Daniele sabe me intimidar. É uma mulher sem par. Ela tem um quê de melindrosa, sarcástica, que eu adoro. O timbre de sua voz flutua até os meus ouvidos, é algo divino como uma canção de Debussy, e eu me sinto inebriado e confuso. Toda vez que a vejo é um desconcerto total, fico abestalhado, sem reação. Talvez seja porque ela não dá a menor bola pra mim. Não sou estragado, me considero mediano, “bem parecido”. Tenho me esforçado bastante para ter uma vida, até certo ponto, segura. (Ouvi de meu pai que mulher gosta de segurança e fiquei com essa frase cravada na cabeça). Ela já está estabilizada, “com a vida ganha”; é servidora pública federal, passou nova, ou seja, cedo sabia o que queria e correu atrás. A sua garra me dá ânimo para continuar na trilha do sucesso. Filha de dona Fátima, grande amiga de mamãe, frequentou muito a minha casa quando menina. Tivemos um namorico, coisa de adolescente, mas ela me dispensou, ou me trocou por um famosinho do bairro. Foi uma dor torturante. Chorava ouvindo as nossas músicas prediletas da banda The Cranberries. Era o auge do CD que tinha a música Animal Instinct. Ainda hoje me emociono ao escutá-la… Em sua defesa, digo que mudou muito de gosto: é refinada e exuberante em seus trajes minimalistas, e namorou homens maduros e educados. Conheci à distância um a um. Não a mereciam, fato! Eram miúdos para a sua bendita inteligência. Inclusive sei que Daniele Belfort é sapiossexual. Não há chance para quem não tenha o mínimo de intelectualidade. É por isso que me aperfeiçoo. Há dois anos está solteira, por vontade própria, porque, como disse, é extremamente bem resolvida, linda e inteligente. Interessante é que teve um rápido caso com Anna, sua colega de trabalho, mas viu que não era a sua praia. Ainda chegaram a se juntar, por dois meses, o que me atormentou profundamente, porque, assim, as minhas chances eram pouquíssimas. Acho, agora, que o que me desfavorece são a idade e as conquistas tardias. Em termos de estudo, ando bem, concluindo o doutorado em Psicologia e termino, neste semestre, meu curso de Psicanálise. Vou convidá-la para a minha formatura, se é que me dará ouvidos – certo, você já percebeu que sou inseguro, e isso me atrapalha muito. Ainda sonho com o dia em que ela irá olhar para mim de um jeito diferente. Vivo por isso. Sonho com isso a todo instante. Daniele é minha obsessão. Sei de todos os seus passos. Acompanho de longe. Não pretende ter filhos (eu também não). E, como disse, é bem resolvida financeiramente. Tem um apartamento lindo, em que nunca entrei montado; conheci, com o corretor de imóveis, antes de ela morar. Essa próxima semana será triste, porque ela viajará para Buenos Aires com as amigas. Estará longe de mim, mas nunca dos meus pensamentos.
Crônica de Adriano Espíndola Santos
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Fixação
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Por que os bons morrem cedo?
