri outro grupo deles embaixo da cama. Eu sei, Maria Santa, esta casa sem você é um caos, não acho nada, onde estavam meus chinelos? Não consegui encontrar. E digo mais: na manhã seguinte, ao pegar uma camisa limpa, vi dezenas deles dentro do armário. Se você estivesse aqui, Maria Santa…

    Eles crescem em qualquer canto, sobre a escrivaninha, no teto, no banheiro, sob a pia da cozinha. Até comprei um livro que falava deles, mas, novamente, nenhuma informação sobre essa espécie. Acho que tenho aqui um tipo ainda desconhecido de cogumelo. Vou chamá-lo de “cogumelo do homem só”.

    São bonitinhos e quase não me dão trabalho. Eles não são como as plantas normais, que exigem cuidado e atenção. A essas eu me dediquei. Eu cuidei delas, sabe? Coloquei água e as deixei tomando sol para que, quando você voltasse, não as encontrasse murchas. Mas sempre me esquecia de que já havia regado, e punha água novamente. Um dia morreram afogadas pelo excesso de cuidado meu. Sob suas mãos, Maria Santa, seguramente isso não teria acontecido. Os cogumelos, não, eles não precisam de nada. Eles são assim, crescem em qualquer lugar sem ajuda, sem que lhes peçam. Apenas brotam. Gosto de acordar de manhã e ver os novos que surgiram durante a noite.

    Sempre converso com eles. Falo sobre você. Digo que, um dia desses, você cruzará a porta e os conhecerá. Também ponho músicas para tocar, aquelas que ouvíamos juntos. Às vezes leio poemas, principalmente os do Neruda, daquele livro que você me devolveu sem nunca ter lido. Eu sinto que eles gostam e estão agradecidos. E crescem. Um deles, que brotou no canto da sala, já está com quase meio metro de altura. Eu o utilizo como mesinha para o telefone e para o café. Olho para eles enquanto as horas correm. Mas as horas são lentas, Maria Santa. Desde que você me deixou, uma hora leva duas para passar.

    Mesmo gostando dos cogumelos, às vezes fico angustiado com a casa desse jeito, inteiramente tomada por eles. Tenho de fazer contorcionismo para me movimentar e andar até o quarto. Não consigo mais sair para a rua, porque eles já bloquearam o corredor e a porta. E as janelas também. Às vezes, sem querer, piso num deles e ouço seu gemido de dor, parecido com o som que sai do meu peito.

    Não há mais espaço para mim aqui.

  • Persistir na presença solitária!

    Não há necessidade de esperar tanto tempo para cair na real, ou no chão, como ocorreu com o meteorito contrito ordinário, santa filomena, que se alojou em nosso planeta após vagar solitariamente por 4,5 bilhões de anos no deep space.

    Ao esculpir sua vida dura como pedra, não sonhe com o além túmulo por causa de uma saudade imensa de alguém que se foi, porque o indivíduo “morde e assopra” e deixa os que ficaram por aqui “pisando em ovos” com uma incômoda impressão de impotência.

    Por isso, viver com a expectativa que somente após a morte exista amor e felicidade, pode ser arriscado para seus projetos nesse plano de agora.

    Erros fazem parte da escrita inclusive dos gênios, muitas experiências boas nasceram após uma lista de modificações durante o percurso de uma jornada.

    Leonardo da Vinci, por exemplo, esculpiu Moisés com chifres, após ler na Bíblia os detalhes de como ele desceu da montanha. Leonardo foi vítima de uma tradução mal feita da Bíblia, escrita por São Jeronimo, que ao invés de escrever Karan sobre a descida de Moisés, que significa adornado por feixes de luz, escreveu Keren, cabeça adornada por chifres. 

    E assim, nós, comuns mortais, apreciamos a escultura de Moisés com dois pequenos chifres na cabeça, tentando imaginar o porquê dessa alegoria acompanhando o profeta e líder mais importante da tradição judaico-cristã. 

    Dessa mesma forma o erro de qualquer outro pode ser a origem de uma atitude mal interpretada por toda uma vida.

    Mas não é por isso que você deva se amargurar e isolar de todos após alguns eventos de magnitude duvidosa. 

    No Japão os eremitas do século XXI que vivem numa caverna tecnológica, são chamados hikikomori que seria algo como “puxando para dentro”, de si. 

    Eles acabam por construir uma cova em suas almas de tanto persistir na presença solitária com seu umbigo. 

    A vida desses indivíduos é marcada pela exigência de um padrão que dificulta a ação de quem está ao redor. 

