Fernando Barreto

  • Tempo não é dinheiro

    Mãe: “Meu filho, você está indo pra onde?”

    Filho: “Estou indo pra minha nova casa.”

    Mãe: “Você não tem outra casa! Largue de ser ridículo!”

    Filho: “Eu não tinha, mas agora eu tenho dezoito anos e terei. Vou morar com a minha tia.”

    Mãe: “Com que dinheiro você vai viver?”

    Filho: “Sou copywriter, economizei uma grana, ainda que pouca para os padrões burgueses. E minha tia, que pra mim é como irmã mais velha, já tem o apartamento dela, que será dividido comigo. Além disso, fui aprovado na Federal, e se houver algum futuro pra humanidade, eu terei algum tipo de futuro também.”

    Mãe: ”Seu cretino! Mal agradecido! Hoje é seu aniversário e eu convidei seus amigos pra virem aqui!”

    Filho: “Quem vai trazer a maconha?”

    Mãe: “Vou ligar pro seu pai e contar tudo que você me falou!”

    Filho: “Agora eu não moro mais na casa dele. Já tenho outra. Estava tudo programado desde o ano passado.”

    Mãe: “Você vai morar com aquela maloqueira que não acredita em Deus!”

    Filho: “Se ela acreditasse, eu preferiria continuar morando aqui mesmo. Você e meu pai são cristãos não praticantes. Tem só a parte ruim desse negócio. Não me pergunte qual é a parte boa, porque não tenho essa resposta. Vejo só hipocrisia. Já que acreditam nesse tipo de coisa, deveriam ter medo de estarem sendo observados pra futuramente serem punidos pela série de pecados descritos na cartilha. É que no fim das contas, nem acho que vocês acreditam nisso de verdade.”

    Mãe: “O que eu falo pros seus amigos quando chegarem?”

    Filho: “Não sei. Não combinei nada com ninguém. A não ser com a minha tia. Combinei que mudaria pra lá hoje.”

    Mãe: “Seu maconheiro do inferno!”

    Filho: “Fumar maconha é de menos. Tem um desses aí que você convidou pra vir que toma pico no pé. Ele toma o baque no pé pra mãe dele não descobrir através das veias do braço. De repente você pode presenciar isso hoje.”

    Mãe: “Meu deus! Qual deles?”

    Filho: “Eu não vou cagüetar o cara. Francamente!”

    Mãe: “Imagine você morando com aquela doida da minha irmã! Na verdade, não passa de uma criança também! Mas você é ainda mais pirralho que ela!”

    Filho: “Será uma vida de consumo racional. Nascemos de famílias que nos tiveram sem levar em conta que não há futuro pra espécie humana no planeta.  As gerações anteriores conseguiram foder com tudo de maneira irreversível, e agora estão mortos ou caquéticos, em estado semicomatoso. O mais louco é ver gente fazendo planos de redução de danos para 2050! É de uma bizarrice incrível, mesmo se tratando de governantes.”

    Mãe: ”Por falar nisso, cadê o seu título de eleitor?”

    Filho: “Está aqui comigo, mas só será usado quando eu precisar acertar contas com a justiça eleitoral.”

    Mãe: “Como assim?”

    Filho: “Não sou do tipo que vota. Isso é coisa de corno eleitoral. Aquela gente que sabe que está sendo enganada, e sabe que vai continuar sendo enganada, e não só vai votar novamente como pode até mesmo, em alguns casos, fazer propaganda gratuita pra políticos. Eu não consigo encontrar palavras adequadas pra descrever o quão baixo e vil esse tipo de coisa é.”

    Mãe: “Seu animal! Você precisa estar em dia com a justiça eleitoral pra fazer qualquer coisa relativa à vida em sociedade!”

    Filho: “Eu estarei em dia, ainda que pagando multa pra regularizar a situação. Mas comparecer às urnas e escolher algum daqueles picaretas que ficam piores a cada eleição já é descer baixo demais. Sou antifascista. Tanto a direita como a esquerda cheiram a merda.”

    Mãe: “Você pode simplesmente votar nulo, então!”

    Filho: “Minha escolha é a abstenção e sempre será. Se votar mudasse alguma coisa pra melhor, você pode apostar que não seria permitido. A abstenção do voto não tem nada a ver com abstenção política, embora as massas sejam manipuladas pra interpretar dessa forma, sendo assim cúmplices desse circo de horrores, acionando a máquina que nos esmaga dia após dia. Não votar é uma escolha mais do que legítima em meio à falta de alternativas viáveis que se apresentam historicamente em eleições brasileiras. Todos os candidatos estão sempre comprometidos, antes de mais nada, com a manutenção de um sistema corrupto e perverso que se sobrepõe à individualidade desses candidatos, que por sua vez só se esforçam pra garantir ambições pessoais.”

    Mãe: “Mas eu e seu pai sentiremos a sua falta!”

    Filho: “Não sentirão. Terão mais espaço e menos despesas. Conversaremos através de inúmeros meios de comunicação que existem hoje, e virei visitar vocês, e então nesses dias, logo, lembraremos as razões pelas quais estou saindo. Aí renovaremos a saudade através da vivência de nossas próprias vidas, e então virei visitar novamente, e seguiremos esse ciclo saudável. De qualquer forma, estarei morando na casa de uma parente.”

    Mãe: “Você vai se arrepender! Tem muito o que aprender sobre a vida!”

    Filho: “Uma pequena parte disso eu aprenderei na faculdade, enquanto estiver lá. O resto aprenderei com a convivência humana em várias esferas, e sei muito sobre o quão terrível é essa parte. O resto é relativo a pagar boletos. Pra isso existe o trabalho, que sei que muitas vezes é escravo, como o do meu pai. A escravidão dele tem um agravante, que é o fato dele pensar que é livre. Quanto a mim, sei que liberdade é um conceito muito abrangente, que requer sacrifícios. As brigas por causa de boletos e chateações que ele carrega pra casa são meu sacrifício atual. Nessa próxima fase, uma parte do sacrifício será ter alguns boletos no meu nome. Como trabalho de forma autônoma, não carregarei chateações inerentes à convivência humana forçada no trabalho. A minha tia é suficientemente antissocial para que em casa não tenhamos esse problema. É uma relação que reduzirá nossos problemas com boletos vindouros, e mesmo dentro da mesma casa, cada um estará vivendo a própria vida, compartilhando cultura e bom gosto musical, algo que, convenhamos, não é possível aqui.”

    Mãe: “Nós pagamos a sua escola até hoje!”

    Filho: “É um gasto que faz parte do seu planejamento familiar. Estarei em universidade pública e esse gasto cessou. De qualquer maneira, muito obrigado.”

    Mãe: “E essa camiseta horrorosa? Foi você quem fez a estampa! Você anda assim na rua sem ser tirado de mendigo?”

    Filho: “É que nunca encontrei pra vender uma camiseta do Guided By Voices, essa banda maravilhosa. Conheci através da minha tia, que é sua irmã mais nova e com a qual você nunca aprendeu nada. Por causa da camiseta, eu conheci uma garota mais velha, outro dia, no metrô. Ela me abordou dizendo que gosta da banda. Então por tudo isso, minha tia é a pessoa apropriada pra eu morar junto atualmente. Ela sempre esteve muito à sua frente em qualquer aspecto que possamos abordar. A coleção de discos que ela tem valeu cada centavo que ela diz ter economizado desde que era criança pra comprar. Os livros dela também são foda.”

    Mãe: “Você vai levar só isso?”

    Filho: “Computador, roupas e bicicleta.”

    Mãe: “Sua vida se restringe a isso?”

    Filho: “A vida material, sim. Pelas previsões mais lógicas e pelos alertas feitos por gente séria que nunca é ouvida pelas massas, há coisas muito mais importantes pra se prezar, e muitas consequências vindouras por séculos de devastação pra se preocupar, então esses poucos bens materiais, são suficientes por enquanto. Eu lamento profundamente ser obrigado a confessar que sinto falta de dinheiro, mas levando em conta que tem gente que mata por causa disso, não devo me sentir culpado. Até porque não fui quem inventou essa merda toda.”

    Mãe: “Você é um moleque cheio de soberba!”

    Filho: “Isso é porque você nem imagina quais são meus planos pro futuro!”

    Mãe: “Quais são?”

    Filho: “Ver o mundo acabar, seja da maneira que for, estar presente pra presenciar o fim da farsa da humanidade, vendo o desespero de quem teme por esse momento, e ver o que realmente acontece depois do fim, sem medo, culpa, recompensa ou castigo.” 

  • A polícia do sonho

    Quando Zími entrou no apartamento, a tábua do piso fez barulho. A luz do quarto de Mila Cox acendeu, ela abriu a porta e falou:

    “O universitário quer fazer a entrevista com você. Certamente porque te considera um punk velho, cheio de histórias pra contar. Deve ser machista, pouco acostumado com mulheres no rock. Ele disse que colou no show de Santo André.”

    Ela anunciou a ele que um jovem que estava presente no fim de semana anterior numa apresentação de Zími e Cox com a banda que tinham juntos, Crop Circles.

