Crônicas no Crônicas Cariocas

  • Não se faz omelete sem quebrar os ovos

    Para muitas pessoas, a aproximação do aniversário inaugura o inferno astral, tempo no qual tudo que poderia dar errado, dará. Não sei se acredito nisso, mas fato é que, semanas antes do glorioso dia, tem início, dentro de mim, um misto de desassossego e agonia para decidir: como, onde e quando vou comemorar? Quem vou convidar?

    Penso na roupa que vou vestir, na playlist que vai tocar. Faço, mentalmente, a lista de convidados, mas antes mesmo de resolver se será churrasco ou festa anos 70, começo a pesquisar preço de viagem, roteiros. Quando me dou conta, novamente, escolhi viajar. 

    Os amigos reclamam, eu me cobro, prometo fazer diferente no próximo ano, mas acabo não resistindo à tentação de me jogar no mundo. 

    Quem vê de fora pode pensar que não gosto de estar com os amigos; eu adoro de paixão. Podem achar que na infância não tive festinhas. Enganam-se. Uma das lembranças dessa época é a minha vó cortando quilos de batata para fazer maionese e servir com arroz, pernil e farofa na grande celebração do meu nascimento. Lembro de amar a fase dos preparativos e me divertir muito com o evento.  

    Também não tenho problema para revelar idade nem sou daquelas pessoas que considera o aniversário um dia qualquer.  Para mim, é uma data especialíssima. Me alegra ser lembrada, receber o carinho das pessoas. Só não me animo o suficiente para tocar o projeto festa. Contudo, admiro os festeiros, invejo a facilidade que eles têm de juntar diferentes grupos num mesmo lugar e dar conta de tornar divertido e harmônico.

    Eu não desisti da ideia de fazer um churrasco com pagode, um lanche com karaokê, uma festa flashback, só não será dessa vez. 

    Prometo me programar, e, daqui a três anos, fazer uma grande comemoração para inaugurar os 60 anos. 

    Ainda nem escolhi o tema da festa e já me bateu a vontade de pesquisar sobre aurora boreal. 

    Não tenho culpa, vamos combinar, aquele céu verde neon é sedutor demais…

    De todo jeito, envelhecer é poder assumir, sem muita firula, a pessoa que nos tornamos. E, pelo visto, essa versão atual de mim não curte muito fazer festa. E tudo bem!

    Por sorte, envelhecer também traz uma habilidade para descartar a culpa. Talvez por isso chamem de melhor idade.

  • O menino e o mundo

    Nos idos de 1990, eu era um menino, com tantos sonhos. Nessa época já intuía o modus operandi da vida. Percebia as incumbências de meu pai, sempre muito atrasado para o trabalho, onde sequer às vezes podia tomar um café e era chamado de “cabra”, por seu chefe, por chegar atrasado; o calor do abraço de minha mãe, tão doce, terno, ao mesmo tempo tão frágil, débil. Mas eles brigavam, muito, e isso resvalava em mim, porque era o primogênito, o mais tranquilo e contentor dos acessos de raiva de meu pai. Minha mãe contava comigo para poder freá-lo em seus impulsos transloucados de bebidas e de mundanidades. Eu era, bem dizer, o salvador, que acordava de madrugada para conter as saídas de meu pai, ou mesmo quando queria ir embora de casa. Meu pai era um homem do mundo, esse é o erro, porque minha mãe se casou sabendo disso, e queria mudá-lo, por meio de orações obsessivas. Lembro-me da época em que, enfim, ela conseguiu levar o meu pai a um grupo de orações chamado Shalom. A vida ficou rigidamente religiosa, hipotética para brincadeiras de quaisquer tipos, tudo era coisa do demônio. Não havia espaço, éramos contidos para as coisas do alto, e todos os dias tínhamos de rezar o terço antes de dormir. Veja bem, uma criança ser obrigada a rezar o terço todos os dias! Era assim, ipsis litteris. Meu irmão toda vida dormia antes de acabar a obrigação. Hoje vejo a sandice em que nos metemos. Ainda houve uma época, até por conta dessas grandes convivências e experiências, em que eu queria ser padre – amava, como amo, Jesus, esse não é o mote, e nunca houve questionamento sobre a pessoa de Jesus, um homem justo, fraterno e amoroso. Participava das missas como coroinha e sabia as rezas de cor. Preparava missas fictícias para os garotos da rua virem participar. Eu era uma espécie de menino prodígio, que até as beatas veneravam. Minha mãe dizia que era pecado, mas achava bonitinho e, decerto, apurava o ardor de ter um filho padre. Para ela, parece que era um sonho. Ela era muito beata, portanto, ter um filho padre seria uma bênção. No entanto, minha vocação, como confessei à minha avó, também beata, era de ser “pai”, e não padre. Foi, me lembro, um desgosto para a família. Hoje sou realizado como pai. Tenho um filho de cinco anos, muito esperto e saudável. Então, sobre mim, a memória que tenho é de uma criança quieta e introspectiva, tateando o seu lugar no mundo dos homens. Tinha medo, mas, mais importante, tinha paixões. E hoje movo o meu corpo sedento por mudanças, por encontros, do meu jeitinho, por isso me considero um artista. Sempre apto a amar. Isso não é lugar-comum, palavra ao vento, você pode pensar erroneamente. Amo e busco amar a vida, o próximo, porque preciso ser amado (e o lance é recíproco, pode crer).

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar