A melancolia me invadiu e fez morada – há tempos, desde que me entendo por gente. Pequeno, ainda, me apegava a objetos desimportantes e canções tristes, principalmente, que me levavam ao processo de reflexão. Não participava da maioria das brincadeiras que meus amiguinhos brincavam no colégio. Colecionador, mantinha intactos álbuns de figurinha e ficava lendo e observando cada uma delas na hora do recreio. Tinha, por isso, todas as mais raras, que eram objeto de troca, literalmente, somente para dar aos coleguinhas mais chegados a figura que lhes faltava. Uma vez meus pais viajaram com meu avô materno, para Uruguai, Argentina e Paraguai, em um passeio muito realizado à época, pela empresa Soletur, de ônibus, que saía exatamente do Rio de Janeiro com direção ao Sul do País e adjacências. Não conto as vezes em que chorei amalgamado às perturbações e tristezas provocadas pela solidão e abandono. Não entedia que meu pai e minha mãe fossem voltar. Minha avó, já idosa, não dava muita bola, mas me deixava escutar as canções que passavam no rádio. Uma bem famosa era Hunting High and Low, do a-ha, que me fazia chorar em desabalada desesperança. Talvez por isso, na vida adulta, tenha me apegado às músicas desse gênero, que trazem uma dorzinha no coração, como as da banda Toto também. Para falar mais sobre a melancolia, devo dizer que não me esqueço das palavras do poeta João Cabral de Melo Neto, que dizia ter a melancolia entranhada – e parece que já se acostumara com isso; relatara o fato a seu psiquiatra, que já não sabia o que fazer. De fato, com o tempo, aprendi, a partir de estudos aprofundados, que a melancolia é diferente da depressão. Na Psicanálise, a depressão é a perda da experiência, do desejo, da vontade, enquanto a melancolia é possuir um corpo sensível muito aguçado, para o bem ou para o mal. Mas não vim aqui falar de teorias. As pessoas não entendem que nasci assim, e que não é culpa minha ser melancólico. Já perdi amizades por isso, pela minha introspecção, por não entenderem que não estou sempre à disposição, que tenho meus momentos de angústia e solidão, necessários à minha sobrevivência. Quando criança, fui tido como depressivo e, pasmem, “um projeto de homossexual”, dada a minha hipersensibilidade. Nunca liguei. Coisa de gente pequena. Meu pai mesmo comprava revista de mulher pelada para um menino de cerca de dez anos e me dava, para me “divertir”; sem nem eu saber o porquê disso. Descobri tantas coisas, como a minha capacidade para as Artes… E não há nada que me impeça de viver da minha forma, neurodivergente, pois que, além do mais, sou autista, nível 1 de suporte. Levei tempo para me acostumar comigo. Agora quero ser feliz assim.
COntos
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Melancolia
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Ímpios
Zími e Silvano tinham várias piadas sobre o fato de Mila Cox às vezes pensar em inglês.
Quando criança, ela conviveu bastante tempo com sua tia Sara Cox, que havia morado muitos anos na Inglaterra, depois de viver a juventude numa casa proletária no bairro da Penha.
Sara tinha ido para lá aos dezoito anos, para estudar. Seus pais economizaram dinheiro por muito tempo para que isso fosse possível, assim que ela atingisse a maioridade.
Então casou-se com um inglês funcionário de pub para viabilizar uma permanência mais longa no país.
Sara foi fundamental na educação musical da sobrinha. Foi quem lhe apresentou os discos que vieram a moldar o gosto musical da garota. Estava à frente do tempo das outras pessoas de sua família.
Previu que o futuro seria de luta e resistência contra a barbárie fascista.
Conversavam em inglês, e Mila Cox, ainda criança, aprimorava o entendimento do idioma traduzindo as letras das músicas que ouvia.
Sara dizia para a sobrinha que muitas pessoas se irritam com aquelas que adotam padrões de vida mais individualizados. Sentem-se insultadas, humilhadas e reduzidas a seres ordinários.
Já naquela época, Mila Cox já pensava que a falta de uma resposta definitiva parar o sentido da vida era algo a ser encarado como liberdade Não havia a pressão e nem a tristeza de um futuro pré-decidido.
Certa vez, ouviu da tia que a vida é uma longa preparação para algo que nunca acontece. Diversas vezes ouviu também que a utopia é algo que está sempre no horizonte, e que se afasta à medida que avançamos, e que serve justamente para não ficarmos parados no mesmo lugar.
A tia lhe contava coisas do século vinte, fazendo comparações com fatos ocorridos no presente. Sempre lembrava que também há riqueza potencial naquilo que não precisamos ter.
Havia uma foto das duas na sala do apartamento que Mila Cox dividia com Zími. Mila Cox tinha quatro anos, e Sara tinha vinte e oito.
A tia usava uma camiseta do Television, que dizia ser melhor que Talking Heads. A sobrinha nunca havia chegado a nenhuma conclusão sobre isso, e gostava igualmente das duas bandas.
Então, em 2024, com vinte e um anos, ao saber da morte de Wayne Kramer pela internet, Mila Cox disse: “Oh fucking god!”, na sala do apartamento que dividia com Zími. Ele e Silvano estavam presentes.
Os dois sabiam que se tratava de algo sério, e portanto fizeram as piadas antes que ela contasse o ocorrido.
Enfim, ela contou e foi feito silêncio por trinta segundos.
“Caiu mais um pilar de resistência. Tinha sonoridade e atitude.” – disse Zími.
“Pelo menos ele teve uma longevidade razoável para a vida que levou, e provavelmente terá mais sossego agora do que teve em vida. E fica o legado. Falava para as ruas, era mais próximo da nossa realidade, mesmo em outro país e em outra época, diferente de gente que fazia parte de bandas que tinham aviões, falavam de escadas para o céu e tinham contas bancárias milionárias. Medalhões que eternizaram sua obra e estão com idade muito avançada, ou mortos. “– disse Silvano, que é uruguaio mas não tem sotaque, porque vive no Brasil desde muito criança.
“Ainda esse ano cairão outros pilares, entre eles, medalhões que no nosso imaginário pareciam eternos. Pessoas que quando eu era moleque já estavam consolidadas na carreira, com grana e que há algumas décadas causavam em mim um sentimento que beirava a inveja. Hoje, alguns ainda são milionários, mas estão no fim da vida. Deve ser triste para eles, porque para esse caso o dinheiro não é solução” – disse Zími.
“A melhor idade é estar vivo. Os próximos pilares a cair podem ser até mesmo vocês, isso seria devastador pra mim. E apesar de eu ainda ser jovem posso ser eu a próxima a morrer, sabe-se lá como. Nesse ponto estamos todos nivelados. Viver contra a existência de música marqueteira popularesca é uma boa causa.” – disse Mila Cox.
Dias depois, quando ela escrevia uma música sobre tabus que oprimem a sexualidade feminina, souberam da morte de Damo Suzuki.
A tristeza foi ainda maior, especialmente para Zími, que o tinha como exemplo, quase como um guru artístico. Ele havia presenciado um show de Suzuki em São Paulo, já em carreira solo.
Agora que moravam na região central, viviam perto do local onde aquele show aconteceu.
Na ocasião, Zími havia ficado surpreso com o número de garotas presentes na platéia, o que só fez aumentar sua admiração por esse artista magnífico.
No dia da morte dele, os três reouviram discos do Can, antiga banda de Damo Suzuki.
Durante a audição, Zími fazia anotações num caderno, para depois editá-las e transforma-las em alguma música nova para o projeto musical Crop Circles, que mantinha com Mila Cox.
Ela, que à noite ficou embasbacada ao saber que um censor da ditadura brasileira chegou a emitir um mandado de prisão para o filósofo Sófocles, pela autoria da peça Édipo-Rei, escrita cerca de quatrocentos e vinte e sete anos antes de Cristo, e que seria encenada naquele período, no Brasil, caso a censura liberasse.
Pensou então na maluquice que seria viver num tempo em que teria que enviar suas músicas para censores completamente senis, reacionários e ignorantes, sabendo que nenhuma delas seria aprovada para lançamento.
Sem contar as outras dificuldades. O alto custo de qualquer gravação feita na época, além da absurda falta de informação, por conta da censura à imprensa e a outros artistas da época, e isso somado ao fato de que muitos discos internacionais relevantes não eram lançados no Brasil, e quando eram, custavam caro.
Foi logo trazida à realidade de seu tempo por Zími, que insistia em dizer que sua vida jovem no último quarto do século vinte foi uma experiência nada saudosa, ao mesmo tempo em que tinha sérias críticas e restrições ao primeiro quarto do século vinte e um, em que a informação abundante e fácil formou uma geração fútil, que não lê, ouve músicas ruins e tem uma vida social debilitada pela tecnologia.
Para Mila Cox, Zími e Silvano, a tecnologia trazia benefícios e algumas desvantagens.
Assim como a tia de Mila Cox, tanto Zími como Silvano. falavam para ela coisas do século vinte e faziam comparações entre o presente e o passado.
Ela ouvia muito deles também sobre o fato dela ter nascido no século vinte e um. Ela aprendia com eles o uso de recursos primitivos em casos de emergência. Coisas do século passado, que eram corriqueiras.
Já sabia o que era gambiarra antes que conhecesse a palavra.
Tinha a vantagem de considerar desde sempre que todo o Rock da segunda metade do século vinte foi criado em condições gerais que não mais se aplicavam.
A convivência com gente mais velha também lhe ensinou que sempre há um limite além do qual a tolerância deixa de ser uma virtude.
Então foi à padaria e a televisão estava ligada num programa popularesco da programação aberta.
Viu uma pseudo celebridade do momento, que ela não sabia porque tinha fama, e muito menos qualquer motivo decente para que aquele retardado tivesse espaço na televisão aberta, falando para milhões de pessoas.
Falava de si na terceira pessoa, e era ainda mais jovem que ela.
Mila Cox lembrou mais uma vez de sua tia Sara, que desmistificava para a sobrinha, desde cedo, a fama e os meios de comunicação convencionais, que apresentam conteúdo capaz de convencer milhões no rebanho humano, deixando a grande massa retardada e facilmente manipulada.
Matando uns aos outros por motivos de fé cega em coisas sobre as quais nada sabem., especialmente o charlatanismo religioso ao qual estão sujeitas, futebol, política e música.
Ela tomou uma cerveja e ficou olhando a televisão e os circunstantes à sua volta.
Saiu e foi comprar cerveja no mercado antes de voltar para casa, pois era mais barato. -
Maria Mercedes se olha no espelho
Nunca tinha ido à escola e se envergonhava quando perguntavam se sabia ler e escrever. Respondia Não e mudava de assunto. Agora, aos sessenta anos, começou a aprender as letras nas aulas noturnas da escola municipal. Saía da casa de dona Elza deixando tudo pronto: as panelas e o chão brilhando, a comida do jeito que a patroa gostava e a roupa passada. À noite, na escola, escrevia bem devagar o que a professora ditava, passando a língua nos lábios enquanto a mão desenhava as letras maiúsculas e minúsculas de seu nome: Maria Mercedes. Afastava os olhos do papel, entortava a cabeça para olhar por outro ângulo e dizia, satisfeita: Esta sou eu.
Aprendeu também a escrever o que costumava ver todos os dias: mesa, panela, chão, comida, gato, copo, água, vassoura, feijão, menino. E já não sabia que outra palavra escrever, até que lhe ocorreu uma: espelho. Aprendeu a escrever espelho e olhou a curva de cada letra. Leu uma e outra vez em voz alta e ficou olhando a palavra, olhando e olhando. Admirou-se de não se ver refletida nela. E por que não se via naquele espelho escrito, se tudo o que escrevia antes certamente via? Quando rabiscou barriga, viu a dita cuja no filho lombriguento, e disso não tinha dúvida. Encafifou. Pensou que era porque ainda não sabia escrever muito bem e que, quando soubesse à perfeição, veria tudo o que quisesse, bastaria escrever. Se não fosse assim, que vantagem teria aprender a ler e a escrever?, perguntou. Ninguém na classe respondeu. Fizeram silêncio, como se Maria Mercedes tivesse dito algo estranho. Como se ela olhasse para um espelho e, feito um milagre, de repente se visse.
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O Sol
A fluidez da manhã me capacita a digressões. Ainda me espanto e me encanto com o nascer do sol. Sinal de estar vivo. Sinal de uma tal de esperança que ainda vive em mim. Vou tomar uma medida para ser, sempre, amante do sol – desta feita, rigorosamente, como um penitente eterno. Apreciar, tomar o meu bom café, calmamente, para, só assim, encarar as profundezas do dia. Lorena não tem me deixado escapar da fadiga do dia como desejaria. Ela acorda tarde – e reclama de insônia –, e é um auê para arrumar o nosso filho. Portanto, como bom apreciador do nascer do sol, acordo invariavelmente às cinco da manhã. Já é o relógio biológico ativado que me desperta, não dependo, portanto, de apetrechos maquinais. Carlos Augusto volta e meia acorda mais cedo que a mãe e quer assistir à televisão, antes de ir ao colégio. Faço uma merendinha rasa, para que não fique morrendo de fome – já que a merenda do colégio é às 10h –, e o pobre infante não dá bola ao Sol. Fico chateado. Tento entretê-lo com a beleza do raiar do dia, mas ele, já com oito anos, diz que isso é besteira, que o dia nasce todo dia, e por isso não há nada de novo e interessante. Lorena, quando quer me irritar, inventa um exame pela manhã, e temos de sair aos sopapos cedo de casa. Semana passada fomos eu e o Carlos Augusto fazer um bendito exame de sangue. Não que isso atrapalhasse completamente a minha sanha de ver o Sol, mas o via de relance, sem o contemplar, e isso me aborrecia profundamente. Lorena, às vezes, só para me chatear, diz que eu preste atenção ao volante, que eu tenho filho e mulher para criar. Verdade seja dita, fico abobalhado, mas não amalucado. São duas coisas completamente diferentes. Mas o melhor dos mundos é quando pego Luna, a nossa labradora, para passear pela manhã. Tenho preguiça, gosto de acordar levemente como o Sol, mas, para agradar a minha bela cachorrinha, vou pelo menos três vezes na semana passear pela manhã com ela. Isso varia, também, pela tarde, no pôr do sol. Mas o pôr do sol é difícil para mim, porque ainda estou voltando do trabalho, e, por vezes, tenho de quarar na janela do carro vendo o Sol “se amostrar”. Já me chamaram de doido e de bestalhão – Lorena, principalmente. Ela, incauta, pensa que fé é só para os santos e congêneres. Não, me apego ao Deus Sol, como os Maias e tantas outras civilizações. O Sol é o meu Deus, e não há de se questionar, porque não existe explicação que me faça demover disso. Quando o Sol se deita, irradia beleza – uma luz que, ao se apagar, lentamente, se expande – e eu me abro às facetas de uma bela vida. Não me distraio muito, admiro, para melhor saber da sua sina; sobre o que ele tem para mim. Acredito no sol para acreditar em tudo que há.
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Marinhas de Vinna
Tábuas e pincéis compondo perspectivas de azuis caminhos nas águas de Mina. Walls and bridges interrompendo os verdes dos juncos, ao redor de paisagens recuperadas. Cavalos a toda brida nos levam a estreitos caminhos cavados nas encostas dos morros: paisagens nórdicas, mineiras e paulistas equivalem-se no absoluto do mundo, afinal diluído em contornos de magia, de luz e sombras em meio aos destroços do navio, como se a vida fosse isso – árvores de frio, anjos com substância de crianças, orquídeas de vidro, estampas de pátinas brilhando à sombra dos mistérios e pássaros de lata despertando Maras. Fileiras de peixes nas trilhas do universo e os sinais e os signos que saltam ao chamamento das águas. Estenografia de códigos rompendo o silêncio e o diário de Jonathan esquecido nos caixotes do castelo de Mairiporã. Nada afinal daquilo que fosse submerso, subterrâneo: tudo dista. A esperança atravessou a quilha e não encontrou nada além da terra nativa pulverizada de cinzas e os fantasmas. E parecia simples seguir o diário de bordo. O capitão já estava morto e amarrado ao leme. A meia linha inteira que nunca se concretiza. O camarote, o beliche e aquela escotilha que nunca se fecha de noite, as vagas do mar bem dentro, o meu esforço supremo de escrever e o ateliê de sensibilidades de Vinna.