    O jovem a qual Cox se referia era estudante de jornalismo, e queria a entrevista para um trabalho acadêmico.

    “Talvez tenha preferido falar comigo pelo fato de eu ser coadjuvante. E o envelhecimento é um processo magnífico, no qual nos tornamos a pessoa que sempre deveríamos ter sido. Minhas versões anteriores estão perdoadas porque era o melhor que podia fazer na época.” — respondeu Zími.

    “Você não é coadjuvante. Nós dividimos os créditos de todas as músicas.”— disse ela.

    Ela anunciou também que compraria um baixo Gibson Thunderbird, e que daria seu Fender Jazz Bass como parte do pagamento.

    Fosse financeira ou musicalmente, isso pouco importava para Zími.

    Cox tomou a decisão ao receber de sua avó a pressão para se manifestar sobre seus planos para ingressar no ensino superior.

     Precisava tomar uma decisão, e a tomou, mesmo sendo algo que nada tinha a ver com o desejo de sua avó.

    Ela tinha agora vinte anos e ainda não tinha o desejo de entrar para uma faculdade.

    Zími tinha quarenta e cinco e se formou em jornalismo antes dela nascer.

    Geralmente era ela quem respondia às perguntas quando alguém pedia para entrevistá-los.

    Eles eram integrantes da banda Crop Circles, um duo.

    Ele era um baterista minimalista, que tocava de pé seu econômico kit percussivo, e em algumas músicas também atuava como vocalista.

    Ela era baixista e vocalista, e usava um sintetizador para suprir a ausência proposital de um guitarrista.

    Dividiam as composições, mas no palco, ela ficava à frente.

     O universitário queria fazer a entrevista de forma falada, pela câmera do computador.

    Zími já havia feito entrevistas, geralmente para outros estudantes, mas nessas ocasiões, havia respondido por escrito a perguntas que havia recebido por e-mail.  

    Marcaram a entrevista para a tarde do dia seguinte.

    Na maioria das vezes quem atendia a esses pedidos era Mila Cox, que estava na sala quando Zími estava pronto para falar.  

    Ela estava curiosa sobre como ele se sairia.  

    Sabia que se tratava de um cara bem articulado, mas que podia não medir a força das palavras, dependendo do tema abordado.  

    Num dado momento, foi perguntado se eles tinham planos de fazer trabalhos solo.

    Zími respondeu que no seu caso seria um livro, que já estava em gestação, e não outra atividade musical, ainda que o conteúdo desse livro fosse em parte relacionado à música.

    O monólogo a seguir se deu quando Zími foi questionado sobre os baixíssimos índices de leitura do povo brasileiro, logo depois de dizer que seu projeto paralelo à banda seria um livro.

    “Não tenho qualquer ilusão sobre ser reconhecido por mérito literário.

    Acho que na música conseguimos ter alguma influência cultural, pelo retorno que temos de pessoas que vão a nossos shows e ouvem as músicas que lançamos em mídia física ou pela internet.

    Mas no Brasil, a grande maioria das pessoas vai para a internet sem nunca ter lido um livro na vida.

    Será invariavelmente mais um idiota na internet.

    Terá como referência milhões de outros idiotas.

    Inspirando e apoiando uns aos outros, os idiotas na rede se multiplicam.

    Não se darão conta da própria estupidez e ridicularidade, e irão cada vez mais longe com ela, por causa da própria burrice e principalmente do retardamento mental coletivo que o cercará, e que até mesmo o acolherá na grande rede, dando-lhes mais confiança para novas empreitadas desastrosas e constrangedoras.

    Mas na verdade, essas empreitadas são desastrosas e constrangedoras apenas para pessoas que respeitam minimamente a própria inteligência, ou que tenham salvado para si um fiapo de sensibilidade e opinião própria.

    E a internet, que quando usada por pessoas que não tem preguiça de evoluir, é um portal interminável de conhecimento, uma universidade que cabe no bolso, e acaba tendo suas serventias desperdiçadas quando usadas por pessoas com a cabeça oca.

    Esse portal incrível, em simbiose com a outra parte, majoritária, que é um antro de patuscadas e um oceano de motivos para vergonha alheia, precisa ser peneirado para que dali se tire conteúdo relevante do meio de tanto lixo.

    As convicções precipitadas e inabaláveis das massas, que constituem o tão desprezível senso comum, crescem destrambelhadamente, sempre para o prejuízo do próprio rebanho, que desconhece o potencial de autodestruição que sua ignorância e alienação possuem.

    A falência cultural que atingiu essa estúpida sociedade de consumo, em todas as classes sociais, se confronta com períodos anteriores em que a produção cultural para as massas ainda tentava usar a qualidade como atrativo, ainda que misturada com recursos que a tornassem mais palatáveis para o gosto popular.

    Antes da internet, era necessário que o artista superasse o direcionamento artístico imposto pelas rádios e, no caso do Brasil, também a escassez de programas dedicados à música.

    Com a chegada dos anos oitenta, essa escassez se tornou crônica, e o Rock produzido no país enfrentava a falta de familiaridade do público, dos produtores e executivos das gravadoras com o gênero, e em muitos momentos, os arranjos típicos da época, que logo se tornariam datados.

    Os artistas da Motown e da Stax, por exemplo, tinham um nível de excelência artística indiscutível, podem agradar desde um intelectual até uma pessoa menos esclarecida, desde que esta ainda tenha alma, e que de alguma forma tenha acesso a essas obras. 

    Tornaram-se clássicos, romperam barreiras entre o que se considerava música negra e música branca, mas hoje, nem mesmo o advento da internet torna possível sua apreciação por uma maioria, que é movida por sucessos populares instantâneos e descartáveis, de qualidade rasteira, machista e sexista, e que não lhes dá consistência para durar como arte.

    Nem precisam durar, pois para a engrenagem sinistra funcionar, o povo tem que estar cada vez mais afogado em conteúdo de qualidade cada vez mais pobre.

    É preciso que haja quase imediatamente a substituição desses sucessos populares por novas aberrações musicais, que alimentam a alienação do gado, que por sua vez as consome avidamente, sem qualquer questionamento. Apenas vão seguindo o resto do rebanho. Falta referência.

    Não há saída para esse beco inóspito, uma vez que a educação e a cultura, que são armas poderosas para que uma pessoa possa adquirir discernimento, não fazem parte da realidade brasileira.

    É preciso estar muito além disso para que um território povoado possa ser chamado de país.

    É preciso que as pessoas leiam, deixem de ser bisonhas, para que não sejam manipuladas de uma maneira tão triste.

    Baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar, ao invés de pesquisarem, para que saibam efetivamente sobre algo.

    São pessoas cheias de necessidades implantadas, que não são reais. Isso lhes causa frustrações diárias.

    Seria mais legal se vivessem menos de aparências, que deixassem de guardar taças de cristal para visitas, enquanto bebem em copos de requeijão.

    Ontem mesmo recorri a uma fuga, tomei umas bebidas pra comemorar a vitória do Uruguai sobre o time da CBF., antes de colocar som num baile da saudade. Não sei como alguém que diz ter alguma estima pelo país pode torcer pra aquela gente.

    Mas antes disso fizemos uma música parodiando a alienação do povo brasileiro.”  

    Zími foi discotecar numa festa para pessoas da terceira idade, convidado pelo pai de um amigo que fazia aniversário naquele dia.  

    Antes da conversa com o universitário começar, ele havia espetado o pen drive que levara para a festa, que tinha músicas pop dos anos sessenta.  

    Para que a discotecagem não fosse uma picaretagem completa, Zími  alternava as músicas do pen drive com a execução de compactos de vinil de Chriz Montez, Classics IV e outras coisas do gênero.  

    Na festa ele contava com uma vitrola para tocar discos de vinil e uma caixa de som para espetar o pen drive, enquanto fingia manipular os discos.  

    O universitário estava ouvindo as músicas de fundo enquanto Zími se prolongava nas respostas e perguntou sobre aquelas músicas, que não pareciam com o estilo dos Crop Circles.  

    Zími, que vestia uma camiseta dos The Germs, admitiu que nesse ponto, ele e Mila Cox sofreram influência do Jesus and Mary Chain, ao tentar colocar melodias pop encobertas por ruídos pouco ou nada palatáveis aos ouvidos médios, acostumados com hits radiofônicos.

    Quando o jovem universitário lhe perguntou sobre o que Zími esperava do futuro da música e da humanidade, ele respondeu:

    “Não vejo o futuro humano com otimismo nenhum. Do micro ao macro, a tendência é a autodestruição da espécie. Tudo está caminhando para um lado sinistro.

    As pessoas se enfurecem com banalidades cotidianas, mas quando se trata de acontecimentos que devastam suas vidas irremediavelmente, parecem pouco se importar, ou nem mesmo perceber.

    Individualmente, não é raro que atinjam patamares olímpicos de constrangimento aos poucos que pensam com alguma clareza e discernimento.

    Sobre o cenário político mundial, é ainda mais pavoroso falar.

    Logo as diferenças irão causar uma erosão política irreversível, sendo que a atual conjuntura de guerras poderá acelerar o fim a médio ou até mesmo a curto prazo.

