Crônica de Campista Cabral

  • Quando deixamos de ser heróis

    É… Não sei em que ponto e não sei e talvez nunca saiba o momento exato em que deixamos de ser heróis para nos transformarmos em vilões!

    Não deveria ser assim, mas é…

    Quando crianças, olhamos nossos pais como nossos heróis, prontos para nos defender! Entretanto, com o passar do tempo e o embaçar ou desembaçar das horas, passamos a olhar de forma diferente. E olhamos, ou melhor, questionamos essa imagem!

    Mas… e quando nós somos olhados dessa forma?

    Deixamos o uniforme de herói para virarmos vilões. E revelamos, conscientemente ou não, nossas fragilidades e nossos erros…

    E, sim, ficam à mostra homens e mulheres com suas fraquezas, suas rabugices e suas limitações!

    E, sim, ficam à mostra homens e mulheres com seus genuínos defeitos, marcas, cicatrizes atemporais…

    E a vida segue!

    Afinal, o baile não para e não pode parar!

    Entre palavras não ditas e seus silêncios perturbadores, entre palavras que não deveriam ser ditas, mas foram à exaustão, entre reticências e pausas provocadas ou não, vamos nos construindo e nos desconstruindo, tudo ao mesmo tempo…

    E ser um herói durante muito tempo não impede que você se torne um vilão! É assim, num deslize, em uma contramão… Mas como disse, nunca sabemos esse momento exato…

    E desse jeito, viramos o vilão da história ou das histórias! E não, não é vitimização, mas a mais objetiva e sincera constatação!

    No meio disso tudo, vamos sobrevivendo e aprendendo, reaprendendo e ensinando, entre lágrimas e sorrisos, olhares e soluços… Seguimos!

    E talvez seja essa a grande essência da nossa caminhada, um aprender continuamente!

    Não somos perfeitos e nunca seremos.

    E justamente na nossa imperfeição, vamos escrevendo as nossas várias histórias.

    Histórias de conquistas, histórias de fracassos, histórias de amor, histórias de horror, simplesmente, histórias humanas…

  • Nada de novo no front II

    Começamos mais um ano e notícias de guerra voam pelos ares, atravessam fronteiras e chegam às nossas casas, em todas as casas.

    A despeito da poesia e da vida, velhos amargurados jogam meninos no campo de batalha e exigem vitória.

    A despeito do pulso e do pulsar das coisas, estes mesmos velhos, donos do mundo, brincam com fronteiras e bandeiras, ignoram sonhos e seguem arrotando e resmungando superioridades.

    Começamos mais um ano. As bombas ainda caem na Ucrânia. A novidade, agora, é de bombas na Venezuela.

    Exércitos são preparados e mais jovens seguem para os moedores de gente.

    A despeito do amor e das cartas e promessas, os enferrujados velhos ou velhacos, na sua sordidez natural, alimentam o ódio e fazem os jovens desaprenderem a olhar com calma as coisas.

    Começamos mais um ano e mais um ditador (sempre haverá ditadores) segura o mundo nas mãos e gira e gira no movimento dos seus caprichos e das suas ganâncias…

    A despeito do mar e do azul das águas. A despeito do vento fresco no rosto e de todos os bons livros a serem lidos. A despeito das flores e das folhas e do baile dos pássaros… A despeito de tudo o que faz sentido para os que apreciam a vida de verdade (nos seus sabores e dissabores) …

    Começamos mais um ano e seguimos resistindo ao fascismo, ao egoísmo, ao fanatismo e todos os ismos contrários ao humano.

    Começamos mais um ano e a poesia é a melhor e maior resistência que há em cada um de nós.

    Se não houvesse poesia nos olhos da menina… Se não houvesse poesia na rua, na esquina… Se não houvesse poesia no comer o pão em cada dia… Não valeria a pena seguir.

    E seguimos, a despeito dos ditadores!

    Estes cínicos senhores não sabem rir e não querem que ninguém ria.

