Falou e Disse

  • Coisas

    Dois amigos conversam após a aula de filosofia.

    – Viu que coisa?

    – Vi. Achei a aula coisificante!    

    – Ele não explicou o que disse que ia explicar.   

    – Pois é. O conceito kantiano da…

    – Isso! Da “coisa em si”!    

    – “O que está além da representação, inacessível ao intelecto e aos sentidos”. Esse era o espírito da coisa, mas terminei sem entender bulhufas.

    – Ele poderia ter explorado mais a noção de “coisidade” da coisa. Ou mesmo de alienação, apelando dialeticamente para Marx.

    – Marx?! Não misture as coisas.

    – Sei que o tema é complexo, mas com algum esforço ele talvez conseguisse.  

    – Talvez. A coisa só não foi pior porque ele acabou reconhecendo a falha. Essa foi para mim a melhor coisa da noite: o seu reconhecimento de que não é lá grande coisa.

    – Também não humilhe o homem… Isso é coisa de ressentido.

    – Ressentido coisa nenhuma.

    – Não podemos julgar o professor apenas por esse erro. Cada coisa tem sua medida, não é certo extrapolar.

    – Tá bom. Mas saiba uma coisa: se aquilo se repetir, eu pego uma coisa da sala e jogo nele. 

    – Que coisa?

    – Uma bem pesada, claro.   

    – Tolice. Isso não é coisa que se faça. Ele tem o seu valor.

    – Tinha! Veja como são as coisas: não faz muito tempo ele era o tuxaua, “uma coisa” em termos de filosofia.

    E agora?

    – Mas ele vai se reabilitar. Se há uma coisa certa neste mundo, é que um dia se segue ao outro.

    – Se reabilitar como? Fazendo o quê?

    – Sei lá. Qualquer coisa que nos leve de novo a confiar nele.

    – E qual seria?

    – Aí é que está a coisa: cabe a ele descobrir.

    – Desconfio de que não conseguirá.   

    – Por quê? Você está com má vontade… Pegue suas coisas e vamos embora.

    – Já vou. Mas tem uma coisa: se ele não se reabilitar, vou passar isso na sua cara. Você está defendendo demais aquele coisa-ruim.

    Parece até que há… alguma coisa entre vocês dois.

    – Vamos embora, antes que eu me irrite! Você já não está falando coisa com coisa!

  • Oração pelos peixes

    Sempre me intrigou que na Semana Santa não se pudesse comer carne mas se pudesse comer peixe. A carne dos peixes se exclui dessa restrição, embora nossos irmãos do mar sejam tão animais quanto a vaca ou o carneiro. É uma carne mais saudável do que as outras quanto à qualidade da gordura, mas certamente não foi por isso que a Igreja liberou seu consumo em ocasiões como agora. Naquele tempo ninguém tinha ideia do que era colesterol.

    Como faz bem tanto ao corpo quanto ao espírito, o peixe é comido sem remorso ao longo de todo o ano. Dos animais não nocivos ao homem, ele é certamente aquele para o qual menos se dirige a nossa piedade. Vejo e ouço protestos contra a morte violenta de bois, carneiros, raposas, ursos, mas raramente escuto uma voz contra a matança dos peixes.

    E olhem que a morte deles é uma das mais dolorosas. Ao contrário dos bois ou dos carneiros, que morrem de uma cutelada fulminante e indolor, os peixes se finam aos poucos, em tremores de agonia devido à falta de oxigênio. Matamo-los por necessidade e por lazer – para satisfazer nossas necessidades proteicas e para aliviar as tensões em longas e solitárias pescarias.

    Sabe-se que a ligação do cristianismo com esse animal tem razões históricas e também linguísticas. No tempo em que eram perseguidos, os cristãos usavam para se identificar a frase grega “Iesus Christus Theou Yicus Soter”, que em português significa “Jesus Cristo, de Deus o Filho Salvador”. Algumas letras dessa palavra formam a palavra “ichthyus”, que em grego significa “peixe”. Daí o vínculo com a figura do Redentor.

    O peixe servia mesmo como elemento de identificação entre os que se incluíam na cristandade. Quando dois cristãos se encontravam, um deles desenhava um arco no chão; se o outro fizesse o mesmo formava-se a imagem do animal marinho, e ambos se reconheciam como “irmãos na fé”. O resultado é que ele se tornou o mais importante alimento consumido na Sexta-Feira Santa, dia em que se recorda a morte de Jesus.

    Por ser a única comida animal permitida nesta época, o peixe ocupa um lugar de destaque no bestiário cristão. Seu sacrifício é um pouco como o de Cristo, que morreu para nos servir de alimento espiritual. Curiosamente, nem sempre foi assim. 

    No “Sermão de Santo Antônio ou aos Peixes”, Vieira afirma querer aliviar os peixes “de um desconsolo muito antigo”: o de não estarem, segundo a Lei Eclesiástica, entre os animais que Deus escolheu para serem a ele sacrificados. O motivo dessa exclusão, segundo o jesuíta, é que os peixes só podiam ir ao sacrifício mortos, “…e coisa morta não quer Deus que se lhe ofereça, nem chegue aos seus altares”.

    É claro que há nessa passagem, como em todo o sermão, um sentido alegórico (a alegoria, “representação de uma coisa por outra”, normalmente comporta um valor moral). Vieira finge se referir aos peixes mas na verdade se refere aos homens, pois a “coisa morta” significa o ser humano como pecador.

    Quanto à recusa em levá-los ao altar por irem ao sacrifício mortos, há nisso uma ironia histórica: em respeito às leis da Igreja, hoje só eles se sacrificam. Ou não será sacrifício servir de repasto único, nestes dias, para matar a fome de toda a cristandade?

    O que não deixa de ser curioso é que a imagem do peixe sem vida, em vez de suscitar piedade, sirva para simbolizar o indivíduo sem fé. É uma “injustiça” com o animal que, de início, aparecia como um signo da autêntica vivência cristã.  

    Deixo aos doutos a tarefa de elucidar essa aparente contradição. Por enquanto, limito-me a pedir mais respeito com os peixes. Certamente ficamos indiferentes ao seu sofrimento porque, ao contrário dos outros bichos, eles ao serem mortos não gemem, não berram nem clamam com o olhar. Mas isso não significa que sofram menos.

    Enfim, já que o momento é de piedade cristã, façamos por eles uma prece silenciosa. Nem que seja para agradecer a boa digestão.

  • Fidelidade canina

    O casamento deles andava morno. Os dois fingiam não reconhecer isso, mas chegou um momento em que não dava mais para disfarçar. Foi então que uma noite, depois de jantarem, Clodoaldo falou meio sem jeito para Tâmara:

    – Acho que devemos dar um tempo.

    – Concordo – disse ela prontamente.

    – Amanhã vou dar entrada nos papéis. 

    – Ótimo. – E completou, depois de um breve intervalo: – Não faço questão de muita coisa. Vendemos o apartamento, e você me dá a metade. Fico também com um dos carros, e com Totó.

    – Ah, isso não! Totó é meu.

    – Seu? Por quê? Fui eu que sempre dei comida, limpei o xixi, cuidei dele quando ficou doente.    

    – Mas eu fui quem lhe deu o nome.

    – Um nome, por sinal, originalíssimo! – ironizou Tâmara.

    – E você queria “Brad Pitt”! “Brad Pitt Bull”! Ridículo… Não entende nada de cães.

    – E você não entende nada de mulheres.

    Totó, que cochilava perto dos dois, parece ter percebido que era o assunto da conversa. Baixou uma orelha e eriçou a outra, como se quisesse escutar melhor. 

    – Ou levo Totó comigo, ou não me separo! – sentenciou a mulher. 

    – O mesmo digo eu. Sem Totó, não há separação!

    Ficaram uns dias nisso, chateando-se mutuamente e agora em rixa declarada por causa do cachorro. Então Clodoaldo teve a ideia:

    – Vamos deixar que ele decida.

    – Ele?! Como?

    – Botamos nossas malas na sala e fingimos que vamos sair de casa. Cada um chama Totó. Vamos ver para quem ele se dirige. O vencedor o ganha para sempre.

    Tâmara aprovou. Tinha com o cachorro uma convivência mais íntima do que o marido, que se limitava a levá-lo para passear e fazer as necessidades fora do apartamento. Clodoaldo via nesse encargo seu trunfo; confiava na atração que os machos têm pela liberdade.

    Fizeram como planejado. O cão se habituara a vê-los preparar as malas para viajar. Sabia o que ia ocorrer quando as bagagens ficavam na sala por um, dois dias. Dessa vez estranhou, pois cada um dos donos se postou junto a uma mala e começou a chamar por ele.

    – Aqui, Totó!

    – Não, Totó. Aqui!

    Valia tudo – estalar os dedos, amaciar a voz, dar pancadinhas no chão. Atarantado, o animal não sabia o que fazer. Olhava alternadamente para um e para o outro, ameaçava ir numa direção mas logo recuava.  

    Repetiram mais de uma vez a experiência, e nada. Como o cachorro não se decidia, o casamento ia se mantendo. A cada nova encenação Totó se mostrava mais firme e equidistante. 

    Parecia ter consciência de que a sua fidelidade aos dois era o que ainda os mantinha juntos.

  • A armadilha do lugar-comum

    Língua é como roupa ou sapato – desgasta-se com o uso.  Precisa ser continuamente renovada para não perder o vigor. A tendência dos falantes e escreventes, às vezes por preguiça mental, é lançar mão de clichês e modismos que debilitam a expressão, reproduzindo chavões cuja obviedade torna o texto raquítico e previsível. Usá-los é como se servir de um estoque já pronto, que dispensa o pensamento. Segundo Alcir Pécora, em “Problemas de Redação” (Martins Fontes), eles são “o túmulo do estilo”; evitá-los é condição fundamental para se pensar e escrever bem.   

    É comum alertar os redatores contra o vício das gírias, que na linguagem formal devem ser evitadas, mas por vezes se esquece de adverti-los sobre um inimigo bem mais perigoso e sorrateiro – o lugar-comum. Prevenir-se contra a gíria é fácil. Bem orientado, o redator evitará palavras como “bacana”, “maneiro”, “barato”. Ou construções do tipo “A polícia levou em cana o traficante”, “O presidente não está nem aí para o aumento dos juros”, “A prova foi beleza”.

    Mais difícil é escapar dos clichês. Eles são frequentes, por exemplo, no vocabulário dos comentadores esportivos. Quantas vezes não lemos que um time conseguiu o empate “ao apagar das luzes”? Ou que a contratação de certa pessoa vinha “preencher uma lacuna”, porém a sua atuação “deixou muito a desejar”? Para se “reverter um mau resultado”, é preciso “garra e determinação”. Time que “não faz o dever de casa” pode se deparar com o “fantasma do rebaixamento”. Quem sofre algum tipo de revés não tem outro remédio senão, a duras penas, “correr atrás do prejuízo” (é curioso que, mesmo tendo sido prejudicado, ainda se deva perseguir o prejuízo, e não dele escapar!).   

    A política, com a sua retórica surrada, é outra fonte de lugares-comuns. Uma das marcas dos clichês políticos é tentar compensar a ausência de ações com o uso de palavras ocas, demagogia verbal. Muitos dizem se candidatar por um chamado da “voz rouca das ruas”. Se, eleitos, não fazem mais pelo povo, é por “falta de vontade política” dos correligionários. Quem não promete em campanha um “combate implacável à corrupção”? Se o governo é acusado de não “fazer o dever de casa”, é por “intriga da oposição” (expressão que de tão frágil naquilo que pretende mascarar – a incompetência da situação –, já se incorporou ao anedotário nacional).

    A par dos lugares-comuns, há os modismos. Estes são como uma enxurrada – vêm com força mas, felizmente, logo vão embora. Alguns aparecem no rastro de programas televisivos, como o famigerado “Me poupe!”. Outros se ligam ao ambiente acadêmico, a exemplo do intragável “fazer uma colocação” em vez de simplesmente “manifestar um ponto de vista”.