    A música parece acompanhar esse processo. É possível encontrar coisas boas no underground, longe da grande mídia, que compactua com a destruição do cérebro das pessoas, que não apreciam música como sendo uma forma de arte, e sim como uma distração bastante rasa, machista e sexista.

    Chegamos a um ponto em que a música de qualidade, seja qual for seu gênero, é destinada a um nicho, um grupo seleto de humanos que usam o cérebro.”

    Depois da entrevista, fizeram pizza no forno de padaria que tinham na cozinha.

    No dia seguinte, começaram a compor uma música em homenagem a Dwight Twilley, assim que tomaram conhecimento de sua morte.  

  • Soberba

    No aniversário do vovô, a neta diz a ele: “Vovô, você foi chamado de soberbo pelo resto da família desde muito antes de eu saber o que isso queria dizer, mas tem sorte por já ter vivido bastante e não ter que se preocupar com o futuro, né?”

    O vovô respondeu: “Nunca me preocupei com o futuro. Sempre temi pelo presente mesmo. Mas nunca na mesma intensidade de hoje em dia.”

    Neta: “Sim, mas você não é tão velhinho como os vovôs dos meus amigos. Tem algum medo de morrer?”

    Vovô: “Não é medo de morrer, não. Quando essa hora chegar, espero estar sedado com alguma droga que certamente será a melhor que já tomei na vida, e espero não sentir nada. É quase inevitável que sejamos soterrados pelo esquecimento coletivo quando morrermos, não importa o quanto alguém seja autoindulgente, orgulhoso e arrogante. Não sou tão velho quanto os vovôs dos seus amigos porque seu pai nasceu quando eu e sua avó éramos relativamente jovens. Seu pai veio sem o nosso planejamento, concebido num feriado em que ela e eu vacilamos.”

    Neta: “Então, consequentemente, eu também não estava nos planos, né?”

    Vovô: “Isso é uma outra história. O seu pai a teve com o devido planejamento, felizmente. Inclusive é casado no papel com sua mãe.”

    Neta:Você e a vovó não são casados no papel?”

    Vovô: “Não. Nunca achamos que isso fosse necessário.”

    Neta: “Que música é essa que está tocando?”

    Vovô: “Essa é ‘Days’, da banda Television, do segundo álbum deles, ‘Adventure’. Obra prima.”

    Neta: “De onde você tirou esse gosto musical tão incrível?”

    Vovô: “Provavelmente das lojas de discos que eu frequentava, no centro de São Paulo. Não havia publicações decentes, as rádios eram ruins e não havia internet. Sem contar que também não havia muitos shows internacionais. Era preciso ir atrás de informação com pessoas que eram do ramo. Era uma batalha.”

    Neta: “Mas eu sou jovem e tenho um futuro cheio de bizarrices pra enfrentar! Essa é a verdadeira batalha!”

    Vovô: “É a mesma sensação que eu tinha quando era jovem. Eu apenas não sabia que as letras das músicas que eu gostava se tornassem realidade. Não a letra dessa que está tocando, especificamente. Mas há outras que previam um futuro bastante sinistro.”

    Neta: “Pra quem ficarão seus discos de vinil?”

    Vovô: “Fiz um testamento, e você pode apostar, só será lido quando eu morrer. Para que não me matem antes da hora. Não há dinheiro envolvido na herança, seria triste morrer por causa dos discos. Ouço música em streaming desde que isso se tornou possível. Mas a vantagem disso não é a facilidade. É ter a música acessível para quem sabe escolher. De uns anos pra cá foi possível ter acesso a discos que antes eram impossíveis de serem encontrados. Muitas vezes sabíamos que existia, mas o acesso era impossível. Tem gente que acha bonito e compra reedições. Eu jamais faria isso, até por razões financeiras. O que eu não tenho em vinil, ouço na internet mesmo.”

    Neta: “A vovó falou que você já apanhou dela de cabo de vassoura nos anos 70 porque era pegador. Isso é verdade?”

    Vovô: “Se eu disser que sim, seria autoindulgência, por confirmar que era pegador, e ao mesmo tempo humilhante por admitir ter merecido apanhar de cabo de vassoura.”

    Neta: “E se você disser que não?”

    Vovô: “Aí eu sei que você dirá pra sua avó que a chamei de mentirosa, e possivelmente apanharia de cabo de vassoura depois de velho.”

    Neta: “É verdade que você nunca votou nas eleições?”

    Vovô: “Quando as eleições eram feitas com cédulas de papel, eu ia só pra escrever palavrões e anular o voto. Aproveitava e voltava com canetas e isqueiros com o nome de candidatos, que eram riscados com uma chave. Quando a urna passou a ser eletrônica, fui só na primeira vez, pra ver como era. Nunca apoiei nenhum desses vermes repugnantes que querem o poder e fazem alianças inescrupulosas, chegando ao poder e fazendo esse país continuar a várzea que sempre foi e continua sendo. Assumem cargos públicos sabendo da situação calamitosa do Estado e logo estão colocando a culpa pela desgraça em seus antecessores, que antes faziam a mesma coisa.  Com isso, a vida da cidadania se deteriora cada vez mais, e logo vem outro eleito em seguida para fazer a mesma coisa novamente. Quando falam em uma ‘nova política’, pode apostar que é mais um picareta querendo sugar dinheiro público. A menos que um eleitor tenha algum tipo de interesse na vitória de um ou outro candidato, trata-se do chamado ‘corno eleitoral’, que às vezes até mesmo faz campanha para aquele em que vota.”

    Neta: “Mas todos são vermes repugnantes?”

    Vovô: “É algo inerente à condição de um político profissional. Política, qualquer pessoa faz no cotidiano. Mas o que essa gente faz é politicagem. Por questões sistemáticas, e não apenas por ética pessoal, não podem chegar ao poder e simplesmente agir contra o sistema que os colocou lá. Tenho certeza que tanta ganância é fruto do fato de se tratar de pessoas infelizes consigo mesmas, que, nesse caso, tem toda razão para isso. A ‘força do seu voto’ é uma falácia. Obedece apenas aos interesses dos envolvidos na disputa pelos cargos.”

    Neta: “Se a vovó não tivesse ficado grávida do meu pai, vocês ainda estariam vivendo juntos?”

    Vovô: Eu era funcionário na livraria dela. Quando nos conhecemos, disse que teria gratidão eterna pelo emprego, que na ocasião, me ajudou muito.”

    Neta: “Mas isso não é agir por interesse?”

    Vovô: “Todas as relações são movidas por algum tipo de interesse.”

    Neta: “Mas existem aquelas que são movidas pelo amor!”

    Vovô: “Não deixa de ser um interesse. Mas eu amo a sua vovozinha.”

    Neta: “Rolavam muitas tretas no começo, quando você era empregado na livraria?”

    Vovô: “Rolou uma outro dia. Saí domingo à tarde, encontrei algumas pessoas, e ela ligou dizendo que ia ter pizza, e por isso eu deveria voltar logo. Tomei só duas pingas de marca boa e um litrão, e ela disse que cheguei bêbado. Nesse dia, quase apanhei de cabo de vassoura. Mas as tretas antigas ficam obscurecidas por fatos mundanos sobre os quais não temos controle, e as tornam esquecíveis e irrelevantes”.

    Neta: “E essa música que está tocando agora, qual é?”

    Vovô: “The Roches. A música é ‘Hammond Song’. É um clássico que só pessoas como a gente ainda ouve.”

    Neta: “Nossa, então como eu não conhecia?”

    Vovô: “É porque o mainstream corporativo é um lixo, e fica cada vez pior. É preciso que haja interesse por conhecer coisas que não tocarão no rádio e nem serão apresentadas pela mídia.”

    Neta: “Mas você gostou quando tocou Badfinger no final do Breaking Bad!”

    Vovô: “Isso pode acontecer eventualmente. Eles mereciam, depois de tantas desgraças que permearam a trajetória da banda. Fui a um show deles no Ginásio do Ibirapuera. Eu e mais meia dúzia de gatos pingados. Só havia um integrante original no palco, os outros já haviam morrido. Mas pra mim, não deixou de ser histórico.”

    Neta: “Esqueci de comprar seu presente. Mas lhe darei algum, mesmo com atraso. Gosto de dar presentes úteis, que deixem o presenteado satisfeito. O que você quer ganhar?”

    Vovô: “Quero apenas que você vá até sua avó e sugira a ela que chame umas pizzas pra gente. Muita pizza, pra sobrar para o café de amanhã cedo. Isso vai encher meu coração de alegria.”

  • Vilania

    Seus trabalhos remunerados os sustentavam e não eram tão degradantes. Mila Cox e Zími sabiam que a distância que mantinham do mainstream era de se esperar. 

    A repercussão que conquistaram resistindo, e às vezes  se arrastando no underground durante os últimos anos, era satisfatória. Eles gostavam de acreditar que a dor existe no que há entre aquilo que as pessoas são, e aquilo que elas idealizam ser. 

    Como eles não tinham o ego inflado, estava tudo bem. 

    Haviam também motivos extra-musicais para essa postura.

    Essa parceria musical tinha pouco mais de um ano quando foi decretada a pandemia.  

    Tinham feito poucos shows até então. Puderam compor e lançar músicas na internet.

    Estavam agora num ponto em que poderiam dizer que  enfrentaram condições gerais hostis desde o princípio.

    Percebiam que em certos momentos, estavam influenciando positivamente vidas juvenis e dando um choque em mentes reacionárias.

    O anonimato que Mila Cox e Zími ainda tinham podia ser uma arma em suas mãos.

    Artistas obscuros eram mais legais para eles.

    O som que faziam era impalatável para as massas.

    Como já mencionado antes, seus trabalhos remunerados os sustentavam e havia um certo tempo livre e de isolamento para criar, e assunto não faltava.

    Manter distância da soberba e presunção de grande parte da cena musical mundial era não só um lema para suas vidas pessoais, como também uma temática para suas músicas.

    “Putsss, tô fudido!” – foi o que Zími pensou ao se lembrar que estava na véspera da gravação de um podcast. Ele adorava podcasts, mas não sabia e não se perguntava quando participaria de um.

    Mila Cox também nunca havia aparecido em nenhum podcast, mas tentava acalmá-lo.

    “Acho que quando você começar a falar, ficará mais fácil. Apenas tome cuidado e não grave chapado.”– ela disse.

    “Eu nunca me tornaria fascista, nem racista e nem machista, mesmo chapado. Mas entrarei careta e falarei somente o necessário.”– ele respondeu.

    Zími disse se tratar de um tipo de nervosismo que bateu na véspera.

    Diferente de quando ele fazia shows, e o nervosismo surgia apenas quando o momento da apresentação estava próximo.

    Apenas pensava que quando fosse o momento, falaria de seu projeto musical.

    Ele até então concentrava sua exposição fazendo shows e lançando músicas na internet, e com eventual produção de mídias físicas, em vinil e cd.

    Analisava a repercussão e algumas consequências positivas e negativas de ampliar a sua exposição para além de um produto artístico, aprendendo com o que foi feito pelos que vieram antes.

    Aproveitava do que havia de bom em ser um sujeito desconhecido que apresentava na internet as suas músicas.

    A semana em que Kevin’Geordie’ Walker e Shane MacGowan morreram quase simultaneamente, representou a queda de dois pilares culturais para Mila Cox e Zími.

    Então começou o mês de Dezembro, e os esboços que tinham para novas músicas naqueles dias eram sobre a insatisfação inerente à existência. Iriam então adaptá-las, para que também servissem como homenagem aos músicos falecidos. 

    Então decidiram que em breve deveriam lançar mais um single, para ficar pronto até o fim do ano.

    Os singles de antigamente tinham duas músicas, uma para cada lado do compacto de sete polegadas. 

    Hoje em dia singles tem uma música só, mas eles fariam à moda antiga, para lançarem também em vinil.

    Dias antes, Zími sentia algo parecido com uma crise de meia idade, algo que ele nunca pensou que fosse enfrentar, e nem mesmo tinha certeza de que fosse esse o caso.

    Desde o tempo em que era um moleque que vivia com os pais, ele não se sentia tão estável na vida, e ironicamente, isso lhe causava estranheza.

    A vida continuava sendo a tentativa diária de equilíbrio entre escolhas e consequências, mas agora tinha uma residência fixa, com as contas pagas em dia, tinha comida em casa.

    Havia enfim uma estrutura geral digna para um cara de quarenta e seis anos que precisava achar equilíbrio entre ação e sossego.

    Às vezes chegava a ser estranho para ele, que agora não vivia mais tão amargurado com os altos e baixos de sua vida.

    O lar é onde uma pessoa cessa as tentativas de fuga .
    Dizia que o casamento duplica as obrigações de uma pessoa, e reduz à metade os seus direitos. 

    Sempre esteve decidido a  continuar solteiro, pois também temia que sua vida artística sofreria, caso ele se casasse, seja lá com quem fosse.

    Enquanto refletia sobre como deixou de desejar tão intensamente viver apenas para ver o fim da humanidade (onde o final definitivo nivelaria de uma vez por todas os indivíduos de qualquer época apenas como pertencentes a uma espécie extinta por autodestruição), pegava embalo no entusiasmo juvenil de Mila Cox para criar e continuar contestando valores estabelecidos que ele desprezava.

    Ao mesmo tempo pensava no grau de seu egoísmo em relação às gerações que o sucederiam, e que pouco ou nada tinham a ver com a situação do planeta e nem com as vergonhas sucessivas causadas pelos poucos humanos que realmente ditam regras, seja em termos de degradação ambiental irreversível, seja nas relações também tão degradadas já no século vinte e um adentro.

    O que sempre houve foi uma força individual e coletiva pela consolidação de uma existência frágil e finita, que pode ser perpetuada pela glória ou pela vergonha

    Muitas vezes sem que os protagonistas ainda estejam vivos para aproveitara glória ou se redimirem da vergonha.

    Zími dizia ser como um cachorro velho, que demora para se acostumar a novos lugares e realidades, e em seu caso isso parecia valer até para a prosperidade material. Talvez por receio de perdê-las por algum motivo, e aí sim ter uma nova mudança desfavorável.

    Sua parceira musical Mila Cox era vinte e seis anos mais jovem, e isso agora lhe motivava a fazer música até morrer, embora não tivesse a pretensão de ser eternizado por isso. Pensava que depois de morto isso não faria mais diferença.

    Tratava-se de aproveitar sua existência em vida, seja lá qual fosse o seu sentido.

    Geralmente um artista não está preparado para uma ascensão meteórica.

    A queda vertiginosa que normalmente a sucede é um golpe ainda pior.

    Mila Cox e Zími nunca viveriam a primeira situação, pois já trabalham há algum tempo para deixarem música relevante para o público que a assimilar.

    Cox costumava dizer que a música deles era um manifesto de esquizofrenia e promiscuidade musical. 

    Dificilmente atingiria um público imenso, mas pensava em colher frutos mesmo com um público não tão grande.  

    Ela nunca considerou outra possibilidade que não fosse questionar tudo, e usar a música como recurso. 

    Sabia que as massas viviam um cotidiano que não fazia referência a nada superior, e explorava essa temática.

    E o resultado a ser colhido seria poder fazer turnês mais estruturadas, para lugares mais distantes, para além de cidades do sudeste e sul do Brasil.

    Aprendera certas lições ao longo da vida, e há muito havia entendido que não há glamour para ninguém, quem quer que fosse.  

    A certeza da morte vindoura, cedo ou tarde, ainda o entristecia um pouco quando pensava no assunto. 

    Seu receio era de sofrer doente antes de morrer.

    Mas estar fazendo rock com quase cinquenta anos, depois de uma pausa que ele pensava ser definitiva, ao lado de uma jovem, que dias antes se desesperava com matérias antigas sobre queimas de arquivo da cultura brasileira em incêndios.

    Cox também adotou pouco tempo antes a palavra ‘estoicismo’ e o mencionava quando Zími estava azedo.

    Ela era pressionada pela família para que fizesse uma faculdade, e alegava ser impossível fazer mais pesquisas do que já fazia, tendo terminado o ensino médio e mergulhado na ideia de ter um emprego para sustentar a vida na música.

    Para Mila Cox, Zími tinha apenas eventualmente o humor de um cara de meia idade, mas não tinha a aparência e nem o comportamento de alguém que tivesse aos trinta e cinco.

    Havia entre eles uma simbiose artística que a permitia seguir sem deslumbramentos ou ilusões sobre a vida no meio musical.  

    Já para Zími, essa simbiose artística permitia continuar com ânimo para fazer música, lançando os trabalhos na internet e eventualmente em mídias físicas, e viajando numa Kombi para cidades do interior para fazer shows.

    A Kombi era do vizinho e amigo uruguaio Silvano, que na mesma faixa etária de Zími, começou tardiamente uma carreira musical, encorajado pela dupla, e passaram a trabalhar apoiando-se mutuamente.

    A parceria com Silvano, que agora era uma banda de um homem só, e misturava influências de punk rock, blues e rockabilly, mudou a vida dos três.

    Mila Cox e Zími formavam os Crop Circles, duo que misturava punk rock, post punk e psicodelia. Cox era vocalista, tocava contrabaixo e sintetizadores, e Zími também era vocalista e tocava bateria de pé, usando um kit minimalista.

    Conheceram-se quando Mila Cox e Zími se mudaram para o mesmo prédio que ele vivia há onze anos. Moravam no mesmo andar, o que facilitou a aproximação entre eles.

    Silvano falava português sem sotaque, pois vivia no Brasil desde pequeno.
    Seus shows eram agendados nas mesmas datas que os Crop Circles tocaram desde então.

    Quando soube que Zími estava nervoso por causa da gravação de um podcast, Silvano falou: “Deveríamos fazer um podcast semanal! Nem sei porque não pensei nisso antes!”

    Zími respondeu: “Publicidade é importante, mas excessos extra-musicais podem levar tudo à ruína.  Aumentar a fama sem ganhar dinheiro é o pesadelo que eu não quero ter. O contrário disso seria formidável, e se encaixa melhor naquilo que eu idealizo. Ter mais dinheiro e andar anônimo na rua seria incrível. Ou pelo menos conseguir que o aumento da popularidade seja proporcional ao do dinheiro.”