    Por isso que esse extremo não é bem-vindo para nossa saúde mental e social. 

    Bons e maus exemplos não nos tornam donos das coisas, as coisas é que são donas de nós, e a vida acaba por girar em torno delas, que sequestram as emoções por instantes longos e amargos.

    Como o leitor é um autor duplicado, seja o centro de suas metas e sonhos virais, bem antes que o todo-poderoso lhe tome em seus braços, mesmo que você já tenha pago um preço caro em suas escolhas.

  • UM SUJEITO PECULIAR

    Silas Arruda é um sujeito peculiar, do tipo que, vagando pela cidade dentro do ônibus, observa pela janela as pessoas que andam apressadas pela calçada e tenta encontrar seus olhos, adivinhar sua história, criar-lhes uma vida. Registra tudo com o olhar silencioso. Não conversa com ninguém, fechado nos próprios pensamentos.

    Na padaria, enquanto aguarda sua vez, fixa os olhos na vitrine cheia de pães e escolhe dois do fundo, aqueles que — ele acredita — ainda não foram tocados pelo atendente. Vai se sentir mais seguro quando, ao preparar seu lanche habitual, colocar na boca um produto sobre o qual ninguém pôs as mãos. No miolo estenderá três fatias de queijo e duas de presunto, sobras da noite anterior. Se ainda houver tomate na geladeira, cortará duas fatias pequenas e as colocará nas extremidades do pão, nunca no meio. O copo de leite com chocolate amargo em pó será o complemento líquido de sua refeição noturna e solitária, degustada na frente da televisão.

    Costuma passear pelo bairro à noite, depois que assiste ao jornal de notícias. Não se olha no espelho antes de sair. Também não leva guarda-chuva, mesmo que esteja chovendo. Prefere se esgueirar pelas marquises das lojas e supermercados e até se molhar um pouco, se não houver outro jeito. Anda com as mãos nos bolsos, os passos ritmados, uma sombra com olhos de carcará que tudo vê e pouco é visto. Respeita os faróis e nunca atravessa fora da faixa de pedestres. Se decidir parar para tomar um café, ficará em pé na extremidade do balcão, de onde poderá observar, em silêncio, o movimento das pessoas; verá, por exemplo, quem passa por ele para ir ao banheiro sem se importar com sua presença.

    Trabalha vendendo seguro de vida de porta em porta, e não se incomoda nem um pouco quando lhe respondem secamente “Não me interessa” ou se apenas o espiam por trás da cortina e nem se dão ao trabalho de abrir a porta. Silas Arruda, o corretor, está acostumado com isso e não leva essas grosserias em consideração.

    Andando pelas ruas para fazer o seu trabalho, escolhe aleatoriamente a casa do próximo cliente. O instinto o guia e raramente o engana. Na maleta de mão, além de formulários e outros documentos, carrega sempre uma garrafa de vinho, porque lhe apraz comemorar com uma taça o fechamento de um negócio. Toca a campainha e espera. Hoje quem abre a porta e o atende com surpreendente gentileza é a Dona Jurema, viúva que mora sozinha. Silas põe os pés na sala e olha em volta. Enquanto a dona da casa lhe serve um café, avalia em pensamento, e por antecipação, o quão fácil será tudo.

    Antes de sair tem o cuidado de verificar se a sala continua do mesmo jeito, com tudo em seu lugar, e se o corpo está bem acomodado no sofá. Fecha a porta da frente e caminha devagar até o ponto de ônibus. Sobe no coletivo, senta-se no banco dos fundos e solta o nó da gravata. Pela janela, observa em silêncio as pessoas que andam apressadas pela calçada.

  • A difícil arte de aceitar afeto

    O homem com a cicatriz no rosto viu quando ela ia descalça e mancando pela estrada. Parou o carro e a pôs no banco de trás, encolhida feito um novelo. Ela tremia de frio, ele a cobriu com uma manta. Dirigiu o mais devagar que pôde, nenhum solavanco a perturbasse. Não trocaram palavra. Em casa, deu-lhe banho quente, segurando-a pela nuca, como a um defunto. Observou que ela tinha novas tatuagens, gostou de algumas, não de todas. Preparou-lhe um mingau suave de aveia, para não machucar seu estômago, sabe-se lá desde quando não comia. Meteu-a na cama em silêncio, cuidando para não tirá-la do torpor em que estava imersa. Foi até o jardim e queimou as roupas que ela vestia. Eram roupas de homem. Enormes, como as dele.

