Crônica de Segunda-feira

  • SUB VIDA

    A sobrinha perguntou para o tio no churrasco da família: ‘Quando você percebeu que estava fodido e não tinha mais volta?’

    O tio respondeu: ‘Desde cedo, nos anos 70, no primeiro dia na escola, aos quatro anos. Eu apenas não sabia expressar em palavras o que sentia, mas sabia que a jornada seria terrível desde aquele momento.’

    Sobrinha: ‘Qual era o sentimento?’

    Tio: ‘Era o sentimento de que a vida, da forma como era vivida pelas pessoas que eu conhecia, e pelo que via na televisão, não fazia sentido.’

    Sobrinha: ‘Por quê?’

    Tio: ‘Porque somos escravos e a maioria das pessoas é cega em relação a isso, e por medo e para defender uma falsa segurança, defendem a própria condição de escravos a qualquer custo.’
    Sobrinha: ‘Você já pensou em se suicidar?’

    Tio: ‘Sempre pensei que fosse melhor ir até o fim, só pra ver o que acontecia, porque de qualquer forma todo mundo morre no fim.’

    Sobrinha: ‘Eu penso a mesma coisa, só que na juventude já convivo com pandemia e guerra, e na sua juventude não havia nada disso.’

    Tio: ‘Mas você já nasceu com a internet, ela serve como escapismo. Na minha juventude a bizarrice era tanta que você pode imaginar apenas remotamente. Não havia nem mesmo o sentimento pela falta de algo que não existia, como a internet. Na minha juventude havia o medo da AIDS, o racismo era considerado normal, a guerra era em casa mesmo, pra decidir quem escolhia o canal de televisão a ser assistido. Na escola havia bullying, que nem tinha esse nome e era considerado normal, e as crianças eram deixadas ali para se matarem. Esses atos eram praticados sem que os autores sequer temessem o repúdio. Na minha juventude brasileira houve a ditadura, e depois o que se convencionou chamar de fim da ditadura, o que é uma falácia tão cretina quanto todas as mentiras que ouvimos de políticos até hoje. Mas hoje vocês tem a internet e ficam cada um na sua bolha, o que é terrível, mas antes não havia nem mesmo essa possibilidade. Na minha infância e juventude, os mais velhos ora diziam que a juventude deles era melhor, ora diziam que era pior. Isso variava de acordo com os interessem momentâneos dessas pessoas, que na maioria morreram. Os que sobraram estão aí pra você tirar suas próprias conclusões’.

    Sobrinha: ‘Por que você não tem filhos?’

    Tio: ‘Porque tenho uma mágoa enorme por ter nascido, e não faria o mesmo com outra pessoa. E também porque não tenho condições financeiras para isso. E sobretudo porque tenho essa convicção desde cedo, desde um tempo em que as pessoas mais velhas diziam que com o tempo, eu mudaria de idéia. E também porque seria questionado sobre coisas para as quais não tenho as respostas.’

    Sobrinha: ‘Mas eu gosto das respostas que você me dá!’

    Tio: ‘Mas é porque isso só nos encontramos de vez em quando.’

    Sobrinha: ‘Mas meu pai é obtuso e nem fala desses assuntos comigo!’

    Tio: ‘Não sei o que responder sobre isso. Ele deve achar que é errado falar sobre essas coisas.’
    Sobrinha: ‘Você tem fama de pegador. Por que nunca casou?’

    Tio: ‘As mulheres que mais me intrigavam eram as que me rejeitavam e desprezavam. Mas com a internet pude ver o que elas se tornaram, e se há algo pelo qual sou agradecido na vida, é o fato dessas pessoas terem me desprezado.’

    Sobrinha: ‘A sua namorada nem tinha nascido quando você fazia faculdade. Nunca vai casar com ela?’

    Tio: ‘A única razão pela qual ela me suporta é o fato de que ela pensa como eu em vários aspectos. Cada um na sua casa é melhor para nós.’