    Estes cínicos senhores não gostam de poesia e, por isso, enevoam o céu com bombas. Com tanta fumaça, não dá mesmo pra apreciar a vida!

    Começamos mais um ano e insistimos na poesia e você sabe o porquê?

    Porque só a poesia pode abrandar as durezas certas da vida…

    Porque só a poesia, dentro desta crônica primeira, dá um abraço na alma…

    A despeito das bombas e dos ditadores…

  • Uma crônica para o Luis

    Eu não sei exatamente com quantos anos li pela primeira vez um texto de Luis Fernando Veríssimo. O que sei é que era ainda bem jovem. Um estudante de muitos e muitos anos atrás…

    Sei também que quando li, não parava de rir e de achar que o texto era simplesmente incrível! Leve, divertido e com uma linguagem muito acessível.

    Pra variar, o texto em questão, era uma crônica!

    E, desde então, estava com algum texto do Veríssimo pronto pra ler.

    Construí meu hábito de leitura com os quadrinhos e com as boas crônicas dos grandes cronistas de outrora, entre eles, Luis Fernando Veríssimo!

    Os grandes autores e os grandes livros são aqueles que nos tiram do sério, nos chacoalham ou então nos fazem rir! Rir do banal, do sobrenatural, da vida, do acaso, da morte, do improvável…

    E rir era o que sabia fazer com excelência!

    Ah! Luis! Você nos deixou e estamos tristes, mas nos seus textos você permanecerá vivo! Suas tiradas cômicas, sua ironia e capacidade para transformar o simples e o cotidiano em textos maravilhosos marcaram gerações!

    Em A metamorfose, trouxe Kafka para a crônica! O nome da barata não podia ser melhor: Vandirene! Em O homem trocado, os infortúnios de um homem terrivelmente azarado vira um texto inacreditável!

    No texto A foto, as questões familiares tão complexas e tensas se apresentam com a ironia e bom humor tão peculiares das crônicas desse genial escritor gaúcho.

    Eu poderia listar uma infinidade de textos hilários, mas termino esta crônica com um texto que reli alguns meses atrás para a minha irmã, Exigências da vida moderna.

    Nesse texto, a busca pela saúde e pela disciplina viram motivo para boas gargalhadas!

    E a leitura foi feita assim, entre muitas gargalhadas. Sei que o texto só terminou depois de pararmos diversas vezes, quase sem fôlego e com lágrimas…

    Luis, fica esta crônica como um abraço. Uma forma de agradecer por todas as boas histórias que contou e encantou a todos nós!

    Que a morte seja a última coisa a nos encontrar em vida!

  • O Homem Perverso

    Esta é a história de um homem perverso! Mais um homem perverso…

    O que há de mais trágico na humanidade é que, de tempos em tempos, sempre um homem perverso assume o controle das coisas! 

    E, como todos os homens perversos, quer controlar todas as coisas!

    Como todos os homens perversos, não gosta de outros homens, seus semelhantes! Gosta de sua própria imagem! Gosta da adulação!

    Como todos os homens perversos, detesta livro, prefere queimá-los, comê-los, rasgá-los…

    A sua coerência é a bestialidade, por isso, odeia as palavras e o diálogo! Prefere sempre o monólogo!

    Como todos os homens perversos, dissolve melodias! O que interessa é apenas uma nota, a sua própria!

    Detesta arte e cultura, pois simplesmente, não aceita que a diversidade é essência de todo artista!

    Como todos os homens perversos, se sente superior mesmo aos outros, considerando toda e qualquer criatura que não possua o seu padrão, um ser fraco, inútil e, portanto, descartável!

    Assim, engolindo pessoas e ideias, atropelando bom senso e razão, este novo homem perverso estabelece mais um tempo de loucura! Mais um tempo de perseguição!

    Por fim, como todos os homens perversos, não sabe parar e não para!