    Silvano: “Eu sei que muitas vezes se dá muito mais valor ao anonimato depois que ele é perdido. Mas no nosso caso, por mais bem sucedida que fosse  a estratégia promocional, no caso o podcast, isso não ia nos impedir de continuar frequentado a mesma padaria que frequentamos. Eu comecei a carreira musical agora, mas não ter sido chamado pra uma entrevista sequer, chega a me incomodar”

    Zími: “Eu odeio essa parte. A Mila é quem responde na maioria das vezes, e ela adora. Eu não me importaria se fosse sempre assim. Algumas vezes as pessoas, geralmente estudantes, querem falar especificamente comigo. No lugar do orgulho e do entusiasmo, fica uma certa ansiedade.”

    Silvano: “Você não deveria se preocupar com o surgimento de haters.”

    Zími: “Eu não me preocupo com o surgimento deles. Eles já existem, mas são tão ignorantes que nem mesmo sabem que eu existo. Assim que tomarem conhecimento, gritarão na internet daquela forma que você não vê ninguém gritar na rua. A essa altura, a nossa popularidade será maior. E essas pessoas são tristes, ignorantes, pretensos algozes da liberdade. Eu não aguento nem pensar sobre eles. Há sempre um limite além do qual a tolerância deixa de ser uma virtude.”

    Então Mila Cox disse que estava pensando em chamar um saxofonista para concluir algumas músicas.

    Zími perguntou: “É pra imitar o X Ray Spex? “

    Mila Cox: “Também, um pouco. Mas há muitas  outras influências que apontam essa possibilidade. Não seria nunca um membro oficial da banda. É para intervenções pontuais em uma música. Sei que um saxofone aleatório pode descambar pra cafonice, mas não é o nosso caso. O Zappa fazia bom uso quando precisava porque ele também satirizava. Era isso que cortava o risco de ser ridículo.”

    E ela saiu do apartamento. 

    Pela janela, minutos depois, Zimi e Silvano a viram entrando na padaria do outro lado da rua, provavelmente para beber.
    Ela só bebia quando tinha bloqueio criativo. 

    Eles bebiam muito e ela os chamava de alcoólatras.

    Entraram na padaria e lá estava Mila Cox conversando com Zíron, que provavelmente havia combinado de se encontrar com ela.

    Zíron tocava sax e já estava avisado que não seria membro oficial dos Crop Circles, apenas poderia fazer participações eventuais em gravações.

  • Dinossaura herbívora

    A avó tinha mesmo pintado o cabelo de azul, foi para o churrasco da família só para beber e usava uma camiseta do Circle Jerks

    Ela só falava quando solicitada.

    E embora fosse, a princípio, econômica em suas falas, uma vez que engrenava num assunto de seu interesse, nada podia detê-la.

    Isso deliciava a curiosidade dos netos e causava atrito com os filhos, um casal de gêmeos adotivos.

    Ainda assim, conversava com os netos sobre qualquer tema que lhe fosse apresentado.

    “Vovó, você acredita em vida inteligente fora da Terra?”

    Vovó – “A questão não é sobre haver ou não vida inteligente fora da Terra.

    A questão é sobre a parcela de vida inteligente que há na Terra não se sobrepor à estupidez vigente que nos aprisiona num estágio civilizatório bastante primitivo.

    Há também a questão sobre o porquê de convencionar a humanidade como uma forma inteligente de vida, de um modo geral. É sobre não aprender com experiências anteriores de outras pessoas, e muitas vezes nem mesmo com as próprias experiências, individual ou coletivamente.

    O entendimento do que é progresso deveria ser revisto há muito tempo. Vive-se cada vez pior.”

    Netinho: “Então porque você teve o papai como filho?”

    Vovó: “Ele foi adotado. Ele e sua tia são filhos de uma moça que não tinha condições de criá-los. Eu e seu avô pegamos pra criar, e a moça desapareceu no mundo sem olhar pra trás.”

    Netinho: “Então você nunca teve filhos biológicos?”

    Vovó: “Não.”

    Netinho: “Por quê?”

    Vovó: “Não suportaria o processo que envolve a gravidez e não tinha a maternidade como um plano na minha vida.”

    Netinho: “Mas você sempre cuidou do papai como sendo um filho!”

    Vovó: “Claro, ele é meu filho, independentemente de ter saído ou não da minha barriga, e independente de eu ter ou não planejado algo do tipo.”

    Netinho: “Vovó, porque você nunca vai à igreja?”

    Vovó: “Porque procuro ter a ética como diretriz, e não a religião.”

    Netinho: “Me explique isso melhor!”

    Vovó: “Não sou articulada o bastante, mas vou tentar explicar através da diferença entre essas duas coisas, com as palavras que agora me ocorrem. Enquanto na ética se faz o que é certo, independentemente do que está escrito, na religião procuram fazer o que está escrito, independentemente de ser certo ou não. O medo e o desespero fazem com que muita gente acredite nesses pastores picaretas que pedem dinheiro na televisão. Deus não existe, mas se existisse, sei que não precisaria de dinheiro, e muito menos o teria inventado. E ele sempre foi retratado de modo que o povo sentisse medo de castigos que ele supostamente aplicaria para o caso de suas regras não serem seguidas.

    Mas pense com sua própria cabeça e tire suas próprias conclusões.

    Na verdade, o que deveria intrigar as pessoas é o fato de que quem prega essas coisas são pessoas que seriam então duramente castigadas. Entenda que por trás de todo paladino da moral, vive um canalha.”

    Netinho: “Vovó, é verdade que você e o vovô nunca foram casados?”

    Vovó: “Desde que nos conhecemos, temos cada um a sua própria casa, e passamos tempos juntos numa casa ou na outra, quando consideramos que essa relação é saudável e conveniente para ambos, sem maiores discussões ou lamúrias.”

    Netinho: “Nunca se casaram no papel nem na igreja?”

    Vovó: “Concordamos desde o início que casamento é uma instituição falida, machista e patriarcal. Algo repugnante demais para incorporar no nosso modo de vida.”

    Netinho: “Quem é essa que está cantando?”

    Vovozinha: “Kate Bush.”

    Netinho: “Vovó, por que você é vegana?”

    Vovó: “Porque não acredito que a essa altura ainda seja necessário que matem bichos pra comer. Acredito menos ainda que seja necessário gastar tanto para criarem esses bichos para matá-los.”

    Netinho: “Vovó, você acredita em terias da conspiração?”

    Vovó: “Em teorias não, mas de vez em quando, nas conspirações propriamente ditas. Não costumo pensar muito nisso, porque prefiro acreditar que muitas bizarrices causadas pela humanidade podem ser atribuídas à estupidez mesmo.”

    Netinho: “Quem é esse que está cantando agora?”

    Vovozinha: “Todd Hundgren!”

    Netinho: ”Ele é muito bom!. Por que ele não é famoso?”

    Vovozinha: “Porque querem que você cresça retardado, ouvindo música de merda.”

    Netinho: “Quais as cinco melhores bandas?”

    Vovozinha: “Vou responder sem pensar muito, e se você perguntar amanhã não sei se serão as mesmas. The Kinks, The Jesus and Mary Chain , X Ray Spex, Husker Du e Velvet Underground. Alguns medalhões ficaram de fora por serem muito óbvios.”

    Então colocaram para tocar músicas dessas bandas no celular do netinho.

  • Fardo

    Zími sonhou que havia se tornado crooner e cantava com uma banda de músicos de jazz num pequeno teatro decadente, que no sonho havia reaberto no Bixiga.

    Havia na plateia pessoas conhecidas dele que jamais estiveram e nem poderiam estar juntas um dia, pelos mais diversos motivos, entre os quais o fato de algumas delas estarem mortas.

    O único momento que podia lembrar dele mesmo cantando no sonho, fazia uma cover de “I saw the light”, de Todd Hundgren num momento que parecia épico.

    Havia para ele momentos em que se questionava sobre o que deveria fazer caso acontecesse a separação do duo Crop Circles, formado por ele na bateria e MIla Cox no baixo e sintetizador.

    A ideia de se tornar um crooner na linha do Tom Waits ou Nick Cave passou a ser considerada depois daquela noite do sonho.

    Zími enxergava charme na decadência, nos casos em que o artista conseguia reconhecê-la, aceitá-la e canalizá-la adequadamente.

    Mas como ele nunca havia saído do underground, não precisava se preocupar com queda de popularidade ou sentir nostalgia por um passado glorioso.  

    Decadência como a que aconteceu com os Beach Boys na primeira metade dos anos setenta, quando já eram medalhões, e apesar de não serem mais uma banda de surf e carros, lançaram belos discos, mais maduros,de 1969 até 1973.

     Sem nenhuma repercussão, se comparado ao início da década anterior. 

    E aqueles eram os melhores discos que eles tinham feito.

    O Jefferson Airplane, o Jethro Tull e o Led Zeppelin eram alguns dos que assumiram o topo.

    Zími e Mila Cox adoravam Pet Sounds, mas gostavam mais de Wild Honey e Sunflower.