Uma Escada que Deságua no Silêncio
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Urubu de pelúcia
Mila Cox já nasceu em revolta contra o machismo e o racismo que via em muitos homens mais velhos e em muitos de seus contemporâneos.
Ela praguejava ainda mais quando se tratava de pessoas mais jovens que ela, nascidos no século vinte e um, e com mentalidade tosca e medieval.
Cox diz que apesar da obrigação de morrermos menos estúpidos do que nascemos, essa lógica parecia não se aplicar entre muitos jovens, na proporção devida.
Exceção feita a Zimi, seu velho amigo e parceiro musical, esse era um problema recorrente na sociedade.
Conheceram-se através de Sara Cox, prima de Mila, pois Sara e Zimi estudaram jornalismo na mesma classe da faculdade.
Zimi, apesar de já ter feito muito merda na juventude, era agora um exemplo de conduta para Mila Cox.
Ele, tão criticado por uma inadimplência bancária que por décadas pareceu crônica, mas que foi superada por meio do desapego, quando vendeu a casa em que morava, herança de sua avó, para viver de renda, quitar a dívida no banco, comprar uma parte do sítio das Cox e morar numa quitinete alugada em São Paulo.
Mila Cox era baixista e Zimi era baterista, e juntos atendiam pelo nome de Crop Circles.
O sobrinho de Cox veio conversar sobre uma redação que precisava entregar no colégio, sobre sustentabilidade libertária, tema escolhido por ele mesmo, já que o professor passou a tarefa com o tema livre.
Era um tema que o garoto conhecia satisfatoriamente para escrever sobre, porque era algo aplicado por sua tia e por Zimi, especialmente quando eles estiveram em quarentena durante a pandemia, no sítio que tinham em Itapecerica.
Mila Cox desde criança já era tia. E mesmo sabendo que era jovem e aproveitando gloriosamente essa condição, ainda assim era tia.
Ostentava, em sua cabeça, uma posição hierárquica superior, mas não opressora, na relação de parentesco com o rapaz, sobretudo pela necessidade de não permitir que o jovem seguisse a cartilha machista que lamentavelmente ainda era seguida por alguns familiares.
No entanto, era preciso ter cuidado para não se colocar naquela posição de soberba que tanto desprezava.
No mesmo dia em que soube do trabalho escolar do sobrinho, resolveu escrever uma música sobre um dia do futu,ro em que ela estaria mais velha e tocando num festival europeu ao ar livre, numa tarde de sol, bem antes dos shows das novas atrações musicais desse período vindouro.
Essas atrações contemporâneas tocariam à noite, e os Crop Circles agora estava ali só para assistir e tomar umas bebidas atrás do palco.
Ela havia sonhado com isso na noite anterior e gostou do sonho.
Ela e a banda (na verdade era um duo formado por ela e Zimi, e que contava eventualmente com a participação de algum guitarrista em shows ao vivo) estavam escalados como coadjuvantes veteranos para o festival, embora tivessem prestígio de banda ‘cult’ na comunidade indie de então.
Um sonho que lhe renderia viagens que jamais pagariam com um emprego comum de escravo assalariado.
No sonho, sua aceitação entre os indies europeus do futuro, munidos de estrutura para um evento memorável, fariam finalmente com que a vida valesse a pena.
A partir daí, gostaria de se tornar um ser inorgânico, um espírito livre.
Em contrapartida, o anonimato entre o grande público na vida acordada também podia ser vantajoso. Poder andar nas ruas sem serem abordados por quase ninguém (pelo menos no que se refere a tocarem em uma banda) era bom.
Na vida real, quando ela ganhava algum dinheiro como copywriter, guardava um terço. pagava as contas com o segundo terço e gastava o resto.
Os festivais europeus do futuro a encontrariam madura e entendendo que o envelhecimento é uma consequência dura e implacável, que demanda a busca de uma trajetória digna, de preferência com algum legado autoral.
Mila Cox fez o trabalho escolar para o sobrinho e ainda não havia escrito uma linha sequer da música a que havia se proposto a fazer.
O sobrinho pediu que ela fizesse o trabalho, pois estava ocupado gravando uma música, como uma monobanda.
Alegou que a ideia sobre o trabalho já estava cristalizado em sua mente, mas a música em que trabalhava ainda estava em desenvolvimento.
Ele exercitava tal modalidade há algumas semanas, tendo um single gravado, sob o nome de Cox.
Afirmou que Brian Wilson era futurista quando apostava na longevidade da sua obra, e que isso demandava tudo, principalmente tempo, e ela entendia o porquê.
Para ela, enfatizar o que parece óbvio era um ingrediente na receita de hits.
Uma receita que muitas vezes pode dar errado.
O erro, nesse caso, nada tem a ver com sucesso ou fracasso comercial, mas sim poder ouvir a música anos depois sem ter vergonha de ter gravado.
A consciência da finitude pessoal também é algo que apesar de óbvio, muitas vezes não é assimilado, mencionado e aceito. É algo, que no entanto deve ser levado em consideração caso haja a intenção de criar algo mais duradouro do que o autor.
Mila Cox, que nos primórdios de sua banda, também teve em seu embrião uma fase dela como monobanda.
Ser tia do estudante que ganhou fama de nerd com um trabalho feito por ela era bom.
Ela sabia que o sobrinho realmente tinha conhecimento sobre o conteúdo do trabalho, antes mesmo de ter aceito a incumbência de fazê-lo.
O garoto alegava que exercitaria seu poder de edição numa canção sua que lhe seria bem mais exigente do que escrever sobre uma ideologia que já havia assimilado.
A tia, em troca, prometeu jogar duro na avaliação da música.
Era uma responsabilidade, pois o sobrinho sabia que carregaria aquelas palavras para o resto de sua vida artística.
O que lhe preocupava era saber da importância da dosagem de confiança que se deve imprimir numa empreitada como aquela, e não era o caso de estar abusar dessa confiança naquele momento.
Se a tia tivesse acesso ao rascunho que existia da música até então, saberia quem ele estava tentando plagiar.
Havia, portanto, uma parte significativa da música a ser feita.
Ele precisava apenas distorcer o que parecia óbvio com outra influência que fosse obscura a ponto de sua menção como influência se tornasse exagero, tornando o produto final aceitável no que diz respeito à originalidade.
Tentaria aplicar a fórmula de um hit, mas sua equação para isso era mais complicada do que os padrões de produtores clássicos.
Envolvia camuflar influências, que apesar de soarem óbvias para sua tia, pesando negativamente em seu critério de avaliação.
Mas confiava que se safaria alegando plágio involuntário, na pior das hipóteses.
Ele lembra de ouvir a tia praguejar os piores horrores sobre os artistas que desprezava, e sabia o quão doloroso seria ouvir aquilo sobre sua própria criação artística.
Ele havia escolhido o nome da família para batizar o projeto, o que também pesaria na avaliação de sua tia.
Acabou por fazer um trabalho satisfatório, mas não escapou da observação de Mila Cox, que comentou que a música parecia uma mistura de Brian Eno com a primeira fase do Ultravox.
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Sobre Ester
Tarde de sexta-feira. Dia dos namorados. Leve frio de começo de junho, nesse clima nunca radical do Estado do Rio, sudeste do Brasil, sul da América, entre os trópicos. Ponho roupa preta, acabada com meu paletó, preto, alemão, de fino corte. É meu único paletó, usado em ocasiões especiais apenas – e, na maioria das vezes, nem nestas. Saio então pelas ruas. Chuva fina. Abro meu guarda-chuva e vou, fugindo das rodas dos carros nas poças. É uma tarde triste. Mas não estou triste, embora meu estado seja, digamos, solene. Meu último encontro com Ester foi na quarta-feira, na casa dela. Naquela tarde, por horas eu a ouvi em seu lindo quartinho branco, com flores e listras verde claro.
Não estávamos sós, eu e Ester. Éramos quatro naquele pequeno cômodo que mais parece um pequeno templo: eu, dois amigos e ela. Um dos amigos fazia as perguntas. Outro apontava sua câmera de filmar fixada em tripé. Eu apontava também uma outra câmera, também num tripé, mas com movimentos de ida e volta nos detalhes do corpo de Ester, que estava sentada numa confortável cadeira. Imagens em ida e volta, zoom e não-zoom. Detalhes das mãos que não paravam de gesticular, com braços que moviam-se pela emoção daquilo que ela nos falava, terminando em um dedo em riste. Detalhes de sua boca com honrosos dentes amarelados. Detalhes de seus olhos expressivos por trás das lentes que refletiam, às vezes, e de forma mal calculada por nós, a luz difusa de um refletor. Seus cabelos brancos, suas rugas impregnadas de história e poesia, dor e cultura. Cultura poderia ser o nome dessa mulher. Uma mulher, espantosamente, não-triste. Na quarta-feira eu não estava com meu paletó preto.
Só que hoje meu novo aguardado encontro com Ester seria apenas virtual. Marcamos às quatro na casa do amigo, a fim de dar uma primeira olhada nas imagens captadas na quarta-feira. Ester na tela. Ela ficou bem na tela. E o que ela faz na tela do televisor não pode ser feito por qualquer mulher. Ela nos conta sobre sua infância no Egito, sobre sua vida. Ela nos fala sobre morte. Sobre a morte de parentes ante a foice do nazismo na Alemanha. Sobre a morte do pai – a qual presenciou. Sobre sua passagem na Inglaterra, por Oxford, se não me engano. Reclama que na escola primária, ainda no Egito, as crianças aprendiam “apenas” três idiomas, e que o resto ela teve que aprender sozinha. Ela tem muita história pra contar. Muita. O muito que nos conta, vira e mexe é arrematado com um sorriso maravilhoso – não que ela seja de rir à toa.
Em nossa frente fotos que ela deixou em nosso poder, para serem digitalizadas. Muitas fotos em preto e branco, evidentemente, de pessoas em sua maioria mortas. Algumas delas mortas em circunstância que não é difícil imaginar. Acho que não me convém – nem a mim e nem a ela – entrar em detalhes agora.
O que conto é parte da pré-produção do documentário que começa a ser realizado numa parceria entre eu e meu amigo Elano Ribeiro, e com a valiosíssima colaboração de um novo amigo, Janér Baptista. Esther (sim, com “h” no meio) é o verdadeiro nome de uma incrível senhora que conhecemos, a qual nos oferecerá, para um novo projeto, a matéria prima: ou seja, o “livro aberto” de sua vida. De família Judia, nascida no Cairo, formada na Inglaterra, Esther é uma mulher brasileira com oitenta e seis anos. Uma cidadã do mundo. As nuances do mundo de Esther, só poderão saber aqueles que assistirem ao trabalho pronto, que pretendemos entregar ao público ainda este ano.
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Para que a chuva deixe de doer
Se naqueles dias de aguaceiro eu tivesse uma corda, e se eu não fosse pouco mais do que uma criança crescida, e se eu pudesse e tivesse coragem, amarraria minha mãe na cama e lhe daria uma surra para ver se ela parava de chorar e de gritar de dor. Quando chovia, os ossos de minha mãe latejavam e ela ficava louca. E me enlouquecia também. Mas eu não tinha uma corda.
***
E agora, quantos dias me aguentando? Demasiados. Já são onze dias que chove sem parar, onze dias de confinamento. Devo ser muito resistente, só pode ser isso. Mas sinto que estou próxima do meu limite. E aqui nesta casa não há ninguém que me ajude. Estou sozinha. O que necessito é deixar de sentir dor. E que pare de chover. Olho o chão do corredor à minha frente, penso num poema para me distrair:
tábua
irmã gêmea de outra tábua
assoalha
todas as tábuas dão-se as mãos de madeira
e assoalham
uma casa inteiraOnze dias! É a primeira vez que aguento tanto tempo sem chorar. Talvez pudesse aguentar um dia mais: doze. Será? Acho que não. Tudo me pesa e dói: a infância — a lembrança da infância, quero dizer, porque já não sou mais criança —, minha mãe, que enlouquecia de dor em dias assim molhados, meu pai, isolado em sua cabana perto da lavoura em que trabalhava e sempre alheio ao que se passava na casa, minha irmã mais velha — e muito mais esperta, porque soube dar o fora no momento certo —, e esses onze dias com suas onze noites de água.
É difícil acreditar que uma cidade e seus habitantes possam suportar algo assim: onze dias de chuva ininterrupta, obrigando as pessoas a se encerrarem em casa, quando o que elas mais necessitam é sair para trabalhar, para estudar, para fazer negócios, para tocar a vida. Mas a chuva tem linguagem própria e escreve sua história como bem entende.
Vejo pela janela embaçada alguma gente corajosa e seus guarda-chuvas no meio das poças, amaldiçoando o céu por despejar tanta água. Vejo uns poucos moleques pulando os charcos, vejo três ou quatro automóveis passando pela rua e espirrando água para todos os lados. Vejo a rua transformada em rio, cortando a cidade com sua correnteza e arrastando consigo lixo, coisas soltas, animais mortos, a paciência e a capacidade das pessoas de aguentarem esse aguaceiro bíblico.
Já suportei muita chuva, mas nunca uma igual a essa. Onze dias! De verdade, não posso mais! Além disso, meu cabelo eriça com a umidade, pareço um leão alucinado querendo meter os dentes na primeira presa que passe pela frente. Não há nada capaz de domá-lo, alisá-lo para eu parecer ao menos uma pessoa normal, com quem se possa manter uma conversa comum sobre qualquer assunto. Não há normalidade possível quando chove dessa maneira.
***
Minha mãe se desesperava com a dor nos ossos por causa da chuva. Uma dor que brotava de dentro dela mesma e a enraivecia e quase a cegava. Ninguém em casa sabia o nome dessa enfermidade. Para saber, era necessário dinheiro, coisa que não tínhamos. Dinheiro para ir a um bom médico e ouvir dele do que padecia minha mãe quando chegava a temporada das águas. Sabíamos que era uma coisa muito ruim. Se soubéssemos o nome da enfermidade, iríamos providenciar um remédio, um calmante para acabar com seu sofrimento. Mas não sabíamos o nome.
Doía. Mas não doía só nela, doía em mim também. Não doía em minha irmã mais velha no tempo em que ela morava conosco. Não sei dizer se agora dói, já que nos abandonou e sabe-se lá por onde anda. Com o meu pai posso garantir: ele não sente nada, nem poderia, sempre carrancudo e preocupado só com suas coisas. Quanto a mim, digo: doía muito, doíam os ossos, o coração e o corpo inteiro junto com minha alma. Acho até que a chuva doía mais em mim do que em minha mãe. Ainda dói.
***
Quando minha irmã chegou à maioridade, pediu à mãe e ao pai que a deixassem estudar na capital. Queria ser professora. Dizia que, quando tivesse o diploma, voltaria para ensinar as crianças da cidade. A professora Cris. Porque minha irmã se chama Cristiana, mas ela gosta que a chamem Cris. Se ela tivesse ficado em casa e não tivesse usado todo o dinheiro da poupança para se tornar professora, estaríamos agora juntas e nossa mãe teria chance de ao menos conhecer o nome de sua doença. Mas não foi assim. Cris partiu e disse que voltaria já formada e pronta para trabalhar. No começo mandou cartas, tenho todas até hoje e de vez em quando leio. Depois parou, não enviou mais nada, nem um presente. Não soubemos mais dela. Às vezes acho que morreu, mas só penso nisso quando quero desculpar minha irmã por ter nos abandonado.
Cristiana recebeu o mesmo nome do pai. Um nome como herança de família.
***
Meu pai se chama Cristiano, mas ele não gosta que o chamem Cris. Ele argumenta: Cris é minha filha, não eu. Trabalhou a vida inteira na lavoura e passava pouco tempo em casa. Não o vi envelhecer, e ele não me viu crescer. Tinha uma cabana perto da plantação de trigo e de milho e sempre ficava lá quando anoitecia, depois de podar a plantação e rastelar as folhas secas. Voltava só no dia seguinte. Gostava de estar perto de suas coisas. Era assim que a vizinhança se referia ao trabalho do meu pai: Cristiano, como vão as suas coisas?
As coisas de meu pai eram sua lavoura e sua cabana no meio do mato. Não eram minha mãe e eu nem as nossas dores nos ossos.
Meu pai gostava muito da Cris, mais do que de mim. Gostava dela antes de ela nascer, por isso a batizou com seu próprio nome, um nome digno, segundo ele. Era a herança de família que a filha mais velha carregaria enquanto vivesse. A mim ele batizou Maria. Não havia outra Maria na família. Meu nome não era homenagem a ninguém. Quando Cris foi para a capital e deixou de mandar cartas, meu pai quis ir até lá e trazê-la de volta, mas não foi. Ele não sabia como ir. Tentou pegar o trem, mas ficou com medo de se perder e desistiu. Foi para a cabana do mato. Permaneceu lá vários dias, não sei quantos, talvez onze, lidando com sua solidão. Como eu agora, há onze dias encerrada em casa, vendo a chuva cair e sentindo a dor que ela causa em meus ossos. Meu pai não trouxe a Cris de volta porque não sabia como. Ele nunca soube de nada, só sabia das suas coisas. É que ele é homem.
***
Bem diferentes eram os dias em que não havia chuva, nem gritos, nem dor. O pai ficava mais tempo em casa, a mãe fazia comida e me chamava para ajudar. Pedia para cortar as batatas, depois lavar e secar a louça, varrer o chão, deixar tudo limpo. Não tínhamos empregada. Eu era a empregada.
Saíamos para passear, cumprimentávamos os vizinhos, líamos as cartas da Cris e dormíamos com a janela aberta. Não me incomodava ser a rejeitada de sempre nem ser só a Maria, a que veio ao mundo sem ter sido querida.
***
Minha mãe sentia nos ossos a aproximação da chuva. Assim que as nuvens escureciam, seus cotovelos e joelhos inchavam e começavam a latejar. Primeiro vinham as reclamações dissimuladas, um “ai, que dor!” baixinho a que eu e meu pai já estávamos acostumados. Bastava o céu despejar a água, ela abraçava a loucura. Esfregava unguento pegajoso nos ossos das mãos, das pernas, dos ombros, do quadril, dos pés, falava que tudo doía, que iria morrer de dor. Ela parecia mesmo morrer. Um dia ela morreu. Eu já estava crescida. Cris não estava mais conosco havia muito tempo e meu pai, já nos primeiros pingos, partira para o mato. Ele, ao contrário de minha mãe, gostava da chuva, dizia que ela fazia bem às suas coisas. A água é uma bênção, faz crescerem as minhas coisas, ele costumava falar assim. Também crescia a dor nos ossos de minha mãe, mas ele nunca deu muita importância a isso.
Nesses dias de aguaceiro em que minha mãe e eu ficávamos confinadas em casa, ela virava bicho. Chorava, gritava, amaldiçoava as paredes, me espancava. Enchia a casa toda com sua dor e, como alucinada, me agarrava pelos cabelos e me sacudia. Não havia nada nem remédio algum que a livrasse dessa tortura. Eu recebia as bofetadas em silêncio, ela gritava por nós duas. Se eu tivesse uma corda, e se tivesse coragem, amarraria minha mãe na cama e lhe daria uma surra para que parasse de chorar e de gritar de dor. Mas eu não tinha uma corda.
Quando a chuva cessava, a calma voltava milagrosamente à nossa casa. Como se fosse estrangeira chegando a uma terra desconhecida e agradável, minha mãe se lavava e vestia roupa limpa. Fazia chá e comíamos juntas o bolo feito dias antes de começar o aguaceiro. Esperávamos em silêncio pela volta do meu pai.
***
Ela morreu há dois invernos, quando choveu onze dias sem parar. Estávamos novamente presas e sozinhas dentro de casa, duas mulheres em convívio forçado, uma delas fora de si de tanta dor, vendo a água cair sem trégua. A casa ficou pequena para nós e para todo aquele sofrimento. Os ossos de minha mãe trincaram feito cristal. Seu esqueleto desmoronou. Ela se foi, mas não levou sua dor consigo: deixou-a para mim como herança de família. Porque meus ossos também doem quando chove.
***
Estou há onze dias aguentando a dor sem chorar. Talvez pudesse suportar um dia mais: doze. Será? Acho que não. Confinada em casa e em completa solidão, esqueço as tábuas do corredor e olho pela janela embaçada. Vejo alguns guarda-chuvas, vejo os moleques, vejo o rio correndo pela minha rua. Escrevo com o dedo no vidro gelado:
a casa
a rua
os olhos
o abraço
é tarde
mas ainda dá tempoLimpo o embaçado do vidro com a manga da blusa e apago os versos. Só necessito que deixe de chover e de doer.
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Apocalipticamente
“Subverter a ordem, apocalipticamente!”. Foi assim que Luan nos apresentou, numa conversa desleixada, “o projeto”. Devíamos chocar, como os Mutantes e Secos e Molhados – indicou-nos, inclusive, as referências, que eu nem conhecia. Não vou mentir: tive medo. Agarrei-me a certos exageros para continuar. Já tocava e queria tocar mais. Era o baterista do colégio e tinha, inclusive, o meu fã-clube. O sonho era viver de música, “da minha arte”, e esse era o medo de meu pai, que queria me afastar da vida mundana, me colocando, forçosamente, na trilha dos estudos: “Ou estuda, ou nada!”.
Luan era nosso líder e queria uma banda de rock subversiva, “apocalíptica”. O nome da banda, obviamente, já estava dado, era “Apocalipse Now”. A divisão de tarefas foi feita no ato da primeira reunião, no parquinho, enquanto espantávamos as crianças que queriam se divertir. A única certeza era a de que eu ficaria na bateria, pela lógica. Luan queria ser vocalista e guitarrista, como Max Cavalera, mas, infelizmente, não tinha a voz rouca – e falava que, para ser igual ao seu ídolo, teria de “esfarrapar” as cordas vocais, com muito cigarro. Só que ele não conseguia fumar; tossia e ficava doente, ficava doente e tossia. Junior foi para o baixo, e Marcos para a guitarra solo. Os nossos ensaios eram, no começo, no salão de festas. Alguns seres sobrenaturais apareciam para bagunçar a cabeça com o nosso rock incompreensível e diabólico. Lembro de um namoradinho de uma amiga, peruano, que sabia cantar em inglês e fazia os vocais mais pesados de Nirvana. Quase entrou para o grupo, se não tivesse acabado o namoro.
Deixamos de falar com a menina, porque teria arruinado o nosso sonho. Por conta da zoada e da impregnação de alguns moradores, invadimos o que era uma sauna desativada, para colocar os nossos instrumentos e caixas de som. Tocávamos moídos e suados, no verdadeiro caminho do rock. Com pouco tempo, já atacávamos em festinhas de colégio e de bairro. Era o auge dos Titãs (Cabeça Dinossauro) e do Nirvana.
Sabíamos tudo. Ensaiávamos como loucos – inclusive em horários escolares, porque faltávamos às aulas de inglês e o caralho. Ainda assim, na sauna hermeticamente fechada, éramos motivo de reclamação. Arranjamos um novo lugar, num estúdio que ficava na casa de um amigo de um amigo. Para compensar os ensaios, emprestávamos nossa aparelhagem de som. O que aconteceu no primeiro mês: o bandido, dono do estúdio, vendeu os nossos bens. Ficamos sem nada. Não podíamos mais tocar. Bateu a depressão e a impotência. Mas roqueiro não podia se abater. Prometemos explodir o espaço, e assim o fizemos. Numa noite, fomos lá na casa do bandido e soltamos bombas preparadas por nós. Já sabíamos que não seríamos presos, porque éramos menores de idade. Os pais do bandido pensavam que o mundo estava acabando. Ríamos, histéricos, vencedores. Nunca mais vimos nosso som, mas não deixamos de tocar o terror.
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Defasagem
Quando Zími ouviu Mila Cox bater à porta de seu quarto, pensou que fosse por causa das pilhas do controle remoto da televisão da sala.
Ele as havia trocado,colocando pilhas usadas no lugar.
Pecou miseravelmente e estava envergonhado.
As pilhas dele já tinham acabado e eram da mesma marca das pilhas usadas por ela na outra televisão, pois foram compradas na mesma ocasião.
Compraram poucas, mas ele compraria outras no dia seguinte.
Antes de dividirem o apartamento, Zími nunca tinha tido à disposição tantos canais de documentários para assistir sozinho, numa tela grande.
Isso deixava sua parceira musical intrigada, pois antes eram apenas os livros que o deixavam ausente por horas, como se ela estivesse sozinha em casa e ele fosse uma planta em outro cômodo.
Ela gostava disso, mas era uma condição inédita em sua vida.
Cox vivia antes numa casa de classe média na Penha, com a mãe e a avó, que consideravam o novo apartamento um muquifo.
Mas para ela era ideal. E para Zími era como um hotel de luxo.
Ela não reclamou das pilhas.
Na verdade, Mila Cox estava aflita naquele momento por conta de um e-mail que recebeu de um cara que assistiu a um show dos Crop Circles numa festa de aniversário em Santana do Parnaíba, no fim de semana anterior.
Ela estava ali bebendo café numa caneca de chope e usava uma camiseta rosa, furada, do Black Flag.
No dia desse show, aconteceu a estreia do amigo Silvano tocando ao vivo, que ensaiou seu repertório em menos de uma semana, em seu apartamento, vizinho de andar de Zími e Cox, isolado acusticamente com caixas de ovos nas paredes.
No tal e-mail, o sujeito fez elogios à apresentação de Silvano e dos Crop CIrcles, acrescentando que nunca tinha ouvido falar deles, e que instantaneamente os viu como uma ‘pérola da obscuridade’.
Disse também nunca ter visto de perto, ao vivo, algo tão ‘cool’.
Mila Cox sabia que Zími estaria satisfeito se passasse o resto da vida no underground, com trabalhos paralelos à música, para pagar as contas.
Ele prezava ir ao mercado e sair de bicicleta sem ser abordado a todo momento.
Sabia também que continuar no underground era, na concepção dele, continuar sendo ‘cool’.
Ele sabia que ela queria as duas coisas.
Ter algumas vantagens do mainstream, mas sob uma aura underground.
Zími dizia que uma vida brasileira normal, com preocupações financeiras, políticos escrotos, fanáticos religiosos e a repulsa que a maior parte da população tem pelo rock, e especialmente pelo rock alternativo, dão legitimidade ao trabalho.
Em tempos de internet, uma eventual repercussão no exterior se torna mais possível agora do que quando ele tinha a idade dela.
Zími tinha quarenta e seis anos, e Mila Cox, dezenove. Além disso, ele gostava de se expressar através da música, sem pitacos de gente que não é do ramo.
Queria poder até mesmo errar de forma livre, e depois fazer de novo da maneira correta.
Pediu que ela, no contexto do e-mail, pensasse apenas nas palavras ‘pérola’ e ‘cool’, ignorando a palavra ‘obscuridade’, caso se incomodasse com ela.
A Zimi, isso não incomodava.
Damo Suzuki era obscuro ao grande público e era uma das principais referências artísticas para ele, que também nunca escondeu seu desprezo por tudo que é mainstream no Brasil.
Segundo Zími, toda sua contribuição para a banda, formada apenas por ele na bateria e vocal, e Mila Cox no baixo, vocal e sintetizadores, sem um guitarrista, é tirada do que ele via no dia a dia, admirando ou repudiando o que estava lá, e muitas vezes se favorecendo de seu anonimato.
Cox sabia, no entanto, que ele adoraria se ganhasse dinheiro suficiente para que não tivesse que fazer mais nada que não quisesse.
Com o dinheiro, ele poderia perder o interesse pela música, pagaria as contas no débito automático e ficaria em casa fumando maconha e vendo documentários enquanto estivesse acordado.
E ele estaria tão pleno, etéreo e abstrato, que ela jamais ousaria incomodá-lo, sabendo principalmente que ele diria, de imediato, que estava com os boletos pagos. E a sua tendência de se tornar recluso e misterioso se acentuaria.
Sem contar que não era segredo que Zími preparava um livro havia um bom tempo, e dizia que ainda não havia ficado pronto por causa dos compromissos musicais, sendo essa a vertente cultural a que daria prioridade.
Mas dizia que o livro ficaria pronto a tempo do lançamento futuro de um box da banda, com todo o material gravado, para atender aos desejos megalomaníacos de Mila Cox.
Ele desconversava quando o assunto era ter mais dinheiro do que ele jamais teve, porque não contava com essa sorte, e não queria gastar seu tempo de sonhar com algo que considerava ilusório.
Enquanto não escondia sua vontade de se tornar relevante para um público maior, principalmente fora do país, Mila Cox alegava que não podia entrar nos sonhos dele para saber se ele dizia a verdade., em relação ao que ela chamava de conformismo.
A isso, Zími chamava de aproveitar a recompensa pelos esforços do passado, e não contava com essa recompensa enquanto não considerar ter feito tudo que podia.
Ele disse que a arte tem que ser produzida de forma independente porque ela jamais vai se sobrepor aos valores do mercado, que poderia estar vendendo o que fosse, desde que gerasse lucros.
Então, sempre que as conversas entre eles sobre esse assunto chegavam a essa parte das diferenças que tinham entre si, Zími dizia que para ele nunca houve zona de conforto em nenhum setor da vida, em nenhum período, e a arte, antes de uma fonte de renda, deveria ter um propósito em si mesma, antes que pudesse ser vendida como o produto arte.
Insistia também sobre o fato do amanhã ser um bônus. Tudo o que tinham de fato, era tempo, sem saber quanto.
Ele lembrou que enquanto Silvano fazia seu primeiro show no último fim de semana abrindo para os Crop Circles, eles já estavam no show de número duzentos e trinta e nove, além de trinta e quatro singles e duas coletâneas.
Silvano nem mesmo havia terminado seu disco no dia de sua estréia.
Tinha gravado um esboço tosco com as dez músicas que entrariam no disco, e se apresentou tocando guitarra sentado, também tocando bumbo e caixa acionados por pedais. Zími usava o mesmo kit,acrescentando apenas um chimbal.
A guitarra era uma imitação de Rickenbacker, comprada na semana anterior, e seu amplificador era um cubo preto sem marca aparente.
Deixou para lançar o disco no show seguinte, que ainda não havia sido marcado, e seria gravado com a produção de Zími.
Silvano queria ver a reação do público e também a sua própria diante dele, perder a virgindade de tocar ao vivo e só então disponibilizar o álbum na internet.
No caminho de ida, ouviram duas vezes seguidas o álbum ‘Enemy of the enemy’, do Asian Dub Fundation, colocado por Silvano, que dirigiu em um silêncio nunca visto antes em dias de show.
Zími e Mila Cox não sabiam se ele estava muito nervoso ou se estava apenas concentrado para seu show. Era um sítio grande, e havia ali, entre muitos carros, uma Veraneio 73 de colecionador, que fez com que Silvano parasse para olhar por vários minutos, sem soltar o case de sua guitarra, nem o amplificador, que levava com a outra mão.
Mila Cox tirou a foto e postou no dia seguinte nas redes sociais da banda.
A garota que fazia aniversário em Santana do Parnaíba era filha do dono do sítio, e havia ouvido falar deles por conta da repercussão de um show em Tanabi, semanas antes. Alguém que esteve presente os recomendou para que tocassem na festa.
