Crônica de terça

  • A burocracia universitária que expulsa e nega o direito de voar

    É difícil ver uma grande oportunidade bater à porta e saber que as chances de dar certo são poucas.

    Digo isso porque o processo de inscrição para a mobilidade acadêmica está aberto na UFBA. Eu sempre soube que, ao concluir minha graduação, gostaria de tentar fazer mestrado no Nordeste — independentemente do estado, contanto que tivesse bolsa. Pois bem, logo na graduação apareceu essa oportunidade. O pior é que eu só a vi no início desta semana e a ignorei de primeira; afinal, não tenho condições financeiras nem rede de apoio para me ajudar a sair do Rio de Janeiro e custear a vida em outro estado.

    Deixo claro que sou beneficiária de auxílios governamentais e de permanência estudantil. É isso que me mantém viva. Sem isso, sou só mais uma pessoa em extrema vulnerabilidade social, empurrada de volta para o mercado de trabalho precário e, muitas vezes, informal. A vida acadêmica foi a minha oportunidade de sair de Belford Roxo para estar na maior universidade do Brasil em termos de ciência e cultura.

    Infelizmente, a atual política de assistência estudantil não permite que você receba bolsas institucionais quando está em mobilidade acadêmica. Os auxílios são suspensos até o retorno, e você ainda precisa enfrentar a burocracia de avisar para que não os cancelem de vez. Esse é o meu medo: ir com uma mão na frente e outra atrás. Eu quero ir pela oportunidade. Sei o quanto isso vai me agregar academicamente e proporcionar enriquecimento sociocultural. Afinal, é a Bahia!

    Abri até uma campanha no Apoia.se, mas, na minha cabeça, poucas pessoas vão querer ou poder ajudar uma moça que faz universidade. É capaz de me mandarem trabalhar, assim como a minha própria família nuclear faz sempre que tem a oportunidade. É frustrante.

    Eu canso de falar que pobre não consegue estudar plenamente. Tem dificuldade de fazer os estágios obrigatórios, de participar de projetos de extensão e de pesquisa porque as atividades acontecem nos horários em que precisam estar trabalhando. Também não consegue ir a congressos da área em outros estados por falta de tempo e de dinheiro, além das passagens muito caras. Eu mesma só consegui ir apresentar um trabalho para o qual fui aceita na Escola de Enfermagem da USP porque pagaram para mim, para que eu não perdesse a oportunidade. E graças ao ID Jovem, claro, que me garantiu ao menos a passagem com 50% de desconto para diminuir as despesas que eu jamais teria como arcar devidamente sozinha. Nós precisamos urgentemente atualizar as políticas de assistência estudantil para esses casos.

    Que oportunidade nós, estudantes da classe trabalhadora, temos de desfrutar de tudo o que a universidade proporciona? Eu não trabalho fora, porque a própria universidade exige que você se dedique exclusivamente para receber as bolsas de pesquisa, ensino e extensão. E convenhamos: R$ 700,00 não é um valor que arque com as grandes despesas de um estudante. Tinha que ser, no mínimo, um salário mínimo para custear a vida do aluno, já que é exigida exclusividade para o ambiente acadêmico. Estudar é direito, mas também é trabalho. Você lê, estuda, produz ciência e conhecimento por meio da pesquisa, contribui para a sociedade por meio da extensão e não recebe o suficiente para subsistir.

    Bolsas de mobilidade acadêmica deveriam existir e se manter, principalmente para os alunos que, assim como eu, não trabalham, dedicam-se integralmente à universidade, estão inscritos no CadÚnico e são inseridos em programas de transferência de renda. Só assim a educação pode realmente mudar vidas. Mas sabemos que isso não é do interesse da burguesia e da classe política que está no poder. Para a direita e os defensores do sistema capitalista neoliberal, a educação seria totalmente privada. Os pobres continuariam exercendo funções servis para que poucos lucrem e encham os bolsos — e, com os bolsos cheios, forneçam redes de apoio para que seus próprios filhos façam mobilidade acadêmica tanto dentro do território brasileiro quanto internacionalmente.

    Eu sou uma mulher negra, periférica e universitária. Por que eu não tenho o direito de ter uma trajetória dentro da universidade que me abra portas e possibilidades?

    Mandei uma mensagem no WhatsApp para o atual vice-diretor do meu curso de Serviço Social pedindo orientações. Espero que ele consiga me responder, porque as inscrições se encerram no dia 30/06 e eu ainda preciso abrir processo no SEI, falar com a COAA e com os setores de mobilidade acadêmica das universidades, ir ao médico pedir atestado de saúde física e mental, além de outras demandas burocráticas que me fazem querer desistir e deixar tudo como está.