    Estava acostumado a trabalhar com baixo orçamento, em qualquer setor de sua vida.

    Antes do sonho, pensava que, caso largasse a música, se tornaria escritor.

    Ele acordou cedo, como passou a fazer depois que mudou para um apartamento melhor, agora dividido com Mila Cox. 

    Gostava de estar acordado quando ela acordasse, para que nunca fosse repreendido por dormir demais.

    Quando ela acordou e estava fazendo café, Zimi contou sobre o sonho que teve.

    Ela disse que para o caso dele sair da banda ou morrer, ela continuaria com o nome Crop Circles e ele seria substituído, a princípio por uma bateria eletrônica, nas apresentações ao vivo.

    Zími sabia que a cova estava sempre à espera, e é assim para todos.  

    Mas o que o movia na música era a possibilidade de expressar o desejo de ver o mundo acabar antes que a morte chegue especificamente para ele.

    Não importava para ele quantas vezes a humanidade esteve antes aparentemente perto do fim.

    Dessa vez era diferente porque era com ele e seus contemporâneos.

    A iminência da guerra era agora palpável.

     Os danos ambientais já são irreversíveis.

    O pequeno burguês pobre que tem medo de perder o que não tem para o comunismo, vê agora o capitalismo tomar um país inteiro.

    E para piorar, fica do lado do opressor.

    Zími não tinha  medo da morte, mas havia para ele uma tristeza em saber que se morresse exatamente agora, tudo que ele criticava através das músicas da banda continuariam acontecendo, e o final da humanidade, mas não do mundo, chegaria inevitavelmente, mas sem ele ainda vivo para ver e gritar alguma coisa.

    Estar vivendo com mais qualidade provavelmente lhe daria mais tempo para ver com mais clareza esse tempo macabro.

    Além de estarem morando juntos e serem parceiros musicais, também estavam agora trabalhando como copywriters para pagarem as contas, e queriam fazer a banda dar um passo à frente de seu estágio atual, que fazia bons shows, em rolês divertidos, mas não dava lucro e nem prejuízo.

    Para a vida que estavam levando, já era um bom estágio, mas Zími se queixava do desconforto causado por falta de estrutura.  

    O exemplo típico era marcarem dois shows seguidos em cidades vizinhas do interior, e no intervalo entre os shows, dormir no carro, pois um hotel modesto não estava previsto no orçamento.

    Depois de efetuarem com sucesso o segundo pagamento do aluguel do apartamento que passaram a dividir, eles já podiam ter suas impressões sobre o que seria a vida a partir de então.

    Já havia passado tempo suficiente para compararem suas análises individuais e tirarem conclusões a respeito da vida a partir de então.

    Com o dinheiro que gastavam morando juntos, ela consegue sair da casa da mãe e da avó aos dezenove anos, gastando menos do que pagaria numa kitnet para morar sozinha, como Zími fazia até então, aos quarenta e seis anos.

    Agora ele gasta menos do que antes, e morar com sua parceira musical não era um fardo. A ideia havia partido dela, mas ele logo viu viabilidade na argumentação que ela lhe apresentou.

    Toda essa diferença de idade tornava possível a coexistência no espaço de sessenta metros quadrados sem conflitos.  

    Até ali, nem mesmo conflitos criativos aconteceram, como também não aconteciam antes, com ela morando na Penha, e ele a poucos quarteirões do novo apartamento, se encontrando pessoalmente quando alguma música nova já estava pronta.

    A ideia de morar sozinha era tentadora para a jovem, mas até ali acreditavam que o custo/benefício havia sido favorável, sem prejuízo da qualidade de vida de nenhum deles. 

    E de qualquer forma, havia saído da casa da mãe e da avó, que agora terão mais espaço e menos som alto.

    Houve, sim, uma melhora na vida de ambos. As previsões favoráveis de Mila Cox estavam se concretizando naquele período.

    Antes, ela olhava da janela de seu quarto e via o topo do telhado da casa vizinha., com cacos de vidro sobre o muro que as separava. Agora podia ver de longe a Catedral da Sé, e antes dela, ruas em que ela não andava sozinha à noite.

    O inquilino anterior a eles era baterista, então o apartamento era razoavelmente isolado acusticamente.

    Era possível ensaiar ali durante a semana, no horário de almoço, quando o caos e o entra e sai  de gente no prédio causava ruído.

     Especialmente no andar em que moravam, havia bastante barulho externo, o que ajudava a disfarçar os excessos sonoros que saíam do apartamento.  

    Eram mulheres fazendo comida, crianças indo ou voltando da escola e trabalhadores que iam almoçar em casa, portas abrindo e fechando, conversas no corredor e alguém ainda não identificado que sempre passava pelo corredor correndo de tamanco e fazendo barulho.

    Uma normalidade urbana cotidiana que era inspiradora para que eles criassem músicas que criticassem esse estilo de vida.  

    Também era especial estar vivo e fazendo outra coisa que não sucumbir à normalidade imposta apenas para ter a segurança de morrer aos poucos.

    Nos fins de semana, alguns moradores iam para o litoral, e nessas ocasiões, não era raro que Mila Cox e Zími notassem o péssimo estado em que as pessoas estavam justamente na hora do lazer.

    Zími conversou uma única vez com um vizinho que, na tentativa de se livrar da escravidão assalariada numa fábrica de velas, tornou-se motorista de aplicativo.

    Ele se queixava que agora não tinha folga, e se ficasse doente, não trabalhava e nem recebia. Reclamou dos valores cobrados pelo aplicativo, e que trabalhava o dia inteiro para ter o que comer.

    Era um livre empreendedor infeliz. A dor era quase palpável na forma como aquele homem descrevia sua experiência profissional.  

    Disse que fez essa tentativa para ser livre. 

    Agora até o tempo para se lamentar era escasso.

     Zími nunca mais o viu depois dessa conversa, provavelmente porque o sujeito estava na rua trabalhando, ou em casa dormindo para estar vivo no dia seguinte, para trabalhar o dia todo novamente.

    Agora pensava sobre liberdade do ponto de vista individual, esperando que as ridículas ilusões sobre democracia e a soberania das nações tenha caído de vez sob o ponto de vista coletivo depois desse último ataque imperialista.

    Sua fuga desses pensamentos existenciais se dava quando se punha a terminar de gravar alguma música a ser lançada em single na internet, e depois em discos físicos, quando fosse possível prensar uma tiragem.  

    Sempre que Zími tomava a iniciativa de completar uma música, ela já estava começada por Mila Cox.

     Zími cantava em algumas músicas, cerca de trinta por cento delas, e MIla Cox constatou fazendo a parte promocional da banda na internet, que as pessoas preferem as músicas em que Zími canta.

    Ela comparou esse fato ao que sente em relação ao Husker Dü, pois dizia que as músicas cantadas por Grant Hart eram as melhores.

    O mesmo vale para Peter Criss, baterista original do Kiss.  

    Isso dava à Zími também autoestima, e sempre se lembrava que Mila Cox conceituava arte como sendo energia moldada por inteligência.

    A inteligência de cantar nas músicas mais legais somada à inteligência de nunca sequer ter cogitado um empreendimento como o de seu vizinho infeliz era suficiente.  

    A energia vinha da necessidade de se manter vivo e o mais livre que pudesse, sempre lembrando que a liberdade total em vida pode ser inalcançável, e quando for muito fortemente relacionada a dinheiro, também perde em essência.

     Viver afastado do rebanho o motivava para enfrentar o que há de pior na vida cotidiana.

    Naquele momento, a faísca saiu da conversa com o vizinho infeliz, tendo uma vida diferente da dele. Ainda mais para o caso de o motivo da infelicidade do vizinho não ser o empreendimento mal sucedido.

    Mesmo porque o amigo Silvano (que dizia que Zími era mais sortudo que o Ringo Starr), fazia carretos com sua Kombi e pagava suas contas, andando sempre limpo, bem alimentado e cheio de energia para qualquer empreitada para a qual fosse requisitado.

    Com exceção do uruguaio Silvano, nenhuma dessas pessoas que moravam no mesmo prédio tinha a menor ideia do que se passava na cabeça de Mila Cox e Zími, e tinham curiosidade a respeito.

    Silvano agora era o condutor dos Crop Circles para shows dentro e fora da cidade, pois tinha uma Kombi, que usava para fazer carretos.

    Mas no prédio em que moravam, os dois eram apenas novos vizinhos, sobre os quais os moradores antigos não sabiam se havia ou não algum parentesco. Sabiam apenas que faziam música juntos.

    Para alegria de Zími e viabilidade do projeto como um todo, Mila Cox era responsável por toda a parte promocional da banda na internet.

    Ela conhece gente, marca shows, compartilha postagens e tudo mais. 

    Ele sai para fazer correrias de correio relativos à banda. 

    Geralmente eram caixas de discos para ou envio ou recebimento.

    Ele queria ter dinheiro para comprar aquele apartamento, e não ter que pagar aluguel.

    Ela disse que se fosse assim naquele momento, talvez perdesse a graça.