Não sei por onde começar. Dói muito falar, lembrar de tudo isso. Gislane me contou de supetão, mulher sem coração: “Vá visitar logo, antes que ele morra!”. Disse assim, na bucha, que Renato estava doente, em fase terminal, nível quatro de cancro no cérebro. Renato é meu amigo de infância, estudamos juntos no Vinícius de Moraes. Um cara de coração imenso, me abrigou, com a sua humildade família, quando tive de sair de casa por conta das bebedeiras do meu pai. E não foi uma só vez. Ele me acudiu nos momentos mais difíceis, inclusive quando perdi minha mãe atropelada. Minha mãezinha morreu e nos deixou com o nosso pai, um homem desregrado, que só sabia de si. Fomos criados, na verdade, pelo meu irmão mais velho, o Valdemar, que já trabalhava e tinha o seu dinheirinho. Renato não media esforços para ficar ao meu lado, mesmo eu estando em crise, com depressão. Já adultos, tivemos um pequeno hiato; namoricos e turmas novas nos separaram. Soube que passou por uma trágica aventura em Portugal. Recebeu uma tentadora promessa de emprego de mecânico de automóveis. Trabalhou pesado, como um touro que era, mas muito acima de suas condições – Gislane me relatou, com lágrimas nos olhos. Não era bem como pensava. Foi explorado e voltou, depois de dois anos. Logo, por questões que desconheço, permanecemos afastados. Foi o destino cruel que nos puniu, pelo desleixo? Mas a verdade é que sempre pensava e desejava que estivesse bem. Acabei me casando e indo morar numa cidade da região metropolitana. A família de minha esposa é toda de Caucaia, e pudemos nos arranjar na casa de seus pais, onde construímos o nosso lar. Ele, ao contrário, procurou refúgio na serra; decerto queria uma vida mais tranquila. Gislane, que foi sua namorada – e sempre estava na expectativa de sê-lo outra vez –, falou que subitamente ele deixou de falar e de andar. Souberam por acaso, através dos vizinhos. Levaram-no ao hospital, e, de pronto, foi detectada a doença. Fui visitá-lo ontem. Não queira imaginar o aperto no coração que sinto até agora. Ele que era corpulento, um verdadeiro brutamontes, e estava cadavérico, na UTI, com a pele muito fina e o corpo encolhido, como uma criança desprotegida. Era mesmo um fiapo de gente. Chorei por meu irmão. Jamais imaginei vê-lo assim. É questão de dias ou horas para que decretem a sua morte. Amanhã retornarei para uma visita, se ele resistir. Tenho hora no emprego e não posso me ausentar por muito tempo, senão estaria ao seu lado, dia e noite. Pensei na fragilidade humana e na ousadia de tantos que se acham grande coisa. Renato é simples, um cara do bem. E a pergunta que fica é: por que os bons morrem cedo? Já não é o primeiro na minha lista de amados que se foram, sem dar o último adeus.
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Mano velho
Já não tenho tempo para nada, com oitenta e nove anos. Ele, o dono de tudo, se esvai, mais lento que outrora. Não suporto os achaques e as dores, que me atacam diuturnamente. A velhice é uma covardia, uma falsa esperança. O que posso esperar daqui para a frente? Muita coisa mudou. Minha amada esposa, Salete, se foi muito cedo – mais cedo do que eu previa, com sessenta e cinco anos. Ela, como quase todas as mulheres de sua família, teve câncer de mama. Um pouco descuidada, permitiu que a doença se espalhasse e, por fim, a metástase tomou quase todo o seu corpinho miúdo.
Ela deixou, desde aí, uma lacuna muito grande em minha vida, a ponto de eu abandonar muitas das atividades que fazíamos juntos, de que tanto gostava, como passeios no parque, idas aos bailes, ou mesmo um almoço ou jantar num restaurante de nossa preferência. Como disse Chico Anysio, a morte, a consequência, é uma pena – mesmo eu querendo viver com saúde; doente é um sofrimento desnecessário. Devia me nutrir de ânimo pelos meus netos, mas como posso se estão grandes e mal me dão importância?! Têm seus interesses particulares: um se aventura no cinema, outro na tecnologia, e a mais nova na medicina. Quando eram pequenos, iam para o sítio que tínhamos e amavam ficar brincando colados com o vovô. Íamos à lagoa, fazíamos fogueira à noite, para brincar de floresta; acampávamos para ver o luar e as estrelas.
Tudo isso se perdeu com o tempo. Parece que têm vergonha de andar com o vovô. Maurício, o mais velho, é quem ainda faz algumas coisas comigo, como ir ao supermercado, ao médico ou algo do tipo. Mas faz um pouco a contragosto, às vezes vai à força – noto, sem ele me dizer nadinha. Nem com os filhos posso contar tanto, não pela má vontade, mas porque trabalham demais, e sou a última opção de atenção. Para complicar mais, meus dois filhos não se entendem, depois de uma briga danada de herança, então, quando temos encontros de família, tenho de chamá-los separadamente, em horários ou dias diferentes. Onde já se viu?! O Natal, de que tanto gostava, na época em que estávamos com a minha amada esposa, é agora um momento triste e enfadonho.
