Crônica de terça-feira

  • Está tão difícil ser eu

    Uma das coisas mais surreais que me ocorreram foi, sem dúvida, ser confundido com outra pessoa. Gente mais nova não sabe bem o que é isso, mas, na época do telefone fixo, quando sequer existia WhatsApp, quando redes sociais eram ficção científica, a pessoa te ligava insistindo que você não era você.

    — Você sabe quem está falando?
    — Não faço a menor ideia.
    — Ah, sabe sim.
    — Sei não.

    A voz era de mulher, eu não fazia a menor ideia de quem fosse, mas ela não se dava por vencida. Rebatia, insistia, falava com este outro que não era eu, mas que, para ela, era.

    — Vai ficar me tratando assim?
    — Assim como?
    — Fingindo que não se lembra de mim. Depois de tudo.
    — Tudo o quê, minha senhora?
    — Ah, faça-me um favor.

    Desligou.

    Até hoje, eu insistindo que sou Leandro, tem gente que me chama de Leonardo. Vizinhos, amigos, médicos, enfim, todo mundo. Eu adoro ser Leandro, sempre gostei, mas, no meu caso, ou a pessoa abrevia, ou muda.

    Ou fala Leonardo, ou abrevia para Léo, mas o que eu adoro mesmo, de verdade, é ser simplesmente Leandro.

    Sofro, claro, também, com homônimos. Uma vez, quando fui tirar um documento, arrumaram um Leandro em São Paulo, com sobrenome igualzinho ao meu. Custei a resolver.

    Já fui confundido, em rede social, com um ficante de outra moça, quando meu lance, na verdade, era com a prima dela — o que, naturalmente, gerou uma confusão sem tamanho.

    Felizmente, nunca fui confundido com o pai desaparecido de ninguém, nem com um espião, nada disso.

    A vez mais divertida, confesso, foi quando, no interior do Rio de Janeiro, em Grussaí, numa pousada, fui confundido com o marido da moça que estava na minha frente.

    A gente ia pegar uma ficha, sei lá, para fazer o quê, não lembro, e a moça da frente, talvez por uma casualidade do destino, estava com uma camiseta verde — eu também estava de verde.

    — Agora pode vir o casal — disse a atendente.

    — Casal? Ele — ele, no caso, era eu — não é meu marido. Meu marido está no quarto, dormindo.

    Eu quis rir, mas achei melhor deixar para rir depois.

    A última vez foi ontem, quando fui à rodoviária, quando fui comprar uma passagem para o Rio de Janeiro, para uma viagem a trabalho estendida para passeio, quando o atendente, com meu RG e tudo, mesmo digitando o CPF corretamente, inventou que meu sobrenome não era Pereira, era Ferreira.

    Tentei mudar, mas o rapaz disse que o sistema não deixa mudar.

    — E eu deixo? — argumentei.

    Ele disse que eu não tinha problema, que o importante era o número do CPF, que, infelizmente, o jeito era viajar como Ferreira mesmo. Paciência.

    Aviso aos navegantes: eu adoro ser Leandro. Nunca quis ter outro nome. Até se voltasse em uma reencarnação, eu ia querer ser eu mesmo.

    Agora, se um desavisado me confundir com esse tal Ferreira e vier depositar um milhão de reais na minha conta, vou jurar, de pé junto, que sou o Ferreira. Fiquem avisados. Não devolvo. E pronto.

  • O mar é logo ali

    Na semana passada, fui ao Rio de Janeiro para o lançamento do livro “A reinvenção da metáfora: as bodas de Rogério Salgado”, publicado pela Ventura Editora, com organização do poeta Luiz Otávio Oliani, e que tive o orgulho de apresentar na orelha.

    Enquanto estive no Rio, uma frase não saía do meu pensamento: “Poxa vida, o mar está tão perto, é logo ali.” O carioca vive tão perto do mar que, às vezes, parece fingir que não se dá conta, fingir que não liga, fingir que desdenha. Mas é tudo aparência.

    O mar, no Rio, é uma espécie de arranjador, um maestro que comanda a música que toma conta da cidade. Onde quer que você esteja, é o mar quem dita o ritmo.

    Ao andar pelo Rio, tenho sempre a sensação de que as pessoas estão, de alguma forma, sempre prontas para pegar uma praia. Se você duvida, eu te provo.

    Basta reparar — você, que mora longe da praia — como tudo é diferente em lugares como Belo Horizonte, onde eu moro. Quem vive longe do mar passa a vida vestido, e acha que precisa escolher roupa para tudo. O carioca, não. Porque o mar está logo ali.

    Percebi isso quando fui curtir a noite numa boate de Copacabana, na Rua Raul Pompéia. Na farra, o carioca raiz não liga para roupa: se quiser ir de jeans, camiseta e pochete, ele vai; se a mulher quiser ir com um conjunto monocromático, ou com um vestido, ela vai também. Maquiada ou de cara limpa, com batom ou sem batom — tanto faz. O mar está a poucos metros dali.

    Se quiser sair de madrugada da boate e pular no mar, pula. Antes do café da manhã, pula também. Por ser uma cidade com mar, o Rio está sempre mais interessado em tirar a sua roupa do que em te ver vestido. Você me entende.

    A vida na praia é diferente da vida longe dela, e, mesmo quando não é, ainda assim você vive envolvido por essa música invisível do mar.

    Se você conhece São Paulo, sabe que, em algumas casas noturnas, você não entra de bermuda. Assim que a recepcionista percebe o turista desavisado, logo aparece um ambulante oferecendo uma calça para alugar, com maquininha de cartão e Pix.

    Se você se senta numa lanchonete usando boné, é provável que alguém peça para você tirar. No Rio, isso seria impensável.

    Sou mineiro. Moro em Belo Horizonte. Estou acostumado à calça comprida, a ficar vestido o tempo todo, a escolher a melhor roupa para cada ocasião, a combinar cores, a tentar parecer mais bonito, ou até a aparentar uma condição social melhor do que realmente tenho. Quem é mineiro sabe.

    O carioca, não. Usa bermuda para quase tudo: ir à praia, ao banco, ao mercado. Só coloca calça quando realmente precisa: museu, missa, casamento, show, concerto. De resto, roupa de calor, só se for leve.

    Um executivo carioca faz cooper em Ipanema de bermuda, tênis, e sem camisa. A mulher carioca, quando sai da praia, coloca um short por cima do biquíni e uma camiseta para entrar numa loja ou num restaurante.

    Quer reconhecer um estrangeiro em Ipanema? Olhe o Posto 9: é o cara de bermuda, camisa com a manga dobrada, e tênis. A estrangeira é a que veste uma bata por cima do biquíni, usa um chapéu Panamá, e óculos escuros.

    Tudo isso porque o mar é o maestro. Criou a música silenciosa que envolve o Rio, e a coreografia que encanta meus olhos de cronista.

    Mas eu fui mesmo para o lançamento da antologia dos melhores poemas de Rogério Salgado. Fui comemorar os 50 anos desse poeta mineiro radicado no Rio — e aproveitei para bater perna, confesso.

    No evento, na Lapa, pouca gente emperequetada além do necessário. Homens de bermuda, chapéu, camiseta floral, jeans, tênis. É impossível não notar o quanto o mar influenciava tudo aquilo: era uma música silenciosa, um poema, uma liberdade.

    Nem todo carioca gosta de mar, eu sei, mas, no fundo, eles sabem que é o mar quem manda — e nós obedecemos.

    Mesmo quem está no Rio só a passeio acaba entrando na atmosfera carioca. Ganha, sem perceber, uma pequena alminha carioca.

