Crônica de Bia Mies

  • Pé ante [o sisal e a sombra do outro] pé

    Um vulto de cerca um metro e vinte e cinco se esquiva por trás da cadeira de balanço. Gabriel move um pé depois do outro, tentando elevar seu peso acima dos ombros. Primeiro, o indicador do pé esquerdo toca o assoalho de madeira, um marrom rosado escurecido pelos anos. Pisa com cautela para evitar o rangido. Quase não respira. Sua avó, sentada à cadeira, move apenas as mãos. Faz crochê. Há semanas se senta ali para tricotar não se sabe o quê. Faz algo, desmancha. Ao final do dia, quando a luz externa abandona o recinto, ela recolhe as agulhas, estica as pernas, boceja e se levanta devagar. São quatro e treze da tarde. Não vai demorar muito.

    Gabriel continua seus passos lentos e desoxigenados. Um beija-flor entra pela janela e flana um pouco por sobre a Costela-de-Adão, próxima à cortina em linhão branco, recolhida ao vértice da esquadria com a parede vizinha. O pássaro não causa sequer curiosidade à avó, mas o menino quase se faz perceber através de um vocalize. O peito se enche num impulso que retém o pé direito no ar e fica ali, suspenso. Um som redondo começa a subir pela garganta, mas é engolido no momento em que o pássaro faz o percurso contrário, retornando ao pátio. Na sala, apenas o barulho do atrito das agulhas e do pêndulo do cuco antigo, nada apressado.

    Minutos depois, Gabriel está quase em frente a sua avó. Fica ali, alguns metros de distância, a observá-la. Os olhos dela descansam sobre o vai-e-vem das mãos, mas não parecem presentes. São duas jabuticabas dentro de ostras velhas, semiabertas: abrem-se pouco e devagar, deixando entrever o brilho castanho que ainda existe num corpo de mais de oitenta primaveras. Mesmo sem grandes distrações no recinto, tudo além do conteúdo daquela cadeira parece se desfazer. O canto superior dos lábios de Gabriel levanta-se. O neto tem todos os olhares fixos na avó. Suas mãos brincam de mímica, espelhando gerações. A sombra da araucária cresce dentro da sala. De soslaio, ele foca o relógio, dá um último e contido meio suspiro em direção à avó, registrando na memória cada dobra da pele, cada curva dos cabelos grisalhos, cada detalhe do macacão preto de pequenas flores rosas que ela veste. Setenta anos separam uma vida da outra, e são o fio que as liga.

    Quando a sombra alcança o sisal, Gabriel veste seu peso corporal como quem coloca uma mochila e retoma o caminho às avessas, pé ante pé. Sua expressão é outra. “Vovó ainda está aqui”, reverbera em seus pensamentos de criança. Ao quase posicionar-se na porta de seu quarto, o piso de peroba rosa denuncia-o. A cabeça da avó levanta, percebe-se o ondular das madeixas gris. Ela recolhe as agulhas, estica as pernas e boceja. Olha para o negativo dançante de sua árvore favorita, no limiar do grosso do tecido e do liso do piso.

    — Gabriel?

    Sem mover as pernas, a esquerda novamente no ar, o menino leva a mão em concha à boca, como quem finge estar dentro do quarto.

    — Sim, vovó.

    — Que tal uma história?

    O menino instantaneamente corre até a avó, abraçando-a pela cintura ainda encostada à palha do encosto da cadeira. Diz, quando do encontro entre suas castanhas pupilas com as pérolas negras da avó:

    — Me conta de novo como você e o vovô Gomes se conheceram?

  • Nas alturas, um café com o Redentor

    Próximo ao céu, onde nenhum obstáculo além de uma escada de marinheiro me separa do Cristo Redentor, a certeza de que nada é estável me invade. A mutabilidade da paisagem, colorida a cada noite por nuances de distintos pigmentos primitivos — esparsas, turvas, momentâneas — fere um órgão qualquer, apertado entre oxigênio, responsabilidades e preocupações.

    (— Não dói porque é frágil, diz uma voz que não vem de mim. Dói porque ainda sente.)

    Vejo, a princípio, uma face altiva e quase saudosa, a guardar uma das sete maravilhas do mundo moderno. Nada mais importa, por toda a eternidade. Eis o grandioso que se inclina, curioso, diante do que é genuíno, ainda quando o rosto é o morro dos Cabritos.

    (— Eternidade também cabe no intervalo de um gole, murmura Ele, sem mover os braços.)

    Telhas sombrias e arbustos naturais, adornados por flores hipotéticas, transbordam sabedoria a respeito da irrealidade do tempo presente. A noite tem cor de um veludo azul, feito em máquina de tinta de catálogo. Parece reproduzível, parece transportável — mas não é; depende da base.

    (— Depende de quem olha, suspira o corpo ao lado, em repouso confiado. Eu entendo.)

    Damos sentido às coisas pelo breve capricho de acharmos que tudo tem de fazer sentido. O mundo não faz sentido: respira, sente, reage, morre e nasce todos os dias. Ainda que luzes vigilantes enrubesçam os céus para que humanos notívagos brinquem de ser pássaros – cruzem altitudes, pulem de um país para outro, de uma cidade para outra, de um parapeito no térreo de uma serra para um na cobertura de uma praia.

    E então, como se quisesse confirmar a metáfora, um pássaro atravessa a noite e pousa quase ao meu lado. Assusta. Meu corpo reage. O coração dispara. Mas o reflexo vem mais leve do que antes. O medo passa rápido. O alívio afrouxado em um riso maduro vem depois.

    (— Ainda há espaço para o inesperado.)

    Grilos cantam em um e em outro lugar. A brisa é mais fresca nas horas adormecidas, embora janelas sem cortinas — ou pessoas calorentas — permitam que suas intimidades sejam mais soltas quando quase todos dormem. Prédios inteiros estão sem luz; alguns se destacam por suas temperaturas de cor muito particulares: branco quente, branco neutro e tantas cores possíveis pela tecnologia em que células programadas para telefonar transfiguraram-se em extensões de nós.

    Ouço música clássica pela saída do áudio do celular, cigarras nas matas dos arredores, motores de máquinas que se dizem silenciosos, conversas ininteligíveis ao longe, motos, carros e um pingar compassado de alguma torneira, não muito distante. Repousa ao meu lado uma xícara de café e uma presença que reconhece meu tempo — não pede explicações, não exige permanência.

    Com ela atravesso sinais fechados sem perder impulso: sigo na garupa da bicicleta enquanto as rodas descrevem círculos breves, atentos, até que o mundo permita a passagem. De madrugada, numa avenida larga e quase vazia, o som alto ocupa o espaço e o volante vira dança. A cidade se abre como se fosse só nossa — não por posse; coincidência rara. Existem encontros que não pedem promessa, só
    reconhecimento.

    O tempo é relativo. As pessoas são relativas. E as pessoas são as mesmas de antes: sorrisos que despertam sentimentos de nós mesmos, tão endurecidos pelo correr dos dias.

    Choro, sentada no parapeito. Me sinto uma coruja com minha cafeína líquida. Um pouco de mim se desfaz a cada segundo e tenho medo de o mundo acabar num instante — como acabou para o meu pai, para o meu avô, e há de acabar para o meu cachorro, e para meus filhos, se um dia existirem.

    Tenho em mim a sede genuína de um viver desembestado, um cavalo selvagem em meio a um descampado. Livre. Leve. Vivo. Sem destino pré-concebido.

    De esguelha, entrescondo a pergunta que Ele já sabe que aflige meu peito:

    Quanto tempo?

    Quanto até que meus olhos se fechem pela última vez, aqui?

    Quanto até o último café, o último beijo, o último êxtase, a última visão, a última palavra?

    Quanto de tempo hão meus cabelos, pele, sangue e respiro de testemunhar, para que minha mente se aquiete com tanto a se fazer e conhecer?