A providencial aparição do uruguaio Silvano em suas vidas fez com que eles mudassem de patamar em termos de estrutura, e mais do que nunca seria preciso, de acordo com Zími falando para Mila Cox, ter paciência para que a popularidade deles também alcançasse um nível superior, como ela desejava.
Agora que viajavam na Kombi de Silvano, Zími deixou de se queixar das noites seguintes aos shows, com eles dormindo no Chevette Jeans 79 de Cox.
Dormir na Kombi era bem mais fácil e o veículo era muito mais apropriado para aquele tipo de rolê.
A estreia ao vivo de Silvano correu bem, durou trinta e cinco minutos e gerou curiosidade das cerca de trezentas pessoas presentes e conseguiu arrancar aplausos. Antes do show estava tenso, mas se controlou na bebida, deixando para beber depois da apresentação.
Era uma monobanda, algo ainda mais minimalista que o duo que tocaria em seguida.
O som era uma mistura convincente de blues e punk rock.
Ninguém ali diria que era o primeiro show daquele sujeito.
De maneira nenhuma Silvano era alguém que projetava sua autoestima na própria aparência, mas ele tinha um tênis Pony de cano alto, uma calça preta de moletom e um colete jeans, que foram o suficiente para que as pessoas saíssem da frente quando ele passava.
Parecia um Pappo Napolitano brasiguaio.
Ele assistiu ao show dos Crop Circles na lateral do palco, sem camisa e enrolado numa toalha, com uma caneca em que bebia alguma das cachaças artesanais que, como sempre, haviam sido compradas com antecedência num alambique local.
Bastava que Mila Cox anunciasse um show fora da cidade de São Paulo, para que ele pesquisasse onde compraria as bebidas, e logo entrasse em contato com o fornecedor.
Ela havia colocado o Chevette à venda, para comprar um amplificador Orange para seu baixo.
Zími mencionou também esse fato para lembrar a ela que estavam evoluindo, e o tempo que os separava de uma eventual fama maior, deveria ser aproveitado para tentarem entender o que seria ter problemas que não fossem financeiros.
Mila Cox respondeu dizendo que problemas financeiros infelizmente são, no mundo tosco em que viviam, a causa de muitas outras aflições.
Zími concordou e pediu a ela novamente que tivesse paciência, salientando que se ela conseguir logo viver apenas de música, isso pode se tornar tão ou mais exaustivo do que ter trabalhos paralelos para sustentar a banda.
Os trabalhos que eles pegavam como copywriters podiam ser chatos às vezes, mas eram previsíveis, toleráveis e pagavam o suficiente para que eles existissem como pessoas e artistas.
Ao bater na porta de Zími, Mila Cox interrompeu um pensamento sobre como a maturidade não vem com a idade, e agradecia pelo fato de Mila Cox compensar essa sua defasagem.
A isso, eles chamavam mutualismo não simbiótico.
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O Menino e Matisse
Na página aberta de um livro, está um desenho de linhas curvas entrelaçadas. O menino percorre com os olhos cada pedaço da imagem, procurando memorizar o caminho sinuoso de cada pincelada dada pelo artista. Pega uma folha em branco e fecha os olhos. Quer se certificar de que o desenho que acabou de ver está inteiro em sua memória. Traça linhas retas e curvas na folha branca. De vez em quando retorna ao desenho original, e percorre novamente, com os olhos e também com os dedos, os movimentos da figura. Ele está sozinho no quarto e desenha. Nada parece perturbá-lo. Não se trata de um simples traçado, mas de uma imitação livremente inspirada na sedução que uma linha curva sinuosa exerce sobre quem a vê. O desenho que começa a surgir na folha é peculiar: uma espécie de mesa oblíqua formada pelo entrelaçamento de numerosas linhas muito leves. Na superfície, um vaso redondo; abaixo, uma roda cheia de segmentos amorfos. Se não estivesse sozinho, o menino seria interrompido por sua mãe, chamando-o para comer; por seu pai, fazendo perguntas bobas sobre o significado do desenho em vez de perceber a beleza das linhas curvas e das linhas retas; ou por sua irmã menor, que poderia, só de pirraça, rasgar a página. Mas ele estava sozinho, desenhando em uma folha de papel as figuras que viu num livro aberto. Ele se concentrou em seu mister e só o interrompeu quando ficou escuro. Foi até a cozinha e se serviu de um copo de leite. Quando voltou ao quarto, por mais que procurasse, não encontrou a folha de papel. A mesa, a roda e o vaso estavam lá, na página aberta do livro, mas não a folha branca com o desenho que ele criara. Esse jamais reapareceria. O vaso, porém, perguntou-lhe se ele havia jantado; a mesa o abraçou, beijou-o e depois o carregou para a cama; a roda chorou a noite toda, mantendo-o acordado. No dia seguinte, a vida continuou dando voltas, como de costume.
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Bichanos
Larissa me pregou uma peça. Chegou em casa com uma gatinha filhote, embrulhada em sua camisa da malhação. Disse que a pobrezinha estava embaixo de seu carro, no centro da cidade, abandonada, que ela não poderia ficar assim. Logo rebati, mandando que levasse para doação. Larissa, com mil beijinhos e abraços – é assim que ela faz quando quer alguma coisa –, suplicou que ficássemos com a “neném”. Fiquei emburrado e desajeitado com a nova integrante, mas, aos poucos, coisa de horas, ganhou a minha afeição. Ela de fato é muito meiga e carente, está sempre nos meus pés, pedindo algo – penso que a ânsia da fome por que passou a deixa assim. Achei estranho que nos primeiros dias ela procurava um lugar para se esconder. Arranjou um esconderijo dentro do nosso guarda-roupas. Fez do lugar um ninho, literalmente. Um mês depois, já estava com a barriga por acolá. Meu Deus, entrei em pânico, a neném estava doente ou o quê? Levamos à veterinária, nossa amiga, a Sara. Assim que tocou na neném, disse que estava grávida. Que no primeiro cio teria engravidado! Ou seja, uma gravidez adolescente, complicada, no mínimo, pois não tinha mais do que seis meses de idade. Eu não queria bicho nenhum em casa e agora teria uma grande família de bichanos. Que horror! Como seria possível isso? Tivemos uma conversa séria, e disse à Larissa que a pequena teria os bebês, mas não ficaríamos com nenhum, iriam todos para a adoção. Larissa ainda implorou para que ficássemos com pelo menos um, para fazer companhia à neném. Não disse que sim nem não. Eu estava completamente alvoroçado com essa notícia, e não sabia agir diante de tamanha questão. Era, para mim, um grande desafio, já que teria criado, na adolescência, somente um cachorro, o Téo, que morreu com treze anos e deixou muita dor. Prometi a mim mesmo que não queria outro bicho, porque não tinha capacidade emocional para lidar com a situação, de alguma doença ou mesmo a morte. Fato é que, na verdade, só teríamos que esperar e ver no que ia dar. Fomos à veterinária no sábado, e a neném teve os bebês na segunda, sozinha. Chegamos em casa, e vimos cinco miúdos, lindos, parecendo uns ratinhos. Me empolguei e quis arranjar um lugar no nosso quarto para ela ficar. Aliás, separei o lugar que ela, a neném, já tinha escolhido. Larissa estava tão feliz quando um pinto no lixo. Mas não conseguia pegar as criaturinhas. Eu que seria, portanto, o intermediário entre a mãe e o mundo dos humanos. Os dias foram passando, e os bebês foram crescendo. Eu já repensava em doá-los. Mas claro que não dizia à Larissa. Com um mês e meio os lindinhos estavam prontos para a adoção e resolvemos, em conjunto, ficar com todos. Isso já faz dois anos. Temos maravilhosos seis gatos, que amamos muito. Cada um com sua personalidade, mas todos amáveis e carinhosos.
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Quando o nosso nome estiver gravado na pedra
Até os dez anos me chamei Donato, embora meus pais nunca tivessem gostado desse nome. Por que me batizaram assim é um mistério. “Não está com o rosto definidoainda”, diziam. “Quando for adulto e sua cara indicar que nome deve ter, mudaremos.” E assim foi. Aos doze, com a mudança de voz, decidiram que Donato já não combinava comigo, e que o melhor nome para meu rosto recém-estreado na adolescência seria Adalberto — Beto para os amigos. Esse nome durou até a noite de núpcias, quando, no momento crucial, minha mulher me chamou de César. “Céeeesar!”, gritou ela, antes de largar o corpo na cama, suado e satisfeito. Ela casou com o Beto e tirou a virgindade do César, meus amigos faziam sempre a mesma piada.
Desde então mudei de nome em outras três ocasiões: no escritório em que fui trabalhar eu me sentia Oswaldo, e assim me apresentava a todos; na faculdade, Péricles; na mesa de jogo, antes de bater o punho e gritar ‘Truco!”, Evanildo.
Meus amigos se confundiam. Para facilitar a vida deles, aceitei que colocassem no meu pescoço uma tabuleta com o nome vigente e, mesmo assim, ficavam pouco à vontade quando tinham de me chamar. Achavam essa mudança de nome uma bobagem. “A gente nasce, ganha um nome e fica com ele até o fim, até morrer, não é esse o normal?”, perguntavam sempre. Eu respondia que eles tiveram sorte, que o rosto deles se moldou ao nome que ganharam no batismo e não havia necessidade de mudar. Não era o meu caso, meu rosto não era sempre o mesmo e, por isso, o meu nome precisava se adequar. Para tranquilizá-los, eu acrescentava que, um dia, seríamos todos iguais, teríamos o mesmo rosto e o mesmo nome gravado na pedra.
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No limbo
Zími entregou a Mila Cox uma sacola para discos com um LP dentro.
Ele não a havia presenteado em seu aniversário, dois dias antes.
Conhecem-se desde o nascimento de Mila Cox, e trocavam presentes eventualmente, mas sempre com alguma zoeira sutil envolvida.
O LP era uma edição nacional e comum de uma coletânea da Siouxsie and the Banshees, em bom estado de conservação.
A contracapa, no entanto, trazia uma dedicatória escrita com esferográfica, que deixava claro que alguém ganhou o disco de presente e passou adiante sem remorsos.
A dedicatória tomava quase a metade da contracapa, e Zími havia comprado por dois reais, por conta de depreciação.
Zími havia esquecido a sacola na Kombi de Silvano no dia anterior, e a encontrou naquele momento, num compartimento oculto que há no banco traseiro.
Zími falou: “Não é um disco raro, mas essa edição vem com um texto na contracapa.”
Mila Cox: “Nossa! Dedicatória de 1985! Amei! Valeu!”
Eram onze horas da noite do sábado, fazia frio e o camarim e ponto comercial dos Crop Circles era a kombi do camarada Silvano, uruguaio que morava no mesmo prédio que Mila Cox e Zími.
Mila Cox e Zími eram os Crop Circles. Um duo, com baixo, sintetizador e bateria.
Silvano definia o som deles como uma mistura de Violeta de Outono com X-Ray Spex.
Ele era músico também e atuava como uma monobanda.
Tocava sentado, usando violão microfonado ou guitarra, e fazia a bateria com os pés, uma gambiarra com caixa, bumbo, chimbal e muita silver tape.
Zími também usava um kit minimalista de bateria e tocava de pé. Era apenas caixa, prato e chimbal.
Silvano falava português sem sotaque porque vivia em São Paulo desde os quatro anos de idade.
Para pagarem suas contas, Mila Cox era copywriter, assim como Zími.
Silvano fazia carretos e entregas com sua kombi.
Ambas as atrações se apresentaram numa festa junina nessa noite de sábado.
Silvano tocou antes. Os Crop Circles haviam encerrado seu show às dez horas. Ambos os shows agradaram o público.
Esses shows aconteceram na casa de Miro, um agitador cultural do bairro da Casa Verde, que já teve uma banda de Hard Core chamada ‘Colaterais’, e queria fazer uma festa junina com rock alternativo.
Era uma casa grande, a última de uma rua curta e sem saída. Os demais moradores da rua endossaram a ideia e tudo correu dentro do previsto.
Conheceram-se num show dos Crop Circles ocorrido meses antes, em Santo André.
Tinham outro show marcado para o fim da tarde do domingo, em São Caetano.
Era como se estivessem no intervalo entre o primeiro e o segundo tempo de um jogo de futebol.
Mila Cox tinha vinte anos e sabia que a vitória só se consolidaria ao término do show do dia seguinte, caso tudo fosse mantido sob controle.
Zími e Silvano tinham quase cinquenta.
Os dois sabiam que muitos artistas com a idade deles, nos dias de hoje, começam a se preocupar com excessos, especialmente naquele momento em que uma agenda estivesse apenas parcialmente cumprida.
Quando bebiam, sempre repetiam um ao outro, em meio a gargalhadas, que só não eram completamente inúteis para o sistema, porque ainda faziam mercado e pagavam por gasolina.
Com medo de que os dois ficassem muito loucos e dessem milho no show de domingo, Mila Cox buzinava na kombi parada a cada vez que um deles cochilava de bêbado, enquanto ficavam vendendo camisetas dos Crop Circles por mais um tempo depois do show.
Quando ela buzinava, o som era tão estrondoso dentro e próximo ao veículo, que os dois pulavam de susto e ela ria.
Zími e Silvano estavam felizes porque estavam com gasolina paga e alguma bonança financeira com o show de sábado. Tomavam Domecq, cada um com sua garrafa, bebendo no gargalo.
Era o dia de aniversário de Gene Vicent, e naquele dia Silvano tocou clássicos desse mestre e de alguns de seus contemporâneos, em versões mais aceleradas, para complementar seu repertório de músicas próprias.
Silvano falou para Mila Cox: “Você deveria ter paciência conosco, e entender que sair pra tocar num sábado sem ter prejuízo financeiro como muitos artistas que pagam pra tocar, e ainda lucrar com camisetas e discos, e além de tudo ter um show no dia seguinte, num ambiente completamente diferente, com o tanque da kombi cheio! Amanhã não tem cachê. Terá o pagamento do valor de um tanque de kombi cheio de gasolina, mesma coisa que foi hoje. Amanhã quando voltar pra São Paulo e estacionar na garagem do prédio, teremos lucrado com essa logística bem elementar. Eu e o Zími somos coroas, mas você sabe que mesmo que um de nós morrer hoje, vai levantar e fazer o show assim mesmo, zumbi. Então fique sossegada. A gente já vai voltar pra casa, quando miar o movimento aqui.”
Zími falou: “Eu adoro a ideia de ter show amanhã. Eu descanso na segunda. Estou vivendo um momento sublime. Na segunda dormirei, enquanto algum escravo assalariado contemplará o próprio retrato na parede de alguma firma por ter sido eleito o funcionário do mês, enquanto seus verdadeiros superiores hierárquicos estarão em orgias, em plena manhã de segunda. E em seguida um gerente patético o chamará de mocorongo e o fará voltar ao trabalho. E nós poderemos lamentar essa condição social mórbida criando mais uma música.”
Mila Cox: “Eu tenho paciência suficiente. Sei que a Carole King não gravou o ‘Tapestry’ do nada. Foi preciso passar por muita coisa antes de entrar definitivamente pra história. Está tudo bem, agora nós temos uma kombi. Antes de mudarmos pro apartamento e conhecermos o Silvano, foram dois anos com um Chevette 79, e naquele tempo o Zími tinha pavor de fazer shows em dias seguidos. Vocês já estão cozidos por essa bebida e nem sentem o frio que está fazendo. Mas eu não reclamo. Fazer merda virar adubo tem que ser um lema quando ainda se está construindo uma reputação.”
Zími: “Alcançamos alguma prosperidade sem sucumbir a ideias megalomaníacas de estrelato. Seguirei com essa postura em tudo que eu fizer. Lembre-se sempre que se nós tivéssemos nos transformado naquilo que nossos pais sonharam pra gente, teríamos um destino tão diferente que nem é bom tentar imaginar. Então estar aqui é uma glória. Expectativas exageradas sobre o futuro diminuem a importância do nosso presente vitorioso. Além do mais, São Caetano é perto.”