Os dois filhos e netos passam rapidinho para dar “um alô” e vão curtir em outras famílias, na casa das sogras etc. Salete parece que agregava tudo, era o nosso elo, porque depois de sua ida à casa do Pai a vida se fragmentou em cacos pungentes, inservíveis. Isso não é viagem de um velho louco, mas, sim, de um velho que não tem tanta força para resistir aos acontecimentos. Veja, pedi tanto que meus filhos se entendessem, que cheguei ao ponto de me desligar completamente dessa arenga, para o meu bem. Que se fodam, falando a sério! Imagine quando eu morrer… Tudo irá pelos ares! É um horror viver assim. Suplico a Deus que abrevie a minha dor. Mas estou seguro de que Deus se esqueceu de mim.
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Brazilzão
Não falo de Clarisse, pelo contrário, ela se mostra ser uma pessoa de bem, engajada, fervorosa com os princípios das “quatro linhas da Constituição”. Falo de Sérgio, que se debandou para lá, pro lado comunista. É um tremendo de um traidor e vacilão. O casamento deles está um pandemônio. Imagine conviver com um comunista, que está pronto para matar um adversário a qualquer hora; que está repleto de ideais do mal; que quer ver a desgraça de toda uma sociedade de bem. Clarisse não tolera a virada de casaca de Sérgio, que hoje condena Bolsonaro – que ironia terrível. Até pouco tempo atrás, Sérgio dormia em acampamento em frente ao quartel, manifestava – até com certo excesso, que nós tínhamos de contê-lo –, idolatrava mesmo o nosso chefe maior, como um ser divino, enviado dos céus. Tudo que ele falava era lei. Hoje está do lado de Xandão. Disse que foi iluminado por um sonho tresloucado, só pode. Viu Jesus caminhando com os pobres, os vagabundos, os bêbados, os viados e os nordestinos. Onde já se viu?! A Bíblia não diz nada disso. Ao contrário, a Bíblia é santa, é o nosso guia e de Bolsonaro, declarando as palavras certas e duras, para o nosso bem e santidade. Não prega, jamais, a balbúrdia, que esse povo baixo prolifera. Você já viu o comportamento desses infiéis? Vi uma vez aquele Pablo Vittar e me escandalizei, e determinei que minha neta nunca mais assistisse a qualquer coisa dele. É um demônio disfarçado de gente. Foi preparado para destruir a cabeça dos jovens, para se virarem contra as leis de Deus. Veja só a inscrição do nome de Bolsonaro: Jair Messias Bolsonaro. Messias, viu aí?! Ele foi chamado por Deus para livrar o Brazil do comunismo. Voltando ao Sérgio, ele está absolutamente errado, se vendeu por nada. Fico perplexa com a desfaçatez do sujeito, que até outro dia se dizia ser nosso amigo. Chegou a frequentar a minha casa, justamente na comemoração daquele fatídico ano de 2018, quando o chefão se tornou presidente, para a honra e glória do nosso País. Observe como as coisas são bem articuladas: tudo que Bolsonaro está passando é somente uma prova para, com a ajuda dos alienígenas, refundar a nova ordem XWO. O que é Xandão na frente de criaturas superiores?! Deus e Elon Musk mandarão logo, logo, antes de uma inventada prisão de Bolsonaro, seres celestiais, de outras galáxias, para limpar o Brasil, e deixar nessa terra dourada somente os brazileiros de estirpe. Vão fazer uma limpa como jamais se viu! Os primeiros a serem exterminados serão Lula, Alckmin, Xandão e todo o STF. E Trump está intermediando esse plano, que começará no Brasil e passará por Venezuela, Cuba e afins – já viram os indícios de ataque a Maduro? São sinais dos novos tempos. Claro que agora vai dar certo. Só tenho pena de Sérgio, antes tão aguerrido; será dizimado junto com os comunistas.