    Sempre que trato deste assunto, lembro-me do tempo em que fui aluno do escritor Cyro dos Anjos na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A disciplina era Oficina Literária, e o autor de O amanuense Belmiro, Abdias, Montanha e outros bons romances de linhagem machadiana frequentemente nos alertava para o risco das “chapas” – expressões batidas, frases feitas que se tornaram previsíveis e desgastadas pelo uso contínuo.         

    Certa vez Cyro nos entregou uma relação com várias delas. Por exemplo: implacável destino, esposa exemplar, insidiosa moléstia, virtudes imarcescíveis, radiosa manhã, irresistível impulso, olhar glacial, perigoso meliante, nobre colega, vasto repertório, etc. etc. Guardei esse papel, que utilizo para prevenir os alunos contra a armadilha do lugar-comum.

    É preciso fugir deles… como o Diabo da cruz! Como o leitor pode ver, nem sempre é fácil.

  • Beber só

    A expressão “beber socialmente” tem um quê da correção política tão propagada hoje. Designa uma forma civilizada de beber (embora haja algum paradoxo nisso, pois bebemos para fugir à força coercitiva da civilização). Quando alguém diz que bebe socialmente, está querendo dizer que se controla, se policia, enfim, não se deixa dominar pelo “vício”.   

    Mas há outro sentido nessa dimensão social da bebida. Beber socialmente é também (e lá vai o óbvio) não beber só. É aproveitar o ensejo para conversar, rir com os outros, trocar impressões (e sobretudo imprecações) sobre a vida e o mundo. 

    Beber socialmente não exclui a possibilidade de alguém ser alcoólatra, assim como beber só não significa que a pessoa seja viciada. Existem alcoólatras que sempre procuram parceiros com quem beber (e quando não os encontram, se frustram, e bebem com mais intensidade ainda). E existem “bebedores sociais” que vez por outra não querem que ninguém lhes perturbe a comunhão que estabelecem com a bebida.

    Para mim, uma das imagens mais dolorosas da solidão é a de alguém bebendo sozinho. Beber só – sem ter com quem brindar, a quem fazer confidências ou mesmo sobre quem entornar o copo – é pior do que comer ou dormir só. A bebida pede expansão e pressupõe o outro. Está associada aos rituais báquicos, que sempre envolviam muita gente (e às vezes, é verdade, terminavam em agressões e assassinatos). Sozinho se lê, se pensa, se reza – mas não se bebe.

    O onanismo etílico é sinal de que falta à pessoa alguém com quem carnavalizar a vida. Embora ela possa fazer isso solitariamente (no Carnaval existem os blocos do eu-sozinho), nada mais estimulante para subverter as regras do que a presença de outras pessoas. O “indivíduo” é por natureza triste, ordeiro, temente às leis e a Deus. E quando está sóbrio, prefere a reflexão às atitudes que confirmam o instinto. Em grupo ele fica ousado, dribla o superego, deixa emergir a catadupa interior que os diques morais reprimem.

    Tão ruim quanto beber só é beber com alguém que não bebe. Mal comparando, é como fazer sexo com quem sofre de frigidez. A sobriedade do outro soa como uma falta de respeito, uma recusa de sintonia que acaba humilhando uma das partes (a parte que bebe, é claro). Comumente, nessas ocasiões, a parte sóbria assume um ar indulgente à proporção que o outro mergulha em seu delirante torpor.

    O companheiro ideal para um bêbado é outro bêbado. Quando se juntam, um não faz muita questão de entender o interlocutor porque também não está preocupado em se fazer entender. Caso estivesse, teria permanecido lúcido. O importante é que, na língua engrolada em que se expressam, sempre dizem o essencial.

    Existem no entanto aqueles para quem beber sozinho é mais produtivo. Os artistas, por exemplo, e entre esses os escritores. Gente como Vinicius de Moraes, Carlinhos Oliveira ou Paulo Mendes Campos não precisava de ninguém nessas ocasiões. Quando tinham diante de si uma garrafa, estavam em silencioso diálogo com as musas. E com elas faziam intermináveis brindes à eternidade.

  • Lição

    Antes de sair, ouviu as recomendações da mulher: “Não beba muito, não se afaste dos amigos, não entre em bloco de mal-encarados… E sobretudo não se meta com nenhuma periguete” — arrematou ela com um sorriso entre malicioso e repreensivo.

    — Tudo bem… Não vou fazer nada disso.

    Lá fora, a turma o esperava para cair na folia. Etiquetou um beijo nos lábios da mulher e, saltitante, deixou a casa. Com os amigos, sentia-se mais animado. Iriam não se sabia para onde, pois no Carnaval ninguém tem rumo certo. Seguiriam os blocos, parando vez por outra para entrar nos bares. Sempre se encontravam por essa época e aproveitavam para matar as saudades. A turma era de velho conhecidos e havia muito o que lembrar.

    Passou o tempo em que eles se permitiam loucuras numa ocasião como essa, mas ainda assim era bom estar juntos. Divertiam-se falando das estripulias de anos atrás: “O dia em que Pedrinho vestiu calcinha em vez de cueca e mostrou pra rodo o mundo…”; “E quando Lopes, de tão bêbado, entrou no banheiro das mulheres… Lembra?”.

    Ao embalo da conversa, ele começou a esquecer o que a mulher lhe pedira. Bebia além da conta. Também, ela era meio exagerada! Mantinha-o na regra o ano todo. Que custava no Carnaval dar uma relaxada? Pediu outra caipirinha, ao mesmo tempo que recitava para os outros a sua máxima preferida: “A noite é criança”. Nunca entendeu bem a lógica dessa frase, que lhe soava como uma justificativa para os excessos. Era o “carpe diem” dos boêmios, alguma coisa como: “é preciso aproveitar a vida, e a vida está na noite”.

    Vinha um bloco. Ele começou a tamborilar na mesa, depois ficou em pé e se pôs a pular. Não resistia ao apelo da música e dos corpos que se comprimiam dentro do cordão. Tanto é assim que aproveitou o pretexto de ir ao banheiro e se deixou levar pela turba. Aderia à festa com uma inexplicável ânsia de fugir, perder-se, romper as amarras.

    Quando os amigos deram pela sua falta, ele já havia enlaçado uma morena de bustiê e saia curta que pareceu lhe dar bola. Pelo menos foi isso que o atordoamento do álcool o fez supor. Só percebeu que se enganara quando, ao tentar dar um abraço na garota, sentiu nas costas uma pancada aguda. Ao se virar, levou no rosto um soco que o faria cambalear se houvesse espaço para isso. Nunca soube como conseguiu se desvencilhar da massa e voltar à mesa, onde os amigos o esperavam com ar preocupado.  

    — Onde você estava, cara? E o que foi isso no seu rosto? 

    — Nada — respondeu, estranhamente sóbrio. — Um sujeito, em vez de acertar a baqueta no tambor, acertou na minha cara.

    — A gente já estava pensando como ia dizer a Leonor que você sumiu.

    Leonor era a sua mulher. Se ele demorasse mais, certamente teriam tido a ideia de ligar para ela. A mulher ia então querer saber por que ele não seguira suas recomendações. E o diabo é que ela estava com a razão! Passou a mão no rosto, que ainda doía, e pediu mais uma dose. Queria se embriagar de novo, e dessa vez não haveria bloco que o levasse dali.

  • CRISES

    As crises são produtivas e mesmo desejáveis. Precisa-se delas para crescer. Isso é verdade tanto para a História quanto para os indivíduos. Historicamente, a períodos de crise sucedem outros de euforia e progresso (os pós-guerras atestam essa verdade). No que diz respeito às pessoas, há relatos de crises que ensejaram profundas mudanças existenciais.

    O problema é quando elas se tornam frequentes e mesmo viciosas. Há quem se acostume a viver em conflito consigo mesmo e cultive com certa morbidez o mal-estar que isso traz. Para gente assim, os momentos críticos não são estágios para o amadurecimento pessoal; persistem como uma espécie de segunda natureza. 

    Tenho um amigo assim. Sempre que conversamos, ele diz que está insatisfeito com a vida e se preparando para mudanças radicais. Ora pretende largar o emprego, ora se dispõe a deixar a mulher (que nunca deixa, por medo de ficar sozinho). Quando lhe pergunto quais seriam os novos planos, ele não sabe responder. Quer dar uma guinada na vida, mas ignora em que direção.

    As conversas com ele me lembram o adolescente que fui – cheio de dúvidas e temeroso do futuro. Com quem namorar? Que carreira seguir? Que amigos cultivar? Questões como essas não raro me tiravam o sono, mas na adolescência isso é natural. Está-se numa encruzilhada quanto a escolhas que vão repercutir no restante da vida – e sabendo muito pouco do que a vida é. Vivenciar tal paradoxo, convenhamos, precipita qualquer um no torvelinho da crise.     

    Às vezes esse emaranhado de indecisões persiste em estágios posteriores, chegando à idade adulta e se projetando na velhice. Geralmente quem passa por isso diz que ainda não se encontrou (é tão longo esse “ainda”, que faz pensar em “nunca”). Quando enfim se dará esse encontro, para o qual a pessoa parece não estar (ou não ser) preparada?

    Meu amigo fez análise, mas depois de algum tempo desistiu. Espirituoso, me disse que seu problema não é o inconsciente, mas excesso de consciência. Esse diagnóstico pode ser interessante como jogo de palavras, mas encobre um ceticismo que beira a desesperança. Se ele rejeita a análise mas não consegue se livrar do pessimismo renitente, que procure outra alternativa. No limite, mesmo autojuda pode servir – desde que seja com fé.

    Faz dias que não nos vemos, mas sei que ao reencontrá-lo vou me deparar com o mesmo semblante sombrio e as velhas queixas. Ele me falará de suas novas deliberações e me pedirá que opine sobre elas. De que adiantaria opinar? Quem não consegue ouvir a si mesmo não vai querer ouvir os outros. Mas serei complacente quando ele começar, como das outras vezes: “Rapaz, agora é sério! Nunca estive tão mal…”.  

  • Carnaval e Solidão

    “Festa do pecado” – foi com esse tipo de rótulo que o Carnaval, desde cedo, apresentou-se à minha imaginação. Falava-se nele como “festa da carne”, alegria dos baixos instintos, frenesi do demo. Por isso eu sempre o recebi com uma ponta de remorso. Brincar o carnaval era transgredir não sei que piedosas regras, era se comprometer com o inferno. O corpo gozava, mas esse prazer de poucos e efêmeros dias acabava tendo um preço.

    No entanto o Carnaval não é apenas gozo do corpo, prazer dos instintos. Comporta uma outra dimensão, cheia de fantasia e sonho, alimentada pelo dramatismo de paixões que entristecem e dilaceram. Em cada folião ou foliã anônimos, sonhando nas esquinas sombrias com o próximo parceiro, reflete-se a paixão transfigurada de Pierrô, Colombina e Arlequim. Ninguém admite que saia à rua apenas para brincar – pelo contrário: a brincadeira é também esperança de algo maior, transcendente. É o sonho de uma grande paixão, o desespero fantasiado em riso.

    Dos autores que escreveram sobre essa festa, um dos que mais me impressionaram foi João do Rio. Há em suas crônicas e nos seus contos o sentimento do homem dividido entre a alegria e o remorso, e para quem o prazer físico é uma emoção torpe. João do Rio retrata a belle époque, tempo de crise e subversão de valores no qual as contradições, por mínimas que fossem, ganhavam um acento patético. Mesmo descontando-se os exageros da época, ressalta de seus textos, colorida e potencializada pelo impressionismo do estilo, a velha oposição entre carne e espírito, que comumente vem à tona numa época como a de agora. 

    E lá estão, nos textos do carioca, personagens ansiosos por mergulhar na noite, perder-se na devassidão e no abismo de outros corpos. Vão arrependidos, exalando em palavras de autocomiseração e tédio o odor de seus baixos instintos. Até que são punidos por uma espécie de logro que lhes é dado pelo objeto de desejo, que se apresenta horroroso e hediondo.

