Acompanho a minha esposa na fisioterapia. Como vocês sabem, ela fraturou o braço há um mês e está entrando numa fase longa de recuperação. Estou cagado de cansado, de um dia todo de trabalho; peguei um trânsito maldito e estou agora, 18h30min, num tal Ginásio 2 – Pós-operatório, no prédio do plano de saúde. Foi uma correria até chegar aqui. Antes, pegamos uma fila razoável para a marcação inicial. Ela foi chamada minutos depois – não demorou muito. Fico numa salinha ao lado esperando. Tocam (gritam), simultaneamente, a televisão, sintonizada na novela – e que novela ruim, meu Deus do céu –; o “divulgador” das senhas, a todo instante chamando um paciente, “Atenção, fulano de tal, senha de número 883, compareça ao Ginásio 2 – Pós-operatório”; e o celular alto de uma senhora, de seus sessenta anos, muito carrancuda, ouvindo a pregação de um pastor atentado. Procuro relaxar um pouco, fuçando o Instagram, para me dispersar, mas num momento ou outro o fuleiro do pastor berra. É decerto um desses pastores da Nova Era, um pastor treinado para a conversão das pessoas ao Deus dinheiro; um típico pastor coaching – e, como todos sabem, tenho abuso a coaching, com suas receitas milagrosas, doidos para angariar seu rebanho endinheirado. O cabra ainda teve o desplante de chamar Davi bíblico de “um tremendo de um malandro”. Não sei bem quem é Davi, mas sei que um religioso não devia se portar desse jeito. Um bom religioso não deve, a meu ver, se mostrar, deve ser discreto e imbuído das melhores intenções, para salvar as almas perdidas. Como vocês sabem, também, sou autista, nível de suporte um, e por isso tenho meus incômodos com sons variados, tocando ao mesmo tempo, principalmente. A vizinha sentada ao lado esquerdo resolveu ligar para a amiguinha, e está de conversa fiada, falando sobre um tal namorico: besteirol. Ri alto e fala como se estivesse na sala de casa. Levanta e se senta descoordenada, agoniada. Parece que tem algum problema na perna, talvez seja o motivo de estar ali. Não tem o menor constrangimento de falar em sexo no meio de uma sala lotada. Disse que o carinha que estava pegando era brocha, e assim, rindo, cada vez que mencionava o sujeito, o tratava como “o brocha”. É assim que as mulheres fazem nas suas conversas “particulares”? Não creio. Mãe e filho, à frente, conversam sobre estudos, estando o menino hiper-ansioso para passar de ano. Sem querer, escuto histórias que não queria escutar, às vezes se misturam, e viram um aglomerado sonoro insuportável. Haja paciência para a falta de senso das pessoas. Pensando em sair e esperar a minha esposa fora do prédio, ela alivia a minha ansiedade e a minha pressa para fugir e aparece na portinhola. Sai e pega na minha mão, forte. Voltamos ao carro e, logo, seguimos em direção à casa. Mais um dia superado com certa aflição.