    Sentada nesse parapeito, em conversa honesta e silenciosa com o Redentor, choro.

    Não sei se de tristeza, de felicidade, ou apenas de equilíbrio — nessa minha vida em que as energias poderiam se carregar por um apetrecho qualquer, desenvolvido para me manter desperta. A todo momento.

    Que pode ser o derradeiro.
    E também o único.
    E o primeiro.

  • Alô, alô, seu Chacrinha – aquele abraço!

    Fevereiro começa no domingo, como quem abre as alegorias do descanso — esse mesmo que sonha com samba no pé e os zirigundús dos foliões. Janeiro já anunciava as entradas da folia, com blocos em teste espalhados pelas ruas do Rio de Janeiro

    Tive a oportunidade de presenciar um deles na feira da Glória, quando assumi a tarefa de vender artigos culinários japoneses de primeiríssima linha, na barraca do meu grande amigo Shizuto e de sua família. Vale a pena conferir as comidas de rua do Japão — barraca 71, próxima ao portão da Lapa, na Praça Paris.

    Outra ocasião foi num domingo em que me lancei à capital para celebrar o aniversário da minha afilhada Lulu, quatro aninhos. Unindo encontros familiares a agendas profissionais, estiquei meus dias no meu Rio de Janeiro. No domingo passado, encontrei a Marcela no Flamengo, onde, no Planalto, nos unimos às palmas de um parabéns com glitter, estandarte, sorrisos largos e corpos carnavalescos espalhados pelas calçadas.

    Antes de retornar à minha serra, tomei café da manhã no quiosque Ginga, na praia do Leme — um ponto aberto 24 horas por dia. Algo inacreditavelmente maravilhoso para alguém cosmopolita e do mundo como eu, que se acostumou a não encontrar nada aberto depois das dez da noite, durante a semana. Domingo, então…

    No aguardo de uma carona prevista para as nove, caminhei pelas areias de calça jeans, cruzando os limites com Copacabana. Ah, a princesinha do mar — que hoje verei novamente. E novamente a Glória, os agitos da Praça Paris, os corredores da maratona no Aterro, o bloco da Ivete no centro e a rotina dos moradores que circulam pelas redondezas: o cotidiano de quem sai cedo para montar barracas e vender até o fim da tarde.

    Em meio ao percurso ainda escurecido da partida, me espanta o amanhecer da serra: a troca de azuis, o passar espaçado dos carros, a felicidade solta na voz dos amigos no carro. Nasceres e pores do sol sempre mexeram comigo de forma arrebatadora.

    São sete da manhã. Vejo o Cristo da janela.

    Da janela do carona, sobre a ponte Rio–Niterói, fecho esta primeira crônica brindando ao Rio de Janeiro, a fevereiro e a março. Algo do Rio ainda pulsa em mim — um pulsar que antecede o retorno e já carrega a saudade. Como se o caminho não fosse uma linha, mas um estado.

    Talvez eu viva assim — é bem provável, eu diria: chegando ao que sou agora, partindo sempre de algo que me ensinou a ficar.

    Bom dia, caro leitor!

  • vida [e mundo] como um sopro

    Intranscritível o sussurro aerado dos tempos à beira de uma lagoa. Folhas balançam, cabelos se descabelam, passarinhos tentam passarinhar, todo um compasso descompassado e, por isso mesmo, incrivelmente belo. Há algo de poético em se perceber só existindo, às 16h16 de uma tarde com sol entre nuvens, pessoas – poucas -, zunidos de um linguajar que não se compreende, que preenche tudo o que parece ser vazio. De repente, uma cor vibriônica desponta veloz e… pára.

    Algo de si resiste, altaneiro, em meio à imensidão de água, à primeira vista repleta de ondulações, suaves carneirinhos pululando sobre a superfície aquosa. Duas pessoas são perceptíveis entre linhas — 4 linhas, 5 linhas, linha de segurança. De um lado, a água é flat, do outro, tudo é um grande mexido de uma coisa com outra coisa qualquer: movimento. Ao nível do chão, só corpos muito frágeis são abalados pela antiestática. A grama dorme, plena. Sacolas de plástico vacilam e se perdem. O vento molda comportamentos.

    Contra a direção das monções, asas importam? As dos albatrozes, sim. Plumas driblam a leveza primeira e transbordam solidez em meio ao desequilíbrio. Plainam. Se arrefecem, mergulham de bico na água, fazem acrobacias aéreas.

    É bonito, é bonito de se ver. Cada piscada dos olhos, uma nova, tenra e terna fotografia nas retinas de um que passa, sem pressa.

    Aves diminutas, quase domésticas, encaram a instabilidade dos ares como um parque infantil: forçam seus corpinhos até o limite possível, descem para perto do chão e voam em zigue-zague zague; debochadas, tentam de novo. E retornam. Uma atrás da outra, como quem jura nada disputar, mas disputa, sim, discretamente, a melhor fatia do vento ou o direito de tocar, de forma pioneira, esse céu infinito, carne invisível, o nascimento de um desejo profundo; competição talvez — dessas que ninguém
    confessa, mas todos praticam, com a seriedade das coisas leves e a urgência de um pulsar de vida contemporâneo.

    Em Atenas, com doze metros de altura e oito de diâmetro, planta octogonal, toda em mármore, existe a restauração do Horológio de Andrônico. Na ancestral Torre dos Ventos, um barbudo inclina seu caldeirão e lança o início invernil de todas as Eras. Ele mantém seu posto, sob vigília, entre Boréas e Zéfiro, os deuses dos ventos norte e oeste.

    O primeiro nomeia os ventos boreais; o segundo sopra eternamente, graças às pinceladas de Botticelli, a vida à deusa wɛnʊs, representante suprema dos mares, cujas águas banham o mundo de amor, beleza, desejo, sexo, fertilidade, prosperidade e vitória.

    É possível encontrar essa cena na Galeria degli Uffizi, na italiana Florença, ou impressa em ecobolsas, camisas e até cangas, por todo e meio mundo.

    Imaginem-se passando uma temporada curta de suas rotinas atravessando praias ao sabor do vento, sem rumo ou direção que não a do destino, portando apenas garrafas de água, roupas de banho, smartwatches e uma canga com esse quadro em estampa.

    O vento sopra pela orla e você olha para a canga. O vento muda de direção, você decide levantar acampamento. Sacode a areia da cara da Vênus; Zéfiro e uma das Horas engasgam-se na tentativa de soprar e engolir os grãozinhos indesejados do tecido.

    E, entre os carneirinhos sobre o mar, quase dá para ver o Pequeno Príncipe, lançando ondas como quem tenta compreender o que não é seu. Ou é. Procurando respostas em um mundo que nunca lhe pertenceu por inteiro, sempre a dois passos do paraíso, inquieto, atento, preocupado com a sua rosa, em outro planeta.

    Os carneirinhos permanecem enquanto há vento, balizando a possibilidade de velejar com seu próprio corpo e o desejo de ir e estar além. Ele segue, pequeno, insistente, aprendendo que existir talvez seja aceitar o sopro, confiar nas asas e continuar caminhando, águas na altura dos joelhos, mesmo que não saiba exatamente para onde.

  • Looping quotidiano

    O calor voltara, sem dó, piedade ou qualquer advertência de brisas amistosas. Já desgastada do clima instável, como da própria prudência em largar o vício do sedentarismo, Cíntia tinha na ponta da língua todas as séries numéricas que a identificavam:

    — Data de nascimento?
    — CPF…?
    — CEP..?
    — Telefone, com DDD:
    — Sabe seu peso?

    Inacreditável como um arsenal de números insiste em sintetizar quem somos. Sorriu, mentindo sobre o real valor de sua altura. Registro facial bem-sucedido, criptografado no sistema sob a forma de incontáveis outros dígitos. Catraca liberada. Mais um número: 853, surgiu no visor digital ao atravessar os braços esterilizados e refrigerados.