    Assim, por exemplo, a mulher mascarada e aparentemente linda revela-se, quando lhe arrancam a máscara, doente e disforme. Não é uma Vênus, como parecia; é um aleijão, de cujo nariz jorra pus. Por essa deformação estética, que frustra qualquer possibilidade de satisfação física, corrige-se um desvio ético e revela-se, ao mesmo tempo, o moralismo do autor. O esnobe e homossexual João do Rio, tão criticado pela sociedade da época, não passava de um moralista severo.

    Mas o nosso tempo é outro, bem mais prático e comercial. Longe estamos dos excessos da belle époque. Hoje é o governo que alardeia preocupação com a nossa saúde venérea, incitando-nos ao uso da camisinha. O pecado é não se prevenir, ficar doente, mas não é errado transgredir os limites do corpo. Este parece aberto a todo tipo de prazer. E a virgindade vale muito pouco.  

    Mesmo assim o Carnaval ainda preserva o romantismo de outros tempos. É falsa, mesmo na permissividade da folia, a alegação de que ninguém é de ninguém. Para além do corpo que se oferece, em riso lúbrico e escancarado, sonhamos com alguém que venha e não vá embora. Alguém que fique e nos socorra depois – quando a lembrança do gozo desfeito não for mais que uma evidência de solidão.

  • Corrigindo o Carnaval

    Todos sabem o que é o “politicamente correto” – esse modo de pensar inclusivo, aberto às diferenças e inimigo dos preconceitos. Ele tem se estendido a vários aspectos da sociedade, mas estranhamente deixou de lado o Carnaval. Uma breve pesquisa sobre as músicas carnavalescas, no entanto, mostra o erro de tal omissão É verdade que há algum tempo se tentou banir “Tropicália” e “Cabeleira do Zezé” (a primeira, por acrescentar ao termo “mulata” um tonitruante “ta ta ta ta”; a segunda, por atingir os gays), mas isso ainda é pouco.

    Resolvi então dar meu modesto contributo. Nosso cancioneiro carnavalesco, de fato, tem sido preconceituoso com determinados segmentos cujas escolhas sexuais são pouco ortodoxas. Ou com grupos historicamente injustiçados. Minha contribuição consistirá, por enquanto, numa breve indicação de músicas que devem se acrescentar às duas já mencionadas.

    Comecemos por “Aurora”. Trata-se de uma marchinha aparentemente inócua. Essa impressão muda quando se observam com atenção os versos iniciais: “Se você fosse sincera,/ô ô ô ô Aurora,/ veja só que bom que era,/ô ô ô ô Aurora.” A desconfiança sobre a sinceridade de Aurora reflete uma mentalidade machista. Se não é sincera, Aurora mente, e mentindo lança sobre as pessoas do seu gênero a sombra do ardil e da trapaça. Como não relacionar isso com a mentira que Eva pregou em Adão para que ele, inocentemente, comesse a maçã? Proponho que não se cante nem se dance mais “Aurora”.

    E “Máscara Negra”? Todos conhecem o clássico de Ze Kéti e Pereira Matos. É sem dúvida uma música bonita, mas lamento dizer que não deve mais ser cantada. Se não, vejamos. No finalzinho da letra o “Pierrô” diz à “Colombina”: “Vou beijar-te agora/ não me leve a mal/ hoje é Carnaval.” Perceberam a atitude autoritária e truculenta? Quem pode negar que isso é assédio? Ele se propõe a beijar a mulher sem o seu consentimento e cinicamente pede que ela não o leve a mal (ou seja, tem consciência de que o beijo vai de alguma forma importuná-la). “Máscara negra” deve ficar de fora em respeito à integridade do corpo da mulher, que tem o direito de beijar (e ser beijada) por quem ela queira.

    Acho que se deve incluir também “Jardineira”. Parece de um lirismo inocente, mas não deve mais constar no repertório carnavalesco. Quem não se lembra da letra? Indagada sobre a sua intensa tristeza, a moça responde que o motivo foi uma camélia que caiu do galho e morreu (depois de dar dois suspiros). O emissor diz então à moça que não fique triste porque ela tem o mundo ao seu dispor e (prestem atenção agora!) é muito mais bonita do que a camélia que morreu. Ou seja, ele aceita alegremente a morte da flor, o que mostra pouco respeito pela natureza (e, por extensão, pela ecologia). Desde quando a vida de um vegetal vale mais do que a de um ser humano?

    E “Marcha da Cueca”? A letra é bastante conhecida. Alguém se diz disposto a matar quem roubou sua cueca para fazer pano de prato. Até aí nada grave. Pode-se interpretar o propósito homicida como uma hipérbole; o emissor estaria indignado com quem deu essa inusitada serventia a sua roupa íntima. O grave aparece depois, quando ele confessa que a cueca foi um presente que ganhou… da namorada. Namorada dar cueca de presente? Para fazer isso ela devia desaprovar as roupas de baixo que ele usava. E como conheceu essas roupas?! Essa música constitui um péssimo exemplo para os jovens que namoram com recato e decência.

    Fico por aqui a fim de não aborrecer o leitor. Minhas pesquisas, no entanto, vão continuar (a propósito, acabou de me ocorrer “Pirata da perna de pau”; essa música deve ser banida por desrespeitar os deficientes físicos). Aguardem novas contribuições, pois considero o “politicamente correto” um algoz da intolerância e do preconceito. Ele ainda vai mudar este país.

  • A nota

    O maior risco da interpretação está em o intérprete ver no texto o que ele não tem. A essa prática, dá-se o nome de superinterpretação. Superinterpretar é ir muito além do que está dito. É propor intenções,  sugestões, duplos sentidos onde o que se evidencia não passa muitas vezes de mediocridade semântica. Isso pode ser feito de boa ou de má-fé.

    Um bom exemplo da segunda forma é a correção que certo professor fez ao texto de um estudante que “precisava passar”. O tema da redação era “a amizade”, e o aluno escreveu apenas o seguinte: “Num tô afim de falá disso agora, pô. Tô sem ninguém.”

    O mestre lhe deu 9,5. Convocado à diretoria para se explicar, redigiu o seguinte comentário:

    “O texto é sintético, ou seja, não revela o pecado da verborragia. A economia de meios expressivos se constitui num importante fator de coerência, pois o excesso de palavras não combinaria com a resolução do aluno em não escrever. Essa atitude de recusa, em que se percebe um misto de tédio e rebeldia, determina o minimalismo que orienta toda a redação.

    “Vejamos algumas provas disso. O advérbio ‘não’ é trocado por ‘num’, bem mais incisivo devido à ausência do ditongo. Com um ‘não’ é possível negociar; com um ‘num’ — abusado e peremptório — jamais. Merece também realce a troca de ‘estou’ por ‘tô’, em que a aférese (supressão de fonemas iniciais) reforça a propensão ao tartamudo, ao pontual, ao monossilábico, própria de quem não quer muita conversa.  

    “A seguir vêm duas infrações à norma culta que, no entanto, se tornam funcionais no contexto de rejeição instaurado desde as primeiras linhas. A troca de ‘a fim’ por ‘afim’ (um erro de morfologia) justifica-se pela intenção de condensar o sentido dos homônimos. É como se o valor de finalidade, contido na locução adverbial, se enlaçasse à ideia de afinidade presente no adjetivo, numa espécie de fusão fonossemântica que procura destacar a indisposição afetiva. O aluno parece dizer, com ceticismo: ‘Não estou a fim de um afim’, ou seja, de alguém com quem tenha amizade.

    “A indisposição também explica a forma verbal “falá”, pois a presença do ‘r’ sugeriria uma vibração em nada condizente com o ânimo do autor (de uma exasperada contundência). Tal ânimo se confirma no uso do monossílabo de teor exclamativo que aparece no fim do período: ‘pô’. Esse pô, de natureza coloquial, destaca a função conativa da linguagem e acentua a dramaticidade da negativa.

    “No segundo período repete-se a aférese (Tô), mas agora seguida por uma expressão em português correto (sem ninguém). Nessa parte do texto, de um confessionalismo despojado, o aluno explica suas razões. Percebemos que suas omissões e deslizes se devem a ele estar sozinho e, nesse estado, não ver sentido em escrever sobre a amizade. Compreendemos então que a rebeldia que perpassa o texto foi determinada por razões existenciais, as quais encontraram um correlato perfeito nas escolhas linguísticas. Essa é a explicação para a nota alta que lhe dei.”

    O aluno passou. O professor, claro, perdeu o emprego. Algum tempo depois, foi contratado pelo jornal da situação. Dizem que sua principal função lá é fazer a crítica dos poemas do governador.

  • A palavra mais bonita

    Li há algum tempo uma pesquisa sobre a palavra mais bonita da língua portuguesa. Muitos levaram em conta apenas o conteúdo e responderam “amor”, “ética”, “democracia”, “credibilidade” e semelhantes.

    Essas são palavras nobres, não há dúvida, pois veiculam elevados conceitos ou sentimentos. Mas os responsáveis pela pesquisa estavam mais interessados na forma. Queriam saber das palavras como organismos sonoros ou mesmo visuais. Palavras que tinham uma beleza em si.

    É claro que não se pode abstrair a forma do conteúdo, significante e significado tendem a constituir uma unidade. São como cara e coroa.

    Quando ouvimos uma palavra, automaticamente a vinculamos ao que ela significa. Mas com um pouco de imaginação é possível dissociar esses níveis; fazendo isso, captamos a beleza que elas têm. “Amor”, “ética”, “democracia”, “credibilidade”, convenhamos, são palavras pouco expressivas. Tanto é assim que não as “percebemos”; vamos direto ao que elas significam e nos damos por satisfeitos.

    Mas duvido que você vá direto ao sentido de “crisálida”, “magnólia”, “puerpério”, “sobrancelha” (a preferida de Veríssimo) e outras que retêm a nossa atenção pela densidade sonora. Isso independe do significado.

    “Palustre”, por exemplo, quer dizer “pantanoso”, mas perde o que pode respingar nela de pútrido neste verso de Jorge de Lima: “A garupa da vaca era palustre e bela” (um verso cuja harmonia fônica encantava o meu amigo Antonio Carlos Villaça, de quem o ouvi pela primeira vez).

    A pesquisa de que falei queria palavras bonitas e, com isso, testava a sensibilidade poética dos leitores. A poesia é por excelência o terreno onde impera o significante, a forma. Isso não quer dizer que se pode escrever qualquer coisa desde que soe bem. “Qualquer coisa” nunca soa bem, pois um mínimo de nexo é desejável. No entanto, mesmo desse nexo estamos dispostos a abdicar desde que a mensagem se sustente como forma. “Rosa, sublime contradição. Volúpia de não ser o sono de ninguém debaixo de tantas pálpebras” – esses versos de Rimbaud, que cito de cor, não querem “dizer nada”. Mas como são bonitos, como impressionam poeticamente! E por quê? Porque visualizamos as pálpebras como pétalas (metáfora) e, com isso, aceitamos o sublime paradoxo apontado no início.

    Augusto dos Anjos é um bom exemplo de que, na poesia, a forma conta mais do que o sentido. Muitos dos que o admiram não compreendem seus poemas, mas se impressionam com a melodia áspera de versos como estes: “Produndissimamente hipocondríaco/ Este ambiente me causa repugnância…/ Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia/ que se escapa da boca de um cardíaco.” Parece que quanto menos o “entendem”, mais o amam.

    Considerar as palavras por si (vendo-as ou escutando-as) e procurar atribuir-lhes os sentidos que parecem adequados é um bom exercício para as aulas de criação literária. Os alunos a princípio acham estranho esse processo de desautomatização, mas acabam gostando da brincadeira.

    Afinal, não deixa de ser engraçado descobrir que “jiló” deveria significar “um tipo de lagarta”; “boiola”, um molusco encontrado em água doce; e “erisipela”, uma exótica flor do Oriente.

    E agora, que tal aderir à pesquisa sobre a palavra mais bonita da nossa língua? Pensei em “sussurro”, “beneplácito”, “obnubilado”, mas vou ficar com “escafandro”. Não gostaram? Gosto não se diz, curte-se.

