Crônica de Sexta por Fernando Neves

  • Amor

    Movimento I – Primeiros passos.

    Uma noite, à beira mar em um bar numa cidade no vasto litoral brasileiro…

    Ele disse: um centavo por seus pensamentos.

    Ela disse: valem menos do que isso.

    Ele disse: um verso por seus pensamentos.

    Ela disse: de quem?

    Ele disse: meu.

    Ela disse rindo: passo.

    Ele disse sorrindo: de um poeta maior.

    Ela disse: mais alto que você?

    Ele disse: em estatura poética, um gigante.

    Ela disse: e quem é esse que você vai em busca?

    Ele disse: um que nunca me faltou.

    Ela disse: nunca te faltou nas suas cantadas por ai?

    Ele disse: nunca me faltou quando a poesia se faz necessária.

    Ela disse: agora por exemplo?

    Ele disse: precisamente.

    Ela disse: e por que a poesia se faz necessária?

    Ele disse: para traduzir o sentimento.

    Ela sorriu e disse: e quem é o seu salvador?

    Ele disse: Tom Jobim.

    Ela disse: ah sim…

    Ele disse: me permite?

    Ela ameaçou rindo: se vier com Desafinado eu desapareço.

    Ele disse: fujo do óbvio.

    Ela disse: será que o óbvio foge de você?

    Ele disse: ele não sabe onde eu ando.

    Ela disse: mas o óbvio é ardiloso, engana os jovens aspirantes a poetas.

    Ele disse: mas não sou aspirante a poeta.

    Ela disse: além dos declamadores profissionais.

    Ele disse: declamo porque gosto não para viver.

    Ela disse: ao menos é habilidoso na retórica.

    Ele disse: ao contrário do óbvio, ela é minha amiga faz tempo.

    Ela disse: convencido.

    Ele disse: sincero.

    Ela disse: me diga então o que tem em sua manga poética?

    Ele disse: ah, minha bela…

    Ela disse: estou escutando meu belo…

    Ele disse cantarolando: eu você, nós dois, aqui nesse terraço à beira mar.

    Ela disse admirada: mas não é que o moço não é óbvio.

    Ele sorriu vitorioso e disse: sozinhos neste bar à meia-luz.

    E uma grande lua saiu do mar.

    Ela ronronou sorrindo: huuumm.

    Ele continuou contente: Parece que este bar, Já vai fechar, E há sempre uma canção para contar.

    Ela olhou em volta sorrindo e voltou a mira-lo em silêncio.

    Ele prosseguiu confiante: Aquela velha história de um desejo, Que todas as canções têm pra contar.

    Ela olhou firme nos olhos dele.

    Ele se aproximou e completou sussurrando: E veio aquele beijo.

    E se beijaram muitas vezes naquela noite.

    Movimento II – Descompasso virtual.

    Há quilômetros e meses de distância…

    Ele escreveu: tudo bem?

    Ela escreveu: sim mas quem é você?

    Ele escreveu: esqueceu de mim?

    Ela escreveu: seu número não está salvo no meu telefone.

    Ele escreveu: então não é sua memória?

    Ela escreveu: não é a do aparelho.

    Ele escreveu: vou dar uma dica.

    Ela escreveu: por favor.

    Ele escreveu: Tom Jobim.

    Ela escreveu: o que tem ele?

    Ele escreveu: ué, em nosso encontro citei Tom Jobim.

    Ela escreveu: sem ofensa mas sabe quantas vezes eu ouço alguém soprar no meu ouvido letra do Tom achando que é original?

    Ele escreveu: são tantos assim?

    Ela escreveu: mais do que minha paciência suporta.

    Ele escreveu: não sabia que era assim tão requisitada.

    Ela escreveu: pois é né?

    Ele escreveu: ah tá, então pelo visto não causei impressão alguma.

    Ela escreveu: seu bobo, sempre causa.

    Ele escreveu: todos causam.

    Ela escreveu: todos não, só os mais sutis.

    Ele escreveu: mas se tem tanta gente citando Tom Jobim para você, seus ouvidos nem dão mais atenção.

    Ela escreveu: ah mas aí é que você se engana sobre um aspecto.

    Ele escreveu: e posso saber qual?

    Ela escreveu: nem só com ouvidos se escuta Tom Jobim.

    Ele escreveu: e com o que mais se escuta?

    Ela escreveu: ah..deixa ver..com o coração.

    Ele escreveu: ah..sim com o coração..entendo.

    Ela escreveu: então se meu coração tiver percebido você, mesmo que tenha soprado algum Tom Jobim bem manjado, você acaba se sobressaindo.