    Sobrinha: ‘Ela é rica, bonita e jovem. Por que você reclama tanto?’

    Tio: ‘Antes de conhece-la, eu já tinha décadas de uma bagagem que até hoje não sei ao certo como usar. Quando ela nasceu, eu era bem mais revoltado. Hoje em dia eu continuo odiando certas coisas, mas sei que nunca vou poder mudá-las. Continuarão existindo políticos, as pessoas continuarão saindo de casa em dia de eleição, e não apenas votarão nesses políticos, como farão propaganda não remunerada pra eles. Esse foi o primeiro exemplo que me ocorreu sobre coisas que continuo desprezando, mas que provavelmente não vão mudar enquanto houver humanidade.’

    Sobrinha: ‘Quais são as cinco melhores bandas de rock?’

    Tio: ‘Se você me perguntar a mesma coisa amanhã, ou se tivesse perguntado ontem, a resposta talvez fosse diferente. ‘

    Sobrinha: ‘Essa é a parte legal disso. Responda sem pensar muito!’

    Tio: ‘Kinks, Husker Dü, X Ray Spex, Jesus and Mary Chain e Big Star. Menções honrosas para Teenage Fanclub e Replecements.

    Então olharam ao redor. Um outro tio estava bêbado e escolhia só músicas ruins.

    Eles nem pediam mais para escolher as músicas.

     Só havia vergonha e constrangimento.

  • Avarias

    Na sala do apartamento que dividia com Mila Cox, Zími cantava e tocava no teclado dela uma versão de ‘Always the sun’, dos Stranglers.

    Usando apenas acordes rudimentares, executou a canção de maneira belíssima.

    A rouquidão de sua voz, a falta de técnica vocal e a embriaguez tiveram efeito favorável para o resultado apresentado.

    Mila Cox e Silvano observavam.

    A visceralidade mostrada ali, do nada, com Zími alcoolizado, improvisando, era algo tão raro  atualmente, que os fez pensar imediatamente na vergonha que tinham das pessoas que se arriscam a ser artistas, e que eles eventualmente presenciavam se apresentando sozinhas ou com outras pessoas em bares da cidade, com repertório constrangedor e interpretação ainda pior.

    Cox, que apareceu quando ele já havia começado a música, olhava fixamente, encostada na lateral da porta de seu quarto.

    Estava vestindo apenas uma camiseta cinza, muito grande para ela, como se fosse um vestido, com a cara da Anette Peacock na frente.

    Silvano estava na sala com Zími, e alternava o foco de seu olhar entre ele e Mila Cox.

    A cara que Cox fazia enquanto olhava Zími e ouvia a música era a mesma que ela fez numa das fotos que estavam coladas na porta de seu quarto , em que ela, ainda criança, segurava e olhava a capa do primeiro disco da Suzi Quatro.

    Talvez a ideia de se tornar contrabaixista tenho surgido naquele momento.

    Ela também tinha o teclado e o sintetizador, para sanar a falta de um guitarrista na banda.

    Antes de Zími começar a tocar a música, Cox estava dentro do quarto ouvindo outra música ,enquanto ele falava na sala sem parar e às vezes tocava sons aleatórios no teclado.

    Ele falava sobre como são as pessoas que estão distópicas, e não os ambientes ou as paisagens.

    Contava sobre o desprezo que sente pelo sistema de um modo geral, focando naquilo que havia feito dele a pessoa que se tornou.

    Mencionou as dinâmicas de grupo para selecionar funcionários em empresas.

    Em seu monólogo semiembriagado, ele levantou uma questão.

    Questionou  o porque de, entre o desespero causado pelo capitalismo, que obriga milhões de pessoas a buscar um salário baixo em troca de uma carga horária de trabalho alta (além de ter que passar eventualmente pelo constrangimento das abomináveis dinâmicas de grupo), há pessoas, que vivendo exatamente no mesmo contexto, que simplesmente acham que as coisas são assim mesmo?