  • Meio sorriso

    Foi num domingo. Andando pela calçadinha da praia, vi duas moças conversando num banco lateral. Ao passar por elas, ouvi uma dizer: “O que não suportei foi aquele meio sorriso.”

    Fiquei intrigado com a expressão. “Meio sorriso”. Não um sorriso inteiro, mas a metade, se é que se pode dividir esse enigmático desenho fisionômico em dois; ele não se confunde com o riso, que é explícito e escancarado. Fiquei me perguntando se hão haveria um pleonasmo em se falar em “meio sorriso”. O sorriso por si já não é algo menor?

    Algo menor porém mais intenso, é verdade, pelo que há nele de introspectivo e superior. Quem sorri fica a meio caminho entre o riso e a seriedade, o que significa dizer que não se abandona de todo à emoção. “Mantém o controle”, por assim dizer, e desse modo pode se posicionar criticamente sobre o objeto de que (ou para o qual) está sorrindo. Talvez tenha sido isso que o tornou insuportável para a moça.  

    Não há como duvidar do que se ri, porém muito se pode especular sobre a causa de um sorriso. Sobretudo quando ele não se completa ou, sob a aparência da incompletude, esconde uma intenção que deixa quem o percebe intrigado.  

    A moça parecia mais ressentida do que raivosa. Não tive tempo de ouvir que atitude ela tomou ao se deparar com o semblante (maldoso, irônico, escarninho?) de quem tanto a aborrecera. Talvez não tenha tomado atitude nenhuma e por isso mesmo esteja agora desabafando com a amiga.

    Pensei em voltar e passar diante delas para ver se captava o resto da conversa. Não haveria nada de feio nisso. Seria, digamos, uma bisbilhotice superior, determinada pelo que eu considerava um enigma linguístico e existencial (tudo que é linguístico toca a existência). Por motivo bem mais comezinho, muitos se intrometem na vida alheia. E não ganham nada com isso, a não ser o prazer de satisfazer uma curiosidade.

    A ideia de voltar não passou de um impulso. Olhei para ver se elas ainda estavam lá; vi que estavam. A que falara no “meio sorriso” explicava (ou tentava explicar) alguma coisa à outra, que se mantinha receptiva e cordial como deve ser uma boa amiga num momento como esse.

    Segui meu caminho pensando nas contradições da vida. “Meio” faz pensar em algo que é e não é. Para os latinos, caracterizava uma postura de equilíbrio e conciliação – a chamada “aurea mediocritas”, ou mediocridade de ouro, que se constituía num ideal de felicidade. Na expressão da garota, contudo, esse termo acrescentava a “sorriso” um valor negativo. Perdia o tom pacífico e conciliador, sugerindo uma pontinha de ressentimento ou menosprezo… Coisas da vida – ou da língua.

    Por via das dúvidas, vou a partir de agora prestar mais atenção a quem sorri para mim. Desse modo vou saber se o gesto é sincero ou se é a metade falsamente radiosa de um lado escuro, que o outro não ousa mostrar.

  • O campeão que Campina perdeu

    É impossível ser brasileiro e não ter passado por um ou mais concursos. O concurso é um resíduo da nossa formação cartorial e burocrática, que desde cedo coloca nossos projetos, nosso prestígio, nosso destino na dependência do Estado. A necessidade de derrubar outras pessoas, característica dos concursos, fomentou o maquievalismo do nosso caráter e deve ter concorrido para o famoso jeitinho brasileiro – que, no início, consistia em descobrir um expediente, uma forma ladina e sobretudo discreta, de conseguir aprovação num concurso.

    Somos marcados pelo estigma da concorrência com os outros, a fim de conseguir um lugar ao sol, e um dos prazeres que muitos aprenderam a desenvolver foi o de – ao contrário dos japoneses, por exemplo – passar os concorrentes para trás não pelo estudo, não pelo mérito, mas pelo apadrinhamento ou pela cola. Nossos programas humorísticos, cuja função é liberar o inconsciente reprimido e, ao mesmo tempo, fazer a catarse dos desejos inconfessáveis, não param de ilustrar esse aspecto do nosso caráter. Através, por exemplo, da mulher boa e bonita que derrota outras eficientes, porém feias. Ou do candidato incompetente que consegue a vaga pela “fila”, pelo parentesco ou pelo favor.

    De uma forma ou de outra, o certo é que ninguém neste país escapa de um concurso. Para o bem ou para o mal. Para o sério ou para o jocoso. O primeiro de que participei, já lá vão mais de quatro décadas, ocorreu no auditório da velha Rádio Borborema, em Campina Grande. Eu tinha, então, menos de um ano. E que a modéstia não me impeça de antecipar que fui, entre vários concorrentes da mesma faixa de idade, o primeiro colocado.

    Havia por esse tempo um programa infantil chamado Clube Papai Noel, comandado por um senhor de nome Heraldo César. Fui várias vezes a esse programa, onde até me apresentei tocando acordeon. Um suplício, sobretudo pelo tamanho do instrumento, que eu a custo carregava até o centro do palco. E ali tocava dispneico, sentado. A família certamente me prognosticava um grande futuro musical, pois além da prosaica e nordestina sanfona fui também obrigado a aprender violino. Entre o regional e o clássico, optei por nada, mas até hoje me fica a nostalgia daquelas notas mal tocadas – e nas quais, por um instante de sonho, vislumbrei um futuro de glória.

    Conta-me a família que, aí pelo início da década de 1950, Heraldo César promovia em seu programa concursos de robustez. Crianças bem-nutridas eram levadas pelos pais vaidosos, que as exibiam como provas de saúde e bons cuidados. Não sei se havia um júri específico ou se todo o auditório votava. Sei que minha mãe costurou uma sunga especial e, num domingo, meu pai me levou a participar do concurso. Havia dezenas de garotos e garotas no palco, cada qual mais risonho e “saudável”. Era um tempo simples e bom, de poucos produtos industrializados, no qual a araruta e a velha Maizena (o rótulo, contrariando a ortografia oficial, se escrevia com “z”) pareciam suficientes para nos deixar sãos e fortes.

    Contam-me que, ao dizerem o meu nome, fui levado para o centro do palco e alçado como um troféu eugênico. Depois me mediram a barriga, os braços, as coxas. Existe uma pequena foto que comprova isso. É um retrato em preto-e-branco, onde sorrio como um bácoro inocente nos braços do meu pai. A fotografia semiapagada atesta que eu merecia ganhar. Aos nove meses, eu tinha a lustrosa redondez de um anjinho barroco.

    Contam-me ainda que não houve suspense na divulgação do resultado. Fui escolhido por aclamação. Ignoro que prêmio me deram ou mesmo se houve algum prêmio além do rótulo de garoto robusto, que não deixou de ser um prólogo irônico à asma que viria depois. Com o “puxado”, destruiu-se a imagem de robustez. Não fosse ele e Campina teria – quem sabe? – dado ao mundo um Mister Universo.

  • Notas de Dezembro

    Minha filha se diz triste na noite de Natal. Informo-lhe que ninguém é alegre ou triste conforme o calendário. Explico-lhe que, por uma espécie de imposição da data, todos “devemos” nos sentir alegres nessa ocasião. Como nem sempre isso acontece, fatalmente confrontamos nosso estado com o que a regra determina – aí sim, acabamos ficando tristes de verdade. Ou seja: entristecemo-nos por não estarmos tão alegres quanto se exige que estejamos. É um típico fenômeno de época, alimentado por uma economia intrínseca ao calendário. E ninguém é alegre ou triste conforme a folhinha – repito-lhe na tentativa de tranquilizá-la.  

    Minha filha agora se diz mais triste por “não ter entendido nada”.

    * * *

    Aconteceu quando eu voltava do Recife, à tardinha, e já estava quase na estação rodoviária. Perto havia um bar, e no bar alguns homens. Um pouco ao lado, deitada entre os homens que bebiam, uma vaca. Ninguém lhe prestava a mínima atenção. Malhada, episcopal, a vaca reinava entre os homens que tentavam esquecer – erma de si mesma, ela já naturalmente esquecida. Talvez por isso ninguém a percebesse. Era apenas mais um espírito evadido, um ser sem angústia nem pressa no manso burburinho do bar.

    Eu me dei conta de que só ali aquela cena era possível. Somente num bar, e com tamanha naturalidade, uma vaca dividiria o espaço com o homem – os dois fazendo quase a mesma coisa. Tentasse o animal entrar numa igreja – por exemplo, na missa de domingo à tarde – e seria enxotado com horror. Esqueceriam o nascimento de Cristo entre cabras, porcos, jumentos, e rechaçariam essa vaca ao vivo. Pois no templo, conforme se vê nos presépios, ela só pode figurar como ícone, adorno, jamais com suas orelhas e seu rabo.

    A imagem desse quadro me ficou, confundida com a gravidade do crepúsculo. A vaca tão solene e tão pura, com o seu olhar desabrochado e líquido. Entre homens desocupados e sozinhos, que ali pastavam a vida.

    * * *

    Mais um ano se passa. Meu primeiro e natural impulso é dizer: e eu com isso? Queria ignorar a data, a convenção expressa na folhinha, e atravessar indiferente a passagem de um ano para o outro. Ignorar o tempo, como ele nos ignora. Acordar no novo ano sem ter me despedido do anterior, isto é, sem ter passado pela ingênua solenidade com que, vestidos de branco ou azul, nos postamos à beira de um túmulo invisível, vendo enterrar-se um cadáver feito de pequenas partes de mim, de ti, de nós.

    O ano velho é o rótulo sob o qual alinhamos nossos feitos – tantos deles, em verdade, malfeitos – a fim de proceder a uma espécie de contabilidade filosófica. Através dela buscamos provar que os bons momentos compensaram os maus, e que a vida, no fim das contas, vale mesmo a pena de ser vivida.

    Com filosofia ou não, o certo é que o tempo passa. É melhor não resistir e encarar isso com bom humor. Imaginando, por exemplo, como cada um dos tipos abaixo saúda a chegada do novo ano:

    • o otimista: “Um ano a mais!”
    • o pessimista: “Um ano a menos…”
    • o religioso: “Um ano… Amai!”
    • o niilista: “Um mal a menos.”
    • o agiota: “Um mais ao ano.”
    • o leiloeiro: “Um ano, e quem dá mais?”
    • o condenado: “Um ano, ao menos!…”
    • o asmático: “Um ano. Ar menos.”
    • o indiferente: “Mais ou menos um ano, tanto faz.”
    • o medíocre: “Um ano mais ou menos.”
    • o matemático: “1 ano é + e –”
    • o banqueiro: “Um ano e mais, mais, mais…”
    • o indeciso: “Um ano, a menos que…”
    • o belicista: “Um ano. Armemo-nos!”

              E um proveitoso 2026 para os leitores que tiveram a paciência de chegar até aqui! 

  • Papai Noel de Shopping

    Teoricamente o Natal é uma festa do espírito e deve ser comemorado em tranquilizadora contemplação. As músicas alusivas à data falam de paz e congraçamento familiar. O que se vê na prática, porém, é um frisson aquisitivo que perturba os corações mais desprendidos. O Natal é a apoteose do consumo, a celebração eufórica com que o capitalismo ratifica o seu triunfo. Hoje os sinos de Belém não bimbalham – tilintam, numa espécie de eco ao movimento das caixas registradoras.

              Os defensores do mercado consideram positiva toda essa agitação, alegando que nesta época se geram mais empregos e se injeta mais dinheiro na economia. É um momento em que muitos desempregados arrumam um trabalho temporário em lojas e shoppings, o que lhes diminui a angústia e traz algum alento quanto ao futuro. Muitos dos que se empregam nessas ocasiões terminam contratados, outros recebem a promessa – às vezes ilusória – de uma posterior contratação.

              Enfim, não sou eu que vou brigar com o mercado e sua lógica. Limito-me a acompanhar – preferencialmente pela televisão – todo esse agitado movimento de compra e venda, e a apreciar alguns dos tipos que proliferam nesta época. São tipos curiosos, que se paramentam segundo o figurino adequado à ocasião e fazem o que podem para nos incutir a chamada magia natalina, tão escassa nos dias que correm.