    Deitou-se no sofá da sala e demorou para pegar no sono. Pensou e pensou, mas não conseguia chegar ao que poderia ser a melhor solução para tirá-la do poço em que tinha se metido. Passou a mão pela cicatriz no rosto: não deixaria que ela o machucasse de novo.

    Pela manhã, o homem com a cicatriz no rosto acordou no sofá já sabendo que ela tinha ido embora, certamente vestindo roupas dele, como da última vez. Também sabia que, no espelho do banheiro, escrito com batom vermelho na caligrafia ainda infantil, encontraria o pedido para que não voltasse a socorrê-la: Por favor, não me ajude mais. A mesma súplica que, horas atrás, o homem da cicatriz no rosto tinha ouvido dos lábios dela antes de se deitar no sofá e mergulhar no sono mais profundo de toda a sua vida.

    Nem ele nem a filha sabem prever quando será o próximo encontro entre os dois.


  • Tatiana está sangrando

    Era perto do meio-dia quando Tatiana saiu correndo da escola. Ela tinha ainda que almoçar antes de se encontrar com a Ju. Estava atrasada, e isso a fazia suar mais. Passou no meio dos meninos a tempo de escutar “A gorda tá com pressa?” Olhou para a frente e correu mais. Não dava tempo de chorar. “Corre mesmo, gorda, pra ver se perde meia tonelada”, ela ouviu antes de cruzar o portão e ganhar a calçada. Subiu no ônibus e procurou um assento no fundo da condução, onde ninguém a visse. Olhou pela janela e aí, sim, chorou um pouquinho. Decidiu não ir na Ju, depois ligaria para a amiga. Faria sozinha hoje.

    Entrou em casa, gritou “Cheguei!” e foi direto para o banheiro. Trancou-se, pegou o estilete na mochila e começou. Doeu tanto, tanto, no corpo e no coração, mas vai cicatrizar. Tatiana sabe que todas as feridas cicatrizam mais cedo ou mais tarde. Fica a marca por um tempo, depois some — um fio de sangue que corre pelo joelho, uma trilha que nasce no ponto do corte e busca, pela gravidade, alcançar o chão. Uma gota maior e mais robusta dilata o fio vermelho e morre no meio da gaze que a mão aperta contra a pele, estancando a hemorragia. A água fria da torneira termina de limpar o resto, só permanece aquele tom avermelhado e difuso, a mancha que denuncia a mutilação, a identidade do flagelo imposto por ela própria.

    Tatiana sabe que isso está errado, mas não consegue parar de errar. A mãe chama “Almoço pronto. Tá morta aí dentro?” Tatiana quis gritar “Tô”, mas só disse “Já vou”. Não queria ver ninguém naquele momento, não precisava de testemunhas na hora de lavar e expiar o que os outros consideravam pecado. Tampouco precisava que mais uma vez, outra vez, a julgassem e lhe apontassem com o dedo. Seca as pernas com papel higiênico e puxa a saia para baixo, escondendo os sinais.

    Semana que vem, quando a marca de hoje já estiver velha, uma nova será feita, porque ela precisa de ajuda e, na hora da ajuda, ninguém aparece. Só aparece a Ju, tão gorda, tão vesga, tão infeliz como ela.


  • A casa de Cortázar, tomada

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    em homenagem ao conto “Casa Tomada”, de Julio Cortázar (1914-1984), escritor argentino

    Gostamos da casa porque, além de espaçosa e antiga (mesmo que hoje as casas antigas sejam pouco valorizadas), guarda as recordações de avós e bisavós, pais e toda a nossa infância. As paredes sabem de nós, quem fomos, quem somos. O eco das vozes do passado ainda nos enchem de encantamento. Houve felicidade aqui — ainda há.

    Minha irmã Irene e eu nos acostumamos a viver sozinhos. Não há mais ninguém da família entre nós, só a lembrança deles. Temos nossa quieta solidão e isso nos basta. Chegamos à meia-idade com leveza e despreocupação. Em nenhum momento pensamos em sair daqui e viver em outro lugar. Isso nunca nos passou pela cabeça, já que nosso corpo e nossa alma não saberiam viver longe destas paredes. Esta casa é um celeiro de lembranças e somos dependentes delas. Também somos agradecidos pelo que elas nos proporcionam. Há recordações que, com o passar do tempo, se diluem na memória e não sabemos distinguir muito bem se foram reais ou se estiveram a ponto de sê-lo ou se foram fruto de nossa imaginação. Há outras, entretanto, que são tão nítidas que parece que aconteceram ontem mesmo. O que sabemos, Irene e eu, é que aqui é o nosso lugar e aqui ficaremos até o dia em que deixe de ter importância o que queremos ou não.