Mila Cox: “Você pelo menos fez faculdade. Pelo menos um de nós. Eu ainda sofro com esse tipo de pressão. A vida acadêmica me tomaria um tempo precioso.”
Zími: “Fiz a faculdade de jornalismo apenas pra me livrar dessa pressão. Não reclamo daquele tempo. Hoje eu vejo no que meus colegas se transformaram e agradeço ainda mais pela minha sorte. Com diploma, ainda que inútil pra minha vida prática, sem filhos, com uma banda, e tentando prolongar a juventude sem fazer um papel ridículo.”
Ao redor da kombi, estacionada na frente da casa de Miro, adultos conversavam e bebiam, crianças brincavam, cachorros passavam farejando alimentos que caíam no chão, e uma trilha sonora mais tradicional em festas juninas era o que se ouvia naquele momento.
Pessoas que sabiam que a segunda feira chegaria rápida e impiedosamente, dançavam bêbadas sabendo com o sossego de estarem próximas de suas casas.
Eram cerca de duzentas pessoas.
Silvano pensava secretamente se realmente valeria a pena voltarem para casa, ou se seria vantajoso dormir na kombi com os equipamentos, e na tarde seguinte seguir para São Caetano e fazer o show.
Dessa vez, mais duas bandas tocariam: Silvícolas e Secreção.
Zími falou: “Amanhã será outro dia de glória. Vamos tocar antes das duas bandas. É um jogo ganho. Há um sabor especial em fazer a nossa parte e ter mais dois shows pra assistir. Gosto de tocar domingo. A atmosfera não é carregada daquela urgência em se divertir a qualquer custo. Os Silvícolas são ‘posers’, certamente vai ser engraçado de assistir. Ouvi umas músicas na internet e não consegui entender se eles fazem sátira com o ‘hair metal’ ou se realmente se levam a sério. Espero que seja sátira. O Secreção tem umas músicas boas, mas vamos ver se ao vivo chamam a atenção. Mas gosto da forma como eles desprezam o sistema e todo tipo de estrelismo no comportamento de quem se torna afetado por ter uma banda e consegue agendar um show. Musicalmente são de uma linhagem derivada do Minor Threat.
Eu não sei se a pessoa que chamou essas bandas tão diferentes fez de propósito ou se faltou critério. O antagonismo entre eles é brutal. Mas é bom misturar. Não é possível que vá rolar alguma treta. Mas se rolar, o Silvano vai filmar pra colocarmos num documentário futuro.”
Silvano: “Ainda existe treta desse tipo? São moleques criados pela avó, não vai ter nada disso. Além do mais, será outra festa junina!”
Mila Cox: “Existe gente cretina o suficiente pra tudo que se imaginar, mas eu conversei com eles pela internet, vai ser sossegado. O público que eles vão levar será as namoradas e meia dúzia de amigos também criados pela avó.”
Zími: “Sim, são moleques da sua idade. Vão ficar com vergonha de fazer qualquer merda juvenil depois que o Silvano e nós tocarmos. Provavelmente eles têm grandes expectativas sobre o futuro, e como quase ninguém os conhece, não vão querer queimar o filme.”
Por volta da meia noite, as pessoas começaram a se despedir e ir embora.
Mila Cox falou: “Vamos embora, temos que atravessar o rio Tietê pra chegar no centro. É um rolê. Antes que fiquem ainda mais bêbados.”
Ao ver abortada sua ideia secreta de estacionar perto de alguma loja de conveniência e dormir na kombi, Silvano se ajeitou ao volante resmungando sutilmente.
Foram embora dormir em casa.
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A Melhor Estação
Ela sabe que já é outono pelo barulho crocante das folhas secas rachando sob seus passos. Ainda que não possa distinguir as cores nem os galhos secos, ela sabe. Não percebe a diferença entre os ocres, os marrons ou os amarelos-avermelhados que forram o chão, mas sente a mudança do ar, que é mais fresco na sua estação preferida. Suspira. Já não sente tanto calor quando passeia pelo parque e ainda não faz um frio que a impeça de se deitar na grama e deixar o tempo passar. Está aliviada. No outono ninguém vai persegui-la ou intimidá-la. É o tempo em que seus hormônios relaxam e ninguém irá machucá-la. Será deixada em paz. Em dias assim, não poder enxergar não lhe causa tristeza. No outono não corre o risco de ser violentada. Enquanto durar a estação, seus dias serão dedicados a desfrutar a platitude de cachorra cega e abandonada nas ruas da cidade.
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Um dia na vida
Era quinta-feira e Mila Cox marcou dois shows para os Crop Circles no fim de semana.
Duas festas juninas, uma delas raiz, na periferia de São Paulo, e a outra era mais gourmetizada.
Sexta na Casa Verde e sábado em São Caetano.
Na sexta seria sossegado, show deles com abertura do uruguaio Silvano.
No sábado foram quatro shows.
Dessa vez deram sorte, porque a organização do evento os colocou para fazer o segundo show, logo depois que Silvano tocasse.
Depois deles, mais duas bandas tocaram, os Silvícolas e o Secreção.
Nenhum dos dois tinha ouvido falar dessas bandas, mas prontamente pesquisaram ao verem o flayer do evento.
Zími falou: “O Secreção é banda punk com caras jovens e os Silvícolas são Glam, tem vocalista de penhasco e são espalhafatosos. Na pesquisa constatei relatos sugerindo que eles usam as cuecas uns dos outros sem problemas. Não vai haver nada de novo ali. Acho incrível que algumas bandas gostem de tocar por último. Espero que seja sempre assim, até mesmo se a nossa popularidade crescer com o tempo. Assistir ao último show com a sensação de missão cumprida e com um grande drink na mão é um momento glorioso. Não importa nem mesmo qual seja o último show.”
Para eles, haveria mais necessidade de conhecer as bandas se o show dos Crop Circles fosse o último da noite.
Gostavam de tocar em festas juninas. Elas eram diferentes entre si, e eles quebravam por pouco mais de uma hora os protocolos desse tipo de evento.
Então, Zími entrou no apartamento que dividia com Mila Cox, e ela estava na sala tratando dos detalhes desses shows, pelo computador.
Ele fechou a porta e falou: “Devemos fazer uma música sobre o coach. Ele me abordou no elevador, e todas as suposições que tínhamos sobre o charlatanismo dele se confirmaram.”
O ‘coach’ era um vizinho do prédio que treinava as pessoas para serem felizes.
A cara que ela fez quando foi interrompida, lembrou a Zími a cara que a gata de sua avó fazia quando era tirada de cima de um travesseiro enquanto dormia.
Ela usava uma camiseta com a cara do Jello Biafra fazendo uma careta.
Ela falou: “De qualquer maneira essa música só ficaria pronta na semana que vem. Não estamos atrasados em termos de lançamentos. Lançamos um single há dez dias.”
Zími: “Então o tema já fica estabelecido pra próxima faixa. Ele me falou sobre como seus clientes tiveram resultados incríveis e agradecem a ele diariamente. Ele nunca teve banda, nunca jogou bola, talvez nunca tenha tido namorada. Ele gosta de Coldpay e Silverchair.”
Mila Cox: “Que show de horror! É muita loucura que ele tenha te abordado tão rápido. Falamos dele ontem.”
Zími: “Eu estava entrando no elevador, enquanto ele entrava no prédio. Eu fingi que não vi, e não esperei. Mas ele chegou a tempo e abriu a porta antes que o elevador subisse. Extraí o máximo de informação que pude, mas ele viu que viraria zoeira e deu fuga antes de responder mais perguntas.”
Mila Cox: “Zoar o coach numa música pode gerar uma crise com a classe dos coachs, caso sejamos mal interpretados.”.
Zími: “Se a música atingir essa repercussão, então será um single de sucesso. Mas não acho que seremos mal interpretados. Esse vizinho é o único coach para ensinar as pessoas a serem felizes que conhecemos com essa proximidade. Ele me abordou questionando minha insatisfação com o mundo sem nunca ter conversado comigo antes. Mas ele já me viu antes tomando cerveja na padaria, de manhã, no meio da semana, e ficou bege. Se a música estourar, as pessoas saberão que estamos falando do indivíduo e não necessariamente da classe. Quando eu perguntei do que ele gostava de música, ele se engasgou, respondendo sem saber se a resposta merecia ou não o constrangimento de ambos. Mas foi quando perguntei sobre a concepção que ele tem de felicidade, e qual era a felicidade que seus clientes atingiam, que ele se esquivou alegando pressa, desceu no quarto andar, e eu vim pra casa.”
Mila Cox: “Essa gig de sábado em São Caetano vai ser louca, ainda estaremos na força do show de sexta.”
Zími: “Eu tenho o dobro da sua idade e acho meio cansativo, mas são coisas da vida. Não é uma questão de resistência física. Eu tenho prática e sei que o artista tem que melhorar com o tempo, e não piorar. Mas o que eu não tenho mais é a urgência juvenil, de se jogar como se fosse a última chance sempre. E também fui ter internet pela primeira vez na minha casa quando eu já era mais velho do que você é hoje. A gente era obrigado a estar mais nas ruas por mais tempo, para tomar conhecimento de qualquer coisa que estivesse acontecendo. A telefonia naquele período anterior à internet era completamente precária não apenas pela falta de portabilidade dos telefones, mas pelos intermediários que atravessavam as chamadas, que muitas vezes eram atendidas por alguém que não era a pessoa com quem se desejava falar. A impressão que eu tenho é que apesar dessa tosquidão, havia a necessidade de mais compromisso com o que era combinado, especialmente se você tivesse uma banda. Mas esse rolê de São Caetano vai ser bom mesmo. Temos kombi pra levar e servir de acampamento. É uma vitória.”
Então Silvano bateu à porta, foi chamado para entrar em coro por Mila Cox e Zími.
Ele anunciou que vai comprar um gerador de gasolina para poder ligar amplificadores em lugares descampados e ermos. Seria bom para shows, ensaios e atividades experimentais.
Disse também que a ideia do gerador já era antiga para outros fins. Mas durante o ensaio para os dois shows do fim de semana, ocorreu-lhe que agora precisava do gerador também para ligar o amplificador da guitarra, já que se consolidava como artista monobanda que dá ênfase a esse instrumento.
Oitenta por cento de sua prática é num violão uruguaio que comprou usado e que ficou encostado por anos, mas pelo qual tinha grande estima. Os outros vinte por cento era com uma Guibson ligada ao pequeno amplificador que usa em casa, para avacalhar um pouco menos com as regras do condomínio. Tinha um maior que leva a shows onde não há qualquer equipamento.Também falou que tem uma música nova pronta.
Então Zími falou: “A gente lançou single há dez dias, mas já definimos o tema da próxima música.”
Silvano: “Qual é o tema?”
Zími: “É o coach, aquele vizinho que treina as pessoas para serem felizes.”
Silvano: “Aquele sujeito do quarto andar? Aquele é um picareta de marca maior! Eu apenas tento me esquivar das abordagens. Já me fiz de louco pra escapar algumas vezes.”
Zìmi: “Eu tentei escapar. O cara correu e abriu o elevador antes que ele subisse.”
Silvano: “Aí você vai usar o estereótipo desse cretino pra dizer que quanto mais ignorante alguém seja, mais obediente esse alguém é. depositando a maior e mais absoluta confiança em quem o dirige. Pode ser um político de estimação, um pastor que vende terrenos no céu ou esse cretino que treina as pessoas pra que elas se tornem felizes.”
Zími: “Isso mesmo! E a sonoridade vai soar como uma mistura de Ministry e B52’s!”.
Mila Cox: “No lado B vai entrar uma música sobre ser livre na medida do possível. Sobre o transtorno de saber que não nascemos livres. E que a luta é por uma liberdade pelo menos parcial, já que a liberdade total é um conceito complexo que existe mais para que seja buscado, do que realmente alcançado. O rebanho não é livre, nem quer ser livre, porque nem sabe que não é livre. O rebanho é rancoroso, poque a única alegria que tem é quando o lobo come a ovelha ao lado. Essa faixa vai sair só no compacto em vinil de sete polegadas. E depois de anos será relançada numa caixa que lançaremos com tudo que gravamos.”
Silvano: “E com e gerador, ao longo desses anos a gente vai poder fazer muito mais coisa, tocando até de graça em certos lugares. Levamos tudo na kombi, montamos nos lugares remotos e tocamos. Logicamente isso não é algo pioneiro, mas é tão viável que é exatamente o que faremos.”
Do forno de padaria na cozinha de Mila Cox e de Zími saíram quatro pizzas naquela véspera de show. Zími guardava as bordas para comer com requeijão na manhã seguinte.
Na televisão colocaram um show do Fugazi, que terminava e começava de novo, servindo como inspiração.
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ARREBATADO
Quase morto de sede, o homem implorou ao céu por chuva, mas não caiu uma gota. Olhou pra cima e não viu uma só nuvem, só luz e azul. Rogou uma praga. Perambulou pela estrada poeirenta, o sol na cabeça. Viu algo no meio do caminho: uma escultura de madeira que alguém jogou fora. Era um rosto, uma cabeça. Uma cabeça completa. O homem a pegou nas mãos e a acariciou. Limpou a poeira e viu surgirem uns olhos, um nariz, uma boca. Um rosto. O rosto de um santo? Ele não sabia. Beijou aqueles lábios, quis saber que gosto havia ali. Colocou a escultura de pé, encostada numa pedra, e tomou distância para avaliá-la por inteiro. Aproximou-se novamente. “Escute aqui, meu chapa”, começou a conversar, como se estivesse na frente de uma pessoa de carne e osso (é assim que um solitário faz com aqueles que não o ouvem, para que o ouçam: “Escute aqui, meu chapa”).
Pediu que mandasse chover. Não choveu. Pediu que saciasse sua sede. Não saciou. Por último, implorou que o livrasse da miséria. Continuou tão miserável quanto antes. Desolado, contemplou a imagem, os traços rudes, grosseiros, talhados a canivete. Ia atirar a escultura longe, por inútil, quando percebeu um brilho rápido naquele olhar: o rosto também pedia por alguma coisa. Nos limites de sua madeira estropiada e do seu silêncio, implorava que alguém o encontrasse jogado por ali e o limpasse e lhe dirigisse orações. Suplicava que o adorassem como se adora um deus ante seu altar. Então o homem compreendeu tudo. Perdeu a sede, esqueceu-se de si e da chuva e dançou diante daquela carranca de madeira velha e carcomida. Dançou, dançou como arrebatado.
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Os olhos dela
Ele ia deixá-los abertos, os olhos dela, mas decidiu cerrá-los para parecer que dormia.
Conheceram-se numa festa de final de ano, na casa de amigos. Ele gostou do jeito e da graça com que ela levantou a taça de vinho durante o brinde para a contagem regressiva. Viu quando ela tomou um grande gole no “zero!” e abriu os braços para cumprimentar quem estava próximo. “Quero ela, quero essa boneca pra mim”, ele pensou, excitado. Já era quase de manhã quando caminharam pela calçada, buscando um café aberto. Lá dentro, com as mãos sobre a mesa, trocaram carícias e toques de dedos e unhas. Conversaram muito e marcaram novo encontro, cansados demais para irem para a cama àquela hora. O dia estava quase amanhecendo.
Na segunda vez em que se viram, ela confessou, rindo muito, que era uma bruxa poderosa e podia ver o futuro num baralho. Disse também que não revelava tudo o que as cartas lhe diziam, não gostava de provocar pânico nas pessoas. Só contava os acontecimentos mais leves, do tipo “você vai se casar com um colega da igreja” ou “seu destino será viajar pelo mundo”, coisas assim, inofensivas. Ele falou vagamente sobre seu trabalho numa instituição financeira, atividade enfadonha e desimportante. Não revelou seu fascínio por bonecas, aqueles brinquedos infantis quase insuportáveis de tão perfeitos. Também escondeu que tinha uma pequena coleção delas em sua casa. Foram para a cama naquela noite e em muitas outras nas semanas seguintes. Criaram um laço afetivo e de muita tensão sexual e apertavam-no um pouco mais a cada encontro.