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Doce Maria
Nada vem por acaso. Acredito no destino, fé e sorte. O que tem de ser será. Marcelo saiu com a mãe para passear. Foram ao restaurante do avô, para visitá-lo e brincar com os primos e amiguinhos que moram nas redondezas, no bairro Antônio Bezerra. Lá, entre brincadeiras, meu filho viu uma gatinha abandonada, que ronronava com ardor, pedindo carinho. Marcelo pegou a pequena e não queria mais soltar. Levou-a à mãe, para mostrar a novidade. A mãe de cara se apaixonou. Todos viam que a gatinha era meiga, carinhosa e precisava de um lar. Mayara logo me mandou mensagens pedindo para trazer a gatinha para a nossa casa. “Mas, Mayara, já temos dois adultos. Não dá certo. Não insista”. Marcelo mandou áudios, dizendo que queria muito e que seria seu presente de aniversário – falta um mês para o grande dia dos seus cinco aninhos. Pegou o pai de jeito. Encarreguei-me de falar com a avó. Também não queria. Mas aí eu já considerava o caso e servia de advogado do meu filho. Amo bichos, nossa casa poderia receber mais um bichano, sim. Expliquei à minha mãe, que mora conosco, e que também deveria aceitar ou não, que a pequena gatinha seria vacinada e banhada no dia seguinte. Minha mãe permaneceu reticente, impondo condições. A gata não poderia ficar circulando em casa, até aprender onde devia fazer cocô e xixi. A gata não poderia sair do perímetro do banheiro. A gata não poderia, ainda, se aliar aos outros gatos. “Meu filho, os gatos já estão estragando o sofá. Mais um gato será o fim”. E indicou mais algumas restrições, com as quais concordamos. Pronto, a matriarca aceitou. Ficamos animados, eu, o meu filho e a Mayara. A gatinha chegou em casa cansada, mas, desbravadora, queria conhecer a sua nova morada. Logo ele me disse que tinha colocado o nome de Dulce Maria, por influência de uma pessoa que estava lá e era fã do RBD. Eu acabei gostando do nome, porque representa Doce Maria. Constatei que realmente ela era muito carinhosa, doce, uma menina que viria para somar. Marcelo, enfim, com o seu amor, nos convenceu de que deveríamos ter mais um membro na família. No sábado de manhã cedo levamos à veterinária, fizemos exames e demos vacinas. Resultou tudo certo. A gatinha era saudável, mas estava magrinha por conta da vida mundana. A médica avisou que ela poderia ficar molinha esse dia. Passou suplementação alimentar, para ganhar logo peso. Disse que ela teria de três a quatro meses e que o peso de um quilo e seiscentos gramas estava muito abaixo da média. Foi um dia puxado para a gatinha, então passou o resto da tarde dormindo – mas feliz e esperta em alguns episódios. E, hoje, um dia depois, nos admiramos e nos encantamos com a bela surpresa que a vida nos proporcionou.
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Minha luta
Não sei se ainda estou perdida. As guerras de minha mãe e de meu pai devem ter afetado o meu psicológico severamente. Eles digladiavam com tudo, entre si, com o mundo. Tinham trabalhos que odiavam. Chegavam a casa resmungando ou gritando. Quase sempre eu era bucha de canhão. E olhe lá quando não me chamavam de menina mimada, sem ver para quê, e eu pensava que era justamente pelo fato de não me meter nessas tragédias diárias. Até que se separaram e eu dei graças a Deus. Pensei que as brigas iam cessar. Mas morar com minha mãe não foi a melhor opção — aliás, não tive opção. Minha mãe me pegava para Cristo e me impunha mais obrigações com a casa: arrumar, limpar, deixá-la brilhando. Eu era uma verdadeira cinderela, uma filha bastarda, só pode. Logo meu pai se amigou com uma gentinha e sumiu. Pelo menos ele não dava as caras para me aporrinhar com mais demandas. Se ligava, era uma vez perdida, para perguntar como eu estava, mas eu sentia que a pergunta era clichê, de praxe, só para demonstrar preocupação. Eu estava exausta e desamparada. Minha mãe ficou solteirona, reclamando da vida, culpando o meu pai por tudo que lhe acontecia. E o pior, foi mal-acostumada: não sabia mexer no computador, não sabia fazer compras virtuais, mal sabia usar o celular. Então, para tudo demandava a minha presença, e eu era obrigada a reparar as suas deficiências. Aos dezessete, tive a oportunidade de morar com a minha avó, e agarrei com unhas e dentes. Foi o momento para descansar e estudar. Minha avó, sim, foi minha mãe, cuidava da minha alimentação, se preocupava realmente comigo, com o meu bem-estar, com meus estudos. Inclusive, nessa época, me lembro, ganhei peso, e fui obrigada a me inscrever numa academia — no fim, foi bom porque me desopilava e via os gatinhos do bairro a que acabara de chegar. Não passei de primeira no vestibular para Odonto. Teria que fazer numa universidade pública. Tive mais tempo de estudar e, enfim, passei no ano seguinte. Mas ao longo da faculdade sentia um vazio, uma inadequação, como se tivesse feito a escolha errada. Seguiria a sina dos meus pais? Fiquei com medo de mudar de curso. Sempre gostei de literatura e tinha uma vontade velada de fazer Letras. Mas primeiro devia me formar em Odonto, por pura vaidade minha e pelo que os outros iriam dizer. Formei-me e trabalhei seriamente no ramo por dez anos. Depois resolvi fazer Letras, era uma paixão. O tempo estava escasso, a vida cansativa, mas eu me divertia. Meus pais só tinham orgulho da filha cirurgiã dentista — enchiam a boca para falar —, mas, de resto: nada. Não contribuíram com a minha formação. Pensando melhor, acho que me encontrei. Foram anos de luta até me formar em Odonto e em Letras. Por enquanto, Letras é um hobby. De uma coisa eu sei: os caminhos ainda estão abertos. Esqueci-me do amor, de amar. Talvez ainda haja chance para isso.