    Com o tempo, você passa a achar uma Havaiana mais charmosa que qualquer tênis caro; anda sem camisa; toma sol; percebe que cada corpo é único, quando está à vontade. O executivo troca o terno pela bermuda; a turista descobre que só precisa de um vestido para tudo.

    Quanto mais tempo você passa no Rio, mais carioca você fica. Gosta de mate, de biscoito Globo, de sorvete de pistache, de samba. Aprende as delícias de andar descalço, de entrar no mar, de esquecer da vida.

    Por isso, estou sempre arrumando uma desculpa para fugir para o Rio. Porque, ali, o mar está sempre por perto — e, acredite, isso faz toda a diferença.

  • O mundo nunca será só virtual

    Quando inventaram o DVD, mataram o VHS.

    Pelo menos era essa a intenção — empurrar todo mundo para o novo aparelho brilhando no rack da sala.

    Depois o vinil virou CD. O CD virou arquivo. O arquivo virou link perdido no YouTube, no Spotify e em mais uma dúzia de plataformas que juram guardar toda a música do mundo, mas nunca têm aquela faixa que você procura.

    O cinema, coitado, saiu da tela grande para cair no streaming. Cada filme numa prateleira diferente. Uma assinatura pra cá, outra pra lá. E a gente gastando mais pra assistir em casa do que gastava no multiplex.

    Mas sabe de uma coisa?

    O mundo não topa ser só virtual.

    O dono da mercearia aqui do bairro — esse mesmo que pesa o tomate olhando para o céu — tem um clube do vinil. A turma combina tudo pelo WhatsApp e aparece uma vez por mês, com LPs debaixo do braço. A cena é tão resistente quanto o café passado no coador de pano.

    Moro em Belo Horizonte. Em Minas, sabe como é: o passado gosta de passear devagar. Nos sebos do Maleta, meninos e meninas folheiam discos como quem acaricia um gato. Um por um. Com aquele coraçãozinho retrô batendo no peito.

    Na Galeria do Othon ainda vendem vitrolas antigas. Aparelhos de DVD. Toca-fitas.

    Raridades? Sim.

    Extintas? Nunca.

    Quando a internet chegou, decretaram a morte do livro físico. Kindle seria o caixão elegante do papel. Pois bem: entro numa livraria e ela continua lá, firme, vendendo páginas de verdade. O que mudou foi o alcance — se não acho o livro na esquina, compro em qualquer canto do planeta.

    Se o PDF virasse moda definitiva, aí sim os sebos fechariam as portas. Mas basta uma visita rápida pra ver que o papel resiste mais que muito casamento.

    E, no meio disso tudo, descobri uma BH dentro da outra. Um Brasil dentro do outro. Camadas de vida: umas analógicas, outras digitais. Nenhuma se exclui.

    Eu mesmo. Prefiro a passagem comprada pelo celular a enfrentar fila de guichê. Prefiro receber meu pagamento por pix a encarar uma segunda-feira no banco.

    Mas ainda prefiro chope com amigo a conversa por WhatsApp. Livro no parque a tablet refletindo o sol. Filme clássico achado por acaso a caça desesperada no streaming.

    Ninguém existe sozinho.

    Ninguém existe só no on-line.

    Nem só no off-line.

    Há vários jeitos de viver dentro do mundo — uns do passado, outros do presente.

    E, sinceramente, não tem por que não ser tudo junto.

  • No fim sempre dá certo

    Engraçado: sou fã de carteirinha de muita gente séria e focada que vejo pelas ruas. Parece que, de tão preocupadas, vão resolver o problema da humanidade, todas as injustiças do mundo. Gente que não se distrai nunca, não perde tempo, não olha pro lado.

    Queria ser assim, mas não sou.

    Estou mais preocupado, claro, com coisas que se passam dentro de mim: uma música que ouvi e não me saiu da cabeça, uma piada que me faz rir sozinho na rua, uma saudade de um amor que passou, um filme que eu vi.

    Aí, naturalmente, quando saio de casa, não me lembro se minha ideia era ir no açougue ou no hortifruti do bairro. Se era pra comprar pão ou alpiste do passarinho.

    Outras coisas que, invariavelmente, eu esqueço: horários de compromisso, datas, aniversários — a vida organizada dos outros.

    Mas, quer saber?

    Acaba dando tudo muito certo.

    Se eu deixo passar a data de um concurso, as inscrições são prorrogadas.

    “Você viu que as inscrições foram prorrogadaa?” — me avisa um amigo.

    Se eu perco o horário de um ônibus, um conhecido passa e me dá carona. Se eu perco um documento de RG, alguém acha e me liga.

    Acho que, de certa forma, o acaso gosta dos distraídos. Vive dando uma forcinha, arrumando um atalho, uma saída de emergência qualquer.

    Como aquele motorista de ônibus que, solidário com a minha pressa, desviou a rota só pra me deixar no trabalho. Ele disse que não podia. Mas fez.

    Acho que o mundo tem pena dos distraídos. Ou, quem sabe, simpatia.

    O mundo está cheio de gente certinha demais, preto no branco demais. Talvez seja por isso que ele ajuda tanto gente distraída como eu.

    Que sai pra comprar pão. E volta com saudade.

  • Empadinhas de camarão

    O destino é meio brincalhão, vive tirando uma com a cara da gente — brinca de esconder, ora some completamente, ora se deixa achar de propósito, em todo caso, faz questão de lembrar quem é que dá as cartas.

    Nas últimas semanas, um desejo miúdo me tirava o sossego: uma empada de camarão. O problema é que, apesar de Belo Horizonte ser uma cidade onde se come muito bem, de camarão, propriamente, não tinha.

    Fui ao Biscoitim, ali na Rio de Janeiro, a moça do balcão me atendeu sorrindo:

    — Posso ajudar?
    — Tem empadinha de camarão?
    — Que pena, de camarão, a gente não faz.
    — Nem umazinha só?

    Aceitei, a contragosto, uma de quatro queijos, tomei um café. “A tarde seria azul, não houvesse tantos desejos”, como dizia Drummond. Viver é desejar. E, naquele instante, o que eu mais queria — sem dúvida — era sentir a suculenta se desmanchando na boca, derretendo, única, gloriosa.

    E não importava se estivesse murcha, fria, de ontem, desde que fosse ela, minha obsessão salgada.

    Perguntei num boteco pobre, esquina com a Rua dos Goitacazes, havia quatro empadinhas frias no balcão, olhando pra mim com cara de segunda-feira.

    — Boa tarde.
    — Posso ajudar, amigo?
    — Essa aí… tem empada de camarão?
    — Temos bacon, frango, alho-poró.
    — Não quero outra, só a de camarão.
    — É de hoje de manhã, pode ser?
    — Deixa pra outro dia 
    — respondi.

    Lembrei de Leminski: “Não discuto com o destino, o que pintar, eu assino.” E, naquele dia, a vida, Deus, ou o próprio destino, nenhum deles queria que eu encontrasse o tesouro que eu procurava.

    Belo Horizonte é uma cidade adorável, mas cheia de caprichos, imagine: no meio de tanta empada, não ter justamente a joia de camarão.

    Viver também é aprender a desejar o possível. Talvez, na falta de uma paixão arrebatadora — que é a tentação dourada — eu devesse, quem sabe, dar uma chance às de quatro queijos, frango com catupiri, ou até à de jiló, famosa lá no Ponto da Empada, no Mercado Central.

    Mas não adianta, meu coração não sabe desejar o possível. Poderia até me contentar com outros sabores, eleger uma predileção secundária, mas, mais cedo ou mais tarde, eu acharia a pequena maravilha, e, quando achasse, comeria com calma — e, como já havia decidido, tomaria junto um café fumegante.