Começaram a namorar.
Num dos tantos encontros, na casa dele, ela concordou em ler o futuro do namorado nas cartas, desde que se reservasse o direito de não dizer tudo. “Fechado”, concordou ele. “Diga-me só as coisas boas, como a data do nosso casamento, por exemplo”, ele brincou. Sentados em volta da mesa forrada com um cobertor, ela espalhou as cartas viradas para baixo e se concentrou. Virou uma a uma e comentou em voz alta e aos risos o que elas diziam. À medida que avançava na leitura dos naipes, seu rosto aos poucos se crispou e se transformou numa máscara de pavor. Olhou para o namorado, que sorria de maneira que ela nunca tinha visto. Fez menção de sair correndo de lá, mas ele a segurou pelo pescoço e o apertou até o corpo dela amolecer.
Agora ela está deitada na cama como uma dessas bonecas que têm uma bolsa na barriga para guardar o pijama. Ele ia deixá-los abertos, os olhos dela, mas estavam tão mortos que decidiu cerrá-los para parecer que dormia. Levou o corpo inerte para o porão, onde costuma executar os procedimentos de retirada de órgãos e a dissecação do cadáver. Tarefa para a manhã seguinte.
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Cheiro de jaula
Ainda era um pensionato aquela casa da rua Humaitá, onde Zími sempre parava na frente quando passava por ela, e ficava olhando durante a duração de um cigarro .
Ele havia morado lá por alguns anos, atravessando o período da pandemia ali. Aquele lugar não havia sido a sua última moradia antes de dividir um apartamento com sua parceira musical Mila Cox.
Ele alugou o quarto menor no apartamento de seu irmão mais novo, e ficou ali por seis meses. Era o prazo que tinha para tomar outro rumo.
E então Mila Cox, que queria sair da casa em que morava com a mãe e a avó, no bairro da Penha, aceitou dividir um apartamento com Zími, num lugar mais perto do centro.
Encontraram o lugar com melhor custo-benefício no bairro da Liberdade. Num domingo, Mila Cox estava de bicicleta, voltando da feira cultural do Bixiga, e parou na frente da pensão que Zími havia morado.
Viu um casal que morava ali sair para a rua. O portão ficava destrancado, Não havia placa indicando que ali havia aluguel de quartos.
Então ela entrou na casa e a conheceu parcialmente a parte de baixo por dentro. Havia ainda uma escada e um andar superior.
Pela escada, logo apareceu um sujeito que era gerente, e ele mostrou a Cox um quarto que estava disponível. Depois mostrou-lhe o resto da casa.
Os moradores ficaram curiosos com a presença de qualquer pessoa nova na casa dela. Abriram suas portas e a viram passar com o gerente.
O cheiro que pairava nos corredores era uma mistura de xampú, maconha e incenso. Nos quartos em que moravam mulheres, havia mais ordem e limpeza, mas na maioria dos quartos, onde apenas moravam homens, havia quartos em ordem e outros degradados.
Mas havia um quarto que tinha cheiro de jaula. Dois sujeitos dividiam o cômodo. Havia um deles que Mila Cox já tinha visto antes, e não estava lembrando de onde. O cara também a olhou como se já a tivesse visto.
Antes de sair, Mila Cox perguntou ao gerente se ele conheceu Zími.
O cara disse que sim, mas que nunca mais teve notícias desde que ele foi embora dali. Falou também que Zími dividia o espaço com um dos sujeitos que ainda morava no quarto com cheiro de jaula, o que esclarecia parcialmente a questão sobre como ela conhecera aquele cara.
O gerente falava e a olhava embasbacado, quase intrigado com aquela figura tão cool. Quase baixinha, jovem, cabelo chanel vermelho, com franja, tatuada, e usando uma camiseta com estampa do álbum ‘No more heroes’, dos Stranglers.
Tinha um olhar seco, sério e fulminante.
O sujeito pensava sobre como ela conhecera Zími, se havia entre eles algum parentesco ou se havia outros motivos.
A verdade é que antes de Mila Cox nascer, Zími foi colega de faculdade de Sara Cox, tia de Mila, e os dois ajudaram muito a moldar o gosto musical da garota.
Zími e Sara se formaram em Jornalismo nos anos noventa. Depois, ela se mudou para a Inglaterra e ele seguiu uma jornada errante, da qual ele nunca se arrependeu.
E agora Mila Cox pensava novamente sobre a podridão do universo masculino, ao mesmo tempo em que tentava imaginar o que aconteceria com o apartamento que dividia com Zími, caso ela tivesse que se ausentar por alguns dias.
Cox saiu da pensão sem memorizar a fisionomia do cara que a atendeu, mas não esqueceu do cheiro de jaula até chegar em casa.
Ela pegou a bicicleta e desceu da Bela Vista até a Liberdade. O caminho era de descida e ela chegou rápido.
Subiu ao apartamento e ali estava Zími.
Com ele estava Silvano, o vizinho uruguaio que morava na porta ao lado, que é multiinstrumentista e morava sozinho em seu apartamento.
Silvano já morava naquele prédio muito antes de Mila Cox e Zími. Seu apartamento, embora não tivesse cheiro de jaula, não primava pela ordem.
À essa altura, Mila Cox já entendia e partilhava dessa que era a razão em comum para quem resolve morar sozinho.
E era muito simples. Poder fazer em casa o que não se fazia quando ainda se morava com a mãe. E provavelmente o que não faria depois, se a pessoa fosse casada.
Zími e Silvano fumavam, bebiam a comiam no sofá.
Ainda não estavam tão horrendamente bêbados. Nunca ficavam muito loucos antes que ela chegasse em casa.
Ficavam mais bêbados só depois que ela soubesse antecipadamente que isso aconteceria inevitavelmente, quando era dia de folga das atividades que exerciam para pagar as contas, ou atividades musicais.
E preferiam beber em casa, pois é mais barato que beber na rua.
O assunto era música e Zími dizia: “Pelo menos três discos dos Beach Boys são ainda melhores que o Pet Sounds, e estão naquele período posterior a ele. Nesse bloco, entram o ‘Friends’, ‘Wild Honey’ e o espetacular ‘Surf’s Up’, que tem na faixa título a prova daquilo que estou querendo dizer. O ‘Holland’ também é muito bom. Depois veio aquela coletânea que só abrangia a primeira fase, sobre surf e carros, o que estigmatizou ainda mais a banda, depois da tentativa de fazer uma música muito mais abrangente nas temáticas. Foi uma tentativa muito bem sucedida, mas não comercialmente falando O que importa é que aqueles discos ficaram pra provar a relevância que deveriam ter também na época. Mas no fim dos anos sessenta e início dos anos setenta foram lançados tantos discos maravilhosos e as pessoas ainda associavam os Beach Boys à velha fórmula com que tiveram sucesso dez anos antes, falando de surf e carros.”
Silvano queria fazer uma cover de Beach Boys.
Zími falou: “Se é pra fazer cover, que seja como os Byrds fizeram com as músicas do Bob Dylan, dando uma roupagem diferente, recriando as músicas.”
Quando ele falou essa frase, Mila Cox percebeu em sua voz, agora já um pouco pastosa, os primeiros sinais de embriaguez.
Então ela falou: “Entrei na pensão que você morava, na Bela Vista.”
Zími respondeu: “Nem posso imaginar o atual estado daquele lugar. Mas a época em que morei lá será mencionada no livro que estou escrevendo.”
“E o cara com quem você dividia o quarto?” – Mila Cox perguntou.
“É o Elton, é baterista, tocou em várias bandas.”– Zími respondeu.
Mila Cox: “Ele estava lá, e eu não lembrava de onde o conhecia. Na verdade não lembro ainda”
Zími: “Foi num show em Catanduva, a banda dele tocou no mesmo evento. Na época ele era baterista de uma banda chamada ‘Quase’. O tempo em que morei lá com ele foi o pior momento da minha vida. Eu estava sem grana e dividi quarto pra baratear o aluguel. Dividir um quarto com quem quer que seja é inconcebível pra mim. Não sei quanto aos outros, e espero que façam o que quiserem com suas vidas, mas ter um quarto individual é essencial.”
A pergunta seguinte de Mila Cox seria sobre o cheiro de jaula, mas ela preferiu deixar quieto naquele momento, já que Zími, de uma certa forma, já havia respondido.
Antes de ter lembrado do cheiro de jaula e esperado pela oportunidade de falar sobre isso, Mila Cox pensou sobre sua antisociabilidade, já que tinha apenas vinte e um anos e também preferia beber em casa, independente da economia feita com a compra de bebidas no mercado.
Eventualmente bebiam na padaria que havia no quarteirão onde moravam, quando o aluguel já estava pago e havia como gastar ali para beber.
Mesmo sendo jovem, viu o declínio das competências linguísticas e intelectuais das pessoas, produto da falta de leitura e de referências culturais de qualidade.
A qualidade humana, de uma maneira geral, parecia estar em declínio, principalmente pelo fato de tanta gente ter perdido a capacidade de pensar com a própria cabeça, ou mesmo nem ter desenvolvido essa capacidade ao longo da vida, o que resulta em vidas infelizes e a espera de uma recompensa póstuma. Essa é uma deixa para pastores e coachs picaretas lucrarem milhões. E a quantidade de charlatões não para de crescer.
Então Mila Cox via aqueles dois sujeitos que só sociabilizavam realmente quando faziam shows. Quem realmente importava estava lá e havia diálogo.
Nessas ocasiões havia amigos que eles não podiam encontrar sempre e mulheres que gostavam de rock.
Por isso ela os compreendia. A diferença é que os dois já beiravam os cinquenta anos e ela tinha vinte e um.
Ela já havia lido nos livros o que os filósofos dizem sobre não se misturar ao rebanho e sobre como é alarmante se ver ao lado da maioria, no que quer que seja. Zími era o baterista e eventual vocalista da banda Crop Circles, um duo formado por ele e Mila Cox, que além de tocar contrabaixo e sintetizadores, se revezava com Zími nos vocais. O mote da banda eram as angústias da existência e o som lembra o da banda Suicide. Quando se uniram para tocar, Zími já conhecia essa banda, mas Mila Cox, ainda não.
Silvano era uma monobanda. Autodidata, Nos shows, ele tocava guitarra e fazia a parte de bateria minimalista de suas músicas no pedal.
Eles e Zími diziam que Mila Cox era um prodígio em coisas que eles tanto prezavam, entre elas, buscar sempre frustrar as expectativas capacitacistas, higienistas, competivistas e produtivistas da asquerosa sociedade neoliberal em que vivem.
Os três sabiam que qualquer solução ou revolução só pode realmente acontecer se for primeiramente pelo indivíduo, e talvez depois pela sociedade. Nunca pelo Estado.
Eles sabiam também que o medo da opinião dos outros é a maior escravidão do mundo.
Para ter paciência com a maioria das pessoas, lembravam que nem todo mundo é artista.
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Cruel
— Estou aqui, Maria Helena.
Quando recebeu o recado, ele não deu pelo motivo. Disseram que ela queria vê-lo, insistia em vê-lo. Estavam divorciados havia mais de dez anos, e nesse período só tinham se visto duas ou três vezes para discutir a separação dos bens. Nessas ocasiões, tratavam-se como estranhos. Ela era francamente hostil, como se o culpasse pela vida amargurada que levava após o fim do casamento. Para ele, as coisas também não tinham sido fáceis: a saída do apartamento, a perda dos amigos comuns, a mudança de emprego. E a solidão. Agora, depois de tantos anos de afastamento, ela queria vê-lo. Ele foi.
Chegou ao hospital no começo da noite. O quarto estava na penumbra e ela, sozinha. O corpo, cheio de fios ligados a aparelhos, denunciava o seu estado terminal.
— Mandou me chamar, Maria Helena?
Ela virou o rosto lentamente em sua direção. Ele pôde perceber, mesmo na penumbra, os olhos embaçados, que nem de longe lembravam o belo olhar que a ex-esposa tinha outrora. Sua cabeça, quase sem cabelos, era agora uma bola acinzentada. O corpo magro e sem carnes parecia ser incapaz de suportar o peso de uma folha de papel. Era um quadro grotesco, difícil de encarar.
— Queria me ver, Maria Helena?
Ela emitiu um som débil e fixou seus olhos nos dele. Esticou o braço lentamente para alcançar o interruptor e acendeu a luz. Com o quarto todo iluminado, ele pôde ver o indescritível. Mal teve tempo de sair correndo dali, sufocando um grito, quando ela escancarou a boca sem dentes e expôs as gengivas negras numa gargalhada perversa, sem som e repleta de rancor.
Na rua, apoiando-se numa parede para suportar a sensação de cair num abismo, ele subitamente compreendeu tudo: ela o chamara para que ele testemunhasse a sua decadência física e guardasse na memória, enquanto vivesse, aquela imagem medonha feita de pus, secreção e toda a crueldade do mundo.
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O doce Augusto
Nasceu palhaço, um grande palhaço, mas não se deu conta disso, e ninguém lhe disse. E então passou os anos fingindo uma seriedade que não tinha. Jamais prosperou: nunca foi capaz de cuspir nem dar pontapé no traseiro dos outros ou fingir que gostava de criança, pois gostava de verdade. Era mesmo um palhaço, só que não sabia que era. E por isso foi infeliz.
Um dia, numa reunião familiar sem importância, disse com voz de falsete: “Definitivamente, não sou ninguém-guém-guém.” E todos estavam de acordo, não merecia consideração um homem frouxo como ele, que não levantava a voz ou batia o punho na mesa para defender suas ideias. Quando por acaso alguém lhe dava ouvidos, não conseguia evitar um sorriso. “Você poderia ser um grande humorista, um palhaço”, costumavam lhe dizer, “sempre teve grande talento para o humor, deveria investir nisso, ganhar dinheiro, ficar rico fazendo graça.” Ele não acreditava e mudava de assunto. Sentia solidão com frequência, mas nunca perdeu o sorriso. E era um sorriso triste.
Numa dessas festas de casamento, teve oportunidade de exercitar sua verve humorística. Deram-lhe um microfone e ele subiu num pequeno tablado.
— Sabem qual é o menor circo do mundo? Uma bombacha, porque nela só cabe um palhaço.
Ninguém riu.
— E por que um bebê de proveta não pode ser palhaço, alguém sabe? Porque não nasceu gozado.
Novamente nenhum riso. Ele não conseguiu continuar, ninguém lhe dava a menor atenção.
A última vez que o vi foi num encontro casual. Ele usava um chapéu-coco de feltro preto. Nos abraçamos com carinho, ele sempre atrapalhado com os braços. Dei risada e quis saber como ia a sua vida, o que fazia para viver.
— Minha vida vai bem, muito bem, bem, bem. Sou zelador daquele prédio ali na frente.
— E o humor?
Ele ficou sério por um segundo. Depois sorriu: “Ora, isso acabou. Ninguém queria saber das minhas piadas. Achei melhor desistir. Aliás, você sabe o que um prédio falou para o outro?”
Fiz que não com a cabeça. E ele: “Você tem um andar lindo!”
Deu tchau com os dedos e foi embora, perdido nos pensamentos e tropeçando nos enormes sapatos coloridos.
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Laranjas azedas com sal
É pegar uma laranja azeda, cortar exatamente ao meio, e ir colocando sal, aos poucos, em micro-pitadas, à medida em que se vai chupando. Umas três pequenas adições de sal dão conta. O que se sente? Bem. Um pouco do azedume da laranja, um pouco do salgado, obviamente, e, surpreendentemente, um leve sabor adocicado que não deveria estar ali — pois a laranja não é do tipo doce — mas está. Ele transava, desde sempre, experimentações gastronômicas. Contudo, a laranja azeda com sal aprendera com a mãe e com as tias quando ainda menino. Hoje ele é um homem velho a relembrar o seu passado com as cores fortes de um presente que fosse. Cores e sabores, como o da única laranja que neste dia estava em cima da mesa. Para sua alegria, era uma laranja azeda. E ele a chupou com sal. O gosto era de passado.
