Crônica de quarta-feira por Alexandre Leidens

  • O fantasma do ferro-velho

    Nunca fui de me impressionar com coisas sobrenaturais. Acho-as, inclusive, enfadonhas e desnecessárias, pois em nada contribuem para a vida prática. Trata-se de um mercado tão comum como qualquer outro. Primeiro criam um problema, depois vendem soluções fracionárias, sempre à mercê de um adicional aqui ou ali. Enrolam um pouco falando dos benefícios daquilo, simulam algum imperdível desconto e pronto, venda concluída. E não adianta, nessas e noutras, só cai quem quer. Veja bem, se você dorme, trabalha, come e caga, o que te interessa o alinhamento dos Chakras ou a Constelação Familiar?

    Essa gente meio fraca das ideias perde dinheiro porque acredita em qualquer história. Se aparece um sujeito engomadinho, enchendo a boca com algum papinho sem-pé-nem-cabeça, eles aceitam tudo como se fosse o próprio Divino Espírito Santo apontando o caminho. Sejamos razoáveis, quem fala em energia, alinhamento espiritual e o caralho-a-quatro tem cacoete de vagabundo, desocupado mesmo. E também é meio burrinho, não dá pra levar a sério.

    Ouça bem, o espiritismo só pegou no Brasil porque o povo gosta de ser enganado e ainda defende o enganador. Aqui é a terra da malandragem e da trapaça. Porra, é o PT no governo! E nem adianta se fazer de ofendido defendendo o PT ou o Chico Xavier. Tudo isso é um grande teatro. Só não vê quem não quer.

    Sendo franco, passei metade da vida dizendo nunca ter visto fantasma nenhum. E é a mais pura verdade. Coisa de frouxo, meu Deus, quanta dor de cabeça me deu toda essa história. Isso começou em oitenta e dois, quando encontraram um homem enterrado lá perto da sanga e, desde então, todo início de inverno essa falácia volta. O problema nem foi terem achado a ossada ou um corpo em putrefação. O problema foi o boato de aparições aqui perto do ferro-velho. Nos anos seguintes, toda semana inventavam uma história de fantasma e a nossa vida virou um inferno.

    Eu não fui embora porque a minha família está aqui há mais de cem anos. E posso te jurar que é tudo mentira. Nunca houve assassinato, nunca vi uma aparição durante a noite e também nunca ouvi o morto gritando no inverno. É tudo coisa dessa gente de cabeça fraca, esses vagabundos que não cuidam das próprias vidas.

    Naquela época essa bobagem de assassinato e fantasma deu um furdunço dos grandes e o ferro-velho estava no centro de tudo. Mal posso calcular o tanto de “sensitivos” ou “espíritas” que tirei aos gritos daqui. Já não me bastavam os policiais e os jornalistas… Alguns amigos até me aconselharam a ir embora, mas, no fim das contas, a gente não podia fazer nada. Fugir do que não existe? Para onde? Por qual motivo?

    E ainda piora. Dia desses apareceu dois desocupados querendo gravar um filme aqui no ferro-velho, contando a história do fantasma, acredita? Eu peguei a espingarda e toquei eles daqui rapidinho. Nunca mais voltaram e nem perceberam que era uma carabina de pressão. No máximo ia arranhar um desses bebezões. Gente frouxa, puta merda.

    Infelizmente, naquele tempo nem toda família pensava igual. Aquela história aflorava os ânimos e não tinha como fugir do assunto. Dos meus três filhos, o Joaquim continua aqui e, segundo alguns conhecidos, se parece muito comigo. Eu não acho. O Rubens se mudou e não volta. Até hoje tenta convencer a gente a ir embora também. O Rodolfo se foi antes do acontecido, nunca mandou uma carta nem deu um telefonema, se perdeu no mundo ou está morto e enterrado. Não tenho como saber.

    Veja você, quando acordamos num domingo ele não estava mais em casa. Os três já tinham mais de dezoito, então podiam cuidar de si mesmos. Nunca me importei muito com o futuro deles porque foram criados na base do trabalho, então se virariam em qualquer lugar. No fim das contas, o desaparecimento do Rodolfo foi até bom porque ele e o Joaquim nunca se deram bem. Viviam brigando e se ameaçando, às vezes quebravam coisas pela casa. Eles se odiavam profundamente. E a gente sabe, quando o ódio é com o irmão, boa coisa não sai e nem adianta tentar consertar. Às vezes nem a distância garante um pouco de paz.