              O mais interessante deles é o Papai Noel de Shopping. Ilude-se quem pensa que para encarnar esse personagem basta vestir uma roupa vermelha e emitir um riso cavo, gorgolejante. É preciso sobretudo ter o que os franceses chamam  “o físico do papel”, que inclui um corpo rotundo  e uma alma forrada de paciência e simpatia. De bonomia, para dizer melhor.   

              Outro dia observei um deles num de nossos shoppings e me decepcionei com a canastrice. Era um sujeito magro, quase esguio, que amplificara o ventre com um disfarce mal feito de algodão. Além disso, demonstrava certa impaciência com as crianças que insistiam em passear com ele pelos corredores atulhados. Queria ser um Papai Noel, mas não tinha saco – não o dos presentes, mas o da alma, que devia ser ampla o bastante para albergar todos aqueles apelos infantis. Estava ali à força, para faturar um dinheirinho e se livrar logo que pudesse. Não funcionou.

              O verdadeiro Papai Noel se esfalfa, sua e não deixa de rir. E continua rindo mesmo quando tem que botar dezenas de pirralhos no colo e posar para outras tantas fotografias.   Seu papel é confirmar o sonho dos meninos e desmentir a evidência de que está ali como um simples garoto-propaganda.

    Sua função é comprovar uma fantasia anacrônica e palerma, demonstrando que de fato existe.

  • De bichos exuviáveis

    O verão e as mulheres. Mestre Rubem Braga tratou longa e exaustivamente do assunto, mas quem seria capaz de esgotá-lo? Renova-se o verão e renovam-se as mulheres, sendo preciso que haja cronistas de fôlego novo para dar conta dessas explosões cíclicas. O que o Braga escreveu é definitivo, como definitivo era o que Camões registrava das navegações portuguesas – mas a época dos descobrimentos passou. Vivemos agora outro verão e nos cumpre assinalar, por dever de um ofício docemente autoimposto, o quadro que se nos depara. Com menos talento, certamente, mas não com menor empenho. E com o Braga em surdina.

    O verão e as mulheres. Para senti-los bem, é preciso imergir numa espécie de quarentena cívica e moral. Ficar de férias da vida ou, mais exatamente, de certa feição dela: a que envolve os ritos de sobriedade e rotina. Remeter-se a uma adolescência que se imaginava enterrada na vala dos compromissos roazes, voltando a existir antes de tudo em corpo. Pois o verão, sendo a mais poética das estações, vive primeiro da forma. É todo um aceno ao prazer. Daí, nele, a prevalência da cor e do tato, medidas de uma apreensão de vida basicamente sensual. O espírito se esvai, langue, e se funde com a carne. Reinstaura-se então a unidade. Na praia somos edênicos, sem pecado e sem culpa, agindo sob o império quase absoluto do sol.

    As mulheres no verão. Ei-las que saem de casa, sós ou aos bandos, como se atendessem a um chamado misterioso. O que as faz procurar a praia? Talvez a simples vaidade de esplender ao sol, afirmar com exuberância os atributos do sexo. Talvez o gosto íntimo, animal, de ativar humores, compensando a estase a que ficam submetidas no inverno e em nossa incipiente, parca primavera. Talvez a necessidade de se ensolarar e mudar de pele, como certos pássaros que precisam renovar periodicamente a plumagem.

    O verão é sensual mas não é pecaminoso; não se confunda viço com vício. Na praia as mulheres se desnudam com adequação. Pois tudo ali é explícito, não havendo o que o sol não ilumine, o mar não lave e o vento não leve. A nudez não tem a explicitude alardeada pelos filmes pornográficos, que embutem na mensagem uma intenção cafajeste. A musa da praia é a antiatriz dos filmes pornôs. Ali a nudez se amplia noutras nudezes, e a ênfase se desloca do indivíduo para o grupo. Fala-se em mulheres, no plural, e não numa certa mulher. Em desejo, abstratamente, não num objeto específico do desejo.

    O verão e as mulheres. Bichos exuviáveis, elas cambiam de pele num processo que percorre todas as gradações do dourado. Uma delas conheço que está na terceira muda e, falando francamente, penso que não deve prosseguir. Deve se recolher, moderar a febricitação interior. Sob pena de arruinar a tez, dando-lhe o aspecto fosco e dessecado que se encontra nas que perderam a medida do sol. Pois esse é o perigo no verão. O ideal seria colocá-la numa redoma térmica ou retirá-la da praia impreterivelmente às dez e quarenta e cinco da manhã – enquanto há tempo.

  • Falsa semelhança

    Eu estava numa loja de departamentos de um dos nossos shoppings, quando uma mulher se dirigiu a mim e fez a pergunta:

    — O senhor é de Jatobá?

    — Como?

    — De Jatobá?…

    — Não senhora.

    Ela riu sem graça:  

    — Pensei que fosse, pois se parece muito com Seu Edmundo da capotaria. Desculpe.

    Deu um suspiro e repetiu para si, perplexa:   

    — Se parece mesmo!

    Ainda pensei em lhe perguntar: “Em que sentido?” — pois há semelhanças e semelhanças. Umas são da fisionomia, outras da compleição, outras dizem respeito ao comportamento.

    Notei que ficou me olhando, desconfiada. Parecia não acreditar que eu não era quem ela queria que eu fosse. Antes de se afastar, ainda exclamou:

    — Puxa! 

    Vendo o seu desapontamento, tive um pouco de pena e até pensei em confirmar suas suspeitas. Não custava mentir para que ela se desse por satisfeita e me deixasse em paz. Há pessoas que não aceitam ser contrariadas nem nos seus enganos. 

    Enquanto eu esperava ser atendido pelo caixa preferencial (triste rótulo), notei que ela se detivera em frente a uma vitrine e furtivamente me observava. Imaginei com preocupação que poderia me abordar de novo.

    Chegada a minha vez, dirigi-me ao atendente sem olhar de lado. Ele me reteve mais tempo do que o necessário, propondo me passar o cartão da loja, que me daria cashback e outras pequenas vantagens. Até estimei essa conversa, que em outro momento me chatearia, pois enquanto me concentrava em recusar o assédio comercial eu me alheava dos olhares da mulher.

    Paguei e me preparei para deixar a loja. Vi que para chegar à porta passaria bem perto dela, que continuava me olhando. Tive receio de que mais uma vez me abordasse e, caso eu continuasse a negar o que me atribuía, me chamasse de mentiroso. Eu não estava com a Certidão de Nascimento nem com outro papel que revelasse o local onde nasci. Quanto à Identidade, ela poderia dizer que era falsa. 

    Antes de deixar a loja, dirigi-lhe um breve cumprimento; afinal, eu involuntariamente tinha frustrado duas de suas expectativas. Mal saí, ouvi atrás de mim uma voz chamar, num tom grave:

    — Edmundo!

    Virei-me, assustado, e o sujeito que falara isso pediu desculpas; confundira-me com alguém.  

    — Tudo bem — eu disse.

    Curiosamente, isso reforçou em mim a desagradável sensação de que um sujeito chamado Edmundo, e residente em Jatobá, se parecia muito comigo. Torço para que seja um homem correto e confeccione bem as suas capotas; que não dê calote nos clientes, não bata na mulher, não agrida os motoristas no trânsito, enfim, não faça nada que o leve a ser procurado pela polícia. A semelhança entre nós representaria para mim um risco.  

    Antes de seguir em frente, olhei meio sem querer para a mulher. Parece que ela não ouvira o pedido de desculpas, pois me fitava com um ar entre aliviado e triunfante. O ser humano procura em tudo um parceiro, um cúmplice, e ela parecia satisfeita por demonstrar que não fora a única a me confundir com outra pessoa.

  • Para além do clichê

    Muito já foi dito sobre a atitude de Gerson de Melo Machado, morto recentemente por uma leoa na capital paraibana. O inusitado do seu gesto, no entanto, faz com que sempre haja algo mais a dizer. Gerson comentava com uma conselheira tutelar que queria ser um domador de feras. Disse-lhe que “ia pegar um avião pra ir pra um safári na África para cuidar dos leões…”. No afã de realizar esse intento, chegou a cortar uma cerca e entrar no trem de pouso de um avião da Gol; as câmeras do aeroporto impediram que o pior acontecesse.

    Filho de mãe esquizofrênica e neto de uma avó com problemas mentais, ele tinha na genética um inimigo. Presa de mais um delírio, encenou o último ato do seu drama (ou tragédia) aqui em João Pessoa. Imaginou que a Bica fosse um circo e se propôs a domar um dos felinos lá existentes. Queria pôr em prática o que durante anos acalentou como um desejo infantil. Numa espécie de transposição entre fantasia e realidade, o domínio sobre os animais seria uma metáfora para a vitória sobre as “feras” que interiormente o consumiam.

    Acabou, sem querer, transformando o Parque Arruda Câmara em local de um espetáculo tenebroso. Os turistas e demais visitantes depararam-se com o que não imaginavam encontrar num lugar dedicado à recreação e à momentânea fuga ao estresse da cidade (mais de uma vez levei lá meus netos, que se encantavam com a fauna e a flora diversificadas).

    Há algum tempo um leão circense arrastou uma criança que se aproximara da jaula e a matou. Falou-se então em negligência dos responsáveis pelo circo, também dos pais, e houve até processo. O dono do empreendimento chegou a sofrer um ataque cardíaco. Agora a situação é outra, pois a vítima se ofereceu à sanha do felino. Leona, como toda fêmea, era ciosa do espaço que lhe cabia guardar – e mal esperou que o invasor tocasse o solo.

    Sabe-se que Gerson adoeceu devido a genética e desamparo. Destituído do poder familiar da mãe, fora impedido de ser adotado – diferentemente do que ocorreu com os quatro irmãos. Passou diante disso a ter um comportamento erradio e marginal, o que mais ainda dificultava a sua adoção; família alguma queria receber alguém como ele. A sociedade não lhe deixou então saída. Seu gesto foi produto de negligência, não da administração da Bica, mas de todo um aparato social que o condenou ao abandono.

    “Atirar-se na boca do leão” é uma expressão figurada com que se designa a atitude suicida de alguém. Ninguém espera que esse clichê tenha um sentido literal, mas por vezes a sociedade se encarrega de tornar realidade o que, por absurdo ou inverossimilhante, a linguagem reserva ao domínio das figuras. Isso pode ocorrer no plano do horrendo e também do sublime. Pode nos conceder enlevo ou estupor. Num e noutro caso, encoraja-nos a repensar sentimentos e valores, e nos conduz a uma mais ampla percepção de nós mesmos.

    Gerson deu consistência real a uma imagem horripilante, que nos remete à selva de onde presumivelmente evoluímos. Com essa atitude, fruto de insensibilidade e rejeição social, ele mostrou o quanto ainda há de primitivo em nós. Depois do que fez, é impossível mencionar aquele clichê linguístico sem evocar o seu tresloucado gesto.

  • A linguagem como argumento

    Argumentar é apresentar evidências para sustentar uma tese. Esse procedimento remonta à retórica clássica, que codificou os principais recursos capazes de promover a adesão ao ponto de vista do orador. Aprendemos dos gregos que tais recursos consistem basicamente de provas e razões. À língua cabia servir de suporte ao pensamento e conferir beleza à expressão por meio das figuras (flores retóricas), que constituíam uma espécie de acréscimo.

    Essa maneira de avaliar o papel da linguagem no texto argumentativo mudou. Hoje não se considera o material linguístico como algo que “se acrescenta” ao discurso, e sim como um dos componentes fundamentais da argumentação. O processo de argumentar “depende de nossas escolhas linguísticas para obter sua eficácia” (Ana Lúcia Tinoco Cabral, em “A força das palavras: dizer e argumentar”).

    Uma pequena ilustração disso está na historinha que circulou há algum tempo na internet envolvendo um cego e um publicitário. O cego pedia esmola numa manhã ensolarada de Paris; junto dele havia um cartaz com os dizeres: “Por favor, ajude-me, sou cego.”