    Essas pessoas também dizem que se deve agradecer no caso de conseguirem uma oportunidade dada por corporações bilionárias, que irão sugar toda a energia vital de cada um dos escravos assalariados, cuspindo depois o caroço deles no limbo.

    Vivem acreditando que todo o sofrimento e humilhação diários serão recompensados depois da morte com a vida eterna num paraíso.

    Mila Cox tinha ido para a sala assim que ele parou de falar e começou a tocar a música.

    Quando Zími terminou, Cox olhou para Silvano e sabia o que ele estava pensando.

    Silvano estava pensando em como seria se Zími desencanasse da banda Crop Circles (que é um duo formado por Cox e Zími) e seguisse carreira solo.

    E Mila Cox sabia que Silvano estava pensando isso porque ela às vezes dizia que caso se cansasse da parceria musical com Zími,  iria substituí-lo por uma bateria eletrônica e seguiria com o nome da banda, mesmo tocando sozinha.

    Ela estava com vinte e um anos e provavelmente teria tempo para acertar e errar.

    Mas Silvano também tinha pensado em como Zími era cool e exercia influência sobre ele, mesmo tendo estilos e ideais musicais diferentes.

    Zími, que é baterista e vocalista dos Crop Circles, tem mais estofo musical, mas Silvano é mais determinado.

    Silvano é uruguaio, mas falava português quase sem sotaque, pois vivia em São Paulo desde os três anos de idade. Tem agora quarenta e nove.

    É vizinho de porta de Zími e Mila Cox,e tem uma Kombi para fazer carretos e pagar as contas.

    Cox e Zími pagam as contas trabalhando como copywriters, geralmente fazendo publicidade para corporações que não aprovavam.

    Antes de Mila Cox e Zími mudarem para lá, Silvano já morava naquele prédio havia onze anos.

    Ele parece o Pappo Napolitano, e também era guitarrista e cantor. Canta em inglês por opção estética, fazendo uma mistura de rock a billy, blues e punk rock.

    Se apresentava tocando guitarra sentado para fazer a parte percussiva com uma gambiarra de chimbal e bumbo, que ele tocava com os pés.

    Mila Cox sabia que Zími não seguiria carreira solo.

    Mas ele também dizia brincando que caso fosse despedido por Cox, juntaria outras três pessoas mais jovens que ele e montaria outra banda.

    E seria uma banda de apoio, para que ele se tornasse um crooner.

    Elaboraria um repertório primoroso de músicas autorais, misturadas com pérolas obscuras da música mundial do século vinte.

    Ambos sabem que isso nunca aconteceria, porque Zími sabe da falta de glamour que isso significaria em sua vida pessoal.

    Faria shows esporádicos, e gravaria em casa, também esporadicamente

    Estaria satisfeito. Estava com quarenta e sete anos e pensava mesmo era em preservar sua saúde mental e viver com o mínimo de conforto.

    Mas ele não sairia mesmo em carreira solo, porque seria um trabalho duro para ele fazer sozinho, considerando seu entusiasmo para ser artista, que somente aparece por causa da motivação constante por parte de Mila Cox.

    Zími entendia esse sentimento como a superação de sua necessidade de autoafirmação, e não como falta de entusiasmo pela arte.

    Afinal, mesmo que ele não fosse parte de uma banda, ainda assim, seria um apreciador e de alguma outra forma, um apoiador das artes.

    Zím terminou a música e alguns segundos depois Mila Cox falou: “Você deveria gravar essa do jeito que você tocou agora, deixar eu completar a gravação e a gente lançaria como single.”

    Zími respondeu: “Agora seria melhor lançar uma música autoral. Pra lançar cover, eu já estava pensando em uma outra, que é ‘Baby’s on fire’, do Brian Eno. Aproveitar que é uma música legal e é obscura o suficiente pras massas. Embora essa dos Stranglers também tenha essas características. Toquei porque ela me veio à cabeça sem que eu tivesse pensado nela. Eu te enviei a letra de uma música inédita, mas ainda não pensei na parte musical dela, então te mandei pra ver se você tinha alguma ideia.”

