Ponto de ônibus lotado. Pedestres, buzinas, barulhos. Um agudo. A criança chora. Largada. Calçada. Penso na fome. Ela dói. O pai embala.
O choro não passa. O ônibus também não. O choro aumenta. A menina se agita. Estrebucha no ar. O choro aumenta e dói em mim. Olho sem querer olhar. É fome, só pode.
Tá na hora do ônibus passar.
O choro insiste em me incomodar e me invade. Alma e ouvidos. Espero que o ônibus não passe. Procuro por alimento. O choro precisa parar.
Compro achocolatados e biscoitos. Comida de infância, lembrança doce. A menina não dá bola. Chora de perder o fôlego. Seu olhar me encontra. Respiro e ofereço:
— Ela quer é uma boneca, mas não tenho como comprar. Desabafa o pai.
Nem todo mundo chora de fome. Ela só quer brincar.
Lembro quando era criança. E adolescente. E eu. Sem ter como comprar.
Confiro o preço e a formosura. É uma Barbie. O choro passa. O ônibus também.