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O menino e o mundo
Nos idos de 1990, eu era um menino, com tantos sonhos. Nessa época já intuía o modus operandi da vida. Percebia as incumbências de meu pai, sempre muito atrasado para o trabalho, onde sequer às vezes podia tomar um café e era chamado de “cabra”, por seu chefe, por chegar atrasado; o calor do abraço de minha mãe, tão doce, terno, ao mesmo tempo tão frágil, débil. Mas eles brigavam, muito, e isso resvalava em mim, porque era o primogênito, o mais tranquilo e contentor dos acessos de raiva de meu pai. Minha mãe contava comigo para poder freá-lo em seus impulsos transloucados de bebidas e de mundanidades. Eu era, bem dizer, o salvador, que acordava de madrugada para conter as saídas de meu pai, ou mesmo quando queria ir embora de casa. Meu pai era um homem do mundo, esse é o erro, porque minha mãe se casou sabendo disso, e queria mudá-lo, por meio de orações obsessivas. Lembro-me da época em que, enfim, ela conseguiu levar o meu pai a um grupo de orações chamado Shalom. A vida ficou rigidamente religiosa, hipotética para brincadeiras de quaisquer tipos, tudo era coisa do demônio. Não havia espaço, éramos contidos para as coisas do alto, e todos os dias tínhamos de rezar o terço antes de dormir. Veja bem, uma criança ser obrigada a rezar o terço todos os dias! Era assim, ipsis litteris. Meu irmão toda vida dormia antes de acabar a obrigação. Hoje vejo a sandice em que nos metemos. Ainda houve uma época, até por conta dessas grandes convivências e experiências, em que eu queria ser padre – amava, como amo, Jesus, esse não é o mote, e nunca houve questionamento sobre a pessoa de Jesus, um homem justo, fraterno e amoroso. Participava das missas como coroinha e sabia as rezas de cor. Preparava missas fictícias para os garotos da rua virem participar. Eu era uma espécie de menino prodígio, que até as beatas veneravam. Minha mãe dizia que era pecado, mas achava bonitinho e, decerto, apurava o ardor de ter um filho padre. Para ela, parece que era um sonho. Ela era muito beata, portanto, ter um filho padre seria uma bênção. No entanto, minha vocação, como confessei à minha avó, também beata, era de ser “pai”, e não padre. Foi, me lembro, um desgosto para a família. Hoje sou realizado como pai. Tenho um filho de cinco anos, muito esperto e saudável. Então, sobre mim, a memória que tenho é de uma criança quieta e introspectiva, tateando o seu lugar no mundo dos homens. Tinha medo, mas, mais importante, tinha paixões. E hoje movo o meu corpo sedento por mudanças, por encontros, do meu jeitinho, por isso me considero um artista. Sempre apto a amar. Isso não é lugar-comum, palavra ao vento, você pode pensar erroneamente. Amo e busco amar a vida, o próximo, porque preciso ser amado (e o lance é recíproco, pode crer).