    A data final foi prorrogada (era para ter sido encerrada no dia 31/05). Talvez seja um “sinal” do universo? Seria cômico se não fosse desesperador. Também penso na possibilidade de onde vou deixar minhas gatas, no que fazer com meus móveis e, agora, no curso de escritora que estou fazendo na ABL — uma oportunidade incrível para a minha carreira como escritora, mas da qual não conseguirei mais participar se eu for. Fico com o pé atrás de deixar as duas oportunidades passarem. Como será quando eu retornar para o Rio? Cheguei a comprar uma passagem de ônibus para Vitória da Conquista com o ID Jovem 100%. De trezentos e cinquenta e poucos reais, paguei apenas uma taxa de R$ 21,51 para o dia 1º de agosto.

    É uma luta diária e constante. Essa seria uma ótima oportunidade, e eu quero conseguir fazer tudo a tempo, mas realmente não sei se vai dar. É triste viver em uma sociedade que menospreza e acaba perdendo bons estudantes que poderiam garantir mudanças significativas para o mundo.

  • As 7 Palavras de Cristo na Cruz

    A pergunta foi direta como um chute do infalível Bruce Lee em seus melhores dias: por que as últimas 7 palavras de Cristo na cruz? E o poeta, sem querer fazer poesia, respondeu na sua forma sertaneja de ser.

    Mas, afinal, por que “sertaneja”? Simples. O poeta, escritor e dramaturgo premiado no Concurso Nacional Universitário de Peças Teatrais, promovido pelo Serviço Nacional de Teatro do Rio de Janeiro, com a peça “A Cruz da Menina”, nasceu na cidade de Patos, distante pouco mais d 300 km da capital da Parahyba, na mesorregião do Sertão Paraibano.

    Mas, como dizia, a pergunta não poderia ficar parada no ar. O título um tanto estranho, mas bem escolhido como os títulos de um José Cândido de Carvalho, “olha pro céu, Frederico” e “Se eu morrer, telefone para o céu”, entre outros, vocês sabem que assim como eu não era poeta, é esse mesmo: “As 7 palavras de Cristo na Cruz”.

    O Livro, porém, pelo fato de o poeta escolher o soneto para poetar no universo de sua religião, a católica, essa forma de poesia que até parece fácil, dois quartetos e dois tercetos, não se limita apenas ao “tema religioso”. Outros poemas, todos na forma de soneto, nele dispostos, também conservam a mesma técnica e a capacidade poética de encontrar a melhor rima para e a palavra exata para o poema.

    Os sonetos dispostos, intitulados de Gólgotas, enumerados de um a sete, pois, afinal, não fosse assim o titulo não se justificaria, obedecem regiamente a ordem das palavras proferias pelo Cristo na Cruz, onde, por exemplo, mesmo sabendo-se Cristo e inocente perdoava aqueles que o crucificavam. Lembramos, porém, que a ordem das frases pelo Cristo proferida nos sonetos do poeta, variam de acordo com as quem escreveu. No caso do poeta José Mota Victor, os sonetos seguem o que escrevera o evangelista Lucas.

    “… Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!”.

    Era a misericórdia de Deus aos que o mataram.

    Os versos são do soneto “gólgota” primeiro, inspirados no momento em que o Cristo perdoava a ignorância dos que o crucificavam. Sabia o filho de Deus, tinha certeza que eles, os soldados romanos, não estavam sabendo o que faziam naquele momento. E assim, ratificando o que fora pelo mesmo dito em outro momento, segundo, claro, a Bíblia, perdoava os seus inimigos, dava-lhes o outro lado da face para ser esbofeteado.

    E assim o poeta, comprovadamente de origem religiosa, católica por tradição, assim como este malabarista de palavras, inspirado nas últimas palavras de Jesus na cruz, segue mostrando que fazer Sonetos, assim como dissera um dia o Noel Rosa a respeito do samba, não se aprende no colégio.  

    O poeta José Mota Victor, sabe e domina a técnica do soneto como poucos. No soneto “Morfologia do Soneto”, por exemplo, esse também presente no livro, ele deixa claro “Que no soneto e mais que a ode/ Que é poema de tamanho irregular/ No soneto o verso quer aprisionar/O poeta, que esperneia como pode”.

    E sai desfilando poética e harmoniosamente o conceito por todos conhecidos desse que vem a ser um soneto petrarquiano.

    Em seguida, aproveita os tercetos, mostrando o domínio que os bons poetas tem dos versos que escrevem, para concluir:

    “Os dois quartetos e os dois tercetos
    São as belezas formais do Soneto
    Os quartetos são para exposição…
    O núcleo é no primeiro terceto,
    No seguinte se tem o desfecho
    E do poeta requer inspiração…

    O Livro “As 7 palavras de Cristo na cruz” tem o seu forte nos sonetos inspirados por elas, isto é, nas últimas sete palavras do filho de Deus na cruz. São essas, “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem; Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no paraíso!; Mulher ai esta o teu filho!; Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?; Tenho sede!; Está consumado. E Pai, em tuas mãos entregam o meu espírito!”.

     Essas formam o “núcleo” do livro. Outros sonetos, porém, inspirados nas histórias e lembranças do poeta patoense, fazem parte.  Um livro inspirado de um poeta que sabe o que pretende dizer e, poeticamente, diz muito bem o que sabe.

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