    Nessas horas, quando saio com minhas obsessões gustativas, prefiro ir só. Se chamasse alguém, além de enfrentar esse complô injusto da cidade contra minha delícia, ainda teria que aguentar um amigo reclamando atrás de mim. Tudo, menos isso.

    Fui a um dos destinos mais famosos de BH: o Ponto da Empada, dentro do Mercado Central. Entrei pela Avenida Amazonas, fui percorrendo os corredores — aquele labirinto de cheiros, vozes e panelas — até que, de repente, para me distrair da saga, uma moça me ofereceu um copinho de suco de milho verde.

    O suco estava tão bom, mas tão bom, que acalmou minha alma um pouco. Deu até pena — verdade, pena — de quem não mora em Belo Horizonte, e não tem um Mercado Central por perto.

    Cheguei ao Ponto da Empada, e fiquei olhando os fregueses comendo de pé no balcão, um com café, outro com refrigerante, a maioria de olhos fechados, murmurando:

    — Hummm… bom, não é?
    — Ah, acho que vou levar meia dúzia.

    Olhei a lista de sabores, também não tinha.

    — E você, moço?
    — Uma de bacalhau.

    A atendente me deu, e, assim como todo mundo, eu falei:

    — Hummm… bom, não é?

    A empadinha derretia na boca, deslizava macia. Tomei um refrigerante. Falei pro rapaz do caixa:

    — Nossa, é uma maravilha.
    — Eu sou suspeito pra falar
    — respondeu, rindo.

    Pronto. A de bacalhau era minha favorita. Se pudesse, comeria todos os dias, com café, com suco de milho verde, sozinho, acompanhado, tanto faz.

    Fui colocar uma encomenda nos Correios e, ao parar no ponto de ônibus, vi uma lanchonete aberta, na estufa, uma fartura de empadinhas douradas.

    Entrei, olhei pra um lado, olhei pro outro, disfarcei e… olha lá. Olha lá! Quem estava ali? Uma quantidade imensa de empadas de camarão. Ali mesmo, na Rua Goiás, em frente ao ponto de ônibus.

    — Me vê uma empada de camarão aí.
    — Com catupiry ou sem?
    — Sem.
    — Mais alguma coisa?
    — Aquele café quentinho, por favor.

    Justo quando eu não esperava mais. Aí, me lembrei de Guimarães Rosa: “A felicidade se acha é em horinhas de descuido.”

  • De(i)vaga(R)ções sobre o surgimento de um novo líder no Morro(?) do Pau(?) da Bandeira – Sobre falar o óbvio(?)

    Brevíssimas considerações iniciais: Antes de iniciar esse texto, eu peço licença a você (leitor) para que possa fazer uma breve diferenciação semântica entre dois temos. Sei que a pressa dos dias atuais torna essa introdução chata, mas considero que esse movimento inicial pode enriquecer sua leitura. Dito isso, segundo o Dicio, o termo devagar significa: “De maneira lenta; que não possui nem apresenta pressa; vagarosamente”. Já divagar: “Vagar; caminhar sem destino certo: divagava pelas ruas vazias”. Esses não são os únicos significados destes termos, mas, para o intuito desse texto, são os necessários. Dito isso, vamos ao que interessa (?!).

    Na última semana do mês de outubro do ano de 2025, o Brasil teve um grande acontecimento. Para quem está achando que se trata do jogador Vinicius Junior assumindo a influencer Virginia como nova namorada, sinto dizer que você está errado.

    Na verdade, o que realmente causou polêmica, e ajudou a dividir ainda mais o país, foi a chamada megaoperação nos Complexos do Alemão e da Penha na cidade do Rio de Janeiro. Como alguém que gosta de acompanhar a reação das pessoas nas redes sociais, tenho percebido que existem defensores e críticos da operação. Não entrarei nesse detalhe, mas queria chamar atenção para um outro ponto, o aumento astronômico da popularidade do secretário de Polícia Civil Felipe Cury. Será que estamos diante do surgimento de um novo líder?

    Quando penso sobre essa pergunta, minha mente musical leva logo a canção “Zé do Caroço”, composição da incrível Leci Brandão. Quem conhece a letra sabe que nela a compositora se refere ao surgimento de um novo líder. Curiosamente, a primeira lembrança visual que tenho deste samba é do filme “Tropa de Elite 2”. Para quem não se lembra, no filme, quando o líder da milícia em uma comunidade vai receber políticosn para fazer campanha eleitoral, essa é a música que é tocada. Enquanto ela toca, o “dono da localidade” dança com uma pistola em punho escancarando todo o seu poder.

    Agora, precisamos voltar a falar sobre Felipe Cury. Um homem que, na última semana deu declarações como: “O traficante não é vítima da sociedade”, “o traficante outro dia passou a ser vítima do usuário” (Em clara alusão a uma fala recente do presidente Lula), “o policial está sendo tratado como vilão”, dentre muitas outras. Ele chegou até mesmo a levantar a hipótese de que corpos apareceram decapitados por obra dos próprios moradores. No entanto, o que mais assusta é o uso do termo “adolescentes apreendidos” e “bandidos neutralizados”. Assustador, não? (!?!) As falas têm um objetivo claro de desumanizar pessoas. Quando isso acontece, é fácil justificar mortes. A pergunta é, quem serão os próximos a sofrerem desumanização? A lógica do inimigo não possui limites. É ai que mora o grande perigo.

    Todo o ocorrido a que me referi anteriormente, obriga ao exercício esquisito de explicar o óbvio (?). Aliás, em tempos de pós-verdade, eu nem sei mais se é possível falar que essa palavra existe. Infelizmente, o Brasil é um país em que as pessoas não foram preparadas por meio de uma educação crítica, isso gera uma série de problemas facilmente visíveis e perceptíveis hoje em dia. Não ficarei falando sobre esse assunto, mas aproveitarei para comentar sobre outro que é tema deste texto. Antes disso, é preciso deixar algo bem claro.

    Imagino que, depois de falar tudo o que disse até agora, já posso ser rotulado, por alguns, como “defensor de bandidos”. Por isso, quero deixar claro que considero que o combate ao crime organizado deve ser uma das principais prioridades do governo brasileiro atualmente. Também que eu não acho que um traficante seja totalmente uma vítima da sociedade (embora ache que o tráfico nas favelas é diretamente derivado de problemas sociais. Para essa conversa vocês já estão preparados?). Não acho também que o policial é um vilão. Acho a polícia, embora tenha hoje muitos problemas, fundamental para a garantia da segurança. Enfim, são muitas coisas que, apesar de obvias, precisam ser faladas. Apesar de saber que esse exercício é inútil, pois quem quer rotular o fará por puro ato de má-fé.

    Dito isso, precisamos falar sobre Direitos humanos (Tá defendendo? Então leva um bandido pra morar na sua casa!). É muito interessante que, ao contrário dos mortos nos conflitos, essa palavra foi “humanizada”. Quem nunca ouviu alguém dizer: “Daqui a pouco vem o Direitos Humanos aqui pra defender“. Ou seja, além de humanizado, o conceito se tornou uma espécie de Geni que, tal qual a da música, foi feito para apanhar e para se cuspir. A pergunta é, qual o intuito de humanizar ou desumanizar algo? Na prática, pedras são jogadas ou tiros são dados sem que ao menos se dê chance de defesa.