    Ninguém pingava uma moeda em seu pires. Vendo isso, um publicitário que passava alterou os dizeres e foi embora. Quando voltou, horas mais tarde, percebeu que o pires estava cheio de dinheiro. O cego o reconheceu e perguntou o que ele havia escrito. “Nada diferente do antigo anúncio”, disse-lhe o publicitário, “mas com outras palavras.” No novo cartaz, aparecia: “Hoje é Primavera em Paris, mas eu não posso vê-la”.

    O que mudou? Na versão do publicitário, a condição do cego não é explicitada, mas depreendida por metalepse (efeito pela causa) da afirmação “não posso ver” (bem mais apelativa). Essa afirmação constitui um doloroso contraste com o que está expresso antes: a beleza da primavera parisiense, que os transeuntes tinham o privilégio de contemplar. As alterações aumentaram a eficácia do texto, que enfim conseguiu despertar a piedade das pessoas.

    Como se vê, o bom argumento é o que produz empatia, identificação. E a melhor maneira de conseguir isto é envolver pela linguagem o destinatário.

  • O colecionador de palavras

    O hábito começou muito cedo. Dizia “papá” e “mamã” com um prazer especial em jogar com as sílabas. “Pa… pá”, “mã… mã” –  os sons iam e voltavam até que ele os guardava para depois, quando quisesse, brincar de novo. Com o tempo foi juntando outros fonemas (“bu… bu”, “pi… pi”, “tó…tó”). Um dia teve febre e ouviu “dodói”; enamorou-se da palavra e ficou repetindo-a em seu delírio.   

    Cresceu e foi refinando as escolhas. Agora prestava atenção não apenas aos sons, mas também ao casamento que havia entre eles e o sentido. Às vezes a união lhe parecia perfeita, como em “croque” (sentia o atrito de um fonema no outro), “bafo” (a palavra terminava num sopro) ou “empecilho” (pronunciar essa foi um obstáculo que venceu a duras penas).

    Noutras vezes, achava que palavra e som eram como estranhos. “Erisipela”, por exemplo. Ficaria bem para designar um metal precioso (“Usava um colar de erisipela legítima”), mas não para indicar uma doença. O mesmo se diga de “faniquito”, que mais parecia nome de passarinho (“Na manhã clara e ensolarada, faniquitos em bando cortavam o azul do céu”). Teve pena da tia por ela sofrer de uma doença cujo nome não combinava em nada com as ulcerações que havia em suas pernas.

    Descompassos como esse lhe deram uma vaga ideia das incoerências do mundo. Havia palavras bonitas para coisas feias e palavras feias para coisas bonitas, assim como havia pessoas lindas com uma alma escura, e outras, de rosto nada atraente, com um espírito luminoso. O mais das vezes – foi aprendendo – o nome era uma falsa aparência das coisas. Isso não o levou a desistir da coleção, só que agora ele tinha um critério; passou a dividir as palavras conforme a semelhança que tinham com os objetos ou seres que designavam.

    Agrupou de um lado, por exemplo, “sanfona”, “crocodilo”, “miosótis”, “turmalina” (se bem que essa mais parecesse nome de mulher) – e do outro “presidente”, “cadeira”, “promotor”, “recurso” (palavras que não excitavam a língua e que a gente, quando as ouvia, não tinha a curiosidade de saber o que significavam).

    À medida que envelhecia, tornava-se mais exigente com a sua coleção. Algumas palavras lhe pareciam insípidas, por isso ele resolveu esvaziar parte do baú. Uma das primeiras que jogou fora foi “jucundo”, cuja hipocrisia não mais suportava (parecia designar algo triste, mas significava “alegre”). Trocou “jucundo” por “meditabundo”, palavra mais honesta e de acordo com seu atual estado de espírito. Jogou fora também “vagar”, “flanar”, “leviano”, e por pouco não se livrava de “paciente” (“prudência”, que ia substituir a outra, aconselhou-o a esperar mais um pouco).

    A coleção agora tinha pouquíssimos vocábulos, mas cada um pesava tanto que o homem não conseguia transportar o baú. Deixou-o embaixo da cama e nele foi inserindo, sem muito entusiasmo, as palavras que ainda o impressionavam (sabia que, se parasse de colecionar, morria). Um dos novos termos foi “achaque”, que vagamente lhe soou como uma dança fúnebre de tribo africana (riu ao perceber que ainda tinha imaginação poética).  Outro foi “próstata”, que lhe pareceu o som de uma chicotada (ta-ta). E um dos últimos foi “tumor”, que ele sem graça botou no lugar de “humor”.

     Depois que morreu, os amigos e parentes ficaram intrigados com aquele baú embaixo da cama. Abriram-no e nada encontraram em seu interior. “Ele era meio tantã”, comentou a mulher. “Passava horas diante desse baú vazio.” Resolveu guardá-lo, como lembrança, e aos poucos foi metendo nele os objetos inúteis da casa.

  • Oito anos

    Minha amiga está soturna, posto que falante. Vive a crise dos oito anos – oito anos de casada. Parece que seu rancor, antes de conjugal, é numérico.

    Deve ter lido em alguma revista especializada que existe “a crise dos oito anos” e, apercebendo-se de que está nessa faixa de tempo, convoca os agentes recônditos do cansaço e do tédio, o exército roaz produzido pelos infindáveis minutos, horas e dias de todos esses anos.

    “Oito anos”, ela pondera, como se os instantes tivessem de repente se transformado num bloco que a puxa para trás, um condensado handicap de história e de vida orientado em sentido negativo. Um tempo dado unicamente a outrem, a alguma coisa que não a ela. Tempo que terá sido “ausência” pela exclusão das alternativas e das vias paralelas – as muitas vias que espreitam tentadoramente a trilha das nossas opções.

    Realmente, por que se fixar nos oito anos? Conheço pessoas que referem como insuperável a crise dos cinco. Outros quase não passam pela barreira dos dois. E se a gente pesquisa, encontra quem mal tenha resistido ao limite dos seis meses e até ao do dia seguinte – aquele momento em que o sujeito olha para um lado e para outro e, epa!, depara-se nesse outro com alguém que, a partir dali, vai se constituir numa referência fixa, espécie de fronteira irremovível de sua pessoa. E como isso dá medo.

    Minha amiga vem fazendo análise. O objetivo, segundo ela, é “questionar profundamente os meus sentimentos e as minhas relações”. Devo dizer que está se frustrando um pouco, pois esperava através do processo analítico ganhar forças para revolucionar a vida pelo conhecimento de si mesma. Esperava talvez deter, na casa dos seis anos, o processo que redundaria nessa crise dos oito. Ela me diz, no entanto, que tudo está sendo em vão. A “ideia revolucionária” parece mais uma fantasia que, no decorrer das sessões, desvenda-se ante seus olhos. De fato, ninguém se transforma no que não é. Eu podia mesmo lhe citar Sartre: “On change souvent pour rester soi-même.”

    Agora faz essa catarse extra-analítica diante de mim, terapeuta sem divã. Além de falante, sombria. Fala dos oito anos como se ele fosse um recorde, parecendo não compreender que esse tempo é complicado porque condensa o bom e o ruim. Pesa porque é âncora. Generosamente, deixo minha amiga falar. É o melhor que se pode fazer por alguém nessas ocasiões.

    Ela fala, fala, e me ocorre, maldosamente, que esse é um tipo de sofrimento que comove e também diverte. Deve-se ficar atento, respeitar a dor da amiga – mas não se impressionar demais com o seu tom indignado, com o ar meio apoplético e cheio de ansiedade, com a postura o seu tanto esforçada
    e ridícula. Essa é uma dor minúscula, mais aborrecida do que pungente.

    Conversando com ela, ou melhor, ouvindo-a falar, a gente sabe que pode encontrá-la no dia seguinte saindo do cartório, aonde terá ido providenciar os papéis da separação – mas essa possibilidade é remota. O mais provável será surpreendê-la saindo do restaurante com o marido, depois de brindarem a mais um ano (o difícil oitavo, ufa!) de casamento. Tudo pode acontecer.

  • A arte de malhar

    Em mais uma dessas reportagens sobre hábitos de vida, leio que a maioria dos brasileiros é de sedentários. São raros os que fazem exercícios físicos e pouquíssimos aqueles que, pelo menos, gostam de andar a pé.

    Acho isso curioso, pois o que não falta hoje são advertências sobre os riscos da inação (um sinônimo pomposo para sedentariedade). Sabe-se que ela provoca de câncer a doenças cardíacas; quando não chega a esses extremos, compromete a tão propalada “qualidade de vida”.

    Ainda assim, poucos se comovem. A se levantar cedo para andar, correr ou fazer ginástica, preferem ficar na cama, num letargo fatalista segundo o qual só se morre no dia. Ou acham que é mais provável morrer esbofando-se no asfalto, ou em cima de uma esteira rolante, do que no recesso seguro do lar.

    A verdade é que ninguém se torna adepto de atividade física por ler artigos ou reportagens sobre os benefícios que ela pode trazer. Existem almas naturalmente preguiçosas, espíritos langorosos que consideram uma violência submeter o organismo a movimentos puxados e aparentemente gratuitos.

    Vinicius de Moraes conta, numa crônica, que ele e Antônio Maria voltavam de uma farra e se depararam com um grupo de pessoas fazendo ginástica. O sol mal começava a nascer no mar de Copacabana.

    Os dois boêmios, tresnoitados e ainda sob o efeito do uísque, olharam desdenhosos os corpos que repetiam com esforçado sincronismo os mesmos movimentos. Então fizeram ali, para a vida e para a morte, o pacto solene de jamais praticar gestos repetitivos e inúteis…

    Entende-se a ironia dos dois. Para que nos devotemos a uma coisa, é preciso primeiro ver nela sentido. Ora, esse é um requisito subjetivo por excelência. O que faz sentido para uns pode parecer a outros um aborrecido disparate. Conheço gente que acha inútil caminhar cinco ou 10 quilômetros para ir a lugar nenhum. Só andam por necessidade, e com um objetivo bem definido.

    Uma coisa é flexionar os braços e as pernas carregando tijolos nas construções, manuseando máquinas nas fábricas, transportando papéis nos escritórios. Outra é realizar esses movimentos para nada. Muitos não veem sentido em tal gratuidade; outros acham que essa agitação “inútil” restabelece o corpo e gratifica o espírito.

    A ginástica, a caminhada, os exercícios de modo geral inscrevem-se naquela “finalidade sem fim” de que nos fala Kant. Por essa ótica, aproximam-se da arte. A arte é gratuita, não visa a nenhum objetivo prático; solicita-nos a contemplação, e em troca nos dá Beleza.

  • CROQUIS

    1

    O maior favor que o escritor pode fazer ao leitor é ser sincero. Geralmente os que fogem à sinceridade o fazem por medo do ridículo, como se as íntimas verdades que expõem não fossem também as de quem o lê. O terreno comum aos homens é o das fraquezas disfarçadas, vilanias escondidas, aspirações muitas vezes inconfessáveis; o leitor agradece a quem o leva a se deparar com tudo isso, que também compõe o seu cenário interior.

    2

    Há quem diga que não vale a pena se casar, pois o amor acaba. Para mim é justamente o contrário: a efemeridade do amor é a maior justificativa para o casamento, que de alguma forma pode realimentá-lo.

    3

    De onde vem a culpa, esse império escuro que nos rouba a alma? Não devemos corresponder senão a nós mesmos, no entanto não conseguimos ter isso como uma verdade. Será sempre um problema de cada um conquistar a liberdade interior.

    A culpa, como todos os freios, precisa ser graduada. O excesso de freio impede que o carro se locomova; a falta dele o faz desembestar, com as terríveis possibilidades que isso implica.

    4

    O que é o tempo! As garotas bonitas que me ignoravam nas paqueras da Lagoa, ou na calçadinha da praia, hoje são senhoras simpáticas que me cumprimentam e até sorriem para mim. Agora não vale! Eu queria isso antes!!