No sol da sua longínqua juventude ele se aquecia. Certo dia, muitos anos atrás, perguntaram-no sobre qual era a coisa de que ele mais gostava, no que ele respondeu, depois de pensar um pouco: “ —Maconha e sexo”. Ele não levou mais de trinta segundos para eleger essas duas coisas como as suas preferidas. E pensou em como estava tanto tempo sem fumar um. E pensou também que já não fazia sexo com a freqüência de meses antes — não que n’algum dia estivesse satisfeito com a freqüência de suas relações sexuais. E o fumo… O fato de o fumo ser ilegal o perturbava, pois isso o restringia na impossível liberdade de fumar onde quisesse. Maconha ilegal, sexo restrito. Ah, o sexo… Este requeria um mínimo de paixão, e, ainda, requeria uma outra pessoa, e essa outra pessoa nem sempre estava apaixonada ou presente. Ele buscava na vida o prazer das coisas do corpo – que é o mesmo que alma. Buscava satisfação. Satisfação, para ele, era uma palavra como Comunismo, ou como Extraterrestre: essas coisas que são lindas, mas que não se sabe se um dia poder-se-á ver.
Numa tarde, ele pegou seu velho carro, que era uma extensão da velha bicicleta — sempre coisas velhas — e foi em direção ao incerto. Uma estradinha de asfalto centenário — datada de quando quase não existia asfalto. O incerto dele nunca era algo muito distante, em termos automobilísticos e viários, dada a situação do tanque com pouco combustível, sempre com pouco combustível. A velha estradinha sempre o esperava. Em silêncio e acolhedora. Ela o recebia, ele, o eterno menino velho — que sempre seria menino e sempre fora um velho –, com seu carro velho e com seu baseadinho, mas sem companhia para sexo. Numa das curvas ele acelerou mais que o considerado seguro, até que colidiu com um animal de grande porte. Era um burro. Na testa agora um pouco de sangue. No burro, caído no chão, não se via sangue, mas se via um animal tentando levantar sem sucesso — provavelmente uma fratura na bacia, ou na perna. Olhou para os olhos tristes, por fim, do burro, que parecia ter, após muitas tentativas, desistido de levantar. Sentou-se na grama, à beira da estrada, a quatro metros do burro e permaneceu, fitando-o. Sentiu vontade de chorar, mas não chegava a chorar em situações trágicas pessoais – os filmes o faziam chorar com muito mais facilidade. A morte de artistas queridos o faziam chorar, fossem contemporâneos seus ou não. Ali não chorou. Aquela situação, no entanto, era muito triste: um rapaz pobre com seu carro velho com o pára-lama direito amassado, sangue descendo na face, um pobre burro deitado na lateral da estrada, a incerteza sobre o que fazer naquele momento. E um burro, por si só, já é uma coisa triste.
Fugir e abandonar o animal: pensou. Mas que merda… dois burros, sem ação, à beira do caminho: pensou novamente. E pensou um milhão de coisas. E multiplique-se isso pelo efeito da Canabis-sativa em sua mente. Pensamentos de todas as cores, sabores, cheiros, medos e conclusões diversas. Não seria honroso um burro abandonar o outro. Ele pensava em sua honra, ainda que não houvesse expectadores. O sol, o vento frio, o céu que avermelharia com o ir das horas.
Milagres acontecem. Ela parou seu carro, bem mais novo, vermelho, e o ofereceu solidariedade, perguntando, primeiramente o que havia ocorrido, e como, e o que fazer, e em que posso ajudar, e como posso ajudar, e como isso foi acontecer, e como você pode mesmo ficar aí parado pensando no burro ferido quando podia dar o fora antes que o dono do burro apareça, e achou como ele era bonito, e ele também achou isso dela, e ela pegou na mão dele, e comoveram-se juntos com a situação, e saíram de perto do burro pra pensar na situação sem a imagem triste dos olhos tristes do triste animal, e ultrapassaram uma cerca, e fumaram juntos, e roubaram umas laranjas, e eram azedas, e aquilo era bom, e ela limpou seu rosto com a blusa molhada no riacho, e fizeram amor, e foram felizes, felizes, felizes… Voltando à estrada ela disse: “— Há uma hospedaria de cavalos perto daqui onde podemos avisar que há um pobre burro com a pata quebrada. Tem veterinário lá. Eles poderão dar um jeito. Não precisamos falar que você o atropelou”. E assim foi feito. E assim eles disseram: “— Até qualquer dia!” E eles nunca mais se viram. E o burro viveria feliz até o fim dos seus dias.
Voltando pra casa com o velho automóvel, de sua pequena viagem, ele trazia na mochila algumas laranjas azedas. Já na cozinha, as chupou com sal.
*Publicado originalmente no Crônicas Cariocas em seg., 15 de jun. de 2009, 10:21
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Estou pobre de heroínas…
Neste site, onde publicamos crônicas, poemas, contos e reflexões, existe uma aba chamada Autores. Lá está a nossa descrição: quem somos, o que nos qualifica como escritores, nossa formação. Enfim, um retrato resumido de cada um.
Tenho filhos, netos, família e amigos. Estudo. Publiquei livros de contos e crônicas, além da minha autobiografia. Tenho três graduações, fiz pós-graduação e posso afirmar: estudar foi e, ainda é parte importante de quem sou.
No entanto, minhas referências como autora em “nosso site” são as pautas que me inquietavam quando decidi me dedicar exclusivamente à escrita: envelhecer e parar de trabalhar.
Dois dilemas que me ocupavam a mente, provocavam reflexões e despertavam temores.
Águas passadas…
Aposentei-me entre os cinquenta e oito e os sessenta e seis anos.
Nesse intervalo, flertei com a leveza de não ter horários, com a liberdade de escapar da rigidez hierárquica, da dureza das opiniões e de tudo aquilo em que me transformara como funcionária pública.
Passei a ser uma estagiária sênior.
Gostei! E, quando cansei, deixei de vez a vida pública e me tornei aposentada.
Quanto ao envelhecer, só me dei conta quando troquei o batom vermelho pelo “cor de boca”; quando substituí os saltos pelos tênis, seja por conforto, seja por questões físicas.
Aos sessenta e nove anos, saudei a minha velhice com um poema. Fiz isso com galhardia, consciência e verdade.
Resolvidos, portanto, os dilemas da idade e do tempo ocioso, restava-me outra inquietação: quem seriam, agora, as minhas heroínas?
As heroínas!
Aquelas que, das páginas dos romances, nos forjaram, inspiraram, despertaram inveja ou compaixão.
Mulheres que nos fizeram pensar não só em nós mesmas, mas no mundo, nas relações, em nossos direitos…
Ou aquelas de quem apenas copiamos modelos de roupas ou frases de efeito.
As mocinhas destemidas, submissas ou valentes, lindas e amadas.
E também as que sofriam, ou faziam sofrer, a quem condenávamos ou aplaudíamos.
Também conhecemos personagens que, mesmo em sua feiúra ou pequenez, nos fascinaram a ponto de não conseguirmos abandonar a leitura antes do fim.
Mulheres descritas de forma nua e crua, com falhas humanas, como aquela que, ao perder a beleza e os prazeres da carne, passou a comer sem parar até se tornar obesa em Shangri-la, o Horizonte Perdido?
Ou a governanta cruel de Primo Basílio?
O que dizer de Madame Bovary, no misto de idealização romântica, insatisfação crônica e busca por relações insustentáveis?
Tudo mesmo já foi dito, escrito, lido?
Não haverá mais heroínas que possam me inspirar?
Ou será que elas continuam escondidas nas entrelinhas, aguardando que eu as descubra, como quem abre uma janela e deixa entrar um sopro de vento novo?
Quero ainda me surpreender, enternecer, admirar…
No meio da multidão, no silêncio dos asilos, nos cabelos brancos exaltados pelo modismo, eu busco, eu quero, eu preciso.
Onde estão minhas heroínas?
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Na casa do pasto
Perto do pasto só há uma casa. Em pé na soleira, um homem e uma mulher discutem. Em questão de horas sairá dela outro filho, a parteira já deve estar chegando. As outras crianças, cinco ou seis, já crescidas, brincam na terra com o cachorro.
Da barriga da mulher escorregou uma menina. Pequena, chorona, magricela, sem muita roupa para vestir, ainda bem que estava fazendo calor. A comida que há na casa do pasto não é suficiente para a fome de todos. A mãe precisa comer mais do que os outros, tem de encher os peitos de leite. O leite vai para a criança que ainda nem abriu os olhos.
O homem se encarregou de enterrar a menina atrás da casa, abaixo da janela. Cova rasa, que o volume não precisava de muita fundura. Foi sem batismo, porque não deu tempo. Cruz, flores e uma tábua para quem quisesse ler o que estava escrito nela: Marilda. O cachorro vive enfiando as patas na terra em volta da casa, cavucando.
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BORNOUT
Nasci um nada. Fui criado para ser um nada. Desde pequeno, nunca soube que o dinheiro pode ser usado para o lazer. Aliás, qual o significado disso? Meus pais só trabalhavam e tudo era minimamente economizado para podermos pagar as parcelas de nossa casa em um condomínio classe média e do carro do ano, a grande paixão do meu genitor. Objetos nos quais ele empregava seu tempo livre e sua matéria.
Enfim, fui criado para ser insignificante e decidi vencer esse destino.
Logo aos dez anos de idade comecei a trabalhar vendendo doce na porta da escola. Era onde eu estudava? Não. Para sustentar seus desejos de aparência, meus pais sempre me matricularam em escolas públicas. Longe da minha casa, é claro. Ninguém tinha grana para comprar doce de criança. Então, eu não podia vender lá. Por isso, ia para um colégio de bacanas onde a playboyzada sempre comprava tudo. Nunca soube se era por pena ou só para se livrar rápido de mim. Foda-se, isso não importava, estava fazendo o meu dinheiro.
Minha relação com a grana sempre foi de respeito. Ao mesmo tempo em que eu queria juntar cada vez mais, tinha medo de ficar deslumbrado e gastar tudo. Por isso, deixava ela lá, guardada, bem no cantinho dela. O único motivo justificável para mexer nas economias era para investir. Sempre buscava novas formas de aumentar minhas economias.
Trabalhei durante toda a minha infância e adolescência, nunca tive tempo para brincadeira ou para perder tempo com inutilidades. O trabalho era meu único foco. Quando fiz dezoito anos, peguei o que tinha, comprei uma moto, aluguei uma quitinete e sai da casa dos sonhos. Nunca mais voltei a falar com meus pais, apesar de eles terem tentado muito. Eu não tinha raiva deles. O que não tinha era tempo.
Passava os dias fazendo entregas em meu “amigo” de duas rodas, quase nunca ia para a casa. Quando raramente estava livre, ficava pensando em qual era a utilidade de pagar aquele lugar. Entretanto, logo caia na real. Ali, ao menos, poderia jogar meu corpo cansado quando precisasse. Não dá para morar em uma moto.
Por esse motivo, meus anos como motoboy foram sempre objetivando comprar um carro. Não queria um modelo pra aparecer para ninguém. Queria um econômico que não quebrasse muito. Trabalhei como boy por cinco anos até tingir esse objetivo.
Agora, eu precisava de mais, eu sempre quis mais. Meu objetivo era conseguir juntar o meu primeiro milhão. Dá para juntar isso sendo motorista de aplicativo? Impossível? Eu não conhecia essa palavra. Se alguma hora ela viesse em minha cabeça, eu ligava o celular, colocava um vídeo de motivação e assistia focado. Meu pouco tempo livre era unicamente dedicado a assistir um canal de um cara que saiu do nada e ficou rico. Ele ensinava os outros a fazerem o mesmo. Eu ouvia aquilo até cansar para ver se acontecia
comigo.Comecei trabalhando dez horas, muito pouco. Passei para doze, dá pra aumentar. Quatorze, posso fazer um esforço. Dezesseis, foca no seu objetivo. Dezoito? Tá puxado, quase não pareço um ser humano, mas preciso aguentar.
Certo dia, eu já estava completando umas dezesseis horas de trabalho, meu corpo pedia arrego, mas minha mente me chicoteava pedindo pra aguentar mais. Faltavam “só” duas horinhas. No meio dessa briga, eu apaguei. Quando fui acordar, estava em cima de uma cama de um hospital. Quando acordei, meus pais logo se aproximaram. Olhavam com uma puta cara de tristeza de merda. Eu fiquei puto, falei “o que ta acontecendo“. Minha mãe apenas falou “Filho, sinto muito, você perdeu todos os movimentos da cabeça para baixo“.
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Uma Noite Alucinante
zzzzzzzzzzzzz…..
zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz…….
Júlio mexeu na cama enquanto se recusava a abrir os olhos. “Pernilongo maldito.” Pensou tentando não despertar por completo.
SLAP! Uma batida de palma na escuridão, inútil. O diabo do mosquito pousou em seu nariz. “Isso é um despeito.” SLAP!
“Aí!” Gritou enquanto massageava o nariz e abria os olhos contra sua vontade. Tateou ao lado da cama em busca da raquete. “Agora vocês vão ver seus filhos da puta.”
VUSH, VUSH, VUSH. Nenhum barulho; nada…
zzzzzzzzzzz, Júlio pula da cama irritado e acende a luz. Seus cinco graus de miopia o impediam de distinguir qualquer coisa além dos móveis, ele se arrasta até o banheiro, resmungando enquanto coloca sua lente. Vlad, seu buldogue o encara sonolento, se levanta sacudindo o corpo e desce pela escada recém comprada pela internet seguindo o papai.
A lente úmida encontra a retina e Júlio se olha no espelho, dezenas de pequenas marquinhas vermelhas cobrem todo seu rosto enquanto a veia da sua testa começa a pulsar, o ódio surgindo de suas entranhas. Ele olha as horas.
03:15 cedo demais para acordar, tarde demais para voltar a dormir, levantava às seis para passear com Vlad antes do trabalho. Toda sua rotina arruinada por aqueles malditos sanguessugas barulhentos.
Furioso, irrompe pelo quarto buscando a raquete, mas seus olhos se arregalaram entre a surpresa e o medo. Milhares de pernilongos vagueavam pelo ar, outros parados na parede, alguns pousados sobre os móveis. Seus dedos se fecham ao redor do cabo e ele começa a balançar a esmo a raquete elétrica, como se estivesse segurando uma espada em um campo de batalha medieval.
Vlad corre pela escada, subindo na cama e se juntando no que acredita ser uma nova brincadeira. VUSH, VUSH. NHAC!
Os olhos de Júlio arregalam ao perceber que Vlad acabara de abocanhar um pernilongo, os dois se olham nos olhos encarando-se por alguns segundos antes do pequeno animal abrir um sorriso e colocar a língua pra fora. Estava inchada.
O ódio atravessa pelos poros do homem que grita de raiva enquanto continua a matar os mosquitos até que a bateria da raquete acaba. Furioso, ele começa a usá-la como um martelo, esmagando os pernilongos ao invés de fritá-los com a eletricidade. Um sorriso sádico começa a se formar em seu rosto, uma crueldade que nem mesmo Vlad, sempre tão próximo e tão atento a cada expressão e tom, nunca vira.
Assustado, o buldogue sai do quarto, deixando Júlio e seu ódio sozinhos com o inimigo. “Morram malditos!” Ele grita em plenos pulmões enquanto esmaga mais uma dezena de pernilongos. “Vai dormir filho da puta!” Uma voz aguda de outro apartamento no prédio urra.