    Vamos lá.
    Um passo.
    Outro.
    Mais um (já são 3!)

    Pessoas em quantidades consideráveis. Nenhum conhecido. Alguns olhares. A maioria perdida entre movimentos ensaiados e ritmos particulares que cada um compartilha consigo mesmo, sem fios, nos minimalistas fones de ouvido.

    Detestava, mais do que qualquer outra coisa, o ambiente colorido, suarento e repleto de reflexos, equipamentos e câmeras das academias.

    Essa é diferente, você vai ver!

    Até agora, nada novo: a manifesta vontade de sair correndo por onde a haviam taxado 853, naquela manhã de janeiro de 2026. R$ 99,90 por 3 meses… Compreendia que não duraria tempo suficiente para descobrir o valor legítimo da mensalidade.

    Aproximou-se de uma parede repleta de portinhas. Escolheu a 23. Escrutinou o ambiente na surdina ao deixar seus pertences ali. Não tinha cadeado — anotou mentalmente a necessidade de trazer um na segunda aparição, que faria, se fizesse. Alguns passos para a esquerda. Bebedouro à direita. Um QR code com a programação das aulas.

    Retorna ao armário. Zíper da bolsa laranja. Tateia até sentir o celular. Alguém a esbarra.

    O que as pessoas veem em ambientes assim?

    Encosta a portinhola. Volta ao QR code. Analisa as possibilidades que a deixariam
    distantes da esteira com vista para a TV de 60‘.

    8h06, informa o canto superior direito do seu smartphone.
    8h10, aula de alongamento.
    É isso.

    Procura a sala. Porta 5. Lá dentro, lâmpadas tubulares coloridas no forro pintado de preto.

    8 mulheres. 2 homens.
    Sorri cabisbaixa querendo sumir. Escolhe um colchonete no fundo da sala.
    A professora sobe num pequeno palanque.
    Sucessão de gestos copiados, respirações contadas no “1,2,3”
    Suspensão de oxigênio.
    “6,5,4,3,2…”.
    E de novo.

    Estalo de ossos. Músculos doloridos, pouco a pouco descontraem-se.
    45 minutos depois, fim. Está de novo à deriva.

    Recorre ao QR code. Próxima aula… zumba… não.
    9h30, bike.

    Gastar 25 minutos conhecendo a academia?
    Fingir fazer algo importante no celular?
    Beber água.
    Fila no bebedouro. Trazer garrafinha.

    O próximo a hidratar-se, curvando o pescoço e exercitando o abdômen involuntariamente, é um ex-professor da faculdade. Sente-se desconfortável. Abre uma rede social qualquer e finge curtir tudo o que aparece — finge ou curte mesmo, culpa da aflição.

    Ele passa.
    Ela suspira.
    Um barulho ao longe. Ganha força. Volume.
    Balança a cabeça.
    Novamente o bip bip insistente.
    Rotaciona o pescoço. Direita. Esquerda.

    Fecha os olhos, tentando descobrir de onde vem tal balbúrdia incômoda. Inspira.
    “1,2,3”
    Abre os olhos.
    O teto mostra números luminosos.

    7:01.
    Levanta o dorso. Pisca. Não entende.
    Não passara de um sonho.
    Desliga o alarme com a mão esquerda e volta a dormir.
    Pelo menos não era real, essa história de academia…

    De novo o alarme.
    7:06.

    Levanta-se atordoada. Banheiro. Lava o rosto. Escova os dentes. Os cabelos são um amontoado de nada com nada.

    Cozinha: limão, água, pão e manteiga. Cafeteira: café.
    Banheiro, novamente. Topper. Camisa de manga curta. Calças legging. Meias. Protetor solar facial. Ensaia um sorriso. Penteia os cabelos. Rabo de cavalo. Bolsa laranja. Tênis. Fecha a porta.

    Elevador.andar. Pátio descoberto.
    O calor voltara, sem dó, piedade ou qualquer advertência de brisas amistosas. Já desgastada do clima instável, como da própria prudência em largar o vício do sedentarismo, dirige-se, por 1ª vez a uma porta envidraçada de bordas pretas. Entra. Recepção. Cíntia tinha na ponta da língua todas as séries numéricas que a identificavam.

    — Data de nascimento?
    — CPF…?


    Olha com uma sensação de estranha familiaridade para o seu reflexo, quadruplicado.
    Um espelho está de frente para um outro. Atrás de si, um visor acende. Barulho
    inquietante.
    Um número pisca.

    7:01

    O alarme — em algum tempo, no mesmo lugar — se prepara para tocar outra vez.

  • Palavras nem tão bonitinhas assim

    Toca, por primeira vez em meus ouvidos, uma canção intrigante: I’m All I Got, de um grupo chamado Dead Brothers. O nome não passa incólume. Há algo ali que cheira a flores murchas, deixadas tempo demais num vaso a mercê de sabe-se-lá-o-quê. Palavras que já foram belas, mas agora exalam um odor agridoce, quase fétido. O conjunto de palavras ressoa, reprisa, ritmada insiste — e me tira por completo da leitura. A melodia dançante também, em contraste quase cruel. Passei a ter o hábito de usar fones de ouvido para ler quando o entorno me entristece — ou quando quero me sintonizar com o presente, totalmente. Sinto-me dentro de uma redoma, protegida. Se ‘todo homem é uma ilha’ – ed è vero –, cada um de nós cria seus próprios mecanismos para embarcar nessa solitude que somos nós mesmos, mesmo quando ela se parte, se afunda, some e sangra.

    Entre páginas de milhares de livros que me circundam, móveis com mais biografia que meus avós, objetos que simbolizam tantas memórias, minhas pernas se cruzam, esticadas, sobre a superfície gentil da escrivaninha. Respiro fundo. Concentro-me, tortuosa, entre letras recém-nascidas de músicas estrangeiras, páginas que exalam palavras traduzidas para meu idioma materno; minhas mãos carregam camadas de esmaltes que se complementam — resquícios de réveillon — escolhidos pelo tom de amarelo e por trazerem “artista” em seu nome de cor. Pequenas combinações concentradas em 8ml, garantia sem devolução de autoestima.

    Só escolho meus esmaltes pelos nomes. Assim como escolho minhas vestimentas pelo que meu coração me nomeia, diariamente. Orgulho-me por não ter um estilo único. Talvez porque estilos fixos também acabem cheirando a flores mortas quando insistimos demais neles. E lá se vão dias úteis neste ano com cheiro de caderno novo. E, ainda assim, tempestades e raios me lembram da promessa que me fiz de não cometer mais os mesmos poemas, nos mesmos versos e estrofes — como quem tenta não repetir feridas já infeccionadas. Pele cicatrizada é cura, não fecho-éclair. É tudo novo, me repito. É página em branco.

    Eis o ponto em que a pele deixa de ser sombra da morte, perde o espanto e se torna rotina.

    “Suportar” e “sobreviver”: dois verbos que carregam duras penas, tão necessárias a nossa existência. Duros e honestos verbos… Como ter uma vida longa sem tais ações? Impossível. O provável é acostumarmo-nos a elas. Torná-las menos pesadas aos sentidos. Abusar, para isso, do lado racional do qual fomos providos. Quem sabe aceitar que algumas palavras nem sempre se perfumam para nos encontrar; vêm fétidas e com mal hálito, para que percebamos o quanto ainda estamos vivos.

    Ao zanzar neste sábado, pela casa que é parte minha e, ao mesmo tempo, reflexo parcial de tantas existências, li um poema que decreta: a garganta fica entre a mente e o coração. Dei-me, assim, de encontrão com as minhas infecções de garganta, quando pequena. Lembrei-me de como sangravam. E de como aquela dor era infinitamente menor do que os sangramentos atuais da mente e do coração.

