Dois cafés e um canto de bar

  • Dois cafés e um canto de bar

    Engraçado perceber como, com o passar do tempo, o ser humano perde alguns centímetros de altura; não é somente pela coluna que enverga para aqueles que não se exercitam. Mas há um efeito mais profundo da pressão da gravidade no tamanho dos idosos. Há um bom tempo escutei que, se nos medíssemos ao levantarmos pela manhã, após horas na posição horizontal, e depois, no meio do dia, quando já estamos na ativa da vida social, teremos duas alturas distintas. Nunca testei, para ser sincera, apesar da curiosidade latente; pensei em fazê-lo hoje, mas já se vai um tempo relativo desde que me levantei e não encontro nenhum metro à minha disposição no momento. Fakenews da década de 90? Pode até ser. Mas a questão aqui é sobre como tudo em nossa existência é relativo. Vou contar-lhes um pouco sobre o Bochecha.

    De altura mediana – não me recordo se há alguns anos parecera mais alto – um senhor de olhos castanhos, barba feita, uma cabeleira que desafia estatísticas etárias, não totalmente esbranquiçada, e roupas descontraídas caminha pelas ruas da cidade, cumprimentando conhecidos (um número bem significativo, estamos falando sobre uma cidade de interior) e aproveitando a vida na sua fase ‘aposentadoria’. Como todo ser humano que se aproxima da sétima década de vida, tem lá suas manias. A terceira idade é uma libertação, nesse sentido: todo mundo releva as manias de velho de alguns, justamente por estarem… velhos. É quase como as luas femininas, que também vêm e vão com seus próprios ritmos.

    Bochecha, que por definição de um documento primeiro de vida chama-se Antônio, senta quase todos os dias em algum banco da praça principal do centro da cidade, com a ‘galera’ do seu tempo de adolescente. Com os amigos de verdade, toma um café em um bar ali perto. Conversam sobre trivialidades, futebol, política, família e memórias. Isso acontece há um bom tempo e, por isso, é conhecido no estabelecimento.

    Há cerca de um ano ele se prepara para sair de casa como se fosse encontrar alguém especial. Se esmera na escolha da roupa, embora ainda assim não seja nada formal. Há em sua vestimenta e no próprio corpo um luxo de quem se desacostumou à pressa. O sorriso frouxo no rosto é o adorno final que veste, seguindo para o bar. O local que não tem mesas, apenas o balcão com alguns assentos, está quase diariamente vazio entre às 14h30 e 15h45. É então que ele cumprimenta Manoel, o atendente, e se senta em frente à televisão sem volume. Ali, no canto, nem o dono do bar se atreve a iniciar uma prosa, é quase um lugar sagrado na casa. Bochecha pede dois cafezinhos e, mudando as feições como quem se prepara para encarnar um personagem, vai ter com os seus pensamentos.

    Os cafés vêm no copo americano de sempre, aquele líquido preto, com uma colherzinha de inox que descansa como um bicho domesticado e, muitas vezes, não serve para adoçar a bebida, apenas fica ali, uma companhia silenciosa; o vidro do copo é grosso e sua boca enfeitiça: por ela sobe um vapor lento, denso, visível, de aroma que promete um sabor estonteante. Parece alguém que sopra seu hálito quente para uma paisagem de inverno e brinca com a materialização do ar fabricado em seu próprio corpo. Bochecha não percebe pessoas passando pela calçada à sua direita, não sente sequer o cheiro da fritura que borbulha com a produção de salgados destinados à estufa quente da vitrine. Olha para frente, mas não a vê. Olha para dentro.

    Da primeira vez que isso ocorreu, Manoel estranhou. Primeiro, porque Antônio, sempre simpático, chegara com o rosto repleto de dor. Pedira dois cafés, ao invés de um, como quem pede desculpas. Sentara por primeira vez naquele canto apertado do balcão com o corpo mal posto, encaixado torto entre o banco sem encosto e a falta de vontade. A coluna, que antes exacerbava o orgulho de quem está vivo por tanto tempo, era em Bochecha um mero gancho — segurava o corpo pela metade, o resto parecia pendurado em outro lugar, distante, onde a vida ainda fazia algum sentido ou pelo menos fazia barulho. O silêncio ao redor de Antônio é quase palpável nessas ocasiões.

    Desta última vez, ficou por um bom tempo com um dos copos na mão. Despertou do transe de olhar só para a TV e encarou o outro copo. Olhou para os dois copos. Às vezes olhava para o próprio reflexo torto que se desenhava no líquido escuro. Às vezes pro copo do lado, como se ele pudesse responder, sem reflexo. O café já estava frio. Tomou o dele. Segurou o outro copo, sem aproximá-lo de seu corpo. Sorriu. Olhou para Manoel que, vendo o cliente de tanto tempo ali, sorrindo, perguntou:

    — desculpe a intromissão, mas… é que eu fico curioso: por que deixa sempre o segundo café sem tomar? É pro Santo?

    E, com um sorriso só de lábios, sem mostrar os dentes — que não era o seu — , Bochecha respondeu, olhos marejados e o dedo indicador da mão esquerda em riste, apontando para cima:

    — É para o meu amigo.


    O amigo do Bochecha é o meu pai. Esta semana, ao encontrá-lo entre os tapetes de Corpus Christi e ver o tanto de amor genuíno em sua presença, meu coração se alargou. Porque enquanto houver alguém que ainda pede o segundo café, meu pai continuará vivo — nas conversas de quem (ainda) o ama, no gesto repetido, na xícara – ou no copo americano que ele tanto gostava – intacto.

    Obrigada, Antônio.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar