Crônica de quarta-feira por Alexandre Leidens

  • Uma canção no fim da tarde

    Sou dos que ouvem mil vezes a mesma música. E quando engato uma reflexão, impressão ou divagação boba, ouço-a ainda mais para seguir conduzido pela melodia, pelo ritmo, pela letra ou por qualquer outra coisa que mantenha essa sintonia aberta, como se a própria logicidade dos meus pensamentos dependesse única e exclusivamente dela. Fruição estética, transe ou loucura, o nome não importa. A música, sim.

    Há nem trinta anos, eu sabia de cor a programação completa da Rádio Atlântida. De domingo a domingo, todos os horários, programas, apresentadores, intervalos e até os jingles das propagandas. Estou certo de que centenas, talvez milhares, de outros adolescentes também sabiam. Naquela época, além de acompanhar a rádio, a gente comprava CDs, copiava CDs, emprestava CDs e decorava as músicas tão fortemente que eu poderia recitar muitas delas com detalhes agora, lembrando inclusive das versões cortadas para o rádio, das versões ampliadas para os shows e das acústicas.

    Sendo sincero, a gente não tinha muito como firmar nem garantir aquela experiência. Hoje, falar em experiência ao ouvir uma música parece nostalgia besta. Mas é o que tínhamos. Se gostássemos de alguma canção, ou comprávamos o CD, ou conseguíamos uma cópia e a regravávamos, ou ouvíamos no rádio, vez ou outra, contando com a sorte de encontrá-la na programação.

    De fato, era um negócio intenso. A música pulsava, arrepiava e surpreendia. Lembro exatamente da primeira vez que ouvi Bitter Sweet Symphony, do The Verve. Foi na formatura do meu primo, num agosto gelado do fim do século. Eu estava a poucos metros das caixas de som quando aquela música apareceu, inundou o salão e fisgou sem dó os meus sentidos todos por quatro ou cinco minutos. Por acaso ou não, é a minha única lembrança da festa. Só descobri o nome da música e da própria banda meses depois, quando já havia desistido de procurá-la.

    Tenho a impressão de que não conseguir as coisas tão facilmente era algo extraordinário. Impressão tardia, claro, é sempre assim. Acho que fomos enganados com aquele papo de que a tecnologia facilitaria a vida, de que a internet, por meio das infinitas conexões e blábláblá, nos daria mais tempo para ficar com a família e fazer o que gostamos. Na real, o que ocorre é o contrário. Somos escravos dos celulares até nos momentos mais pujantes. Veja: há inúmeros shows das nossas bandas preferidas no YouTube, com captação perfeita de som e vídeo, num trabalho profissional para ninguém botar defeito. Mas quando vamos a qualquer show, grande parte das pessoas filma tudo, no meio do público, mesmo suadas, espremidas e de braços erguidos. Com o desodorante em dia, espero. No geral, elas sabem que estão perdendo tempo ao registrar uma quase experiência. Sabem também que o vídeo ficará trêmulo, com o som estourado, e que o arquivo mofará em alguma pasta esquecida nos seus computadores. Mesmo assim, não deixam de gravar. Numa situação dessas, só consigo pensar que a pessoa estava, mas não estava lá. Aliás, ao gravar produziu provas de que estava; mas, de fato, não estava, entende? Confuso esse negócio de estar e não estar, né?

    Ou não. Na verdade, todo mundo sabe o que é estar e não estar em algum lugar. Lembra daquelas aulas de química que você ficava contando os minutos para acabar? Pois é. Eu mesmo era mestre nisso. Meio avoado, meio perdido, reprovei com méritos duas vezes no segundo ano do Ensino Médio. Veja só. Mas a questão não é exatamente sobre a minha gloriosa trajetória acadêmica. O problema é que a nossa vida virou um completo estar e não estar. E isso não se relaciona com a disposição para uma reflexão ou outra.

    Acho que parte das pessoas perdeu a capacidade de viver a vida, de ter experiências das mais diversas, de se distrair, de curtir uma música, de se encantar com uma paisagem, com uma pintura ou com uma fotografia. Até num ambiente preparado para uma experiência imersiva, como o cinema, há quem fique no celular. No fim das contas, a gente parece sempre atento a outra coisa, como se nossa vida dependesse de uma resposta rápida, mesmo sabendo que nada daquilo é urgente e que, do outro lado, há alguém que pouco se importa com as nossas questões. Pois é, a tecnologia acelerou as coisas, conectou as pessoas, mas também pasteurizou a realidade. Talvez o ponto seja justamente a realidade.