Percebendo um pernilongo perigosamente perto de seu rosto, Júlio abre a boca e usando a técnica ensinada por Vlad o abocanha. Sente um gostinho de sangue, gosta. Abandonando a raquete ele começa a pular atrás dos mosquitos, caçando-os com seus dentes, engolindo seus corpos inteiros, dois, três, cinco, dez por vez. O sangue se misturando a saliva em seu sorriso macabro.
Ele arranha a própria pele se coçando cada vez mais, as unhas ferindo a pele, rasgando a carne. NHAC! Júlio abocanha mais uma dezena de pernilongos. Coça a pele, rasga a carne, morde o bicho, o sangue deles se misturando ao seu.
“Ahhhhhhhhh” Ele urra arrancando um pedaço de seu braço revelando uma outra pele, uma outra forma, ao invés de um braço, uma pata. Seus olhos arregalam aterrorizados.
Ele senta uma coceira nas costas e não conseguindo se segurar usa a grade da raquete para coçá-la, esfrega e esfrega, com força, violência, ódio.
Um par de asas rompe por suas omoplatas, elas batem
zzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
seus pés saem do chão, ele flutua. Sorri. Engole mais pernilongos enquanto se despe de sua carne e forma, arrancando por último seu rosto, nenhum outro vestígio de humanidade.
Vlad volta ao quarto, preocupado, apenas para encontrar um enorme mosquito, o encarando com aqueles olhos gigantes, aquelas presas prontas para consumir sangue. Ele late, uma, duas, três vezes.
O que era Júlio olha o buldogue à sua frente e pousa ao chão.
Silêncio, não haviam mais pernilongos no quarto. Vlad late novamente subindo a escada até a cama, calmamente deitando em seu lugar favorito.
Ele vê a pata gigante daquele ser se aproximar de sua cabeça, fazer-lhe um carinho. Ele arfa antes de se ajeitar novamente para dormir. Seu olhar acompanhando aquela figura que encarava a janela como se questionasse seu destino.
Vlad late e o enorme pernilongo vira aquela cabeça com olhos muito grandes para ele. Late novamente.
O pernilongo então fecha a janela e se espreguiça ao lado do buldogue. Talvez ainda conseguisse dormir uma horinha antes de acordar.
FIM
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A doença
Olhei no espelho e vi uns olhos que não eram os meus. Esse rosto assim magro, assim pálido, assim descolorido, não era o meu. No entanto, era eu que estava refletido, era eu que me olhava. Baixei os olhos, quem sabe a imagem do outro lado desaparecesse e eu voltasse a me ver como era antes. Levantei o olhar e vi, de novo, esse rosto assim magro, assim pálido, assim descolorido. Suspirei, conformado, e comecei. Passei a espuma nas bochechas e fiz massagem delicada com o pincel. O cheiro era agradável, mistura de menta e madeira. A lâmina descia suave sobre a pele, arrancando os pelos indesejados.
Então me lembrei dela, a maldita. A lembrança se materializou e ela surgiu atrás de mim, olhando-me calada. Senti um calafrio na espinha e medo, muito medo. Sua imagem refletida no espelho me assustou, sua aparência não era bonita, mas isso não tinha a menor importância, não naquele momento em que uma fera se prepara para o bote. Virei-me e a encarei. Precisei pensar se a deixaria ficar ali ou não. Decidi que não. Disse num sussurro: “Seu lugar é no inferno, não aqui, no meu corpo. Vá!” Sem nada responder, ela me mostrou sua mão e nela havia uma ferida, como a chaga de Cristo, aquela produzida por obra de prego e martelo impiedosos.
Parei segurando a lâmina no ar, a cara ainda cheia de espuma. Ela tentou grudar a chaga em meu peito, como uma tatuagem, uma identificação. Fiz um gesto brusco: “Não seja estúpida!” Não queria ficar marcado para sempre — “Ali vai o homem marcado, que o destino escolheu. Coitado.”
“Não seja estúpida!”, repeti. Ela recuou. Olhou com medo para a lâmina que eu empunhava e desapareceu. Voltei a ficar de frente para o espelho e continuei escanhoando meu rosto. A espuma foi sumindo e o que surgiu foi meu rosto limpo, ainda magro, ainda pálido, ainda descolorido. Mas agora já o considerava meu de novo.
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A extinção dos Bocanegra
Houve um tempo em que na casa dos Bocanegra a vida era tranquila, quase imóvel. O tempo, para os membros da família, passava como passa o tempo para as vacas num pasto verdejante: sem pressa, modorrento e com fartura de grama para mascar. Uma história pode começar em qualquer lugar e em qualquer momento, e é necessário ter fé em quem a conta para que se acredite no que é contado. Acreditem em mim: a história dos Bocanegra e de sua extinção está cheia de nós, vãos, vazios, fendas, brechas. A existência de razão, ou a ausência dela, depende do ponto de vista pelo qual se escolhe analisar o que aconteceu, mas é a expressão da verdade. Eu vi, eu testemunhei. Acreditem.
Eis aqui, para quem quiser saber, o triste caso da extinção dos Bocanegra, família que sobreviveu com sucesso aos dinossauros, às pestes em geral, às guerras, às pragas todas, às epidemias e à fome. Chegou bravamente até nossos dias, mas destes não passou.
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Aos domingos havia o sagrado almoço na casa da velha matriarca viúva, ocasião em que filhos e filhas, genros e noras, cunhados e cunhadas, sobrinhos, primos e agregados apareciam para o beija-mão semanal e para compartilharem a comida, os comentários, as críticas a tudo e os xingamentos distribuídos no ar de maneira indistinta e inconsequente. Enquanto comiam, conversavam, e nisso não havia nada de estranho. O repertório das ideias e palavras jogadas no ar era variado e cada membro tinha pronto o seu pequeno veneno para destilar, tarefa realizada com entusiasmo por todos. Lançavam farpas uns contra os outros entre uma garfada de ironia e um gole de vinho tinto, como costuma acontecer quando há muita gente no mesmo ambiente. À mesa, todos falavam ao mesmo tempo e as opiniões acerca de qualquer assunto eram expelidas da boca junto com a respiração do falante, caíam sobre a toalha de linho ou sobre a porcelana e invariavelmente alcançavam algum ouvido disponível naquele momento. O dono do ouvido disponível fingia não ter percebido a provocação e mudava de assunto. Isso sempre acontecia de forma aleatória, sem prévio acerto entre os integrantes da família. Assim, nunca havia atrito entre eles porque não era possível determinar se alguém tinha ofendido intencionalmente o outro. Tudo muito civilizado, emoldurado por sorrisos amarelos ou francas gargalhadas. Passavam de um assunto morto para um natimorto enquanto devoravam lasanhas, postas de peixe com alcaparras e rosbifes no ponto certo e vermelho da carne. Após a refeição e a sobremesa, o cafezinho e o tradicional jogo de cartas, outra oportunidade para continuarem o lançamento de mais e variados dardos uns contra os outros. No final da tarde, despediam-se com beijos e abraços e confirmavam a presença na semana seguinte.
A farra dos domingos durou meses, talvez anos. Durou, é forçoso dizer, o tempo necessário que devia durar, porque em qualquer família é assim: nada é, o tempo todo, o que parece ser e nem tudo permanece do jeito que está para toda a eternidade. A convivência, forçosamente, chega a um ponto irreversível de desgaste. E também porque na vida não há nada sem separação, já decretou o compositor, que na mesma canção se conformou: a vida tem sempre razão. Com os Bocanegra não foi diferente.
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Muitos domingos depois, o clima em volta da mesa beirava o insuportável. A matriarca, que antes tomava sua sopa com os olhos baixos, passou a erguê-los e a encarar cada um dos membros para entender o que se passava em sua família. Nos últimos tempos, o silêncio que de repente se instalou na sala de refeição podia ser cortado com faca, tão espesso era. Possibilitava que todos ouvissem o ruído dos talheres se chocando contra os pratos — isso era assustador! Os olhares, mudos, soltavam faíscas. Aos poucos, as palavras voltaram a frequentar as refeições, mas, quando saíam das bocas, não mais flutuavam aleatoriamente sobre a toalha de linho ou sobre a porcelana. Assim que se desprendiam dos lábios, as flechas verbais iam certeiras para o destinatário, que agora tinha nome e sobrenome. As opiniões, antes inofensivas e etéreas, vinham acompanhadas do olhar fulminante do emissor. Os telefones celulares não tinham descanso e eram usados com destreza para provar de maneira irrefutável o que queriam dizer, desde a cunhada que tinha ingressado na família havia poucos meses e não imaginava que havia bichas no seio de família tão distinta, até o primo marxista que era tratado com deboche. Está no Google, vejam aqui, dizia um agregado para provar uma tese. Eu recebi essa notícia de uma fonte muito confiável do Whatsapp, alardeava uma nora. O sobrinho gay entrava na conversa e, para mostrar erudição, indicava notícias escritas em inglês sobre o assunto que estavam discutindo. As mulheres passaram a se estranhar umas às outras. Uma delas comentou com a sobrinha sobre como aquela cunhada tinha ficado tão vulgar. Onde já se viu usar um decote desses, com a idade que tem? É quase uma centenária, Deus me livre! Pensa que vai arranjar outro amante?, ironizou. Os homens riam na cara uns dos outros, um dizia que tudo iria melhorar no país, o outro retrucava indicando o corredor da casa imensa, dizendo que lá no fundo estava a Idade Média e que lá era o lugar dele. Um outro batia o punho na mesa e quase chorava ao repetir o que tinha ouvido na assembleia do partido: só haverá justiça quando todos repartirem o pão. E engolia com gosto um naco grande de galinha ao molho pardo. Bicha cega comunista, retrucava, entredentes, a cunhada sentada na frente dele.
As crianças e os adolescentes se divertiam mais, trocando entre si os insultos e impropérios que aprendiam na escola e nos sites da internet. Eu vou fazer um golden shower em cima de você, riu o adolescente, ameaçando abrir a braguilha e olhando para a priminha de cinco anos.
O barulho de murros dados na mesa tornou-se uma constante durante o almoço de domingo. Nos duelos verbais, nem um só laço afetivo permaneceu apertado. Ninguém mais ficava para o cafezinho ou para o jogo de cartas. E assim as reuniões semanais deixaram de acontecer. A matriarca passou a tomar sozinha o seu prato de sopa enquanto dedilhava a tela do celular à cata de notícias de que gostava de ler, enviadas por um afilhado trumpista roxo que morava nos Estados Unidos. Ainda vou morar naquele país, pensava a velha. O silêncio era total na mesa em que agora só estava sentada uma pessoa. A estupidez, por fim, fizera morada na mesa dos Bocanegra.
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Hoje mal se falam. Ou melhor, hoje não se falam. Quando se encontram por acaso no centro da cidade, fingem que não se conhecem. Mudam de calçada. As mulheres não frequentam mais o mesmo salão de beleza nem pisam no mesmo shopping. Os homens fizeram o que nenhum homem faz: passaram cada um a torcer para time diferente de futebol (não queriam correr o risco de terem de se abraçar para comemorar o mesmo gol) e também mudaram, cada um, o banco onde guardavam o dinheiro investido para o futuro das crianças. Não se cumprimentam mais nos aniversários. Assim como os almoços de domingo, a família deixou de existir. Têm poucas fotos juntos, que não dão para encher um álbum. Não deixaram rastro de sua passagem por este mundo. Elo frágil de uma apodrecida cadeia de relacionamentos, os Bocanegra sucumbiram à era da falta de delicadeza e de empatia e desapareceram da face da Terra. Como aconteceu um dia com os dinossauros. Só que, destes, conhecem-se as pegadas e o esqueleto. Daqueles, nem isso.
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Um dia, uma mosca
Ainda que não soubesse, não percebesse nem desconfiasse, ele estava esperando por ela. O seu corpo engordurado de suor era como um pote de mel para a mosca que entrou pela janela e se precipitou em voo rasante na direção dele. A modorra da tarde, o calor entorpecente, a ausência de vento e a sala vazia não fosse ele ali deitado, lendo: a mosca recém-nascida começava a apreender o mundo.
Ele a afasta com um gesto de mão, inútil, os olhos postos no livro. Não entende que, naquele momento, está convertido num banquete de oito talheres para um ser faminto. A mosca volta a se aproximar, sem cautela, decidida. Quer lambê-lo, acariciá-lo, beijá-lo, chafurdar nas lagoas de suor formadas entre as dobras da pele. Amor: ela ama e é dessa maneira que ela ama. Novo desprezo, gesto de mão mais enérgico, tão inútil quanto o anterior. Ela o olha, pousada na borda da mesa. Ele não se dá conta, entretido na leitura, embora tenha perdido um pouco a concentração. É difícil manter-se atento às palavras impressas quando uma mosca – a sua mosca! – está aí tão perto.
Ela o estuda. Prepara nova investida, tomada pelo desejo incontrolável, lascivo, de se misturar ao cheiro podre que emana daquele corpo suado. Rechaçada uma e outra vez pela mão violenta dele, ela pousa não muito longe dali, perto da janela. Uma lâmina aquosa quase imperceptível desliza, como orvalho, por seu rosto diminuto e brilha durante um décimo de segundo sob o sol daquela tarde. Ela chora a rejeição. Pouco tempo depois estará morta, possivelmente esmagada pelo tapa que ele lhe dará quando ela menos esperar. Pronto. Assim, ele voltará à leitura e à tarde modorrenta, e continuará a suar sem ter nunca a consciência de que um dia houve uma mosca que o amou mais do que ninguém.
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Juno
— Não tenha vergonha de olhar para mim.
Ele falava com uma senhora muito elegante, cujo cão tinha parado para fazer suas necessidades perto de onde ele estava sentado, sobre um papelão sujo, com as costas apoiadas na parede de uma padaria no centro de São Paulo. A senhora, que esperava o bicho se aliviar, olhava de soslaio para ele: o corpo magro, a barba branca que lhe cobria quase o rosto todo, os cabelos compridos e também brancos, os andrajos imundos, os pés pretos de sujeira enfiados em velhas havaianas, uma mochila surrada ao lado. Perto, um copo de plástico com duas ou três moedas, uma garrafa de água, um guarda-chuva, uma sacola de supermercado com algumas frutas.
— Não tenha vergonha de me olhar, já estou acostumado. Posso suportar. — Ele repetiu, esboçando um sorriso.
A senhora se agachou com um saco plástico na mão para recolher o cocô do cachorro e, ao se levantar, manteve os olhos baixos.
— O senhor pode suportar, mas eu não. — A mulher deu um nó no saco plástico com as fezes do animal e olhou em volta, procurando a lata de lixo mais próxima.
— Senhor não, não precisa. Pode me chamar de você. Meu nome é José Núncio. A turma me chama de Juno.
— Maria do Carmo. Desculpe, o meu cachorro fez sujeira bem perto de você.
— Não tem problema. Vejo que você carrega um livro.
— Sou professora. De História.
Juno pegou a mochila e tirou de dentro um exemplar de História do Mundo Contemporâneo: um velho livro de bolso com as folhas encardidas pelo manuseio.
— Já li outros livros, mas este foi o único que me sobrou. Ler é instrutivo e eu gosto muito.
— Ler é uma das coisas mais importantes da vida. — Maria do Carmo concordou, ainda procurando onde jogar o saco com o cocô do seu cachorro.
— Uma vez ouvi dizer que só existem duas maneiras de se ganhar conhecimento: viajar e ler. Como não posso viajar, eu leio.
— Se você quiser, amanhã trago outro livro para você.
— Como não vou querer? Se puder, me traga um sobre o mundo antigo, para comparar com esse de história contemporânea que tenho aqui. Ficarei agradecido.
Maria do Carmo fez um aceno com a cabeça e se despediu. Andou oito ou nove passos e voltou para deixar algumas moedas no copo de plástico.
— Não precisava ter se incomodado.
— Não foi nenhum incômodo.
— Deixe comigo também o saco de cocô do seu cachorro. Tenho que me desfazer do meu cocô também.