    “Adultez”, chamar-se-ia isso, fosse um potinho de esmalte. Padecem desse mal todos os abençoados com vidas longas — ou relativamente alargadas. Sentimos. Experimentamos. Falhamos. Nos envaidecemos. Choramos, seja por alegrias ou arrasamentos da alma. Estamos vivos. Existimos. E seguimos colecionando momentos e memórias neste labirinto que traz placas em línguas diversas (traduzirei para vocês):

    SUPORTAR
    ENTRANCE
    INGRESSO
    = ENTRADA

    _
    ———– | <<< >>> [ ] (x) ( )

    _

    SOBREVIVER
    EXIT
    USCITA

    = SAÍDA

  • Entre

    A arte salva momentos.
    A frase foi construída por Matilde Campilho, num vídeo brevíssimo — desses que carregam a tônica do fulgaz que uma gravação de Instagram faz reverberar por nossas pupilas. Prendeu-me num eco posterior ao instante do encontro com a postagem, enquanto eu dedilhava a tela com a ansiedade tão comum — e tão normalizada — no comportamento contemporâneo.

    A arte salva.
    E, às vezes, sem que sequer nos demos conta de que precisávamos ser salvos. Tomemos o exemplo da poetisa portuguesa Matilde,

    • que: contou a história de um dia em que, ainda criança, resolveu dar um passeio sozinha, desbravadora assim, acompanhada apenas por sua mochila — artista desde sempre;
    • entrou num museu e se estarreceu diante da enormidade de uma pintura imensa, instalada numa sala igualmente imensa;
    • não, não era apenas a diferença de escala entre a menina pequena e a obra monumental que fez seus joelhos fraquejarem;
    • ali ela se deixou ficar. “Trinta minutos, um quarto de hora”;
    • quando voltou para a família e contou, com os olhos brilhando, que havia visto algo incrível, não soube responder aos adultos o que exatamente era.

    A arte não precisa significar, propriamente.
    Ela é um todo que se percebe pelos sentidos, não pela razão. Racionalizar o mundo tende a retirar-lhe a beleza. Explicar demais, mostrar demais, produzir conteúdo a torto e a direito — numa onda que, inevitavelmente, vai quebrar mais adiante — também. A arte tem como propriedade o encantamento. E o encantamento se retém apenas por percepções: tato, olfato, visão, audição, paladar. E, sobretudo, na dimensão do tempo.

    O tempo.
    Ele vem regendo meu modo de encarar o mundo desde que meu pai se foi. Parece que se chocaram em mim — ou por mim — as três vertentes conhecidas: a do ontem, a do agora e a do amanhã de manhã, esse futuro imediato. O presente, então, pulsa em outra frequência. Acaricia meu rosto com mãos delicadas e, ao mesmo tempo, quando me olho com profundidade, faz com que eu me apaixone perdidamente pela vida, sem saber ao certo que rumo tomar.

    Estou viva.
    É final de 2025 — ano torto, ano obscuro, ano adoentado e, ainda assim, tão necessário no intramundo de cada um. A mente, como os livros, as pinturas, as instalações artísticas, os filmes, é uma máquina do tempo literal e literária.

    E alguém aqui já leu… H. G. Wells?

  • Nota de abertura

    (nota de abertura – curta, decisiva)

    Esta crônica acontece no intervalo.
    Quinze minutos entre um ato e outro.

    DIIIM.

    As cortinas estão abertas, mas ninguém está olhando para o palco.

    DIIIIIIM.

    Ando por esse tempo suspenso como quem flana: não chego, não parto — observo.

    DIIIIIIIIIIIIM.

    (Silêncio)

    Sura Berditchevsky parou por diversas vezes um ensaio do musical mais emblemático da minha carreira de atriz, sobre os anos 60 (60, O MUSICAL, texto da amada Bibiana Beurmann — Bibi, você ainda me deve meu papel de vilã!). Veio no dia a convite do diretor e também ator do elenco — que contracenava comigo em nosso dueto romântico de “Summer Nights” e, além disso, também é meu primo, Bernardo Dugin (<3).

    Aquela figura incrível e famosa, que nós — então quase todos jovens adultos e aspirantes à fama que prometem as artes cênicas — idolatrávamos por ser ela quem era, nos atravessou de vez. Reverenciamos quando tirou os sapatos para pisar na plateia em pleno ensaio, fez alguns de nós chorar e titubear sobre “ser ou não ser” possível apresentar o que já vínhamos fazendo no palco, em sessões anteriores.

    Fomos o primeiro grupo de atores friburguenses a pisar no então Teatro Municipal Ariano Suassuna. Ariano veio à inauguração do edifício teatral – infelizmente não nos viu ali, em cena; chegamos dias após -, foi homenageado, discursou, posou para fotos. Só mais tarde alguém lembrou – com a seriedade que costuma chegar extemporaneamente – que havia uma lei impedindo homenagens não póstumas. Que gafe, Friburgo. O teatro mudou de nome e passou a se chamar Teatro Municipal Laércio Rangel Ventura. Nós seguimos em cena. Sura marcou nossas vidas.

    Eu receava a vez em que ela faria algum comentário sobre mim. Quando pausou e disse:

    Sura: Garota…

    Eu tremi.
    Mas ela apenas comentou, séria:

    Sura: Você… você tem isso aqui…. — Sura faz marcações com os dedos sobre as próprias pálpebras — igual ao da Giovanna Antonelli…

    Eu me senti.
    Como diria minha mãe, em algum momento da vida:

    Minha mãe, Lucia Monnerat: “Está sissi..!”

    (Não confundam com vaidade: é apenas alegria bem ensaiada).

    Como me disse recentemente Claudecyr Duarte, meu parceiro de desafios inusitados nos campos da movelaria arquitetônica — que eu crio —, das estruturas de artes visuais luminosas — que também assino — e do que parece impossível, por orçamentos improváveis ou prazos irreais, constante no mundo da arquitetura:

    Claudecyr Duarte: Você não pode brincar de pique-esconde.
    Eu: Por quê?
    Claudecyr Duarte: Porque você se acha…

    (Pausa, de natureza “drama-cômica”)
    Ainda bem que, perrengues à parte — como diria o Clau:

    Claudecyr Duarte: …e o amor só aumentando…

    Humor e ironia são constantes entre as pessoas que me cercam. Tiramos sarro uns dos outros para exaltar boas características, de quando em quando, sem que o verbo achar, nesse contexto, traia a minha humildade. Eu acho, verdadeiramente, e curto tudo o que faço. E, sim, me senti quando fui comparada à Giovanna (quem não…).

    Miguel Toscano (procurem-no no Spotify – ou cliquem aqui), então o prodígio musical da nossa trupe, com seus 14 anos e um gogó incompatível com tão diminutas idade e estatura, surpreendia e fazia — ainda faz — qualquer um congelar ao evocar Frank Sinatra cantando “My Way”, me apelidou nessa época de “Gijou”

    Miguel Toscano: And now… the end is near…
    (corte abrupto. Ouvem-se passos)

    Miguel Toscano: Hey, Gijou!

    Eu sempre associei o apelido à Giovanna — o que não era bem por isso; ele me lembrou recentemente. A lembrança veio quando deixei nas coxias uma encomenda do Bernardo: um microfone cenográfico retrô, desses que parecem ter vivido mais do que a gente, realizado em parceria com Felipe Saippa e que ficou, modestamente – ou não – lindo.

    Era para O Homem da Montanha, musical escrito pelo querido David Massena, dirigido pelo meu primo e estrelado pelo Miguelito, sobre o nosso ilustre conterrâneo Benito de Paula. O apelido voltou inteiro, com voz e tudo.

    Esse tanto de nomes aparece nesta crônica não por vaidade, mas por método: são eles que abrem as cortinas de um marco da minha trajetória artística. Ontem, 13 de dezembro, estreei como diretora teatral na Usina Cultural Energisa de Nova Friburgo — o point cultural da cidade, minha segunda casa, lugar onde já aprendi a entrar e a sair sem pedir licença.