  • A fome do rico

    O garotinho olhava do lado de fora do restaurante os pratos fartos serem ignorados pelos frequentadores, que falavam ao celular e aparentemente não tinham fome de verdade.

    Então enfiava o dedo no nariz e fazia qualquer ruído para ser notado.

    Em estatísticas dele mesmo, o sucesso parcial da operação era de cinquenta por cento.

    As pessoas largavam de vez o prato e iam embora.

    O sucesso completo da operação exigia que o garçom concordasse em embrulhar o que sobrou e lhe entregasse. Para esse caso a estatística caía para trinta por cento.

    O garotinho era João e seus pais eram pessoas que não tinham medo do futuro.

    O medo era do presente calamitoso que os colocou na rua por não conseguirem mais pagar o aluguel da casinha que moravam.

    Agora os três tinham cama de jornal e teto de papelão, sem endereço fixo.

    Bastava que o lugar estivesse seco e desocupado.

    Cada vez menos havia lugares desocupados, e muitos dos novos ocupantes tinham barracas impermeáveis e planejamento familiar, sem filhos para que dividissem a miséria, a fome e o desespero.

    Não tinham João e os trinta por cento de sucesso em suas performances.

    Tinham apenas as barracas impermeáveis, a fome e o desespero.

  • Sacripantas

    Zími acompanhou Silvano num sábado pela manhã, para que fizessem um serviço de carreto na Vila Mariana. Às oito horas saíram da garagem do prédio onde moravam, no centro de São Paulo.

    Era um trabalho rápido, e já estariam livres na hora do almoço.

    Zími, com uma camiseta dos Circles Jerks feita em casa, receberia um pagamento modesto, talvez simbólico, mas seria suficiente para as suas necessidades imediatas, até que recebesse mais algum dinheiro trabalhando como copy writer ao longo da semana seguinte.

    O trânsito estava esquisito, mas era perto e logo descarregaram da Kombi caixas de cosméticos para um salão de beleza.

    Naquela rua, numa distância pequena, três bares disputavam clientes entre as poucas pessoas que passavam ali, sob o sol forte que fazia naquele dia.

    Um dos bares tinha um bom público e era o maior deles. 

    Era também o mais novo dos três, tendo sido inaugurado semanas antes.

    O outro era intermediário e ainda assim grande, e havia ali um sujeito tomando cerveja junto ao balcão.

    O terceiro bar era o menor e mais modesto, e também o mais antigo entre eles, e estava vazio desde o momento em que Silvano estacionou a Kombi por perto.

    Fazia muito calor em São Paulo.

    Silvano disse que Zími precisava ver o show que aconteceria no bar intermediário às catorze horas. Silvano explicou que assistiu ao show do mesmo sujeito que tocaria ali naquela tarde, e talvez em todos os outros sábados.

    Disse que aquilo era uma inspiração e um encorajamento para começar uma carreira musical independente, como o duo Crop Circles, banda em que Zími é baterista e vocalista, junto de Mila Cox, que era baixista, vocalista e também usava sintetizadores.

    Eventualmente usavam guitarra nas gravações, mas não nos shows.

    Então estavam Zími e Silvano fumando um baseado encostados na Kombi depois de feita a entrega dos cosméticos.

    Terminaram o baseado e Silvano tirou de algum lugar de dentro da Kombi uma garrafa de cachaça de amora, que havia sobrado de um lote comprado no dia de um show em Itatiba.

    Por volta das catorze horas, sob calor excessivo, um cara estacionou uma Parati na frente do bar intermediário. 

    O sujeito que tomava cerveja desde cedo ainda estava lá. A kombi estava na mesma calçada, poucos metros adiante.

    Silvano pediu que Zími prestasse atenção a tudo que o sujeito fizesse.

    Ele montou o kit do banquinho, microfone e um amplificador, de onde saíam bases pré-gravadas, sobre as quais ele tocava violão.

    Zími pensou que Silvano estava fazendo piada com ele.

    O cantor nem havia começado o show e Zími já havia visto nele toda a canastrice e picaretagem possíveis.

    Do outro lado da rua, o bar menor e mais antigo continuava vazio, e o proprietário estava ali na frente, observando o cantor com a cara de quem sabia que uma presepada estava por vir.

    Oficialmente o público era de apenas uma pessoa, o sujeito que bebia ali sozinho desde a manhã. Ele parecia desinteressado.

    Zími entendeu na primeira música a razão pela qual Silvano havia pedido a ele para que assistisse àquilo. Pegou uma folha do caderno  que levava para onde quer que fosse, e escreveu algo.

    Ficaram ali encostados na Kombi sorvendo a cachaça, até que Silvano foi até o balcão do bar em que o cantor se apresentava, pegou duas latas de cerveja e voltou para a Kombi.

    Zími estava num ótimo momento, vadiando sábado à tarde, depois de trabalhar pela manhã.

    Silvano lhe deu a lata de cerveja, para se refrescarem da cachaça de amora, e disse a Zími que no fim de semana anterior o show do cantor também foi um fracasso, mas havia algumas pessoas a mais.

    Embusteiro que era, o cantor contava para quem estivesse em volta que tinha agenda lotada de shows, que vivia exclusivamente de música e já tinha tocado na Europa. Silvano ouviu as conversas, mas na ocasião não participou.

    Dessa vez só havia os dois ali para que o cantor puxasse conversa. O sujeito que bebia no balcão não demonstrava qualquer reação às tentativas do cantor para estimulá-lo.

    Depois que Silvano voltou com a cerveja para a Kombi, o cantor ainda tocou mais uma música, antes de dar uma pausa, que acabou sendo definitiva.

    E antes dessa pausa, Zími comentou com Silvano que o cantor estava bem cheirado. Comentou ainda que tinha certeza que ele mandava com a narina esquerda.

    Silvano constatou que o cara realmente parecia estar tentando morder a orelha.

    O cantor tirou o violão do colo, e se levantou tentando inutilmente disfarçar seu constrangimento.

    Pediu uma cerveja à garçonete, que do lado de dentro do balcão parecia estar lamentando demais por estar ali naquele sábado à tarde quente, ouvindo o sujeito cantar Legião Urbana em ritmo de pagode e outras aberrações, até que finalmente desistisse.

    Quando o cantor, com a cerveja na mão, fez menção de se dirigir á Kombi, Zími disse a Silvano: ‘Agora!’

    O sujeito então começou a falar, se apresentando como ‘o cantor’, e os dois apenas olhavam para ele, sem falar nenhuma palavra, e nem esboçar qualquer reação que não fosse fumar e se tomar goles de cerveja e do drink de amora.

    A garçonete observava do lado de dentro do balcão, tentando disfarçar o riso quando percebeu o que poderia estar acontecendo.

    O cantor repetiu a conversa ouvida por Silvano, sobre agenda de shows, ter tocado na Europa e sobreviver como músico.

    Até que mencionou alguns artistas que gostava, e quando citou a Janis Joplin, Zími se levantou, tirou a folha de caderno dobrada do bolso de trás e a entregou ao cantor.

    No papel estava escrito que a Janis Joplin é muito chata, e que a música ‘Mercedes Benz’ é a mais chata da história, dividindo o pódio com ‘Hotel California’ dos Eagles e ‘Sultans of Swing’, do Dire Straits.

    O cantor leu, e embasbacado, virou-se e foi de volta para o bar em que tocou. Encostou-se no balcão, sob o olhar não menos embasbacado da garçonete, que trabalhava olhando para o relógio sem parar.

    Antes de entrar na Kombi com Zími e voltar para casa, Silvano foi até a bela área de self-service do local, que estava vazio.

    Pegou um recipiente de isopor, para marmita e o encheu com todos os ovos de codorna que haviam ali.

    Então pegou mais uma lata de cerveja para ele e outra para Zími, pagou e então foram para a Kombi

    No caminho curto entre a Vila Mariana e a República, Silvano comunicou a Zími que se lançaria na música.

    Aquele cretino que eles haviam assistido tinha algo que Silvano não tinha até então, que era coragem de se apresentar em público.

    Como assistiram ao que de mais patético poderia acontecer numa tentativa mal sucedida de entretenimento, agora Silvano, sabendo que poderia contar com as estratégias de Mila Cox para se apresentar ao vivo deixando a timidez de lado, e os pitacos de Zími na produção do disco no estúdio caseiro, estava encorajado e poderia abrir os shows dos Crop Circles.

    Compor as músicas e gravá-las não seria problema, pois ele já tinha idealizado o que seria o primeiro disco Músicas de dois minutos, psicodelia dos anos sessenta, misturada com punk rock e alguma canastrice latina seriam suficientes para a estréia em disco.

    Dez faixas e menos de meia hora de duração.Sairia em vinil, cd e K7.

    Chegaram ao prédio em que moravam e cada um foi para sua casa.

    Zími contou para Mila Cox sobre o rolê.

    Ela falou que já tinha pensado em Silvano como músico, seguindo a linha de Bob Log lll ou Dead Elvis.

    Ela disse que estava apenas esperando o momento oportuno para dizer isso a ele.

    Zími começou a contar a história do cantor e ela começou a fazer café.

  • Menções honrosas

    “O conforto é o pior dos vícios!’