    Mila Cox havia mesmo recebido a letra da música, mas não havia começado a trabalhar na canção.

    Naquele momento se lembrava apenas que a letra era em inglês e definia o amor moderno como uma transação bancária em peças publicitárias de bancos.

    Numa outra parte, dizia que quem precisa ser liderado por um pastor, tem a inteligência de uma ovelha.

    Em outro trecho, a letra dizia em primeira pessoa que uma grande parte da humanidade é composta por pessoas com as quais ele jamais se envolveria, em qualquer nível e em quaisquer que fossem as circunstâncias.

    Exaltava ainda a desobediência às convenções.

    Então o interfone tocou e ninguém foi atender.

    Não estavam esperando ninguém, e menos ainda uma notícia minimamente razoável sendo dada pelo interfone naquele momento.

    O toque do interfone não foi persistente, tocou apenas uma vez.

    Então Zími disse que atenderia, mas que fumaria um cigarro na janela antes.

    Olhou para baixo, e nada acontecia na frente de seu prédio, nada que pudesse anunciar algo realmente ruim a ser comunicado.

    Não havia incêndio e nem invasão. A Rua da Glória estava normal.

    Zími tomava o vinho uruguaio direto da garrafa e fumou três cigarros.

    Então ele finalmente  foi atender o interfone, e o porteiro disse que havia ligado para avisar que a água do banheiro seria fechada por meia hora, mas que naquele momento o reparo já havia sido resolvido.

    Zími explicou a situação para Mila Cox e Silvano.

    Fizeram silêncio e pensaram na chateação que haviam evitado, apenas por deixar de ouvir o que um outro humano tinha para lhes dizer.

    Alguém iria querer usar o banheiro só porque estava sem água.

    A preguiça coletiva de comentar pairava densa.

    Uma pequena chateação evitada que causou um bem estar enorme naquele momento.

    As famílias tradicionais e conservadoras muitas vezes começam a ruir com esses pequenos aborrecimentos, que viram ataques de fúria quando a frustração por uma vida farsante pesa mais do que tentar manter aparências.

    Sossego é uma premissa para a felicidade, e a felicidade não é algo para durar incessantemente, pois assim perderia seu sentido.

    Eles tentavam  eliminar as chateações gratuitas, para aguentarem aquelas que são inevitáveis, e que tem alguma razão decente para surgir.

    Silvano voltou para seu apartamento, Mila Cox voltou para seu quarto e Zími ficou na sala, sabendo que a solidão é um luxo e a desobediência às vezes é a ordem de uma intuição que não costuma falhar.

    O aluguel pago fazia agora com que Zími não quisesse estar em nenhum outro lugar.

    Houve um tempo  em que ele dormia num armário no corredor de uma pensão no centro da cidade.

    Ele não tem filhos porque sabe que não daria conta de ser um pai aprovado pelo status quo, então mais tarde poderia dormir bêbado no sofá.

    Gostava de crianças, mas odiava playgrounds de condomínio.

  • FERIADO

    Estou sentado, sozinho, na mesa de um bar, numa dessas noites perdidas. Lá fora a chuva impede-me de sair e eu fico observando este meu impedimento que na verdade é fuga a uma determinação que não tenho tido. Olho para a chuva e vejo a sua cortina de indiferença. A chuva escorre e a água correndo parece trazer-me uma espécie de nostalgia semelhante à náusea. A chuva forma com suas goteiras algo parecido com uma delimitação de espaços, de vivências, de ansiedade pura. Aqui dentro a vida que tenho tido como espaço permitido ao corpo. Lá fora a vida que eu poderia (talvez) ter se imperasse o sonho de estar além do espaço físico, como uma antevisão de um espaço neutro concernente à paz. Acrescento ainda que esta noite é de finados e a questão é transpor ou não o limite da porta.

     Inventário de Sombras

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