    Talvez a gente sinta falta de conexão real, de vida real, de coisas analógicas e palpáveis. Talvez essa nostalgia morna só ateste que estamos demorando a perceber que tudo o que temos está aqui e agora. E que quando a noite finalmente cair, quando soarem os últimos acordes, já não haverá mais tempo. E aí? Bebéu, já era, tchau, acabou…

  • O fantasma do ferro-velho

    Nunca fui de me impressionar com coisas sobrenaturais. Acho-as, inclusive, enfadonhas e desnecessárias, pois em nada contribuem para a vida prática. Trata-se de um mercado tão comum como qualquer outro. Primeiro criam um problema, depois vendem soluções fracionárias, sempre à mercê de um adicional aqui ou ali. Enrolam um pouco falando dos benefícios daquilo, simulam algum imperdível desconto e pronto, venda concluída. E não adianta, nessas e noutras, só cai quem quer. Veja bem, se você dorme, trabalha, come e caga, o que te interessa o alinhamento dos Chakras ou a Constelação Familiar?

    Essa gente meio fraca das ideias perde dinheiro porque acredita em qualquer história. Se aparece um sujeito engomadinho, enchendo a boca com algum papinho sem-pé-nem-cabeça, eles aceitam tudo como se fosse o próprio Divino Espírito Santo apontando o caminho. Sejamos razoáveis, quem fala em energia, alinhamento espiritual e o caralho-a-quatro tem cacoete de vagabundo, desocupado mesmo. E também é meio burrinho, não dá pra levar a sério.

    Ouça bem, o espiritismo só pegou no Brasil porque o povo gosta de ser enganado e ainda defende o enganador. Aqui é a terra da malandragem e da trapaça. Porra, é o PT no governo! E nem adianta se fazer de ofendido defendendo o PT ou o Chico Xavier. Tudo isso é um grande teatro. Só não vê quem não quer.

    Sendo franco, passei metade da vida dizendo nunca ter visto fantasma nenhum. E é a mais pura verdade. Coisa de frouxo, meu Deus, quanta dor de cabeça me deu toda essa história. Isso começou em oitenta e dois, quando encontraram um homem enterrado lá perto da sanga e, desde então, todo início de inverno essa falácia volta. O problema nem foi terem achado a ossada ou um corpo em putrefação. O problema foi o boato de aparições aqui perto do ferro-velho. Nos anos seguintes, toda semana inventavam uma história de fantasma e a nossa vida virou um inferno.

    Eu não fui embora porque a minha família está aqui há mais de cem anos. E posso te jurar que é tudo mentira. Nunca houve assassinato, nunca vi uma aparição durante a noite e também nunca ouvi o morto gritando no inverno. É tudo coisa dessa gente de cabeça fraca, esses vagabundos que não cuidam das próprias vidas.

    Naquela época essa bobagem de assassinato e fantasma deu um furdunço dos grandes e o ferro-velho estava no centro de tudo. Mal posso calcular o tanto de “sensitivos” ou “espíritas” que tirei aos gritos daqui. Já não me bastavam os policiais e os jornalistas… Alguns amigos até me aconselharam a ir embora, mas, no fim das contas, a gente não podia fazer nada. Fugir do que não existe? Para onde? Por qual motivo?

    E ainda piora. Dia desses apareceu dois desocupados querendo gravar um filme aqui no ferro-velho, contando a história do fantasma, acredita? Eu peguei a espingarda e toquei eles daqui rapidinho. Nunca mais voltaram e nem perceberam que era uma carabina de pressão. No máximo ia arranhar um desses bebezões. Gente frouxa, puta merda.

    Infelizmente, naquele tempo nem toda família pensava igual. Aquela história aflorava os ânimos e não tinha como fugir do assunto. Dos meus três filhos, o Joaquim continua aqui e, segundo alguns conhecidos, se parece muito comigo. Eu não acho. O Rubens se mudou e não volta. Até hoje tenta convencer a gente a ir embora também. O Rodolfo se foi antes do acontecido, nunca mandou uma carta nem deu um telefonema, se perdeu no mundo ou está morto e enterrado. Não tenho como saber.

