Faculdade de Direito

  • Herança

    Não há palanque para bobeira. De minha parte, não vou dar cartaz. Lícia tem a mania de aparecer, de se fazer chamativa na internet. Quer ser influenciadora. Mas de quê, meu Deus? Não tem modos. É exagerada. Uma pessoa pobre, insuportavelmente sem intelecto. Não gosta de ler. Já falou que abomina os livros – espero que não diga isso para os seus influenciados – que também não têm nada na cabeça, só pode, para seguir uma pirralha metida a sabichona. É praticamente um dinossauro falante. Uma coisa absurda, que solta fuligem pela boca, para falar, muitas vezes, sobre sexo. Um dia desses assisti a um de seus vídeos. Ele tinha cerca de trezentas mil visualizações. Ela falava sobre o prazer e o gozo, com a espontaneidade de quem tinha anos de experiência. Ela só tem dezenove anos. Até onde pude, proibi. A mãe também é uma desleixada, não cuida da filha como ela merece e precisa. Faz as vontades da pequena guria, para não a ver birrenta pelos cantos da casa. Por último, comprou um celular ultramoderno, desses da Apple, porque ela disse que precisava muito de um material bom (excelente) para fabricar as suas matérias. Além do mais, a pirralha tem um namoradinho baixo-nível, um sujeitinho como ela, com pouca instrução. Quando o conheci, ele teve a decência de pedir a mão da minha filha em namoro, então desarmei. Sentamo-nos para conversar enquanto minha filha se trocava para saírem. Comecei conversando amenidades, depois parti para a guerra em Gaza. Ele não tinha a menor ideia do que seria o Estado de Israel e Gaza; não sabia onde se localizava no mapa; gaguejou ao falar que de fato não sabia o que estava acontecendo. Depois que minha filha saiu do quarto, perguntei a ela se teria alguma noção do que seria a guerra em Gaza. “Ah, pai, lá vem com as perguntas moralistas, para me deixar com vergonha na frente do meu namorado…”. Enfim, enrolou e não falou sobre isso. Para que ela faz vídeo para a internet, se não sabe o que os inocentes passam numa guerra sem sentido? Noutro bendito vídeo, a que assisti pela metade, a menina falava sobre suas maquilagens – algo que domina como ninguém –, e igualmente, como naquele vídeo, tinha uma porção de visualizações. Ela quer mesmo ganhar a vida assim. Deixou a Faculdade de Direito ainda no primeiro ano. Tudo bem, se diz que não tem nada a ver com ela, mas que faça outra faculdade; nem isso ela quer. O namoradinho, Jamal, é cantor de rap. Nada contra, inclusive gosto de Racionais, mas o que ele pode fazer de diferença, se não tem noção do mundo que o rodeia?! São dois bobocas. Minha filha me disse que se baseia em outras influenciadoras. Ou seja, reúne nada com nada na cabeça. Mas é minha filha e eu vou ter de dar um jeito nisso, porque não quero essa exposição tola, essa babaquice como herança.

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