    Ele escreveu: mas o que seria um Tom bem manjado?

    Ela escreveu:  algo fora do compasso.

    Ele escreveu: ou desafinado você quer dizer?

    Ela escreveu: por aí mesmo.

    Ele escreveu: ah então ponto para mim.

    Ela escreveu: posso saber por que, mocinho?

    Ele escreveu: porque não cometi o pecado da obviedade e não citei Desafinado.

    Ela escreveu: salvou-se uma alma no purgatório.

    Ele escreveu: também não é para tanto.

    Ela escreveu: mas quase.

    Ele escreveu: então pelo visto o que te disse deve ter sido escutado pelo seu coração.

    Ela escreveu: pode ser que sim.

    Ele escreveu: claro, naturalmente, entre tantos.

    Ela escreveu: entretanto só poucos fizeram meu coração palpitar.

    Ele escreveu: e o seu palpitou?

    Ela escreveu: não.

    Ele escreveu: descompassou?

    Ela escreveu: é, dá para dizer que o ritmo ficou comprometido.

    Ele escreveu: bom saber.

    Ela escreveu: por que?

    Ele escreveu: e diria que ele, o seu coração, nesse movimento sutil de alteração de ritmo poderia ter entrado em outra sintonia?

    Ela escreveu: possivelmente.

    Ele escreveu: e poderia ter sintonizado no meu?

    Ela escreveu: dependendo do que ele tiver escutado, quem sabe.

    Ele escreveu: mas quanta incerteza.

    Ela escreveu: mas meu lindo, o amor é incerto.

    Ele escreveu: é estou vendo mesmo.

    Ela escreveu: vendo o que?

    Ele escreveu: como o amor é incerto.

    Ela escreveu: não exagere.

    Ele escreveu: sem exagero, é só simples constatação.

    Ela escreveu: mas o que mais..me diga…

    Ele escreveu: mais nada porque ao que parece minhas intenções românticas se perderam entre outras de outros.

    Ela escreveu: não diga isso.

    Ele escreveu: é a pura verdade.

    Ela escreveu: não peraí, calma.

    Ele escreveu: fique bem.

    Ela escreveu: não faz assim, fala comigo.

    Ele – :

    Ela escreveu: eu estava brincando.

    Ele -:

    Ela escreveu: puxa…

    Movimento III – Dança romanceada.

    Um tempo incerto depois…

    Ela disse: onde estava esse tempo todo?

    Ele disse: longe de você.

    Ela disse: por vontade própria?

    Ele disse: por escolha infeliz.

    Ela disse: sua ou minha?

    Ele disse: de ambos.

    Ela disse: sentiu minha falta?

    Ele disse: o tempo todo.

    Ela disse: por que não me procurou?

    Ele disse: porque te perdi profundamente.

    Ela disse: como decidiu me achar?

    Ele disse: no dia em que respirei fundo e subi à superfície.

    Ela disse: e foi difícil saber para onde ir?

    Ele disse: encontrei seu rastro em toda parte.

    Ela disse: era forte assim?

    Ele disse: ao contrário, muito sutil.

    Ela disse: então foi difícil me distinguir entre outras?

    Ele disse: não foi difícil, mas exigiu atenção e dedicação.

    Ela disse: e onde me encontrou?

    Ele disse: curiosamente não tão distante quanto eu achava.

    Ela disse: lembro de ver você ao longe.

    Ele disse: te contemplava.

    Ela disse: teve medo de se aproximar?

    Ele disse: medo de me atrapalhar.

    Ela disse: bastava vir em linha reta.

    Ele disse:  prefiro fazer curvas.

    Ela disse: a menor distância entre dois pontos é uma reta, não sabia?

    Ele disse: pode ser a menor mas não é a melhor.

    Ela disse: demorou por que escolheu o melhor caminho ao invés do menor?

    Ele disse: demorei porque meu caminho não foi reto mas sinuoso.

    Ela disse: sinuoso como o quê?

    Ele disse: como suas curvas.

    Ela disse: minhas curvas tiram você do rumo?

    Ele disse: suas curvas me põem na direção certa.

    Ela disse: e se estiver escuro?

    Ele disse: na noite mais escura, seu olhar ilumina meu caminho até você.

    E nunca mais se desencontraram.

  • Um velho amigo me deixou

    Meu velho amigo parou de funcionar. Estava em plena atividade quando simplesmente apagou. Uma tristeza.

    Estou falando do barbeador elétrico aí da foto. Sério. Estamos juntos há mais ou menos 45 anos. Mais para mais do que para menos. Ganhei do meu pai quando a barba encorpou.

