Fazendo a roda girar

  • Fazendo a roda girar

    Saía de casa faceira após chamar o Uber. A vizinha vê, para. Me elogia. Pavaneio. Vou dar entrevista. Oferece carona. Recuso. Uber já chegou. Penso na taxa de cancelamento. Pago não. Não sei mesmo fazer conta. Vou de Uber. Vizinha se vai.

    Começa a tradicional conversa sobre o tempo, o frio, o perigo do banho quente e sair na friagem. O motorista parece cansado, fala da mulher que teima em sair do banho e colocar a toalha para secar do lado de fora. Pode adoecer. Tava doente. Teve câncer. Têm três filhas, idades diversas, todas difíceis. Trabalha sem parar. Filhas gastam, mulher gasta, doença mais ainda.

    A roda do carro deu defeito. A vida tem dado defeito. Ele se exaspera. Conta as agruras. A falta de grana, a ajuda dos amigos. A roda pode quebrar a qualquer momento, avisa um deles. Temo por nós. Falta peça, falta grana, falta temor. Ele consegue que o amigo coloque a peça. Mas não consegue a peça. Não pode rodar, mas precisa. A roda da vida não para.

    A peça custa 180. Conseguiu 80. Falta 100. A roda não para de girar. Não cancelei a corrida, ouvi a história da roda, ouvi a história do câncer. A roda não para de girar. Faço um pix de 100 reais. Ele chora. A roda pode parar. Não sei o seu nome, das suas filhas, da sua mulher. Do câncer. Mas faço a roda girar.

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