Crônica de domingo por Márcio Paschoal

  • Psicose

    Helenice costumava sonhar. Dormindo ou acordada. Desde mocinha. Seus pais contavam que ela adorava narrar seus sonhos, bons ou ruins.

    Os pesadelos mesmo começaram a partir dos vinte e poucos anos. Clássicos, como cair em buracos, despencar de prédios, ficar presa em recintos escuros, afogar-se ou assombrada entre fantasmas.

    No início não se deu tanta importância, Helenice era assim mesmo, pessoa ansiosa e com muita imaginação.

    Com o passar dos sonhos, um pesadelo se tornava recorrente: era possuída por um homem sem face que lhe morria em cima. Sem conseguir se desvencilhar do corpo, aflita, quase sem respirar, acordava coberta de suor e medo.

    Procurou ajuda na terapia. Havia teorias diversas sobre os sonhos, expressão do inconsciente e de experiências mal ou bem resolvidas.

    A terapeuta ouvia o relato dos seus pesadelos, procedendo com algumas anotações num bloco.

    — Talvez eu tenha medo do invisível, quem sabe bloqueio sexual, ansiedade ou algum tipo de sufocamento psíquico.

    A terapeuta ouvia calada e, quando comentava algo, era sucinta.

    — Os sonhos podem traduzir insatisfações e memórias de fatos ocorridos.

    Helenice aceitava as insatisfações, embora discordasse do “memória de fatos ocorridos”. Nunca ninguém morrera em cima dela. Ainda mais, durante uma relação sexual.

    O que incomodava mais Helenice era a aterradora sensação de não conseguir respirar com o peso de um morto sobre ela.

    — O que você pensa sobre a morte?

    Helenice não entendeu a associação dos pesadelos com a morte. Mas a terapeuta deveria saber o que dizia. Admitiu nunca ter parado para pensar sobre a finitude humana.

    A cada sessão, Helenice trazia uma novidade. Os pesadelos traziam agora sobre ela um gorila. Helenice sentia-se menos aflita. Adorava animais. Escondeu de todos, até da terapeuta, mas simpatizava mais com o gorila do que com o tal homem sem face. O gorila parecia mais humano.

    Helenice começou a se acostumar com seu pesadelo. O gorila em cima já não lhe pesava tanto. Afastava sua cabeçorra inerte e conseguia respirar um fiapo de ar. Ainda assim, acordava sempre nessa hora.

    A terapeuta seguia calada e anotava os possíveis significados inconscientes daqueles pesadelos.

    Helenice notou que ela passou a olhá-la de forma estranha. Temeu que a terapeuta lhe perguntasse se já havia transado com um macaco.

    — Você consegue ter orgasmos?

    Não eram múltiplos, se encaixavam mais no grupo de raros ou ocasionais.

    — Se masturba com frequência?

    Tinha um vibrador, cujo nome era Otávio.

    As sessões prosseguiam. Na noite anterior em que tinha exagerado na vodca, Helenice sonhou que transava com uma espécie de lagarto asqueroso, enorme.

    — Posso lhe receitar alguns remédios.

    Helenice começou a cogitar a hipótese de encerrar o tratamento.

    Mudou de ideia após o retorno dos pesadelos. Agora, um extra-terrestre a penetrava com um pênis longo e verde, para depois morrer sobre ela, emitindo sons agudos e inarticulados. Helenice destacou que sentira a ejaculação do ET. Era quase real.

    A terapeuta ponderou que o membro longo e esverdeado do alienígena podia revelar mecanismos intrínsecos do imaginário sobre prazer e sexo. O esperma do alienígena podia ressignificar seu desejo de engravidar.

    Helenice concluía que a terapeuta também tinha problemas.

    — Interessante, há aqui uma coincidente sucessão de filmes: “Homem Sem Face”, “Na Montanha com os Gorilas”, “Godzilla”, agora um ET…

    Com certeza a terapeuta devia achar que ela estivesse inventando tudo aquilo. Uma cinéfila pervertida ou debochada.

    A cada sessão, Helenice vinha com novos pesadelos. Agora era com o Homem-Aranha. Menos mal que não ejaculava. A terapeuta pareceu estar perdendo a paciência.

    — Se eu fosse você parava de ir tanto ao cinema.

    Helenice abandonaria o tratamento. Lidaria sozinha com seus pesadelos e transtornos. Antes só que mal analisada.

    Passado um tempo, numa noite sonhou com a terapeuta por cima dela, segurando uma faca, como no filme de Hitchcock. Era Helenice que agora perdia a vida.

  • O vaticínio

    Um pouco de tradição e nostalgia guarda o que há tempos foi um clássico do futebol carioca: Flamengo x Bangu. Lembrando que craques como Zizinho, Domingos da Guia e Zózimo já vestiram a camisa dos dois clubes.