    Espaço que, neste mesmo ano, também acolheu duas obras minhas de artes visuais e luminosas na exposição Lux: luzes da memória, a convite do Resistência Artística — grupo de curadores-artistas formado pela dupla de Mários, Moreira e Massena, e por Tiago Vianna — encabeçados pelo produtor Wilton Neves e assistidos por Cherman, Luquinhas e Felipe, numa engrenagem que funciona, porque é feita de gente.

    Sem esquecer da incrível Mariana Pietrobon, que conduz com maestria as atividades culturais da Energisa em Nova Friburgo e também integra o World Creativity Day na cidade, como eu e um número crescente de criativos — evento que, em 2025, foi chefiado pelo incansável e onipresente Marcelo Verly, com o bastão devidamente passado ao emblemático e multifuncional Beto Grillo, que ontem, por coincidência ou dramaturgia do acaso, também assinou a luz da peça Sem verba, com drama!.

    Pois a peça… divaguei. Muitos nomes pedem passagem. Gabriel Cardoso (“O Paraíso dos Quase Lá”, Luva editora), à frente das aulas de Escrita Criativa e do Núcleo de Expressões Artísticas no Sesc Nova Friburgo, lendo crônicas incríveis para nós, sua turma da tarde comentou recentemente:

    Gabriel Cardoso: Esses figurões do meio artístico eram todos amigos, cara… Imaginem, passar os réveillons com Vinícius, o Braga, o Chico… era meio que essa parada, sacou? Isso já não acontece mais…

    Estou eu me achando de novo, com esse meu ato tão cronista de flanar por cenários
    culturais.


    (Voltando à peça)

    Antes, porém, falta citar meu saudoso povo d’ “os 60”– tão adepto dos pós-ensaios e dos encontros corriqueiros banhados a vinho; nosso “60, O vinho” tem promessa de reencontro para (ainda) este fim de ano.

    Anike Couto (bacharel em Artes Cênicas) e Lucas Braune (matemático com mestrado em Cambridge), um dos meus casais favoritos, são pais da linda e simpaticíssima Cecília e hoje vivem como cidadãos alemães; o outro Lucas, Veiga, que foi minha dupla nas canções da Disney, tornou-se psicólogo e, como acontece, a vida nos levou por caminhos distintos. Carmen Lúcia era uma amiga constante, apaixonada pelo universo das fofocas — trabalhou, inclusive, um tempo na Purepeople — e, em igual medida, por Fátima Bernardes e William Bonner; hoje é uma jornalista empoderadíssima. Gaori — então Tamires Braga, seu nome oficial — tinha voz doce e um poder quase hipnótico; hoje mora em um barco, navegando pelos oceanos da vida e atracando de quando em quando. Sua mãe, Ivana Valle Machado, maravilhosa, foi nossa estrela da Varig. O Miguel, eu já citei, e o Bernardo também. Éramos nove, um corpo cênico diminuto diante de um corpo de dança robusto, formado por bailarinos das escolas Cia. Marqui de Dança, Studio3 e da Academia Bibiana de Sá; pelo caminho, somamos participações especiais, como Yago Demier, meu par romântico em Time of My Life. As vozes de Paulo Carvalho (hoje in memoriam) e Cil Corrêa embalavam nossa rádio-guia. Atuei e também assinei a cenografia do espetáculo que cruzou palcos interestaduais por cinco anos: os cubos versáteis do Bê e o microfone cênico criado com meu parceiro de longa data, Hélcio Carlos Gomes – e não posso deixar a Carla Azevedo de fora, cuja indumentária venceu o Troféu Arlequim no Festival do Rio, em 2010. A direção vocal era de Lanúzia Pimentel.

    (Finalmente…. Sem verba, com drama)

    Texto de Matheus Emerich, encenado por ele, Lyvia Hottz e Dhara Freitas — três atores que me chegaram pelas aulas e montagens dirigidas pelo Bernardo. O Matheus me escreveu um dia desses pedindo opinião sobre um sofá cenográfico; de repente, me convidou para dirigi-los. O convite nasceu de um ensaio de cena em que contracenávamos, em 2023, na peça Vida (nada) privada. Eu os “dirigi” ali, mais por escuta do que por técnica, diante do nervosismo da pouca experiência dos dois.

    Aceitei dizendo:

    Eu: mas não sou diretora…

    Uma herpes-zóster – combo da tríade estresse, baixa imunidade e, pasmem, sol -, ápice do meu inferno astral e pessoal, além de presente grego inesperado dos meus 37 anos – limitou minha participação aos quarenta e cinco do segundo tempo. Ainda assim, foi simples. Eles são incríveis. E o espetáculo foi demais.

    Eu, que havia rascunhado escrever sobre um apanhado de considerações pescadas no algoritmo do Instagram — incluindo uma fala do Niemeyer em que nosso arquiteto mais conhecido se diz otimista ao mesmo tempo em que anuncia que tudo vai acabar e que a humanidade não tem jeito —, mudei de rota. As ideias pipocaram quando meu amigo arquiteto Diogo da Vinha postou o tal do vídeo do Oscar…

    Eu: valeu, Dioguex!
    (já adivinho a resposta)
    Diogo da Vinha: “de nada, Nublex!”

    massegui por outro caminho: o do estrelato compartilhado. Ainda caberiam muitos nomes aqui. Agradeço a presença na plateia de ontem dos escritores Gabriel (que permaneceu em Friburgo após o encerramento do NEA, e também para não perder o jogo do Mengão), minha mãe, Lucia Monnerat (a mais nova cronista do pedaço! <3) e a Rita Aguiar, representando nossa turma criativa, e Sabrina Coelho, futura arquiteta, minha estagiária mais recente e suplente, comigo, junto ao Conselho Municipal de Políticas Culturais.

    Já que falamos de teatro a maior parte do tempo, não posso deixar de citar Tânia Noguchi e Adriana Xavier, maravilhosas, responsáveis pelos preparos vocal e corporal das turmas do Bernardo; Antonio Guedes, diretor do grupo Pequenos Gestos, que me trouxe Guto Urbieta e papéis lindos que, infelizmente, não cheguei a encenar de fato; Fabio Samu, à frente do Jurisdrama da UFRJ – onde cheguei já como assistente, graças ao meu então registro de atriz – o DRT.

    Cito também Mirna Rubim e Menelick de Carvalho, diretores maravilhosos que tive o orgulho de encontrar na primeira turma do curso Mergulho no Musical, na Casa de Artes de Laranjeiras — turma inteira incrível e atuante, cuja lista completa exigiria outra crônica. Da CAL, não posso deixar de lembrar Lidhiane Lima (quase dividimos a TV Globo em Malhação ficamos só na memória dos testes), Rany Carneiro, Lorena Lima e Manu Rangel.

    Houve ainda Celso Garcia e Evelyn Junqueira, casal maravilhoso que transformou eu e o Be Dugin em Sara e Renan no que seria a trilogia Gravidez Precoce, mas acabou sendo só uma única história – e a do meio; Manuela Lacerda, presente do Parque Lage, que me levou pela mão a alguns de seus curtas; e, ainda na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rogério Emerson Magalhães e a iluminação como linguagem para a arte — que teve, em nossa turma, figuras assíduas, boêmias e inesquecíveis, não é não, Rogerinho? Domingos Netto, Renata Levy, Raquel Carvalho, Marinah Raposo, Emmanuele Rodrigues, Rodrigo Daniel, Ilana Majerowich, Thiago Ortman, Bruno Trindade e Rafael Coutinho. Os bares do centro e da zona sul nos aguardavam ansiosamente.

    Lembro também Rômulo Barros, que levou o “60” para a TV Aparecida na programação de Ano Novo; e José Henrique, coordenador da SUAT UFRJ, minha casa no fim da faculdade, onde tive bolsa de iniciação artística.