    Veja você, quando acordamos num domingo ele não estava mais em casa. Os três já tinham mais de dezoito, então podiam cuidar de si mesmos. Nunca me importei muito com o futuro deles porque foram criados na base do trabalho, então se virariam em qualquer lugar. No fim das contas, o desaparecimento do Rodolfo foi até bom porque ele e o Joaquim nunca se deram bem. Viviam brigando e se ameaçando, às vezes quebravam coisas pela casa. Eles se odiavam profundamente. E a gente sabe, quando o ódio é com o irmão, boa coisa não sai e nem adianta tentar consertar. Às vezes nem a distância garante um pouco de paz.

    Percebi uma desavença incurável entre eles quando o Joaquim empurrou o irmão de cima de uma árvore. Foi a primeira vez que Rodolfo quebrou o braço. E foram várias. Uma vez, inclusive, peguei o Joaquim o perseguindo com um martelo. Não deixei brigarem naquele dia, claro, mas não julgo. Eu mesmo não me dava com o meu pai. Por sorte, um dia ele saiu de carro e não voltou. Duas noites depois o acharam esmagado no fundo de uma ribanceira. Não sobrou nada. A polícia disse ter demorado para o encontrar porque na pista não havia marca de freios. Minha mãe botou a culpa na cachaça. Por fim, acabei tomando conta do ferro-velho.

    Pois bem, sobre o tal fantasma, nunca o vi nem tive medo. O pessoal é meio assustado e acaba inventando coisas. Gente frouxa dos infernos, mas a verdade é a seguinte…

    — Ô pai, tá falando sozinho de novo?

  • Alguém salve a Língua Portuguesa!

    Queria falar de literatura. De literatura brasileira, especificamente. Gostaria, na verdade, de escrever sobre algumas das obras de Erico Verissimo, como O prisioneiro, que, por acaso, li os últimos capítulos hoje mesmo. E, preciso dizer, quanto mais leio as obras do Erico, mais certeza tenho de que se trata de um escritor absolutamente extraordinário. No entanto, não abordarei nem o romance e nem a guerra, sua temática principal. Falarei de Grêmio.

    E, vamos combinar, como tem sido difícil falar de Grêmio. Nossa geração cresceu vendo o Grêmio ganhar tudo e mais um pouco nos anos noventa. Passamos por uma década e meia sem títulos, é verdade, mas geralmente com times aguerridos, figurando quase sempre na parte de cima da tabela. Em 2016 veio a Copa do Brasil, depois a Libertadores, a Recopa e uma sequência de Gauchões. Também passamos por uma queda trágica para a segundona e, no retorno, tivemos um ano mágico com Suárez e companhia quase beliscando o título brasileiro.

    O fato é que hoje, ao assistir aos jogos, tenho vontade de criar palavrões. Sinto essa necessidade, às vezes, mesmo antes do início das partidas, bebendo ou não uma cervejinha. Nada contra o nosso novo treinador, nem contra os jogadores, que, em geral, respeito e admiro. O problema é que não há um palavrão específico que retrate exatamente a situação. Por vezes os jogos são tão constrangedores que nem mesmo o grande Erico Verissimo (caso fosse gremista) conseguiria descrever.

    No fim das contas, trata-se de um impulso, de uma onda de raiva, de ódio, de repulsa, de indignação, como só um futebol mal praticado consegue nos proporcionar. Durante os noventa minutos fico a cogitar neologismos e não encontro nada que represente tamanho desentrosamento. Falando sério, eu não sei qual urucubaca lançaram sobre o tricolor, mas passou da hora de nos desfazermos dela.

    De certa forma, sinto-me como o Tenente, de O prisioneiro, que, preso ao passado, não consegue seguir em frente, recaindo em elucubrações, questionamentos e fantasias das mais absurdas. Devo confessar que ainda sonho com as defesas do Marcelo Grohe, com a classe do Maicon, com a força do Edilson, com a canhota do Douglas, último camisa 10, e, claro, com a eterna dupla Geromel e Kannemann. Que saudades.

    Sei que para uns e outros pode parecer bobagem, mas a língua de Camões, de Machado de Assis, de Erico Verissimo, não precisa de palavrões criados durante uma partida de futebol. Já existem palavrões demais e geralmente eu os utilizo em demasia, inclusive em momentos não oportunos. Não adianta, nem nos porões do idioma há uma expressão de baixo calão que defina o futebol praticado pelo Grêmio nos últimos tempos. E, convenhamos, quem sou eu para querer criar neologismos? Deixemos isso para quem conhece. Perdão, Guimarães Rosa. Por isso, peço encarecidamente à equipe que não me permita fazer isso e passe a se apresentar de uma forma, ao menos, mais aprazível. Se não for pela taça, pela torcida, pela história do clube, que seja pela Língua Portuguesa…

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