    5

    A linguagem é o nosso confessionário. Falar é confortar-se; liberta e consola. Tudo que se subtrai ao desejo se compensa na linguagem. Por isso as pessoas falam, rezam, escrevem tanto. 

    6

    A razão é um demônio que vez por outra precisa dar uma sacudida no anjo da fantasia. Esse anjo, com suas róseas maquinações, pode entorpecer ou cegar. Nessas horas é necessário clarividência para não derrapar no fosso das ilusões.

    7

    A depressão caracteriza-se por uma defecção (abandono) do ser.  Depois que o indivíduo sai da crise, imagina não ser mais o que era. Sente a identidade como um fio tênue, que a custo lhe assegura a autopercepção. Ressente-se de plenitude. Um dos apelos patéticos que o depressivo faz a si mesmo ou a quem tenta ajudá-lo é: quero ser eu de novo.

    8

    A velhice é por natureza amiga da virtude. O homem só renuncia a certos pecados quando já não está em idade de cometê-los. Por outro lado, um dos maiores pecados da velhice é o ressentimento.

    9

    Costuma-se dizer que quem não ama a si é incapaz de amar os outros. Penso que é o contrário; quem não ama os outros é incapaz de amar a si. O amor, que é um sentimento basicamente altruísta, não pode ter como referência o ego de cada um. A percepção da incapacidade de amar o outro é que leva ao desamor por si mesmo.

    10

    Para o artista, a eternidade está no próprio ato de criar. É por esse ato que ele vive a transcendência da sua arte. Caso ela “fique”, ficará para os outros. O artista, enquanto homem, não sentirá o benefício da glória. Já o momento de fazer é tão-somente dele.

  • A visita

    É domingo e ele vai à casa de um tio. Não gosta de visitas familiares, mas nem sempre é possível evitar. Para aumentar o desconforto, o fato de desprezar tais encontros já é motivo de culposos sentimentos – e o menino sofre duas vezes. Primeiro consigo mesmo, devido a essa intolerância aparentemente inexplicável e injusta – sobretudo injusta; depois pela ocasião mesma do encontro, confusão de afagos e venenosas ironias. E sempre o mau jeito, ou o pejo, de revelar ao menos por indícios o amor.

    Talvez a prévia decepção é que se converta em hostilidade, de que ele no fundo queria desarmar-se para se abrir à necessária ternura. Necessária, possível. Por que era sempre mais fácil com os estranhos?

    É domingo e o menino vai. Entufado, mais menino do que nunca, engolfado em mágoas que não consegue explicar (nem direito sentir!), vai ao dever social como para um sacrifício. Vai compor as aparências mas, por que negar?, vai também pela curiosidade de se ver pelos olhos e gestos e tiques dos que lhe são carne e sangue. Acaso ele era melhor? Vai como quem tenta, mais uma vez, descobrir o caminho que leva à aceitação, para umidificar o deserto interior em que há muito vinha se crestando.

    E vai até como quem se arrepende de ter criado o drama – ele, o imaginoso e difícil –, os fios e nós cegos que acabaram enredando-o numa teia de incompreensão e espanto. Queria desatar-se, respirar.

    No caminho se conversa risonhamente sobre tudo, a euforia dominical tornando os parentes camaradas. Faz sol, venta um pouco, e todos (o menino também) parecem transfigurados pela força dessa manhã. Agora não é ocasião de mágoa ou medo; agora é para esquecer o ranço dos anos, a indelével inscrição na carne, na alma. Agora é como um entreato que faz parte da encenação mas desobriga as pessoas do papel – isso que foi se convencionando devagar, e com força, ao longo do tempo. Agora parece um instante gratuito, autônomo, do qual emerge um estranho desejo de absolvição.

    Quando chegam à casa do tio, ainda estão inebriados. Vem o parente que se tornou distante e manda todos entrarem. Nem precisava. Respondendo e perguntando, era mui cordato o dono da casa; ficava-se bem à vontade. Ele estava entre os humildes da família e vivia essa condição com uma alegria que poupava aos outros o remorso. Sua casa devia ser lugar de concórdia. O menino se penitencia por não ter lembrado isso, confundindo um manso, uma ovelha boa, com alguns os parentes maus.

    Sentam-se todos e se põem a conversar. Lembranças vêm à tona, e o domingo retrocede a outros cenários; a família curte uma espécie de saudade jovial. Tudo leve, sem sombras. Mas não por muito tempo. De repente salta o comentário suspicaz e malévolo de alguém vigilante:

    — A mulher dele, cadê? (A mulher desse tio, realmente, ainda não dera as caras.) Será que não quer ver a gente?

    A insinuação fica no ar como um pássaro tentador que logo os parentes, vorazes, se apressam em segurar.

  • Terapias

    Ele andava triste, sem ânimo, às vezes com vontade de morrer. Os amigos notaram o seu estado e o aconselharam a procurar um médico. Recusou com veemência, pois não acreditava em medicina para a alma. 

    Mas uma noite teve um sonho esquisito. Sonhou que era um macaco pequeno, o único macaco entre seus irmãos. A mãe o olhava com indisfarçável repugnância e hesitava entre alimentá-lo ou deixá-lo morrer de fome. Ele então chorava, gritando e agitando uma campainha. Isso provocava a raiva do pai, que abraçava a mulher e o ameaçava com um facão. Enciumado, ele procurava um canivete para matar o pai mas era impedido pelos irmãos, que resolviam levá-lo para um zoológico. Lá o enfiaram numa cela, onde ficou se debatendo até que um funcionário chegou junto dele e perguntou: “O que é que está havendo? Fale! Fale!”. Não conseguia dizer nada.  

    Ficou tão intrigado com o sonho, que decidiu vencer o preconceito e consultar um psicólogo. Mas quem? E, sobretudo, de que linha? Resolveu divulgar o sonho na internet e aguardar sugestões. Eis alguns e-mails que recebeu:

    1) Seu sonho reflete um complexo de Édipo mal resolvido. Você e o seu pai disputam o amor da sua mãe, daí o ódio que sente por ele e o desejo de matá-lo. A oposição entre o facão e o canivete é uma representação metafórica da inveja do pênis associada ao temor da castração. Sua terapia deve ser psicanalítica, e de base freudiana.

    2) Impressionou-me, no seu sonho, a repugnância da mãe ao constatar o aspecto simiesco do filho. A dúvida entre alimentá-lo ou não é uma clara metonímia do conflito entre o seio bom e o seio mau. Você ainda hoje não sabe se ela o ama ou o odeia, e precisa resolver esse conflito. Do contrário, a sensação de desmamado o acompanhará pelo resto da vida. Sugiro-lhe uma psicoterapia kleiniana.

    3) Seu sonho é carregado de significantes — a referência ao som da campainha, por exemplo. Uma das onomatopeias para esse objeto é “ding”, que remete à Coisa (Das Ding), ou seja, ao Objeto Perdido. Sintomaticamente, você não fala. Se não fala, não tem o falo, o que não é nenhuma falácia (talvez uma faloácia). A ausência da fala/falo o deixa fulo e mostra que você se encontra numa posição infantil diante do Nome do Pai. É preciso trabalhar isso. Procure já um terapeuta lacaniano.

    4) O sonho é claríssimo, ora. O macaco representa a porção animal que você se recusa a inibir diante do pai opressor. É preciso dar vazão a essa torrente de instinto por meio de uma terapia regressiva, que o reconduza à liberdade da horda primeva. É preciso soltar o grito primal.

    5) Esqueça qualquer tipo de simbolismo para esse sonho. O motivo do seu sofrimento são pensamentos errados. Posso acompanhá-lo a um zoológico, em cinco sessões, para mostrar que você não é macaco coisa nenhuma. Compararemos seu comportamento com o dos símios, e você se convencerá de que gosta de mais coisas além de banana e não consegue andar com tanta destreza sobre o tronco das árvores. Recomendo-lhe (e me apresento) um terapeuta cognitivo-comportamental.

  • Dia dos amantes

    Outrora eram somente os santos e as figuras históricas. Hoje praticamente todo profissional tem o seu dia. Mesmo fora das profissões, basta alguém pertencer a uma categoria para ter a sua data especial, tornando-se alvo de homenagens cujo objetivo não é outro senão incrementar o comércio. Há um dia para tudo e para todos, do faxineiro ao vendedor de picolé – o que, quanto a este, é muito justo. Num país quente como o nosso, o picolezeiro tem a nobre função de refrigerar os corpos e desentorpecer as almas, deixando-nos mais dispostos para enfrentar estações como o verão.

    A prova de que o hábito se disseminou é que no dia 22 de setembro comemorou-se o Dia dos Amantes. Catei nos jornais alguma referência mais extensa a tão curiosa efeméride, e nada encontrei; mas os amantes bem que mereciam uma crônica. Vejam que a data não se refere aos amados, ou às amadas, que são entidades nobres e gozam do prestígio da sociedade. Refere-se aos que amam com ímpeto transgressivo, o mais das vezes burlando normas e atropelando os papéis sociais. Os amantes são “os outros”, que por razões óbvias não podem se declarar. Daí a curiosidade que um dia dedicado a eles provoca.

    Machado não os tinha em alta conta – certamente pelo bom casamento que fizera com D. Carolina. Vejam o que ele diz no breve Capítulo XXXVIII de “Quincas Borba”, capítulo esse que antecede o da confissão amorosa do ingênuo Rubião à sagaz e interesseira Sofia: “Rubião estava resoluto. Nunca a alma de Sofia pareceu convidar a dele, com tamanha instância, a voarem juntas até às terras clandestinas, donde elas tornam, em geral, velhas e cansadas. Algumas não tornam. Outras param a meio caminho. Grande número não passa da beira dos telhados…”. Se os envolvidos retornam com as almas velhas e cansadas das “terras clandestinas”, melhor seria que por elas não se aventurassem… Mas não vai ser esse reparo, típico do Bruxo quanto a essa e outras falhas humanas, que vai enfraquecer o nosso registro.

    Fala-se que amantes são todos os que amam com paixão, sejam eles namorados ou esposos. Haverá nesse argumento um eufemismo interesseiro, cujo objetivo seria descaracterizar os homenageados a fim de incluí-los mais amplamente, e sem remorso, entre os que merecem os mimos adequados à ocasião. Tudo para vender mais. Os amantes habitam mesmo o “outro lado”, não são os parceiros institucionalizados do amor. São antes cúmplices, por isso não deixa de ser curioso escolher para eles um dia, à semelhança do que se faz com os santos, os avós, os pais e as mães.

    Notei que pouco se falou na data, mas certamente ela foi comemorada. Por meio não de cartões ou telegramas explícitos, mas de e-mails cifrados que atravessaram a Internet levando o apelo ansioso e triste de dois corpos solitários. Talvez em encontros furtivos num desses motéis promocionais, que além do preço módico prometem sigilo absoluto. Pois esse é o tipo do dia para se comemorar na surdina, à meia-luz, por debaixo do pano.

    Enfim, leitor, sem hipocrisia nem cinismo enalteçamos os amantes no seu dia. Deles é a glória da indústria de perfumes e lingeries. Sem falar de quanto faturam os sex shops numa ocasião como essa. Se hoje as datas valem sobretudo pelo que vendem, e os amantes têm lá a sua fatia de mercado, comemoremos sem preconceito a data a eles dedicada. Sem preconceito e com a sinceridade de reconhecer: que ser humano já não se deixou tocar pelo tentador mistério das “terras clandestinas”?

  • A verdade e o sonho

    Ele estava seriamente desconfiado de que Papai Noel não existia. Os pais protestavam, não queriam que se despedisse tão cedo da infância (como se não houvesse razões mais fortes que levavam a isso!), mas ele achava que o estavam tapeando. Enganavam-no além do tempo em que deveria ser enganado. De qualquer modo, com os seus onze anos, não tinha certeza.