    E desde então ele está comigo. Me viu na puberdade, escutou meus resmungos pelos mais variados motivos. Não poucas vezes, testemunhou minha animação em frente ao espelho me arrumando para encontrar aquela garota bonita que me causava taquicardia. Mas nunca soube da minha frustração na volta do encontro depois de escutar as palavrinhas amargas “você é legal, mas quero ser só sua amiga”. Vida que segue.

    E seguiu e você, meu velho amigo, periodicamente estava lá, comigo, me ajudando a ficar melhor apresentável. Há quem discorde mas como gosto de fazer a barba, o barbeador sempre teve lugar de honra no meu banheiro.

    Mesmo quando, por muitas vezes, o troquei pela lâmina de barbear nunca deu qualquer demonstração de ciúme. Ao contrário, cada vez que era convocado para enfrentar minha barba cerrada, herança do meu pai, nunca recuou ou mesmo engasgou. Cumpria sua parte com admiração transformando lixa em bumbum de neném.

    Enfim, mas nada é para sempre. Nem as pirâmides e muito menos meu barbeador elétrico.

    O que me resta? Lamentar? Ou buscar algum arqueólogo de apetrechos elétricos capaz de reviver meu amigo?

    Não sei, não me decidi. Por ora, olho meu velho camarada deitado inerte. Mas, se há um fio de esperança quem sabe ele não volta à ativa? Porque a gratidão pelos serviços dele é grande.

    Afinal, ainda lembro naquela vez, lá no século passado, quando aquela moça, uma das que povoam minhas doces lembranças, sorriu para mim. Tenho certeza que foi depois de ver meu rosto bem barbeado. Ela até disse algo como “olha que ele se arrumou mesmo só para mim” e não foi ao sentir o aroma do poderoso RogerGallet. Não foi mesmo, meu velho amigo…

  • Tem dias e mais dias

    Tem dias que enxergo o sol de forma terna e agradável, como um deus antigo que nos convida a desfrutar a vida.

    Tem dias que a mínima palavra ouvida me aborrece. Uma pergunta trivial chega aos meus ouvidos como a expressão máxima da estupidez.

    Tem dias que busco rostos sérios na rua e tento acende-los com um sorriso. Nem sempre dá certo. Meu sorriso vai e volta para mim e segue enfeitando meu dia.

    Tem dias em que tudo o que falo não é escutado ou compreendido. Me sinto como se falasse algum idioma alienígena. Ou pior: me sinto como se não existisse.

    Tem dias em que o menor gesto cortês me ilumina a vida. Ele fica reverberando na minha memória e suspiro tranquilo ante a boa natureza de algumas pessoas.

    Tem dias que prefiro falar sozinho porque não estou com paciência de traduzir.

    Tem dias que atravesso a rua só porque alguma interessante chamou minha atenção.

    Tem dias que adoro o isolamento completo, sem som e sem mensagens escritas.

    Tem dias que até faço piada na rua.

    Tem dias que parece que moro no circo. A cada volta pelo noticiário televisivo vejo malabaristas de palavras e ideias, domadores de feras e voz alheia, prestidigitadores que fazem a culpa se tornar inocência em menos de um piscar de olhos. E os palhaços? Esses somo nós.

  • 10 para 14

    Se você é um dos seis leitores que caridosamente escolhem ler o que eu escrevo às sextas-feiras aqui nesse nobre espaço saiba que, hoje, 27 de fevereiro de 2026, faltam 10 para 14.

    10 dias para minhas filhas completarem 14 anos. (Suspiro, sorrio e continuo.)

    14 anos… Que aventura!

    Pintam os cabelos. Pintam as unhas. Pintam os olhos. Pintam o caneco. Mas não quebram a louça.

    Se vestem de preto. Usam coturno. Amam blusinhas. E adoram chaveiros de K-pop.

    Se xingam. Se amam. Se riem. Se conversam. Se encantam. Se fofocam. Se protegem.

    Andam de mãos dadas na rua.

    Olham cada uma para um lado. Mas atravessam na faixa.

    Sonham acordadas. Voam pela Liberdade. Se enroscam nos meandros da galeria Sogo.

    Conhecem tudo como a palma das mãos.

    São curiosas. São entediadas. São impacientes. São presentes. Mesmo de fone de ouvido.

    Questionam. Respondem. Afirmam. Teorizam. Reafirmam. Defendem. Atacam.

    Concluem.

    Sempre tem razão mas amam saber mais.

    Têm certeza que são, que estão e que serão.

    E nisso tudo eu, o espectador privilegiado, sorrio e aperto os olhos espremendo uma lágrima pequena em nome da mais pura contemplação.

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