Dia Internacional das Mulheres

  • Vênus sob cerco

    Diz-se, desde muito tempo, que somos de Vênus — a deusa romana do amor, da beleza, da fertilidade, da paixão.

    Talvez por isso tenhamos sido educadas, durante séculos, para preservar o vínculo a qualquer custo. Para compreender antes de julgar. Para acolher antes de confrontar. Para duvidar de nós mesmas antes de duvidar do outro.

    Essa disposição para o cuidado, que também é uma das maiores forças da experiência feminina, pode ser manipulada por quem aprende a explorá-la.

    O agressor raramente começa com a violência explícita. Ele começa com pequenas fissuras na realidade: uma frase que não foi dita, um fato que teria sido imaginado, uma lembrança que, segundo ele, está errada. Aos poucos, o chão da mulher vai sendo retirado sob seus próprios pés.

    Quando ela já não confia totalmente na própria memória, na própria percepção, na própria lucidez, torna-se mais fácil aceitar o inaceitável.

    Esse tipo de manipulação tem um nome: gaslighting.

    O termo vem do filme Gaslight (1944), estrelado por Ingrid Bergman. Na história, um marido manipula pequenos acontecimentos do cotidiano para convencer a esposa de que ela está enlouquecendo.

    Entre as formas de violência psicológica contra a mulher estão o isolamento, a vigilância constante, os insultos e essa distorção deliberada da realidade que corrói lentamente o amor-próprio, a autoconfiança e a sanidade psicológica — bases mínimas para uma vida digna.

    A violência nem sempre termina em morte física. Muitas vezes ela opera lentamente, em silêncio, antes de chegar ao seu desfecho mais brutal.

    E talvez seja por isso que o Dia Internacional da Mulher ainda seja menos uma data de comemoração e mais um momento de alerta.

    Segundo estimativas globais da ONU Mulheres, 85.000 mulheres e meninas foram mortas intencionalmente em 2023. Desses homicídios, cerca de 60% — 51.000 casos — foram cometidos por parceiros íntimos ou outros membros da família.

    Isso significa que 140 mulheres e meninas são mortas todos os dias por pessoas do próprio convívio. Em média, uma mulher ou menina assassinada a cada dez minutos.

    No Brasil, os dados mais recentes indicam que 1.492 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024, o equivalente a cerca de quatro assassinatos por dia. Levantamentos divulgados em 2026 apontam que o número pode ter chegado a 1.568 casos em 2025, o maior já registrado desde que o crime foi tipificado no país, em 2015.

    Diante desses números, talvez a pergunta inevitável neste Dia Internacional da Mulher seja: o que exatamente estamos celebrando?

  • Dia Internacional das Mulheres

    Caras amigas, manas, iguais…

    Temos um dia.

    Sim, um dia dedicado a nós. Num mundo dominado pelos homens, isso não é pouco!

    Pouco é o quão precária ainda é nossa rede de apoio. Pouco são os que nos valorizam para ocupar lugares de liderança, chefia, comando. Pouco são os que reconhecem que homens e mulheres merecem o mesmo espaço de fala, de presença, de decisão na vida.

    No entanto, eu me aproprio da homenagem e da data: 8 de março.

    Não faço fila com quem acha que nada temos a festejar. Celebro com as mulheres da minha família, da minha vida acadêmica, do meu trabalho e com todas aquelas com quem divido esta grandiosidade que é a vida.

    Acredito que aprendemos a viver, sobreviver e sobressair neste mundo ainda tão machista.

    Nós, mulheres, temos a sabedoria de aquietar a mente, cultivar o silêncio, exercer o amor próprio.

    Uma pequena pausa — minutos, dias, anos, não importa… Logo renascemos,

    prontas para acreditar, nos reinventar, empreender.

    E para comemorar nosso dia, nada como esta frase de Clarice Lispector:

    “Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”

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