    Aliás, quando se fala em direito de defesa, estamos falando na condição que difere (ou pelo menos deveria diferir) o Estado do poder paralelo. O tráfico não respeita as leis, ele executa por possuir poder. Esse poder, certamente, leva a uma série de injustiças. É por conta dessas injustiças que o Estado Democrático criou um mecanismo que permite a todo mundo se defender antes de sofrer uma pena. Mesmo que alguém seja culpado, é importante que responda dentro dos limites da lei. Se não, o que garante que, no futuro você (cidadão de bem) não pode ser vítima de uma injustiça do estado? Infelizmente, ninguém está alheio a isso.

    É por esse motivo que, às vezes, por mais absurdo que seja, precisamos defender as leis e o Estado Democrático de Direito. Da mesma forma que precisamos combater o crime e valorizar nossos policiais, médicos, enfermeiros, professores e tantas outras profissões dignas. Essa defesa é inegociável e não podemos renunciar a ela.

    Quanto ao personagem inspirador desse texto, vou esperar para ver se ele realmente se tornará uma nova figura política desse país. Agora, recorrendo mais uma vez a um mestre da música brasileira e, especialmente, do samba, acho que é preciso divagar devagarinho (com o perdão da alteração na letra) para que não voltemos a alçar ao posto de heróis figuras que o Brasil (e principalmente os cariocas) já estão cansados de conhecer.

    *As ideias expressas pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem necessariamente o posicionamento do portal Crônicas Cariocas, que preza pela liberdade de expressão e não interfere no conteúdo de seus colaboradores.

  • O homem que não gostava de nada

    Tenho um amigo que não gosta de nada. Comprou um livro, mas não leu porque precisa descansar.
    Descansar do quê? Nem ele mesmo sabe.

    Certo dia, chamei para um cinema.
    — Nossa, cinema é tão chato.
    — Mas é filme do Almodóvar.
    — Pois é. Cor demais, e muita pouca vergonha.

    Veio o carnaval. Sugeri uns bloquinhos.
    — Eu não. Aquele monte de gente.
    — Uai, mas você não gosta de gente?
    — Gosto, mas vou preferir ir pra roça, descansar.
    — Descansar do quê?
    — Ah, sei não. Descansar só.

    Aí veio uma banda de rock, num pub legal, um lugar escondido em BH.
    — E aí, topa?
    — Vai, e depois me conta.
    — Mas você adorava rock.
    — Ah, seria bom, mas roqueiro, em geral, grita muito. E fora o flanelinha, não é? Sempre de olho nas moedinhas da gente.

    Sugeri uma ida para a praia.
    — Mar? Não acho a menor graça.
    — Mas com este calor?
    — Ah, muito sol. Mar é perigoso. Outro dia, vi na televisão que três banhistas…

    Última tentativa.
    — E se a gente saísse pra comer?
    — Onde?
    — Naquele restaurante de sempre.
    — Vixe, estou de dieta.
    — Mas lá tem comida vegetariana.
    — Não é a mesma coisa.
    — Por que não?
    — Porque eu só como carne de hambúrguer e alface, e tem que ser do alface aqui perto de casa, que é mais saudável, nutritivo, e o hambúrguer no mesmo sacolão.

    Não gosta de samba, de sol, de chorinho, de mar, ou de lagoa. Desliguei o telefone, olhei para o garçom, e ele disse:
    — Mais um chopinho?
    — Pode trazer.

    O chope estava absurdamente gelado, e era só o que eu precisava.

  • Quase Real

    A internet é a cama desarrumada do mundo. Ou melhor: o quarto desarrumado do mundo. Dá na mesma, mas eu precisava começar minha crônica de hoje com alguma bobagem. Sinceramente, abrir um site hoje é como entrar na casa de um adolescente: panela suja, meia em cima do roteador e um cheiro indefinido de pizza com desespero. Cada link é uma gaveta aberta; cada anúncio, uma roupa esquecida da ex. E o pior: a gente fica à vontade nesse caos, como se fosse nosso.

    Recentemente, precisei do endereço de um médico antigo, que já tinha saído da clínica onde me consultava, mas, quando percebi, estava navegando por outros mundos: quatro lançamentos de livros que não pretendo ver — porque, se eu for comprar tudo que lançam, e meu Deus, como lançam, num país em que quase ninguém lê, meu orçamento não aguenta. Fora isso, a quantidade de coaches disso ou daquilo é insuportável. Cada página é uma palestra ambulante. Eu só queria um endereço e ganhei uma maratona de autoajuda e promoções que nem pedi.

    Navegar na internet é, muitas vezes, como ir ao supermercado e, no meio das compras, esquecer o item mais importante. É como sair com o guarda-chuva, passar no banco, engatar uma conversa com um estranho e, quando percebe, o guarda-chuva ficou lá, abandonado. Aí você sai molhado. Só que, na internet, o guarda-chuva perdido é a informação que você realmente queria, e a chuva é uma enxurrada de links inúteis, anúncios e distrações.

    Outro dia, abri meu direct do Instagram para ver uma mensagem de um amigo, alguém de quem estava com muita saudade, e me surge uma sugestão de “quem você talvez conheça”: uma ex-namorada. Eu ali, lembrando daquele pé na bunda horrível, dos pitis, dos bate-bocas, relembrando cada detalhe como se fosse replay de novela ruim. Fiquei um tempo atolado na memória até que, gato escaldado, removi a notificação. E pronto: paz de espírito instantânea — pelo menos até o próximo algoritmo me sacanear de novo.

    E quando, no meio de uma crônica, o teclado decide que sabe mais de gramática do que eu e escreve a palavra que eu mais queria errada? Eu reescrevo, ele muda de novo. Tento outra vez; ele insiste. Parece até que o teclado tem personalidade própria — e um prazer especial em me irritar.

    E quando eu vejo, já é de manhã; quando vejo, já é hora de almoçar; quando vejo, anoiteceu. Passou uma semana, duas, um mês, um ano. E eu ali, navegando, como se estivesse dentro de um looping infinito de distrações, com o mundo girando lá fora e eu preso na bagunça do meu próprio quarto virtual.

    Eu me lembro de que, antes da internet, o mundo era pequeno. Tão pequeno que cabia em dois amigos — três, se muito — que ligavam no fim de semana, chamando para um chope. Na falta de um celular na mão, sobrava tempo para bater papo com a moça do bandejão, o passageiro do banco ao lado no ônibus, o sujeito da fila do banco. A gente socializava mais. Afinal, conversas reais alimentavam mais que Wi-Fi.

    Sei que o que eu mais queria mesmo era que alguém desinventasse a internet, que as pessoas voltassem a ter mais conexões entre si do que esse monte de notificações que não servem para nada. Mas não vai dar. O jeito é cada um de nós — eu e você — decidir o papel que a vida real vai ocupar na nossa vida. E, principalmente, aprender a hora certa de silenciar as notificações.

  • Tem gente que é poeta e não sabe

    Estou no ônibus, indo para o centro, um compromisso banal que não vem ao caso agora. O ônibus está vazio. Não é horário de pico. Homens e mulheres, cada um no seu banco.

    Tarde tranquila.

    O ônibus cheira a café velho e plástico. Bancos azuis, gastos, alguns pichados. Todo mundo, de certa forma, parece querer escrever uma frase no ônibus, quer ser lido pelo próximo passageiro.

    Tem gente que cola chiclete no banco.

    Aí vejo duas meninas, bem no banco da frente. Elas conversam e eu presto atenção em cada gesto, em cada risada. De repente, uma delas solta uma frase mais ou menos assim:

    — Sabe o meu namorado? Quando ele começou a namorar comigo, ele não era bonito. Depois, fui conversando com ele e hoje ele é bonito.

    Amigos, tem frases que me pegam de jeito. Ele não era bonito. Era comum, ordinário, anônimo.