    E, não menos importante, José Dias — imortal e maior cenógrafo do nosso país — orientador do projeto que me consagrou arquiteta e urbanista pela UFRJ: uma proposta para um novo Canecão, há cerca de dez anos. José Dias ainda me fez sua assistente de cenografia em Anos Radicais e em projetos de arquitetura teatral, como a reforma do Teatro do Colégio da Divina Providência e estudos de readequação de espaços cênicos. Por conta dele e de Lincoln Vargas — friburguense, então conselheiro e presidente das Políticas Culturais —, no ano passado acabei levando algumas peças para compor o cenário de Dedé Show, do grande André Mattos, e me tornei parte do elenco, ao lado de sua filha Maria Repetto, de seu irmão Paulo Mattos, do próprio André e do Lincoln. Cantei e declamei, assim de supetão, o poema Primo Basílio, de Eça de Queirós. Valeu por toda a parte de som de sempre, Alexandre Concencio!

    Ano passado, também por intermédio do Bernardo, participei de duas leituras inesquecíveis do clássico de 1750 O Santo Inquérito,ao lado de Nilson Nunnes, Margarida Ferreira da Silva, Marisa Calheiros Alvarenga, Regene Britto e Leo Pontes. Leituras dramatizadas, com direito à indumentária, objetos cênicos e fogueira. Dar vida a Branca Dias — e ser queimada em praça pública — foi uma experiência das mais emocionantes.

    Em retrocesso, cabe um abraço apertado a Mariângela de Andrade Erthal, a Poesia, que dirigiu com maestria o Teatro da minha já extinta escola tão amada, o Teatro do Externato Santa Ignez. Também não pode faltar a inesquecível Daniela Santi, cujo palco da Usina Cultural leva o seu nome, com quem fiz aulas na infância e, por feliz jogada do destino, postumamente, agora, tenho a honra de reformar uma parte de sua antiga casa.

    Ouço o sinal.
    Três toques curtos.

    DIM. DIIM. DIIIM.

    Alguém ajeita o casaco.
    Outro larga o copo pela metade.
    Ainda estou falando — ou alguém ainda está falando comigo — quando o fluxo começa a andar.

    As luzes piscam.

    O segundo ato vai começar.

  • Caos contraproducente

    Cheira à baunilha. Há banana e aveia em formato de osso e olhos ainda vacilantes e resistentes aos raios dominicais.

    Uma miríade de folhas, bocejos e pelos esparrama-se sobre o sofá-cama amarrotado pelas horas adormecidas. O sábado à noite fora um misto de contagem e revolta; em meio à desordem em percentual crescente do que também pode ser um ramo de gravetos1 , o caos é quase palpável. Percebi, ao procurar o volume no topo de rol das minhas leituras que, em dois mil e vinte e cinco, entre presentes e aquisições, cinquenta e oito novos livros passaram a habitar meu universo – fora aqueles que residem, do outro lado da rua de pedestres, com a minha mãe. Em meio a manuais de plantas nativas, guias
    arquitetônicos cariocas, história da arte, coletâneas de crônicas com dedicatórias de pares meus, ficções baseadas em fatos históricos reais, clássicos que ainda não conhecia intimamente, uma linda e antiga coleção em capa dura com detalhes em folha de ouro sobre o tempo perdido, livro em inglês sobre urbanismo contemporâneo, livros sobre os fins dos tempos, sobre design como atitude, sobre livros…Romances ocidentais repousam, à espreita: eis um autor japonês misterioso, como convém, a descrever plantas arquitetônicas que tramam estórias de terror; um outro, coreano, volume segundo, vem escoltado por uma promessa contemporânea tão minha e tão patética: uma bebida comprada pela Amazon que, citada no livro um, é destinada a degustação da continuação da narrativa, ambos ainda lacrados, no aguardo de uma experiência literária completa. Sobre ser antifrágil, sobre o ego ser o seu inimigo, sobre arquitetos conhecidos e apresentados através de disciplinas online da USP, livros sobre como viver em um mundo com participação do coletivo, sobre assassinato na Casa Branca – uma dupla literária que inspirou o homônimo na Netflix: recomendo se, por acaso, você deseja rechear seu domingo de mistério, inteligência e humor -, o quarto livro para se ler antes que o café esfrie, a coleção de xícaras sempre de prontidão no armário superior da cozinha. Em meio ao feliz espanto, a média aritmética do investimento de alguns mil reais em trezentos e sessenta e cinco dias, afirmo, categórica:

    Um lugar sem livros e vestígios de cachorro não é um ambiente feliz, sequer saudável.

    Sequer humano.

    O incenso continua consumindo-se a si mesmo para perfumar de baunilha a loucura mansa deste domingo. Mesmo após o sono,“O fim dos sussurros” não cessa; ecoa pela casa a ausência das páginas não lidas. Hoje, sete de dezembro, em Bucareste, romenos vão às ruas para eleger o novo prefeito da capital. A vacância do cargo deu-se pela assunção do antigo líder citadino, Nicușor Daniel Dan, como dirigente da nação. Ruta Sepetys, que eu conhecera em plena Novo Rio na noite da segunda-feira última, ao fechar da livraria sem limitações de paredes, em meio ao saguão, contara-me sobre um menino que, sem poder algum de escolha, tornara-se um informante do regime comunista na Bucareste da década de oitenta. Traidor por imposição, o adjetivo sussurrante rendia-lhe algumas regalias, como remédios para o câncer de seu “bunu” (“avô”, em romeno; que palavrinha fofa!). A falta de luz, comida, esperança e cor – tudo tinha tons de cinza, relatava-me Ruta – impunha a ironia como traço cultural de resistência. Tudo se mistura agora ao apartamento repleto de livros e bolas de pelo do meu spitz alemão em que estávamos no início do texto, quando o menino descobre que há bananas – dezenas -, em cima da bancada de uma cozinha norte americana. Ele, que desejava ardentemente uma única banana, contrapõe-se aos biscoitos de banana e aveia do Zeca, o spitz brasileiro, que brinca de mastigar um e outro em formato de osso. Enquanto em Bucareste os romenos vão às urnas exibir seu poder de escolha conquistado a muitas perdas e desolação, eu procuro meu livro que se perdeu ou no carro de aplicativo que me trouxera do pet shop, ou no próprio pet shop, que hoje está fechado, ou dentro da minha casa repleta de livros. Procurei até nos dicionários que estavam vacilantes de suas funções numa prateleira dentro do armário do quarto das visitas. A xícara de café espera impaciente na cozinha. Zeca me observa desejoso de rua. Eu penso no livro que está pela metade, perdido de mim e eu dele. É domingo. Em Bucareste, um novo prefeito será sancionado. Na Bucareste das páginas em sussurro, isso parece impraticável.

    1. desafio dominical:sacuda a poeira – metafórica ou literalmente, você escolhe – e folheie as páginas provavelmente amareladas e puídas do seu dicionário (se ainda houver um sobrevivente em sua honrada residência, no caso) em busca do termo que nomeia um modesto ramo de gravetos. Recorrer a Alexa, ao Google ou qualquer IA, será, além de covardia, contraproducente; o analógico anda pedindo migalhas de atenção, um gesto de misericórdia, então… vamos lá!