    O primeiro título do Flamengo no Maracanã foi em cima do Bangu, o Torneio Início (aquele do jogo em 15 minutos e no final a disputa por pênaltis) de 1950. Embora na estreia do Flamengo no estádio, o Bangu tenha vencido por inacreditáveis 6×0 – até hoje a maior goleada sofrida pelo rubro-negro no Maracanã (igualada uma vez, pelo Botafogo, em 1972, com direito a resposta digna e à altura no 6 a 0 do gol do Andrade, no Carioca de 1981).

    Exceção feita à briga generalizada, capitaneada por Almir Pernambuquinho na final de 1966, o Flamengo foi feliz em decisões com o Bangu. Em 1915, se sagrou bicampeão carioca, e em 1943 a história se repetiu, com o Flamengo conquistando novo bicampeonato ao vencer o Bangu. Em 1948, o Flamengo jogou com o Bangu na inauguração do Estádio de Moça Bonita e, como bom convidado, perdeu o amistoso por 4 a 2.

    Duas conquistas da Taça Rio pelo Flamengo foram em decisões com o Bangu, com igual placar e gols do mesmo jogador. Em 1983, o Flamengo conquistou a Taça Rio no Maracanã, com gol de Adílio; e em 1985, voltou a conquistá-la, vencendo o Bangu no Maracanã, coincidentemente com gol de Adílio.

    Deslizes, glórias e tragédias à parte, o retrospecto histórico aponta uma grande superioridade rubro-negra.  Assim, são 217 partidas, com uma larga vantagem do Flamengo, com 136 vitórias, 32 empates e 49 derrotas.

    A favor do Bangu o fato de ter sido um dos pioneiros do futebol nacional a contar com jogadores negros e operários em seu elenco, o que levou outros clubes a seguirem o exemplo, transformando a prática do futebol – até então um esporte elitista – num espaço bem mais democrático.

    Apesar de o Flamengo ser o clube das massas, e muitos atribuirem ao Vasco da Gama a primazia da inclusão de negros no time, na verdade foi o Bangu (mais um vice do Vasco). Em 1905, Francisco Carregal foi o primeiro jogador negro a praticar futebol oficialmente no Brasil, atuando pelo Bangu e depois se tornando tesoureiro do clube. O enfrentamento ao racismo não foi uma tarefa simples. O Bangu se retirou do Campeonato Carioca, em 1907, e só voltou quase dez anos depois, quando finalmente a federação aceitou os seus atletas negros.

    Como se vê, inescrupulosos e incompetentes no comando das federações de futebol vêm de longa data.

    Mas o jogo do Flamengo e Bangu que me interessa contar aqui, e que não decidiu nada e nem teve maiores consequências, é bem pouco conhecido e se passou numa esquecida noite de 19 de julho de 1973. Naquele tempo a televisão não transmitia as partidas porque os dirigentes temiam que isso retirasse os torcedores dos estádios.

    Era também época da novidade do videotape, e as tevês podiam apresentar o jogo horas depois do seu término. A opção do torcedor para asssitir ao jogo com mais emoção era não saber o resultado e ver pelo videotape, mais ou menos no começo da madrugada, quase no fim da programação. Naquele dia 19 de julho, eu fiz o recomendado: não liguei o rádio, tomei o cuidado de não saber o resultado e aguardei com paciência o jogo no videotape.

    A televisão que passava a partida, se não me engano, era a Tupi, tinha como comentarista esportivo o saudoso Ruy Porto. Gaúcho de Garibaldi, inicialmente locutor e que hoje é nome de uma rua na Barra, ficou famoso quando, na Copa de 70, chamou a bola de “leviana” ao comparar o seu peso, mais leve do que nas outras competições…

    O jogo transcorria e o primeiro tempo terminava com a vantagem rubro-negra de dois gols. Nos comentários de praxe no intervalo, nosso Ruy avisava que o Flamengo tramava bem, criando jogadas e finalizando, mas que o Bangu se encontrava vivo na partida e poderia reagir. Foi quando alertou os telespectadores, na maioria torcedores do Flamengo, tratar-se de um jogo parelho e que todos não se iludissem, esperando por um jogo fácil. Era aguardar a segunda etapa e certamente aquele jogo não viraria uma goleada, de cinco, seis, sete ou oito a zero, por exemplo.

    Vieram os anunciantes e o jogo reiniciava seu segundo tempo. O Flamengo, avassalador para desespero do Ruy, marcava um gol após o outro e, diante do locutor sem graça e de um comentarista agora calado, aplicava contundente goleada. Final: Flamengo 8 x 0!

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