    Hoje, depois dela, ele é bonito.

    Ele não era bonito, mas depois de amar e ser amado, ficou. Ela não buscou um homem bonito o bastante para fazer inveja às amigas. Ela gostou de um, namorou com ele e o fez ficar bonito. Abri minha mochila. Peguei a caderneta. Peguei a caneta Bic.

    Anotei: “Tem gente que é poeta e nem sabe disso.”

    Fiquei pensando em quantas sacadas geniais a gente ouve que não têm nada a ver com livros. Gente que nunca pisou em museu, que não lê literatura, que não vai ao cinema, que não é leitora. Então quer dizer que a poesia está fora dos livros?

    Não perguntei o nome da menina, nem o da amiga dela. Mas, de certa forma, jamais a esqueceria. A frase pulsa dentro de mim até hoje. Acho-a excelente, muito bonita.

    Precisava escrevê-la para que não se perdesse por aí.

  • A Velha e o Mosquitão

    Dona Maria costumava se gabar por ser a maior espectadora de televisão do planeta. Havia alguém responsável por lhe conceder esse nobre título? Sim, no caso, ela mesma. Moradora de uma vila de pescadores, tinha uma vida bastante simples. Acordava de manhã, sentava-se em sua poltrona e ligava sua televisão. De lá só saia quando alguém batia em seu portão querendo comprar os sacolés que vendia para as pessoas daquela região.

    Toda essa calmaria ficou abalada quando um dia, enquanto assistia ao seu programa favorito, o plantão telejornalístico interrompeu sua programação com a seguinte notícia.

    — Informamos aos moradores desta cidade que amanhã receberemos a maior invenção deste século, o barco nuclear. Projetado com o tamanho de uma simples embarcação de pesca, ele será capaz de fornecer energia para todas as fábricas da nossa cidade. A crise energética enfim acabou. O equipamento ficará atracado na vila dos pescadores.

    — Por que diabos essa geringonça vai ser colocada aqui para iluminar as fabricas do outro lado da cidade? – indagou a senhora.

    No dia da inauguração, jamais tinham sido vistas tantas pessoas esquisitas naquela localidade. Era uma gente vestida de terno que andava com a cabeça tão levantada que quase alcançava o céu. Foi até estranho para os moradores daquela região verem o prefeito e vários vereadores comparecerem ao vilarejo fora do período eleitoral. Após todos os discursos e pompas, estava inaugurado o gerador de energia.

    Logo depois, começou um zunido infernal naquela localidade. Nenhuma pessoa conseguia mais fazer nada sem ser atormentado por um barulho ensurdecedor em seus ouvidos. Dona Maria já não conseguia mais ver ser programas de televisão. Como uma senhora obstinada, ela não poderia deixar aquela situação permanecer daquele jeito. Pensou logo em bolar um plano.

    Durante dois dias, ficou observando o ir e vir do pessoal que tomava conta daquele mosquitão. Percebeu que, uma vez ao dia, durante a troca de turno, o local ficava sem ninguém de vigia. Essa era a hora perfeita. Então, a Super Senhorinha saiu de sua casa, adotou passos cuidadosos e chegou em frente ao seu objetivo. Agora, precisava saber de onde vinha aquele barulho. Ela não titubeou, com sua perícia de cientista do lar, observou tudo durante algum tempo e percebeu que o som deveria vir de um cabo dentro daquele equipamento. Foi lá e desconectou tudo. Na mesma hora, o barulho parou. Saiu de lá vencedora.

    No dia seguinte, a paz voltava a reinar naquela casa, como era incrível a sensação de poder assistir televisão sem nenhum barulhinho para atrapalhar. Estava nas nuvens. De repente, sua programação voltou a ser interrompida pelo plantão.

    — Informamos que, por motivos ainda desconhecidos, o funcionamento do barco nuclear foi interrompido. A concessionária responsável está tentando adotar todas as medidas para restabelecê-lo o mais rápido possível, mas ainda conseguiu detectar o problema. Sendo assim, é necessário informar que estamos correndo um grande perigo, pois essa interrupção no equipamento por mais de 36 horas poderá causar uma explosão que destruirá nossa cidade. Os desenvolvedores do barco nuclear criaram esse mecanismo para nos proteger contra possíveis ladrões de tecnologia.

    Dona Maria ficou espantada com a notícia, mas sabia que não tinha tempo a perder. Esperou a hora que já conhecia muito bem e lá foi mais uma vez em direção ao mosquitão que tanto desprezava. Como já sabia exatamente o que fazer, não demorou nem 5 minutos. De repente, começou o zunido de novo, todos os funcionários correram para ver o que havia acontecido. Quando olharam para trás, somente viram uma senhora andando vagarosamente. Ela olhou para todos e disse:

    — Tentei voltar a ter paz para assistir meus programas de televisão, esse barulho estava complicando minha vida. Agora, se para ficar viva eu preciso aguentar o barulho desse mosquitão, que ele continue — disse Dona Maria contrariada após restabelecer o zunido muito a contragosto.

  • O Prazer de Desviar

    Não sei quanto a vocês, mas há palavras que me cansam só de ouvir. “Focar”, por exemplo. Palavra querida de coachs e gurus, parece um cabresto moderno: manda olhar sempre na mesma direção, quando é das distrações que a vida se enche de beleza.

    É como se, nos últimos tempos, quiséssemos eliminar do mundo todos os imprevistos: o botão da camisa que arrebenta, o carro que passa veloz numa poça d’água, molhando nossa roupa de lama, o outro que fala alto no ônibus e desconcentra a leitura. A vida, nessas horas, parece mostrar quem manda — que a gente não a controla, apenas se adapta, improvisa.

    Outro dia, num vídeo no YouTube, um psicólogo dizia para o espectador: “Você não pode namorar agora. Está ‘casado com seu mestrado’, tem que renunciar.” O rapaz estava com uma moça, mas era claro para quem assistia que ele estava sem tesão, que a mulher não o empolgava, que o coração não batia. Ele se enganava: “Estou casado com meu mestrado.” Mal sabia que o coração não conhece foco, o tesão menos ainda; é ele quem manda — e as surpresas da vida que dão as cartas.

    E aquela gente que programa as leituras para o próximo ano, para a próxima década, para as outras duas: “Agora, estou focado em ler os contemporâneos, agora, nos clássicos.” E se surgir algo mais interessante? Não pode?

    Tem também a pessoa que decidiu, sei lá por que cargas d’água, que precisa emagrecer. Você a convida para um restaurante novo, quer apresentar um sabor diferente, um vinho, um prato… e ela responde: “Mas agora, estou focada em emagrecer, perder peso, é minha meta do ano.”

    É como se, dentro dela, houvesse um Galvão Bueno gritando: “Foco, campeão! Não perca sua meta, não desista dos seus sonhos, dos seus objetivos.”

    Mas, como disse antes, a vida tem sempre razão. Ela muda, é imprevisível, escapa do nosso controle. Só que também traz surpresas boas. Um amor que surge de repente, a possibilidade de uma viagem, uma torta de chocolate que enche a boca d’água, um cheiro delicioso de café. Nesses momentos, pelo menos eu me permito gritar: “Dane-se esse tal de foco.”

    Um cheiro delicioso de café que a gente sente do outro lado da rua.

    Claro, na vida, precisamos fazer escolhas. “Ou isto ou aquilo”, como naquele poema de Cecília Meireles. Nem sempre dá para fazer tudo; escolher uma coisa é, às vezes, desistir da outra. Mas que saibamos que escolhemos — e, se quisermos, possamos chutar tudo para o alto se um caminho mais interessante surgir. Não precisamos que ninguém buzine no nosso ouvido: “Foco, foco.”

    Fazemos escolhas, sim. Sempre. Mas sempre temos a oportunidade de mudar, de fazer diferente, de deixar o coração querer outra coisa. É essa liberdade que torna a vida tão bonita.

  • Amizade caça jeito

    Alguém já se perguntou como ficam as nossas amizades depois dos 40? Sorry, mas não é a mesma coisa. As pessoas casam, separam, brigam por pensão, focam no trabalho (aliás, o que uma palavra tão feia quanto “focar” está fazendo aqui? Arre!). O tempo para ver os amigos encolhe.

    Foi daí que me veio a frase que batizou esta crônica — “Amizade caça jeito”. Porque, se a vida aperta, a amizade dribla. Dá olé, como no futebol de rua da infância. É preciso inventar um jeito de continuar.

    Dou um exemplo. Tenho um amigo, o Gustavo, especialista em rasgar o calendário. Já saímos para comer pizza numa segunda-feira à noite; brindamos com vinho numa quarta ao entardecer; madrugamos — pasme — às cinco e meia, só para viver a aventura de tomar café num lugar legal e rir depois da ousadia.

    Conheci o Gustavo nos tempos da faculdade de Letras, na PUC Minas. De lá pra cá, nunca nos perdemos. Só que, como disse antes, os horários mudam. Aliás, tudo muda.

    Mas a amizade caça jeito. Inventa brechas onde não parecia haver. Às vezes, em vez de um bar no fim de semana, a gente se encontra na fila do dentista, ou numa praça qualquer para um pastel. Pode ser seis da manhã, antes do trabalho. Pode ser na devolução de um livro na biblioteca. O lugar pouco importa — quem quer um amigo dá seus pulos.

    Se o brasileiro não é especialista no jeitinho, eu não sei quem é. E, se é assim, com a amizade pode ser também.

    Se você experimentar tomar, por exemplo, um café da manhã antes do trabalho, vai ver o que é começar o dia dando uma gargalhada. Se encontrar o amigo por vinte minutos para comer um pastel antes de entrar numa entrevista de emprego, vai perceber como a vida fica mais feliz e menos burocrática.

    E se eu te disser, leitor, que já fui cortar cabelo e fazer a barba no mesmo horário que um amigo? Pois é. Depois de certa idade, a amizade depende de brechas — um encontro rápido, um pastel antes da entrevista, um café roubado da pressa. É preciso dar chance ao inusitado, ao surpreendente.

    Se tem algo que sustenta a vida, é a amizade. Mais até do que namoro ou casamento, são os amigos que não nos deixam envelhecer sozinhos.

  • Vontade de boneca

    Ponto de ônibus lotado. Pedestres, buzinas, barulhos. Um agudo. A criança chora. Largada. Calçada. Penso na fome. Ela dói. O pai embala.

    O choro não passa. O ônibus também não. O choro aumenta. A menina se agita. Estrebucha no ar. O choro aumenta e dói em mim. Olho sem querer olhar. É fome, só pode.

    Tá na hora do ônibus passar.

    O choro insiste em me incomodar e me invade. Alma e ouvidos. Espero que o ônibus não passe. Procuro por alimento. O choro precisa parar.

    Compro achocolatados e biscoitos. Comida de infância, lembrança doce. A menina não dá bola. Chora de perder o fôlego. Seu olhar me encontra. Respiro e ofereço:

    — Ela quer é uma boneca, mas não tenho como comprar. Desabafa o pai.

    Nem todo mundo chora de fome. Ela só quer brincar.

    Lembro quando era criança. E adolescente. E eu. Sem ter como comprar.

    Confiro o preço e a formosura. É uma Barbie. O choro passa. O ônibus também.

  • A VINGANÇA DO LAPTOP**

    *— Quando a tecnologia resolve mostrar quem manda (e vira protagonista da reunião)

    O relógio marcava 14h30 e ele estava numa reunião remota de marketing da Agência Pixel & Café*, com o chefe, as meninas do RH, as estagiárias… e até o Padre Marcelo, convidado para “abençoar” o projeto.

    O computador, num surto de rebeldia, começou a travar: reiniciava sozinho no auge da reunião, desligava sem aviso e exibia um “fantasma” na tela, como aqueles velhos televisores sem controle remoto. A cada “pix!”, a câmera congelava, o áudio estalava. Ele apertava o notebook e xingava baixinho:

    — Mas por que essa porcaria resolveu dar problema JUSTO agora?

    — Que máquina maleducada — brincou a esposa, espiando pela porta.

    — Para de tirar sarro! — retrucou ela, fingindo indignação.

    A mulher folheava o manual, perguntando se ele queria chamar alguém para ajudar. Mas, quando a vontade de rir se tornava incontrolável, corria para o banheiro — deixando o marido ali, brigando com a tecnologia, e voltava com a tensão convertida em gargalhada abafada. Era impagável.

    De repente, ele se transformou numa versão caseira de Leandro Hassum — soltando impropérios com todo o carisma que o estresse do momento permitia:

    — Mas que máquina mais imbecil, não conhece o que é ética, não sabe o que é dar duro por uma empresa. Quando eu puder, o destino dessa porcaria vai ser a lata do lixo.

    Do nada, a reunião voltou. Chefe, RH, estagiárias… e o padre Marcelo ajeitando a batina. 

    — Eu gostaria que todos ligassem a câmera — disse o chefe.

    A câmera decidiu ter vontade própria: apareceu “Permitir câmera?”

    — Mas eu permito, ora essa. Pelo amor de Deus. Que máquina mais desumana, sem coração — resmungou ele.

    Quando a imagem voltou, inclusive do padre, ele clicou, levantou a mão e o chefe liberou a fala:

    — Como eu disse, este projeto vai dar uma alma nova para a empresa, uma chance muito maior de investimentos.

    Aí começou o coro dos microfones:

    — Você precisa ligar o microfone!

    — Tem que ligar o microfone!

    — Tem que liberar o microfone!

    O som virou um coral desafinado. O padre Marcelo, sereno, balançava a cabeça como se rezasse pela alma da tecnologia — e pelo descanso do homem que virou comediante por instinto.

    De repente, ele tirou a camisa, começou a mordê-la, jogoua no chão, pisou nela, gritou, deitouse no chão e esperneou:

    — Máquina mequetrefe, computador patife, sirigaita!

    Então parou para pensar: “O computador era fêmea ou macho? Qual era o sexo do computador? Na boa, o computador é ele ou ela?” Pensou em perguntar isso ao ChatGPT, mas só depois da reunião.

    Afinal, muita gente se refere ao computador como “meu PC”, “minha máquina”. Mas, e aí, o computador é macho ou fêmea? Ele é “ele” ou “ela”? Ou será que é “elu”?

    De repente, ele começou a bradar:

    — Vão todos, em fila organizada, para o inferno! 

    — Vai você, chefe. Com esse terno ridículo de pastor de igreja, esse terno de brechó.  

    — Vai você, sua maluca. Fala mal de todo mundo pelas costas, mas não vai embora porque está dormindo com o chefe.

    E, mais do que a camisa, ele tirou a calça e pisou nela, só de cuecas. Parou. Riu de si mesmo. A câmera estava desligada e, com o microfone com defeito, ninguém o veria nem ouviria. Começou a dançar, a rebolar na frente da câmera, a jogar beijos imaginários para a estagiária da assessoria de imprensa. Um verdadeiro “Conga la conga”. Até que o computador decidiu dar o ar da graça: a câmera ligou de repente. Ele, de cuecas, com o dedo indicador na boca.