      PS.: aos preguiçosos de plantão, àqueles que preferem tudo mastigado, aviso que a resposta repousa na imagem desta crônica. ↩︎
  • Ode aos meus 3.7

    Quero-me a mim como nunca antes,
    como quem encontra uma versão esquecida de si no fundo de uma gaveta emperrada: força um pouco e…
    Crrrrr…..
    [o reconhecimento é recíproco pelo cheiro]

    Quero-me a mim com a presença de um personagem que não sofre expectativas: meras sinas de ator, sempre certo de poder controlar algo ou alguém

    Quero a beleza e a felicidade que se mantêm intactas dentro de um
    presente que se mantem por conta própria:
    torto
    luminoso
    misterioso
    coisas que dão certo por mero acidente

    Quero-me a mim sem os resquícios do passado
    – este já foi
    e, por ter sido, deixou migalhas no tapete:
    memórias são assim, sem modos

    Quero-me a mim sem pretensões além
    Quero o hoje:
    a pele
    a voz
    o peso,
    a altura
    a visão
    que tenho do mundo
    da varanda do meu apartamento
    onde tudo parece mais honesto
    quando o vento chacoalha as minhas
    plantas, tantas

    Quero-me a mim como quero a meu cachorro,
    que me sorri com ar de quem entende tudo
    sabe de tudo
    e, ao mesmo tempo,
    de nada – ainda assim, acerta o essencial

    Quero beber da fonte que alimenta meu rio,
    esse rio d’água que me percorre por dentro
    e muda de profundidade conforme a claridade do dia

    Trinta e sete…
    o mesmo número que veste os meus pés agora
    }amortecem
    protegem
    isolam; guiam
    guardam
    estabilizam e guiam
    meus passos
    faz só 37 primaveras

    Quero a centelha da vida que não erra
    apenas segue; ainda nos
    dissabores
    odores
    pequenas esquisitices
    que cunhamos… cotidiano

    Da chuva que atravessa o branco do dia nublado de hoje…

    Do brilho opaco e insistente da luminária – única – a que acendeu e resplandesceu sobre o paralelepípedo antes do anoitecer, na rua…

    Dos poucos pares de pernas que caminham neste fim de clarão dominical…

    Da vida
    Do aqui
    Do agora

    Quero a felicidade do barulho das gotas na telha:
    compassos simulando o escrever uma carta?
    usando a minha Olivetti para
    alguém, que nunca a receberá
     – embora eu insista em enviar

    Da vida
    Do aqui
    Do agora

    Nada mais quero
    além de querer-me
    Sempre
    e mais
    como quem volta
    a um lugar amado
    – a despeito de tudo –
    sabendo aquele se mover
    um pouquinho
    todos os dias

  • Brotam, simplesmente: delírio carioca em câmera lenta

    Às vezes, as coisas das quais mais gostamos não são coisas, e sim, memórias. Esses resíduos de existência têm umas esquisitices amorfas, incorpóreas, como um ‘ar’ de vendedores ambulantes em engarrafamentos: apenas brotam. Do nada. Em função única e exclusiva dessas ocasionais caravanas estagnadas – verdadeiras procissões suspensas – em que o asfalto, enfim, respira. Uma respiração congestionada. É isso, cinematograficamente falando: as reminiscências brotam. Do rés do chão. Da fervura titubeante do betume gasto. Da realidade simples. De um descuido do olhar, exausto da mesmice extenuante, o perceber do movimentar da paisagem, um segundo antes da fonética abafada dos jingles de esquina. Batalha de rimas, expressão genuinamente brasileira, rasgando o culto da língua.

    Paçoca é um real/ leve onze, pague dez real!
    Olha o amendoim torrado! / é doce, é salgado, é barato, é sagrado!
    Bala, chiclete e paçoca, / quem compra alegria, o tédio desloca!
    Capinha, carregador e esperança / o pacote completo pra quem não tem lembrança!
    Olha o mate! / Mate a sede! / Olha o mate, tem limão, natural e leão!

    Uma medina babelesca em tons verdes e amarelentos com suas barracas-corpos, mascates contemporâneos incorporando as mais básicas leis de oferta e procura: o largar de ensacoladas iguarias nos espelhos laterais dos carros; a malemolência dos chinelos emborrachados batucando chaves pix e pregões aos quatro cantos; ofertas de produtos sem valor, recheados de ecos de outrora. Uma bala juquinha reativa o paladar da infância, e você compra, mesmo com as taxas elevadas de diabetes; uma coca-cola estupidamente gelada dentro do isopor equilibrado, com esmero, na cabeça lisa e firme de um rapaz igual a todos os outros, faz você catar moedinhas só pelo barulho satisfatório e salivar que a abertura do lacre metálico carrega. É a fantasia do hiato, da bolha, do rolar dos dedos nas telas descarregadas dos celulares, a insatisfação das postagens que mascaram momentos como o presente, qual vida querendo passar corrida, mas comprida. A memória é culto e altar de todas as formas, odores, pesos e asperezas, o assobio descarrilhando trens automatizados. É no retrovisor do carro, quando carecemos de recursos distrativos, cafeína e paciência que esses souvenirs do acaso nos assaltam: fragmentados, vadios e apostólicos.

  • Metacrítica

    Como uma sugestão literária pode desencadear reflexões íntimas

    A taça agora reflete um leve nuance púrpuro, apenas; eu, nesta fria estadia serrana, pretendia perder-me entre os dois novos volumes machadianos, ou, quem sabe, afogar-me nos sentimentos mais belos e tristes que só um romance épico da literatura infanto-juvenil de Budapeste apresenta-nos. Mas é fim de setembro, principia o inverno e a neve não virá, como sempre. Minhas mãos voltam-se para as teclas do computador, são obrigações da vida adulta que por ora me prendem a esta tela. Entre análises gráficas, e-mails e discussões acadêmicas, presenteio-me com a possibilidade de libertar meu eu lírico em pequenas doses de literatura singela. Crio, pois, meu próprio grund, dentro de um edifício que talvez já tenha tido seu espaço defendido por heróicos meninos do antigo primário. Sinto-me resfriada, e a dúvida oscila entre a mudança de temperatura e banhos frios em águas inimigas. E ponho-me a chorar, silenciosamente, pela morte de um grande soldado raso (agora capitão). E ponho-me a gritar interiormente pela vitória de um espaço que perderei em breve. E ponho-me a pensar em todas as injustiças que acontecem ao meu redor. E sinto, pois, que crescer é deveras dolorido, mas que, por fim, minha infância não foi só um belo conto-de-fadas.

    Ao fundo, nenhum acorde ousa quebrar este silêncio honrado. Nenhuma cor sobressai perante o cinza nostálgico dos meus dias de “Os Meninos da Rua Paulo”. Só o vinho do liquido aventura-se a atravessar a garganta, amolecendo o peito e aquecendo o corpo contra os graus fajutos que lá fora brincam com o vento cortante.

    Eis a história que não podem deixar de ler. Bia Mies indica “Os Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Mónar, reeditado recentemente pela editora Cosac Naify.

  • O crítico perfeito

    Não havia estática no ambiente coabitado por seis espaços, sexta-feira inaugural de um coquetel em meio a formas geométricas suspensas; horas que se observavam tentando segurar a respiração e manter o mesmo compasso entre os minutos.

    Perder-se não é uma brecha no tempo, pelo contrário.

    São chaves que não abrem porta alguma, mas pendulam na possibilidade. Está introduzido o conceito curatorial de luz, memória e tempo.

    São todos os fusos horários em um coro uníssono que nos convida a passar o tempo com quem mais importa: nós mesmos.

    São palavras-abismo, tic-tac fragilizado pelas letras que os retiram das horas e os tornam instalação de arte.

    Na última sala, são as sombras do público — tal corpo heterogêneo e encantado de convidados, artistas e meros transeuntes — transformadas em projeções de luz que revela a história da cidade. É o fazer arte, o abrir dos múltiplos sentidos que fazem algo conceitual existir. Corpos parados, movimento. A estática não existia, e existia: tudo é repouso, sob tensão.

    Enquanto as duas salas centrais introduziam ao mundo, por primeira vez, a versão corpórea do ser que vos fala aos domingos — eu —, em seu corpo dúbio de ser artista e um cpf trivial, abriam-se também, nas telas-smart da fachada principal, janelas outrora fechadas. Elas vazavam a exposição para o presente: o tempo movimental da cidade.

    Câmeras escondidas, como parte da própria resistência artística, desafiavam os limites do espaço físico do centro cultural, deixando escorrer, discretamente, imagens para fora da arquitetura. Palavras em suspensão reagiam aos recortes de acrílicos que desafiavam as leis da gravidade, transfigurando-se em inéditos poemas, de visualização, por vezes, única. As perspectivas beiravam uma infinutude de hipóteses.

    De todas as hipóteses, havia um ser peculiar naquele entardecer. E não se trata dos alguns de quatro patas que zanzaram com seus tutores e não assinaram o livro de presença, mas vieram. Zeca, o meu Zeca, foi um deles. Mas esse, não. Não caminhava ereto como os outros, tampouco observava com a pressa dos sabidos. Preferia o chão. A frieza do piso de pedra, a polidez que refletia o que estava em cima, embaixo. Ali, deitado, encarava o mundo com a solenidade de quem conhece o segredo das coisas que balançam. Em suas mãos, um saco industrializado, aberto e barulhento. O mastigar como forma de não perder o presente.

    Algumas pessoas passavam e notavam. Outras, focadas em suas reflexões artísticas, nada viam além das obras. Havia aqueles que apenas se preocupavam com o enquadramento da selfies perfeita e tropeçavam na existência miúda sem perceber que ali — ao rés do piso encerado — havia filosofia em estado bruto.

    As placas, suspensas por fios de nylon invisíveis, dançavam como se tocadas por uma orquestra de suspiros. Um sopro aqui, um braço ali, e pronto: uma dança ao sabor do inesperado. Eram acrílicos coloridos, mas, vistos de lado, tornavam-se lâminas de tempo, quase perigosas em sua beleza oblíqua.

    Ele — ou seria ela? — permanecia absorto, talvez tentando compreender por que o que aprendera como vermelho parecia tão roxo por baixo, ou por que o verde fazia sombra de ouro. Sons guturais saiam de sua garganta. Palavras disformes como a produção de sentido. Eis que soltou uma risada.

    Não daquelas educadas, mas uma gargalhadinha breve e torta, como quem foi pego de surpresa por uma pequena embriaguez. Silêncio em toda a exposição luminosa.

    Era água com gás.
    Bebida dos deuses, claro — mas só para aqueles que ainda não sabem que deuses existem.

    Em literatura pode-se descrever assim: um espírito antigo num corpo novo. Ou ainda: uma criança-pedra, meio estátua meio relâmpago, comendo batatas como quem consagra o instante; fantasma da manhã seguinte, vinda para lembrar que tudo o que é belo balança — e passa.

    Eu, Bia Mies, apenas observava. No entre, espacial, temporal, emocional e luminoso da minha primeira inauguração artística. Só fui entender tudo quando ouvi minha outrora assistente dizer, com um suspiro de vencida:

    — Athena… Athena. Vamos. Está na hora de dormir.

    Eis o mistério desfeito: o ser filosófico, bêbado de água com gás, era apenas uma criança de quase dois anos, que comera torradinhas demais e decidira deitar-se no chão da exposição para apreciar o tempo à sua maneira. O crítico perfeito.

  • Testemunho de um incêndio criminoso

    Eu não me lembro desde quando estou aqui. Não aprendi a medir o passar do tempo por calendários. Sei que é outra, a época, pela camada que veste apenas parte da minha pele, a que cobre o meu esqueleto. Essa é a que tem de estar a serviço da moda, das decisões políticas: minha pele é sempre da cor do momento. Enquanto isso, minha parte principal, a mais quente — e contraditoriamente, segundo minha natureza humana, a mais íntima e mais exposta, órgãos e sentimentos — segue descamadando, arranhada, soltando pedaços; Meu quinhão arcado e inflexível, frio inclusive ao toque, é o que parece rejuvenescer e ser digno de alguma coisa.

    De onde estou, vivo uma vida isolada, mesmo imerso no caos da vida, no burburinho. Minha principal alegria é o observar. Comportamentos, mudanças climáticas, o lugar tornando-se memória. Nada me envolve em regozijo mais profundo.

    Da mesma forma que me restrinjo na resposta sobre o advérbio temporal do aqui, não sei precisar a data em que iniciei o meu ofício. Muito novo, trabalho mais do que infantil, disto tenho certeza: prematuro. Cortaram minha ligação materna sem que eu tivesse a chance de compreender o básico da vida; me aventuraram por outras paragens, mesmo que minha sina seja sempre estar fixo. Sempre atento. Minha dádiva e, por vezes, castigo.

    Castigo como o que aconteceu recentemente. E me corta o coração, mesmo que física e até subjetivamente eu seja desprovido de um, eu tenho, sim, uma paixonite secreta por um vizinho. Sujeito intrigante, taciturno; todo conhecimento, todo em busca de atenção. É considerado ultrapassado, vive encardido, poerento. Há quem diga que parou no tempo, dono de um linguajar e um traje no mínimo vintage — eu o considero impecável. Nunca trocamos palavras, nem toques. Sonho com o dia em que alguém o escolherá e virá até mim, abrirá inebriado sua pele em camadas e, por um instante – que será todo o meu mundo —, o deixará sobre mim. O ápice da minha existência seria entendê-lo assim, aberto, nu, sua lombada roçando minha pele áspera, a espalhar letras e calor. Nesse toque, eu estremeceria inteiro; meu corpo de madeira se partiria em arrepios. Ouvir-se-ia o meu estalo íntimo, a dilatação do que me constitui, enquanto eu gozo no segredo que só os mobiliários públicos conhecem. Sou um banco, ele, um livro – quase acervo vitalício do sebo do seu Jorge. Vitalício.. quase…

    Por muito tempo meu deleite foi paquerá-lo de esguelha, seu perfil visível quando a barraca metálica estava aberta, ele sempre posto em uma posição, nem de destaque, nem de esconderijo.

    Cachorros marcaram-me como seu território. Compras foram descansadas sobre mim. Marginalizados sociais me tomaram como cama — mais de uma vez. Conversas animadas, mãos bobas, certas de que ninguém testemunhava as indiscrições do desejo humano — por vezes traições conjugais. Brigas, estilhaços de garrafas. A tinta que sempre vem marcando o fim dos mandatos de certos prefeitos, em busca de reciclagem de votos e de marcar fisicamente o que fizeram. As flatulências de crianças e idosos, que impregnam eternamente minhas fibras, chuvas e sol a pino. Tudo me marcou menos do que a existência daquele volume ameaçado de extinção.

    Até a madrugada mais fria que já presenciei. E se tratando de Nova Friburgo, esse relato é alguma coisa. Começou sem que eu entendesse o que acontecia, eu, sonolento, ainda processando a chuva de verão em pleno inverno, dias antes, repleta de raios e granizo. Quando compreendi que pernas passavam cheias de más intenções. As solas dos sapatos, ainda as vejo, como se fosse agora; as reconheceria instantaneamente.

    Em instantes, fui trazido ao momento presente ao ouvir o estalo que mais arrepia a alma de quem é feito de madeira: o crepitar do fogo. A barraca, fechada, brilhava com a luz crescente. Foi rápido demais. Foi intenso e maldoso demais. Eu tentei gritar por ajuda, mas, paralisado, não tenho voz. Senti meu livro agonizar. Eu agonizei. Minutos lentos e horripilantes que se intensificaram com labaredas bailarinas, o sorriso no olhar meliante, a fuga traiçoeira e o barulho das sirenes quando eu já quase desmaiava de pavor.

    Eu vi tudo, sob angulos melhores do que o das cameras, estas mais silenciosas quando solicitadas do que minha imobilidade de banco de calçada. Ninguém nunca me vê como testemunha. De mim, nádegas a declarar.

    *Imagem retirada do site: https://ecoserrano.com.br/tag/incendio-quiosque-de-livros/

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