ed è vero

  • Palavras nem tão bonitinhas assim

    Toca, por primeira vez em meus ouvidos, uma canção intrigante: I’m All I Got, de um grupo chamado Dead Brothers. O nome não passa incólume. Há algo ali que cheira a flores murchas, deixadas tempo demais num vaso a mercê de sabe-se-lá-o-quê. Palavras que já foram belas, mas agora exalam um odor agridoce, quase fétido. O conjunto de palavras ressoa, reprisa, ritmada insiste — e me tira por completo da leitura. A melodia dançante também, em contraste quase cruel. Passei a ter o hábito de usar fones de ouvido para ler quando o entorno me entristece — ou quando quero me sintonizar com o presente, totalmente. Sinto-me dentro de uma redoma, protegida. Se ‘todo homem é uma ilha’ – ed è vero –, cada um de nós cria seus próprios mecanismos para embarcar nessa solitude que somos nós mesmos, mesmo quando ela se parte, se afunda, some e sangra.

    Entre páginas de milhares de livros que me circundam, móveis com mais biografia que meus avós, objetos que simbolizam tantas memórias, minhas pernas se cruzam, esticadas, sobre a superfície gentil da escrivaninha. Respiro fundo. Concentro-me, tortuosa, entre letras recém-nascidas de músicas estrangeiras, páginas que exalam palavras traduzidas para meu idioma materno; minhas mãos carregam camadas de esmaltes que se complementam — resquícios de réveillon — escolhidos pelo tom de amarelo e por trazerem “artista” em seu nome de cor. Pequenas combinações concentradas em 8ml, garantia sem devolução de autoestima.

    Só escolho meus esmaltes pelos nomes. Assim como escolho minhas vestimentas pelo que meu coração me nomeia, diariamente. Orgulho-me por não ter um estilo único. Talvez porque estilos fixos também acabem cheirando a flores mortas quando insistimos demais neles. E lá se vão dias úteis neste ano com cheiro de caderno novo. E, ainda assim, tempestades e raios me lembram da promessa que me fiz de não cometer mais os mesmos poemas, nos mesmos versos e estrofes — como quem tenta não repetir feridas já infeccionadas. Pele cicatrizada é cura, não fecho-éclair. É tudo novo, me repito. É página em branco.

    Eis o ponto em que a pele deixa de ser sombra da morte, perde o espanto e se torna rotina.

    “Suportar” e “sobreviver”: dois verbos que carregam duras penas, tão necessárias a nossa existência. Duros e honestos verbos… Como ter uma vida longa sem tais ações? Impossível. O provável é acostumarmo-nos a elas. Torná-las menos pesadas aos sentidos. Abusar, para isso, do lado racional do qual fomos providos. Quem sabe aceitar que algumas palavras nem sempre se perfumam para nos encontrar; vêm fétidas e com mal hálito, para que percebamos o quanto ainda estamos vivos.

    Ao zanzar neste sábado, pela casa que é parte minha e, ao mesmo tempo, reflexo parcial de tantas existências, li um poema que decreta: a garganta fica entre a mente e o coração. Dei-me, assim, de encontrão com as minhas infecções de garganta, quando pequena. Lembrei-me de como sangravam. E de como aquela dor era infinitamente menor do que os sangramentos atuais da mente e do coração.

    “Adultez”, chamar-se-ia isso, fosse um potinho de esmalte. Padecem desse mal todos os abençoados com vidas longas — ou relativamente alargadas. Sentimos. Experimentamos. Falhamos. Nos envaidecemos. Choramos, seja por alegrias ou arrasamentos da alma. Estamos vivos. Existimos. E seguimos colecionando momentos e memórias neste labirinto que traz placas em línguas diversas (traduzirei para vocês):

    SUPORTAR
    ENTRANCE
    INGRESSO
    = ENTRADA

    _
    ———– | <<< >>> [ ] (x) ( )

    _

    SOBREVIVER
    EXIT
    USCITA

    = SAÍDA

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