    Percebi uma desavença incurável entre eles quando o Joaquim empurrou o irmão de cima de uma árvore. Foi a primeira vez que Rodolfo quebrou o braço. E foram várias. Uma vez, inclusive, peguei o Joaquim o perseguindo com um martelo. Não deixei brigarem naquele dia, claro, mas não julgo. Eu mesmo não me dava com o meu pai. Por sorte, um dia ele saiu de carro e não voltou. Duas noites depois o acharam esmagado no fundo de uma ribanceira. Não sobrou nada. A polícia disse ter demorado para o encontrar porque na pista não havia marca de freios. Minha mãe botou a culpa na cachaça. Por fim, acabei tomando conta do ferro-velho.

    Pois bem, sobre o tal fantasma, nunca o vi nem tive medo. O pessoal é meio assustado e acaba inventando coisas. Gente frouxa dos infernos, mas a verdade é a seguinte…

    — Ô pai, tá falando sozinho de novo?

  • Alguém salve a Língua Portuguesa!

    Queria falar de literatura. De literatura brasileira, especificamente. Gostaria, na verdade, de escrever sobre algumas das obras de Erico Verissimo, como O prisioneiro, que, por acaso, li os últimos capítulos hoje mesmo. E, preciso dizer, quanto mais leio as obras do Erico, mais certeza tenho de que se trata de um escritor absolutamente extraordinário. No entanto, não abordarei nem o romance e nem a guerra, sua temática principal. Falarei de Grêmio.

    E, vamos combinar, como tem sido difícil falar de Grêmio. Nossa geração cresceu vendo o Grêmio ganhar tudo e mais um pouco nos anos noventa. Passamos por uma década e meia sem títulos, é verdade, mas geralmente com times aguerridos, figurando quase sempre na parte de cima da tabela. Em 2016 veio a Copa do Brasil, depois a Libertadores, a Recopa e uma sequência de Gauchões. Também passamos por uma queda trágica para a segundona e, no retorno, tivemos um ano mágico com Suárez e companhia quase beliscando o título brasileiro.

    O fato é que hoje, ao assistir aos jogos, tenho vontade de criar palavrões. Sinto essa necessidade, às vezes, mesmo antes do início das partidas, bebendo ou não uma cervejinha. Nada contra o nosso novo treinador, nem contra os jogadores, que, em geral, respeito e admiro. O problema é que não há um palavrão específico que retrate exatamente a situação. Por vezes os jogos são tão constrangedores que nem mesmo o grande Erico Verissimo (caso fosse gremista) conseguiria descrever.

    No fim das contas, trata-se de um impulso, de uma onda de raiva, de ódio, de repulsa, de indignação, como só um futebol mal praticado consegue nos proporcionar. Durante os noventa minutos fico a cogitar neologismos e não encontro nada que represente tamanho desentrosamento. Falando sério, eu não sei qual urucubaca lançaram sobre o tricolor, mas passou da hora de nos desfazermos dela.

    De certa forma, sinto-me como o Tenente, de O prisioneiro, que, preso ao passado, não consegue seguir em frente, recaindo em elucubrações, questionamentos e fantasias das mais absurdas. Devo confessar que ainda sonho com as defesas do Marcelo Grohe, com a classe do Maicon, com a força do Edilson, com a canhota do Douglas, último camisa 10, e, claro, com a eterna dupla Geromel e Kannemann. Que saudades.

    Sei que para uns e outros pode parecer bobagem, mas a língua de Camões, de Machado de Assis, de Erico Verissimo, não precisa de palavrões criados durante uma partida de futebol. Já existem palavrões demais e geralmente eu os utilizo em demasia, inclusive em momentos não oportunos. Não adianta, nem nos porões do idioma há uma expressão de baixo calão que defina o futebol praticado pelo Grêmio nos últimos tempos. E, convenhamos, quem sou eu para querer criar neologismos? Deixemos isso para quem conhece. Perdão, Guimarães Rosa. Por isso, peço encarecidamente à equipe que não me permita fazer isso e passe a se apresentar de uma forma, ao menos, mais aprazível. Se não for pela taça, pela torcida, pela história do clube, que seja pela Língua Portuguesa…

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