    — Estávamos ouvindo. Disse o chefe.

    Ali, mais do que voltar para a reunião, ele queria sumir, desligar o computador, enfiar a cara num buraco. A câmera ligada mostrou o homem congelado — todos boquiabertos, divididos entre a gargalhada e o choque. O chefe pausou a reunião: “Vamos tomar um café rápido.” Na prática, era uma pausa para as risadas, para o fuxico. Depois disso, ele seria o convidado mais esperado no happy hour da firma. Ver um surto tecnológico com final cômico rende boas risadas.

    E ali, na hora do aperto, ele aprendeu: nunca se deve ofender um computador. Ter um laptop como inimigo é a pior coisa que existe. Ele pode se vingar e colocar a gente em situações embaraçosas. Mas, aos olhos alheios, a diversão é garantida.

  • Postei que me amo, mas o Wi-Fi não curtiu

    Sabe aquele dia que a gente acorda meio piegas, sentimental demais, como se tivesse engolido um coach motivacional junto com o café? Se nunca acordou assim, por favor, me indique o remédio, porque eu sou refém dessas crises.

    Pois foi numa segunda-feira dessas que eu acordei cafona demais, abri o Facebook e vi a clássica pergunta: “O que você está pensando?” Sem pensar muito, mandei logo:

    “Eu ando me escolhendo todos os dias, mesmo quando pareço a pior opção.”

    Postei.

    Saí para trabalhar. No ônibus, entre aquela multidão hipnotizada pelo celular, peguei o meu para checar… zero curtidas.

    Z-e-r-o.

    Fui olhar meu perfil, contei uns 500 amigos. Pensei: “Uau! Quinhentos amigos e nenhum tem tempo pra mim?”

    No WhatsApp, mandei a mesma frase para o grupo da família, para uns amigos… No almoço, conferi: muitas setinhas azuis, nenhum comentário. Silêncio sepulcral.

    Tentei o Instagram: “Eu me escolho todos os dias. Mesmo não sendo a melhor opção.”

    Daí um amigo velho conhecido, aquele tipo que adora bancar o engraçadinho, respondeu no privado:

    “Quando você posta que já superou tudo, a gente sabe que você tá fingindo.”

    Poxa, ele me respondeu com meme e tudo.

    Eu, no Uber, voltando pra casa, quase seis da tarde, pensei:

    “Que opções eu tenho, cara pálida? Viver de likes? Não, né?”

    A verdade é que a gente não escolhe muito não. O careca não escolhe ter cabelo igual ao do galã da série. Eu, com a barriguinha de chope, não escolho ouvir todo almoço aquela piada: “Tá esperando bebê?”

    Queria que a barriguinha sumisse por osmose, abdução, qualquer milagre. Mas não rola.

    Então, a saída é fazer as pazes com a careca, a barriga, e os 500 amigos que não curtiram meu post.

    Voltei lá e apaguei a mensagem motivacional. Ninguém viu, ninguém sentiu. Tudo certo.

    Se alguém tivesse curtido, seria outra crônica. Mais bonitinha do que esta.

  • O porteiro que era dono de uma ilha de livros

    No trabalho, ele anotava placas e nomes de pessoas. Na hora do almoço, abria livros.

    Porteiro da Praia do Forte, na Bahia, dono de uma ilha de livros, guardião de entradas e saídas. E, sem que ninguém desconfiasse, dono também de uma ilha de livros.

    Começou quando foi fazer o primeiro ano do fundamental. Analfabeto funcional até os 13 anos, vendedor de geladinho, picolés, ambulante para sobreviver. A professora, comovida, deu para ele a chave da biblioteca. Pegou, folheou livros, se sentiu desafiado — adorou. Não largou nunca mais os livros. Hoje, leu mais de mil obras. Rui Barbosa, Machado de Assis, “Capitães de areia”, de Jorge Amado.

    Ele mora em Barra do Pojuca, litoral norte da Bahia, onde trabalhadores partem rumo aos condomínios de luxo.

    Não deixou de ser porteiro. Quer uma vida simples: café, trabalho, almoço, janta, fim de semana com a mulher — e livros sempre por perto.

    Espia a lista: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado de Assis; “1984”, George Orwell; “Assim falou Zaratustra”, Nietzsche.

    Enquanto muitos trabalham e dormem aos domingos, ele viaja por outros mundos, em épocas e terras distantes.

    Descobriu que ler é viver muitas vidas. E que, ao fechar o livro, as histórias continuam na cabeça dele.

    Muitos imaginam esse porteiro lendo com filho no colo, “O Sítio do Picapau Amarelo”. Ele sorri e cita Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a ninguém o legado da miséria humana”.

     Ele lê por prazer — rir, chorar, viajar.

    Agora, quer estudar e prestar concurso público. Sabe: existe uma vida para viver, e outra para sonhar. Este vai longe.

  • Viver para Contar

    Chegaram à Rua Joana Angélica com uma mala por cabeça e outra, invisível, cheia de expectativas. Um queria o mar. O outro, o cardápio — pediu antes mesmo do check-in. O terceiro viria do Méier de Uber, com o cronômetro interno calibrado no “se a gente se organizar direitinho, dá tempo”. Hospedaram-se num hostel de nome esotérico e cheiro de maresia, onde gringos debatiam futebol em francês e pediam cerveja como quem reza. Os três queriam morrer de prazer — cada um à sua maneira.

    Na primeira manhã, o anfitrião carioca apareceu de bermuda, chinelo e disposição. Levou os dois pra Ipanema. Um mar tão azul que doía nos olhos. Um sol que cobrava taxa pra sair nas fotos. Corpos esculturais — que Ipanema conhece de vista e de assobio. Entre um tibum e outro, cerveja gelada, espetinho de milho, camarão. O faminto saiu perguntando por tropeiro aos ambulantes. Os amigos riram. O vendedor, com paciência beneditina, ofereceu mate, Globo, pastel de camarão e sacolé de caipirinha. Era o que tinha — e era muito.

    Ao longo do fim de semana, o roteiro se repetia: cerveja no bar do hostel, Parque Lage, Mosteiro de São Bento, praia. À noite, mudava o tom — boate em Copa, drinks fluorescentes, drag queens em cena, fumaça nos olhos, Spice Girls na pista, azaração sem CEP. Dormiam um pouco. E de manhã, os dois boêmios puxavam o amigo pra algum passeio: “Vai ter comida, juro.” Cumpriam. Bares na Lapa, cafés na Farme, almoço na Teixeira de Melo.

    Andaram, riram, se perderam no metrô. Dormiam cada dia num horário, comiam o que queriam e quando dava na telha. Na Travessa de Ipanema, segunda-feira de sol, o cronista arrancou um guardanapo da mesa e rabiscou uma frase do Gabo: “Viver para contar.” Decidiu ali que aquilo viraria crônica. Afinal, viveram. E bem.

    O Rio sentiria falta deles. Eles, do Rio.

  • Cachaça, reza e um Papa gente boa

    Naquela segunda-feira chuvosa em Ipanema, o sol tirou folga. Depois de um fim de semana vaidoso, ensolarado e cheio de turistas na areia, ele se recolheu como quem respeita um luto.

    No lugar dele, veio a garoa. Capas de chuva nas calçadas, cangas de folga no armário e um silêncio molhado pairando sobre a cidade. Eu, mineiro de férias no Rio, escrevia umas crônicas no bloco de notas do celular quando veio a notícia: Papa Francisco morreu.