    A crise econômica que hoje assola a nação também nos pegou, e isso foi inevitável. O país inteiro sofre com a má administração do dinheiro público, por que conosco seria diferente? Decidimos vender alguns móveis, ainda que nos doesse. Tínhamos que incrementar nossa renda de aposentadoria para manter esta casa tão grande. Vieram uns homens para retirar algumas peças, deixando vazios vários cômodos. Sentimos muito, mas preferimos assim. Os vasos com as plantas ornamentais também renderam um bom dinheiro, assim como alguns quadros e uma parte das louças e dos objetos de prata e cristal. Nem vou falar dos livros franceses; separar-me deles doeu muito em mim. Eles eram como um tesouro que eu guardava com o máximo cuidado. Irene chorou quando tivemos que nos desfazer do genuflexório forrado com veludo roxo. Os carregadores passavam ao nosso lado com estantes, penteadeiras, poltronas e cômodas nos ombros. Ficamos desolados vendo a mobília sair da casa e ir sabe-se lá para onde. Sentimos que perdemos um pouco o chão; ficamos sem certezas, como aquela que se tem de encontrar o litro de leite na soleira da porta a cada manhã. Mas teve que ser assim, os dias modernos nos levaram a isso. Eu tentei animar minha irmã e ela me pediu que dissesse àqueles estranhos que os móveis podiam ir, mas a casa ficaria no lugar de sempre. A casa não estava à venda.

    As primeiras horas depois disso foram penosas. Ver a casa quase vazia era muito difícil, mas aos poucos deixamos para trás os dias ruins. Utilizamos as lembranças para superar a tristeza. Por exemplo, recordar o dia em que a casa passou a ser propriedade só nossa, minha e de Irene, por direito e herança. Eu dancei sozinho sobre o piso de madeira para celebrar o acontecimento e Irene, mais familiarizada com cálculos e contas, assinou o contrato, encerrando o caso. A casa era definitivamente nossa. Foi um dia memorável. Gostei de ver minha irmã enfim sorrindo, ainda que fosse um sorriso triste. Logo depois do jantar ela retomou o tricô e comentou que precisaria de mais lã azul para terminar o cachecol que fazia para mim. Eu disse que na manhã seguinte iria até o centro da cidade e compraria. Ela agradeceu com a delicadeza de sempre e voltou os olhos para o trabalho. Eu continuei mergulhado nos livros. Dormimos muito bem aquela noite.

    Quando Irene sonhava em voz alta, e chorava, eu acordava de imediato. Corria até seu quarto e a sacudia com delicadeza. Ela me perguntava, ainda dormindo, que carro era aquele que tinha passado perto da janela do quarto. Era uma voz estranha, que vinha do mais profundo de sua inconsciência e não de sua garganta. Eu respondia que não sabia, era apenas um carro, um automóvel qualquer que alguém dirigia na rua de nossa casa. Ela retrucava implorando que eu dissesse ao motorista que a casa não estava à venda. Eu a abraçava com força para acalmá-la.

    Os casais jovens e as famílias mais ou menos numerosas que vinham ver a casa se admiravam com a beleza e a sobriedade da construção. Passeavam pelos cômodos olhando as paredes, o teto, as portas, os rodapés. Iam do saguão com piso de mármore até a sala de jantar forrada com gobelinos, passando pela biblioteca e pelos amplos dormitórios, que ficavam na parte mais afastada da casa, aquela que dá para a rua Rodríguez Peña — perguntavam coisas, suspiravam em alta voz, faziam comentários de admiração. Irene, a todo instante, me pedia que lhes dissesse que a casa não estava à venda, nunca estaria. Eu respondia que estava tudo bem, que podíamos nos cobrir com lençóis brancos e fingir que éramos fantasmas e mandá-los para longe daqui. Ela ria, mas seu riso continuava triste.

    Pensamos em sair à rua, trancar a porta e jogar a chave num buraco de esgoto qualquer, para que estranhos não invadissem a casa, mas não conseguíamos nos afastar de lá. E então gritávamos às pessoas que fossem embora, que deixassem de tagarelar, que não tomassem nossa casa, que ela não estava à venda. Ninguém nos ouvia. Continuavam passeando pelos cômodos, comentando sobre os poucos quadros pendurados, a cor das paredes e a altura do pé direito. “Uma casa magnífica”, diziam. Irene chorava e eu tentava mantê-la calma dizendo “Esta casa, a nossa casa, nunca será tomada.”


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