A fluidez da manhã me capacita a digressões. Ainda me espanto e me encanto com o nascer do sol. Sinal de estar vivo. Sinal de uma tal de esperança que ainda vive em mim. Vou tomar uma medida para ser, sempre, amante do sol – desta feita, rigorosamente, como um penitente eterno. Apreciar, tomar o meu bom café, calmamente, para, só assim, encarar as profundezas do dia. Lorena não tem me deixado escapar da fadiga do dia como desejaria. Ela acorda tarde – e reclama de insônia –, e é um auê para arrumar o nosso filho. Portanto, como bom apreciador do nascer do sol, acordo invariavelmente às cinco da manhã. Já é o relógio biológico ativado que me desperta, não dependo, portanto, de apetrechos maquinais. Carlos Augusto volta e meia acorda mais cedo que a mãe e quer assistir à televisão, antes de ir ao colégio. Faço uma merendinha rasa, para que não fique morrendo de fome – já que a merenda do colégio é às 10h –, e o pobre infante não dá bola ao Sol. Fico chateado. Tento entretê-lo com a beleza do raiar do dia, mas ele, já com oito anos, diz que isso é besteira, que o dia nasce todo dia, e por isso não há nada de novo e interessante. Lorena, quando quer me irritar, inventa um exame pela manhã, e temos de sair aos sopapos cedo de casa. Semana passada fomos eu e o Carlos Augusto fazer um bendito exame de sangue. Não que isso atrapalhasse completamente a minha sanha de ver o Sol, mas o via de relance, sem o contemplar, e isso me aborrecia profundamente. Lorena, às vezes, só para me chatear, diz que eu preste atenção ao volante, que eu tenho filho e mulher para criar. Verdade seja dita, fico abobalhado, mas não amalucado. São duas coisas completamente diferentes. Mas o melhor dos mundos é quando pego Luna, a nossa labradora, para passear pela manhã. Tenho preguiça, gosto de acordar levemente como o Sol, mas, para agradar a minha bela cachorrinha, vou pelo menos três vezes na semana passear pela manhã com ela. Isso varia, também, pela tarde, no pôr do sol. Mas o pôr do sol é difícil para mim, porque ainda estou voltando do trabalho, e, por vezes, tenho de quarar na janela do carro vendo o Sol “se amostrar”. Já me chamaram de doido e de bestalhão – Lorena, principalmente. Ela, incauta, pensa que fé é só para os santos e congêneres. Não, me apego ao Deus Sol, como os Maias e tantas outras civilizações. O Sol é o meu Deus, e não há de se questionar, porque não existe explicação que me faça demover disso. Quando o Sol se deita, irradia beleza – uma luz que, ao se apagar, lentamente, se expande – e eu me abro às facetas de uma bela vida. Não me distraio muito, admiro, para melhor saber da sua sina; sobre o que ele tem para mim. Acredito no sol para acreditar em tudo que há.
FamíliaPet
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O Sol
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Doce Maria
Nada vem por acaso. Acredito no destino, fé e sorte. O que tem de ser será. Marcelo saiu com a mãe para passear. Foram ao restaurante do avô, para visitá-lo e brincar com os primos e amiguinhos que moram nas redondezas, no bairro Antônio Bezerra. Lá, entre brincadeiras, meu filho viu uma gatinha abandonada, que ronronava com ardor, pedindo carinho. Marcelo pegou a pequena e não queria mais soltar. Levou-a à mãe, para mostrar a novidade. A mãe de cara se apaixonou. Todos viam que a gatinha era meiga, carinhosa e precisava de um lar. Mayara logo me mandou mensagens pedindo para trazer a gatinha para a nossa casa. “Mas, Mayara, já temos dois adultos. Não dá certo. Não insista”. Marcelo mandou áudios, dizendo que queria muito e que seria seu presente de aniversário – falta um mês para o grande dia dos seus cinco aninhos. Pegou o pai de jeito. Encarreguei-me de falar com a avó. Também não queria. Mas aí eu já considerava o caso e servia de advogado do meu filho. Amo bichos, nossa casa poderia receber mais um bichano, sim. Expliquei à minha mãe, que mora conosco, e que também deveria aceitar ou não, que a pequena gatinha seria vacinada e banhada no dia seguinte. Minha mãe permaneceu reticente, impondo condições. A gata não poderia ficar circulando em casa, até aprender onde devia fazer cocô e xixi. A gata não poderia sair do perímetro do banheiro. A gata não poderia, ainda, se aliar aos outros gatos. “Meu filho, os gatos já estão estragando o sofá. Mais um gato será o fim”. E indicou mais algumas restrições, com as quais concordamos. Pronto, a matriarca aceitou. Ficamos animados, eu, o meu filho e a Mayara. A gatinha chegou em casa cansada, mas, desbravadora, queria conhecer a sua nova morada. Logo ele me disse que tinha colocado o nome de Dulce Maria, por influência de uma pessoa que estava lá e era fã do RBD. Eu acabei gostando do nome, porque representa Doce Maria. Constatei que realmente ela era muito carinhosa, doce, uma menina que viria para somar. Marcelo, enfim, com o seu amor, nos convenceu de que deveríamos ter mais um membro na família. No sábado de manhã cedo levamos à veterinária, fizemos exames e demos vacinas. Resultou tudo certo. A gatinha era saudável, mas estava magrinha por conta da vida mundana. A médica avisou que ela poderia ficar molinha esse dia. Passou suplementação alimentar, para ganhar logo peso. Disse que ela teria de três a quatro meses e que o peso de um quilo e seiscentos gramas estava muito abaixo da média. Foi um dia puxado para a gatinha, então passou o resto da tarde dormindo – mas feliz e esperta em alguns episódios. E, hoje, um dia depois, nos admiramos e nos encantamos com a bela surpresa que a vida nos proporcionou.