    Fiquei abalado. Abaladíssimo. Nem sou católico — sou do time que entra na igreja pra admirar o forro de madeira —, mas meu amigo é. E com ele, missa é antes do café. Domingo mesmo fomos ao Mosteiro de São Bento, na Praça Mauá. Missa linda. Depois, um café da manhã  na Visconde com Farme.

    Dizer que o céu chorava pode parecer exagero. Mas ali, com meu amigo ao lado e o coração um pouco apertado, chorei debaixo do guarda-chuva.

    Gostava de Francisco como se gosta de uma avó italiana: ele falava com firmeza, ria com os olhos e dava bronca com afeto. Canonizou Irmã Dulce, beatificou Frei Galvão, estendeu a mão pros refugiados, acolheu os gays e soltava frases que viravam camiseta.

    Um dia, disse a um brasileiro: “Vocês não têm salvação. Muita cachaça e pouca reza.” Depois, deu a bênção com seriedade franciscana.

    Talvez nenhum outro Papa tenha entendido tão bem o Brasil. Nosso jeito de rir da desgraça, de rezar e de fazer piada ao mesmo tempo. Francisco era argentino, mas ganhou a alma da gente.

    Ali, naquela manhã nublada de Ipanema, eu não rezei um terço. Mas agradeci em silêncio.

    Obrigado, Papa Francisco.

  • Ficar de repouso

    Desconheço três palavras do nosso idioma que, juntas, formam uma pequena sentença de morte. Em vida. Ela me assombra como uma prisão para maus comportamentos que parecem surgir até de vidas passadas. Um castigo para as travessuras, repouso para mim é inferno na terra e ainda me deixa de mau humor.

    Essa pequena frase que para muitos pode soar com um alívio no caos consegue me tirar totalmente do sério, apesar de serem necessárias, principalmente depois de uma cirurgia delicada que não foi exatamente como esperávamos. Ok. Mas para uma sagitariana com elemento “fogo no rabo” e ascendente em comichão, ficar de repouso é puro castigo. Com a mente inquieta e o corpo curioso, nada me deixa mais mal-humorada quanto não poder fazer qualquer coisa a toda e qualquer hora. Toda bobagem vira uma luta e as pequenas coisas se tornam um desafio de paciência que chegam a me dar nervoso.

    Inocentes vão dizer: aproveite esse tempo para ler e relaxar! Claro! Mas, e aquelas roupas no armário que teimam em se misturarem seguindo uma lógica que não é a minha? E as surpresas pela casa – em obra – que surgem apenas quando estamos por perto e incapacitadas de resolver? Mas, claro, temos uma lista de belos e cultuados filmes que sempre almejamos assistir e precisávamos exatamente desse momento tão reconfortante de repouso absoluto para realizar esse velho sonho. Mais inocência! No primeiro dia até vá, mas nos outros simplesmente perco o bom senso e me inebrio com vídeos de gatinhos e comédias bobas que parecem me acalmar os sentidos e me fazer esquecer o inesquecível: PRECISO FICAR DE REPOUSO.

    Resolvo então colocar o papo em dia. Ligo primeiro para os filhos. 10 minutos com um e quase 3 com o outro. Com o mais velho o papo até engrena, ele conta novidades, destila sua fina ironia e termina com um – Adeus! marcando claramente o seu tempo comigo e mostrando que ele tem – graças a Deus – mais o que fazer. O mais novo já atende com aquela voz entediada mostrando que não estava nem um pouco a fim de falar com a mãe. Tudo bem, tudo bem, tempo, planos, o que vai fazer hoje, te amo e tchau. Me contento com pouco. Pelo menos ainda me amam. Resolvo ligar para uma grande amiga que me pergunta sobre um bazar na nossa cidade. Estico a prosa o máximo que posso e ainda tenho uma outra chance: preciso ligar para minha mãe para mais informações sobre o tal bazar. Meia hora falando com a amiga e uma hora falando com a mãe – nunca pensei que fosse gostar tanto das suas redundâncias – já deu para passar o tempo e acalmar o coração.

    A noite vem e me inebrio com filmes até dormir no sofá. Na cama, lado certo para dormir, tampão protegendo o olho e a inquietude volta. Porque não conseguimos engatar o mesmo sono gostoso que já nos acalentava no sofá? O corpo deveria ter algum dispositivo que nos fizesse apenas mudar de lugar sem nos acordar. O sono continuava intacto e a mente calma não se abriria para novas possibilidades, como guloseimas escondidas espalhadas pela casa – esconderijos estratégico de chocolate para momentos de fúria ou tristeza – que são explorados a revelia apenas pelo fato deu estar em casa achando que tudo me convém. Disparates de gula na madrugada que cobram seu preço quando o repouso acaba.

    Tudo começou com um arsenal secreto para momentos de TPM, iniciativa que julguei ser da mais absoluta utilidade pública, principalmente para a saúde mental do meu marido. Fazia pequenas matulas de bombons e M&M´s e colocava naquele local no fundo do armário da cozinha que a maioria dos homens nem sabe que existe. Mas como toda prática leva a perfeição, comecei a elaborar novos esconderijos, cada vez mais ousados, mas que se mostraram ainda mais eficientes. O óbvio normalmente não é descoberto exatamente por ser óbvio. E me lembrei que havia comprado um pacote daquelas bolinhas mágicas de chocolate ao leite e branco antes da cirurgia. Com muita cautela, fui até o seu esconderijo e me deliciei com algumas tantas delícias vendo o último capítulo de Tieta. Prazeres mundanos que ainda valem à pena.

    No outro dia, mais jornais acumulados, revistas separadas, palavras cruzadas empilhadas ao lado da cama, todos à espera desse momento de paz e repouso. Menos eu. Me decido pelo livro do mês do meu clube de leitura e me deixo levar pela história de uma dona de casa italiana que começa a escrever um diário com os acontecimentos do seu dia a dia no pós segunda guerra mundial. Trivialidades da vida de toda mulher, mas com aquela profundidade que só boas escritoras conseguem imprimir. Enquanto isso, no Instagram, a vida acontece, os eventos transbordam, o sol é para todos e o céu azul me convida para mais. Tudo me aflige e me chama para fora. Leio mensagens de encontro entre amigas, cafés no meio da tarde, calçadas novas para explorar.

    Mas nego, sem dó nem piedade, me privando de tudo e todos para ficar no tal repouso.

    — Não posso fazer nada, doutora?

    — Não, apenas ler e ver televisão. Fica como se fosse uma velha.

    Já me sinto uma. Quase retruco: posso jogar bingo então? Mas prefiro não piorar a minha situação. Apesar de que, conheço algumas velinhas que são mais ativas que muitos jovens que vemos por aí. Idade é mesmo coisa da nossa cabeça. Mas os 50 ainda estão sendo digeridos por mim.

    Aproveita para descansar! Os amigos insistem. Não me sinto com mais tempo para descansar. Apesar de estar adorando algumas regalias que esses dias promovem, como café na cama e a falta de compromisso de dar conta de tudo, conto os minutos para poder fazer tudo que gosto de novo. Esse meio século – bem – vivido parece ter me atropelado, como se ligasse os motores para uma nova era. Os 50 chegaram com tudo e com ele uma sede imensa de mais. Vou descansar dormindo ou na sala de espera do dentista. Quero arte e movimento, expansão e criatividade; quero vida correndo, amor, amigos, filhos, sonhos… Tudo por perto, junto e misturado. Quero sair sem ter hora para voltar – sendo que às 10 já estou dormindo, claro – e emendar um compromisso no outro com sorriso no rosto e vento nos pés. Como o menino maluquinho. Ou uma menina que ainda posso ser.

    E, claro, com muito fogo no rabo!

    Que seja breve o meu repouso.

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