    Valtinho, o melhor amigo, garantia que Papai Noel era uma invenção dos adultos para fazer as crianças irem para a cama mais cedo. E Valtinho sabia das coisas – foi ele quem lhe disse, por exemplo, que não existia cegonha. Se existisse, como explicar a barriga enorme das mulheres grávidas antes de descansar? Munido desse argumento ele interpelou a mãe, que desarmada lhe confessou a verdade. A cegonha era uma fantasia para enganar as crianças muito pequenas… Ao ouvir isso, ele se sentiu vaidoso. Estava se aproximando do mundo dos adultos, e um dia seria um adulto pleno, ou seja, alguém para o qual a vida não tinha segredos. “Ser adulto, saber tudo” – essa era a grande conquista que faria no futuro.

    No entanto a mãe, que desistira tão fácil da mentira da cegonha, insistia que Papai Noel não era uma fantasia. Vinha nas noites de Natal e deixava os presentes que as crianças pediam (anos depois, já adulto, ele criticaria a “irresponsabilidade social” dessa versão). O pai confirmava tudo, mas atualizava o contexto da história – em vez de trenó puxado por renas, por exemplo, falava num pequeno veículo movido a turbinas que permitia ao velhinho visitar numa noite todas as crianças do mundo. Era uma pequena concessão à inteligência do garoto, que ainda assim desconfiava da conversa.

    Por isso resolveu fazer um teste. Se Papai Noel vinha mesmo de noite, ou de madrugada, queria estar acordado para vê-lo entrar no quarto. Faria um esforço para não dormir e desvendar o enigma. Nos anos anteriores adormecia logo para abreviar o tempo e chegar a manhã do dia seguinte – mas essa era uma atitude de criança. Agora que estava se tornando adulto, e queria saber tudo, a melhor estratégia era fugir do sono… e do engano. Foi com essa disposição que se deitou na hora que os pais estabeleceram (não convinha resistir, para não despertar suspeitas) e ficou ali, de olhos arregalados, acompanhando o movimento da casa.

    Risos, fragmentos de conversas, barulho de talheres… De início tudo isso chegava ao seu quarto com uma intensidade que o incomodava; depois foi-se tornando distante, virando surdina, parecendo por fim uma cantiga de ninar. Ele aguentou o quanto pôde, mas terminou adormecendo. E teve um sonho. Sonhou que a porta se abria, aos poucos, e alguém entrava no aposento com o presente que ele pedira. Silenciosamente, para não o acordar, deixava o videogame ao lado da cama e se retirava depois de o beijar de manso na testa. Pelo vulto, e sobretudo pelo beijo, ele percebeu que era sua mãe.

    No dia seguinte, mal abriu os olhos, deu-se conta do seu fracasso. O propósito era manter-se acordado, mas não tivera forças para isso. Adormeceu como uma criança e teve aquele sonho… No sonho revelava-se o embuste, mas sonho é diferente de realidade. Sonhou com o que queria que acontecesse, pois desejava muito ser grande. Certamente não vira a mãe real, vira a mãe com que tinha sonhado. E como ficava a questão de Papai Noel? Existia ou não?

    No próximo ano ficaria “mesmo” acordado e descobriria a verdade. Com esse pensamento animador, ele começou a desfazer o embrulho do videogame novo.

  • A busca de ser lembrado

    Gosto do termo “brumas” para figurar o esquecimento. O que vivemos se perde numa massa brumosa que dissipa as impressões do que passou. Não se revive nada, toda lembrança é o registro de uma perda. Ainda assim insistimos em lembrar, pois disso depende em grande parte a nossa identidade. 

    Outro vocábulo que também representa o que na memória se perdeu é “oblívio” – mas desse ninguém se lembra. É um vocábulo erudito e um tanto assustador. Por também significar repouso, tem alguma ligação com a morte. 

    “Amnésia”, sim, é patológico. Sugere uma perda temporária das lembranças devido a lesão cerebral ou à ingestão de determinadas substâncias. Seu radical evoca Mnemosine, a deusa que para os gregos determinava a lembrança e o esquecimento. Segundo a mitologia, os mortos que bebiam da água do seu poço relembravam suas vidas. 

    O esquecimento é o que mais tememos na morte, por isso o tema da memória provoca de forma tão intensa o nosso interesse. Quando se pensa em não morrer, ficar “para sempre”, pensa-se na verdade em permanecer na memória das pessoas. 

    A morte se consuma, não quando perdemos a vida, mas quando o que fomos desaparece por completo da lembrança dos vivos. Daí o empenho em que fique registrado o nosso nome nas obras de arte ou no acervo de instituições como academias, confrarias religiosas, associações de notáveis – que às vezes nem são tão notáveis assim, mas fazem questão do registro; o importante é que o nome esteja lá. 

    Nesse esforço de ser lembrado há quem desconheça a fronteira entre o bem e mal. Pouco importa se o recordam como um monstro ou um psicopata, desde que seus atos imprimam uma marca indelével na memória dos outros. Nesse grupo se enquadram os assassinos de celebridades ou os que, no exercício de funções delicadas como a de pilotos de aviação, produzem tragédias que levam à destruição de inocentes.  

    Muitos fazem tudo pela glória póstuma esquecidos de que o essencial mesmo é “permanecer”        enquanto estiverem vivos. Isso significa atuar, comprometer-se, ser determinante na vida dos que deles dependem ou com os quais mantêm vínculos de afeto.   

    Quem falha nessa tarefa, muitas vezes em prol de uma duvidosa notoriedade aos olhos dos pósteros, está condenado ao esquecimento em vida (um esquecimento que por vezes se confunde com desprezo). E deve amargar para sempre os efeitos da escolha errada.

  • Pontuar

    Em uma de suas crônicas, Luis Fernando Veríssimo afirma que nunca usou o ponto e vírgula. A observação do escritor gaúcho, que é antes uma blague contra os gramáticos e puristas, sugere-nos algumas reflexões sobre a arte de pontuar. Ela tem a ver com um dos atributos fundamentais da poesia ou da prosa, que é o ritmo. Literatura é linguagem ritmada, e para se imprimir ao texto o seu ritmo é fundamental o uso desses sinais, que, se a alguns aborrece e inibe, a outros empolga e mesmo encanta.

    O ritmo é uma espécie de virtude metafísica da literatura. Um erro de grafia tem conserto, basta que se consulte um formulário ortográfico. Uma falha na concordância, na regência ou na colocação pode ser sanada com uma consulta gramatical. A falta de ritmo, traduzida entre outros indícios pelo mau emprego dos sinais de pontuação, sugere que o sujeito não dá mesmo para o ofício. É um míope verbal e certamente usará de modo inadequado as palavras. Pois não há semântica adequada sem um adequado suporte rítmico. A palavra errada é sobretudo a palavra fora de tempo.

    Pontua-se como se respira, respira-se como se pontua. E quase sempre ocorrem os exageros. Há os que decompõem o enunciado, abusando do chamado fragmento de frase. E picotam o período. Às vezes sem necessidade. Apenas pelo gosto de fracionar. De separar. De isolar os componentes da oração. Sujeitos. Predicados. Complementos.

    Há, pelo contrário, os que constroem períodos densos, longos, torrenciais, desses que tendem a abusar da paciência do leitor, coitado, que parece estar atravessando um rio interminável e caudaloso, e fica na expectativa de que aquilo termine, pois, com o tempo, ele até já esqueceu o que foi dito no início da frase e tudo o que deseja, a partir de certo momento, é que o escritor se compadeça da sua paciência e mesmo do seu fôlego, que dentro em pouco lhe faltará como já lhe falta a boa vontade para prosseguir na leitura, e ponha enfim nessa teia aparentemente infindável um ponto final. Ufa!

    Há os que se exaltam à toa e abusam do ponto de exclamação. Sempre! Até sem motivo! Como se vivessem numa perpétua euforia! Ou num perpétuo susto! Há os que abusam das reticências. Esses não dizem logo tudo, fazem …suspense. Preferem deixar sempre alguma coisa no vento, no ar… Imaginam que nesse deliberado laconismo é que mora a sutileza… O gosto de sugerir, explorar as entrelinhas, sabe como é… Pois o texto fala mais, quando… Eu sei que vocês me entendem… 

    Há os que (e esses geralmente são perfeccionistas) gostam de intercalar vários parênteses em seus períodos. Como se fosse necessário (às vezes é, mas eles exageram essa preocupação) fazer contínuas ressalvas às próprias ideias (mesmo as que já se tornaram claras para o leitor). Eles têm receio de que seu discurso (que eles supõem, geralmente, traduzir uma mensagem valiosa e útil) não seja suficientemente vigoroso (e sobretudo claro, inteligível).

    Há os que não resistem ao excessivo emprego dos: dois pontos. Esses parecem estar sempre preparando: uma surpresa, um desenlace inesperado para o leitor. Que acaba deixando de se surpreender, pois os dois pontos terminam previsíveis, constituindo uma espécie de alerta falso. E já deixam o leitor: de orelha em pé.

    Há, enfim, os obreiros da vírgula, que, numa espécie de afã asmático, virgulam, com disciplina espartana, sempre que a norma determina. A esses, pouco importa que o sentido se torne claro, no próprio fluir da corrente verbal. Se a regra manda, mesmo, contra o ritmo natural da fala, eles, prestos e soldados, vão largando, a intervalos breves, curtíssimos, as suas vírgulas, que, para o leitor, equivalem a pedregulhos, ou valas, ou, enfim, a obstáculos, que dificultam o, já difícil, ato de ler.

    E tu, leitor, qual o teu ritmo? Como é que, lendo ou escrevendo, tu respiras?

  • “Influencers” e que tais

    O ser humano tem dificuldade de pensar ou agir por conta própria. Necessita de quem o oriente, sugira um roteiro seguro nos descaminhos da vida. Essa característica da nossa espécie é que propicia o aparecimento de orientadores espirituais ou guias de comportamento.

    Não falta quem se aproveite do nosso natural desemparo para nos vender fórmulas ou manuais de conduta, nos quais estaria a chave para a conquista da felicidade. Só que esse caminho não existe fora de nós; deve ser construído por cada um. Nenhum guru conhece das pessoas o que elas intimamente são, por isso não pode apontar a ninguém o caminho que as faça felizes.

    Geralmente os que se dispõem a isso cobram bem pelos conselhos — o que é compreensível; ninguém, afinal, valoriza o que lhe é dado de graça. O problema é que eles ganham por vender aos outros ilusões. Pode-se alegar que muitos preferem mesmo se iludir a enfrentar a dura crueza da vida. Querem que lhes ditem os caminhos, livrando-os da difícil tarefa de fazer escolhas. Há nisso, porém, um grande risco; o medo de se perder pode acabar deixando-os na dependência de algum perdido.

    O mundo digital fez aparecer uma nova modalidade de guru — o “influencer” (grafado em inglês para dar mais prestígio). Que vem a ser ele (ou ela)? Como o nome diz, é uma pessoa que se propõe a nos influenciar em algum domínio do saber ou do comportamento. Também (ou sobretudo) pretende nos orientar quanto às escolhas de consumo — o que comprar, de que marca, quando enjoar de um produto e partir para outro. O “influencer” se aparelha para nos ditar o que devemos fazer (e como) a fim de adquirir habilidade em determinado setor e conquistar o almejado sucesso.

    “Sucesso” é uma palavra-chave no vocabulário deles. Não bem-estar, ou felicidade, mas esse termo que bem resume os anseios de quem vive numa sociedade competitiva e marcada por signos de ostentação como a nossa. O sucesso é um emblema exterior; dimensiona-se mais pelo que o indivíduo aparenta do que pelo que ele é.

    A internet, se não criou, multiplicou o número de indivíduos com essa função. Há “influencers” para todos os gostos (e desgostos). Eles querem sentir por nós, mostrar que a insatisfação com a qual levamos a vida
    decorre de não termos despertado para as atitudes corretas a tomar — atitudes essas que só eles conhecem.

    Não descarto a possibilidade de que haja entre pessoas dessa estirpe as bem-intencionados. As que se comprometem com uma causa, mesmo sendo ela a do enfadonho politicamente correto. Mas fico com o pé atrás. Não suporto a ideia de que tirem do homem a maior riqueza que ele tem — a de pensar por si mesmo.

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