    E, ao não saber ou não querer parar, leva o mundo para a estupidez da guerra, para a tragédia, para o caos…

  • Na ponta do lápis

    Na ponta do lápis, o cronista passeia pelo Rio e vê o mar e o barulho do mar. Na ponta do lápis, o cronista espera o sinal abrir para poder atravessar a avenida que corta o Aterro. Os carros são muitos e ligeiros e, ao que parece, ninguém dá muita atenção ao que está à volta. Mas os olhos do cronista buscam ruas, buscam pessoas e as suas mãos deslizam na folha em branco e procuram as cores e o cheiro da cidade.

    Na ponta do lápis, o cronista sente seus passos sobre a calçada. E vê gente de todas as cores e idades e jeitos e trejeitos. Na ponta do lápis, o cronista imagina um céu bem limpo e um sol bem quente. Na ponta do lápis, há mundos e fundos e há urgência. A urgência de escrever sobre a cidade. O Cristo, lá em cima, observa silenciosamente o movimento das coisas e dos seres: barcas, aviões, pessoas e mais pessoas.

    Na ponta do lápis, o cronista pensa que o Rio de Janeiro deveria ser assim o ano inteiro: um dia calmo, com sorrisos e abraços, com cordialidade, com aplausos e afagos. Na ponta do lápis, o cronista pensa ainda que uma mão sempre deveria ajudar outra mão. Levantar um corpo cansado e abatido pelo tempo é tarefa árdua, mas gratificante.

    Entretanto.

    O lápis escorrega da mão e a ponta acaba por se quebrar. Não há mais nada a fazer. O Rio é o que há: dia nervoso, sinal fechado, obras, correria, calor abafado. Olhos amedrontados, vidros fechados.

    O lápis cai ao chão.

    O Cristo, ainda lá em cima, vê pacientemente o caos, o tumulto, o barulho, a confusão, os gritos, acenos desesperados, a multidão.

    O cronista pensa em mudar de profissão. Talvez ser poeta. Ir na contramão. Talvez ser vagabundo. Encontrar um menino e um cão. Fugir da escuridão. Não pode. Não é José, mas não pode fugir. Não pode. Não pode não!

    Mas.

    O lápis volta à mão.

    E o cronista prossegue o seu trabalho de ver e de dizer o dia a dia. E o que diz é importante. O que vê é delirante. Entretanto há outros olhos e um senão: a recriação. O trabalho de inventar a si mesmo.

    Assim, na ponta do lápis, o Rio de Janeiro se faz uma vez mais prosa, verso e canção.

  • Nada de Novo no Front

    Nada de novo no front.

    Mais uma guerra… E as guerras não têm nada de bom…

    E esta crônica, infelizmente, se repete. Mais uma crônica sobre as guerras, quando não se deveria escrever crônicas sobre guerras!

    Contudo, mais uma vez, preciso escrever que não há nada mais estúpido do que a guerra!

    A guerra interrompe o canto. Paralisa o jogo. Congela sentimentos.

    A guerra separa amores, aniquila sonhos, pulveriza infâncias, desmaterializa as coisas e desumaniza os humanos.

    A guerra vive de farrapos e de figuras esquálidas. A guerra se alimenta do medo!

    E por que fazemos tantas guerras?

    A mesma ganância, o mesmo poder, a mesma influência…

    Às vezes, faz-se guerra pelo simples prazer de guerrear. Assim, animalesco e brutal.

    Às vezes, faz-se a guerra por não ouvir. Por não querer ouvir! Por jamais ouvir o que é diferente!

    Outras vezes, faz-se a guerra por querer gritar verdades específicas que um grupo toma para si como a única verdade!

    No entanto, a verdade mesmo é que as guerras ensinam dor e solidão.

    A tradução de uma guerra está nos olhos marejados de uma mãe que não receberá seu filho.

    A tradução de uma guerra está nos traumas e nas memórias de uma nação inteira que segue enfrentando fantasmas…

    A guerra e os estúpidos que a veneram.

    Estes estúpidos amam bombas, flertam com mísseis, beijam metralhadoras e se insinuam com tanques. Não sabem nada da vida! Não querem vida!

    Tragicamente, são sempre os estúpidos a governar e a iniciar todas as guerras…

    Nada de novo no front…

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