    Essa foi a primeira frase que Mila Cox ouviu ao entrar no apartamento que dividia com seu parceiro musical Zími.

    “Hoje valorizo muito mais a vida que levo e as coisas legais que eu tenho, graças àquele período difícil da minha vida.”

    Ele conversava com o amigo e vizinho, o multiinstrumentista uruguaio Silvano, que era uma banda de um homem só, e fazia apresentações junto dos Crop Circles, projeto musical de Cox e Zími.

    Zími falava sobre o tempo em que viveu em ocupações e pensões decadentes da região central de São Paulo, antes de morar com a parceira musical num apartamento bem mais limpo e organizado.

    Ele falava sem parar, e Mila Cox achava que ele e Silvano estavam cheirando pó. Ela achava ridículo que eles fizessem isso na idade em que estavam. Ambos beiravam os cinquenta anos, e ela tinha vinte e um. Os dois bebiam rum com hortelã e limão.

    Silvano preparava os drinks com a mesma euforia que Zími tinha para falar sem parar. O gringo estava usando uma camiseta com a cara do Gil Scott-Heron que ela queria, mas ele comprou antes.

    E Zími agora falava sobre como sofria com os banheiros coletivos, e principalmente com quartos compartilhados. Morria de medo que esse período chegasse em sua vida, e chegou tão logo deixou a casa dos pais para se autogerir.

    “Eu sei que os ricos são muito piores pra aguentar, mas em qualquer horário que eu entrasse nos quartos sórdidos em que morei, havia um filho da puta dormindo, e eu tinha que me virar sem fazer barulho. Era como pisar em ovos no escuro. No prédio em que eu morava com meus pais, achavam que eu era maloqueiro, e nas pensões e cortiços, pensavam que eu era playboy”.

    Falava sobre como aquele período serviu de escola para ele, quando aprendeu na prática o valor da privacidade, algo que ele já valorizava enquanto tinha alguma.

    Quase chorava ao falar do desconforto em que viveu e sobre o quanto as pessoas com quem conviveu eram clinicamente loucas.

    Sobre banhos frios no inverno, banheiros imundos, falta de grana, brigas entre vizinhos, sobre viver um dia de cada vez por falta de alternativa e de qualquer perspectiva de melhora na qualidade de vida.

    A falta de privacidade era um fantasma personalizado em pessoas vazias, que também os esvaziavam As exceções eram tão raras quanto os dias felizes daquele período.

    Ressaltava a todo momento que muitas vezes sua salvação era saber que tudo podia ficar ainda pior de uma hora para outra. Para ele, isso só seria possível se virasse um morador de rua.

    Convivia com vários deles, pois frequentava diariamente as bocas de rango do centro de São Paulo para economizar o dinheiro do almoço. Ainda frequantava esses lugares com Silvano, como medida de economia e para não se aburguesarem.

    Ele falava sobre medo, e sobre como a coragem significa resistência ao medo, e não a ausência dele.

    Era um período em que Zími havia deixado a música de lado, numa pausa que pensava ser definitiva.

    Ele se dizia impressionado com o quanto a religião era presente naqueles lugares. E não podia falar muito sobre o que pensava sobre o assunto.

    Nas pensões, não dizia a ninguém que era ateu, só para não criar polêmica.

    Nesse momento, Silvano fez uma rara intervenção: “Não nos deixar cair em tentação é o mesmo que não nos deixar ver quem realmente somos.”

    E Zími prosseguiu, dizendo que as pessoas agiam de forma antagônica ao que pregavam.

    “O que tornou a história tão violenta foi a fé nas convicções, e não o conflito de opiniões.” — falou.
    Mila Cox o deixava falar. 

    Ela gostava de ouvir o que ele dizia quando Zími parecia uma metralhadora. 

    Não era exatamente pelo que ele falava, mas pelo modo como o fazia.

    Naquele dia, ela simplesmente gravou o que ele dizia, para depois usar algumas partes em letras de música.

    Depois comentou com ele sobre um cara da vizinhança que conhecia os Crop Circles, e que percebeu a influência da banda Suicide na música que eles faziam.

    “Deve ser um coroa, só por saber que o Suicide existe.” — falou Zími.

    “Sim, ele tem mais ou menos a sua idade.” — Respondeu Cox.

    “Um coroa com bom gosto musical e algum conhecimento. A maioria desses velhos não sabe nada, só ouve esses sucessos instantâneos horrorosos do momento, ou música antiga grosseira, sexista e machista.” — disse Zími.

    “Mas isso vale pra qualquer idade!” — ela respondeu.

    “Sim, por isso nossa vida social é restrita a quem tem o mínimo de decência. Uma andorinha só não faz verão, mas voa sozinha. Tem que ter paciência pra encontrar outra andorinha com cérebro, e aí fazer algo decente pra  um dia ser lembrado na lápide. A minha vida pregressa à formação dos Crop Circles é o exemplo disso.” — ele falou, e agora olhando diretamente para Mila Cox, acrescentou: 

    “Se eu não te conhecesse, apenas a visse no metrô durante uma viagem de quinze minutos, talvez pensaria que você é fria e distante, quando na realidade você é seletiva, pois sabe o trabalho que dá a companhia de uma pessoa não apropriada. O sossego pode sumir, e nenhum prejuízo é maior do que esse. Ter logo tomado conhecimento de que o disco da sua vida é ‘Radio Ethiopia’ também ajudou a saber melhor sobre você.”

    Agora Mila Cox reparou que Zími vestia uma camiseta do Killing Joke que ela ainda não tinha visto.

    Já estava gasta e tinha um furo de brasa de baseado.

    Eles estavam com o computador ligado e havia na tela uma foto do Trump com o curativo na orelha, e Mila Cox começou a imaginar o quão grotescas devem ter sido as piadas que eles fizeram antes dela chegar.

  • Rupestres

    Zími saiu para comprar cigarros e desceu pela escada porque o elevador estava demorando.

    Morava no sexto andar, e quando passava pelo terceiro, parou para pegar, perto da lixeira, um suplemento de cultura do jornal do dia anterior, com a Patti Smith na primeira página.

    O assinante daquele jornal leu apenas o caderno de esportes, que estava desmembrado, deixando o resto dos suplementos intocados.

    Antes de guardar o jornal na mochila e sair, estava lendo uma parte da matéria principal, enquanto havia uma conversa alta naquele andar, dentro do apartamento que ficava mais perto da escada.

    Um cara falou para uma mulher: “Eu me casei com a sua filha só pra destruir o seu marido”.

     Zími morava naquele prédio com Mila Cox havia cinco meses, mas ainda não conhecia todos os vizinhos.  

    Não soube identificar a voz do sujeito, e sem esperar para ver se conseguiria contextualizar aquela fala com o desenrolar do diálogo, desceu o resto das escadas até o térreo.

    Então foi buscar o cigarro e na volta lá estava Mila Cox, sua parceira musical, na sala do apartamento parcialmente isolado acusticamente, em concentração obsessiva para uma missão que ela mesmo tornou árdua.

    Precisavam terminar mais uma música naquele dia, para que a faixa entrasse no split que lançariam com a banda Major Flops.

    O disco teria duas músicas de cada lado, um lado para cada banda, com a duração de um EP.

    Já estavam demorando porque uma das músicas já havia sido gravada antes. Nela Zími apresentou o esboço, Mila Cox concluiu, então foi logo depois gravada num único take concluído ainda pela manhã.

    Na música a ser gravada à tarde, a ideia partiu de Mila Cox, que se recusava a dar a gravação como concluída. Segundo ela, a canção era sobre desinventar tudo o que era desprezível, tanto na música como na vida.

    Tinham sorte por não precisarem pagar em estúdios mais profissionais.

    Zími sabia que quando isso acontecia, a pessoa acaba desistindo sem que considere que o trabalho teve resultado pleno, ou que foi realmente finalizado. Mas para aquela ocasião, havia um prazo que estava por vencer.

    Ele já havia gravado a sua parte de bateria e poderia até sair dali até que ela terminasse, mas ele jamais perderia as coisas que ela falaria ao longo do processo.

    Ela havia dito logo no começo do projeto, que dividir o disco com outra banda aumenta ainda mais a responsabilidade do lançamento.

     Seria a estreia dos Major Flops em disco. Zími gostou do que viu sobre eles, mas nada lhe faria parar de pensar que em alguns momentos havia uma influência exagerada de Cabareth Voltaire.

    Zími gostava de Cabareth Voltaire, mas naquele caso, a semelhança era proporcional à que havia entre o Mighty Lemon Drops e o Echo and the Bunnymen.

    Ele sabia que provavelmente Mila Cox percebeu essa semelhança, mas sabia também que para ela isso pouco ou nada os desabonava, e haveria benevolência com uma banda que estava começando.

    Mas Mila Cox estava furiosa porque Zími escolheu colocar uma cover como sendo uma das músicas dos Crop Circles no split. Ela só admitia isso para lado b de singles, e ainda assim com ressalvas.

    Mas para aquele caso, a música era ‘Fixin to die’, de Bukka White.  

    Zími passou os dias anteriores fazendo carretos com Silvano e também passando horas no Sebo do Messias, e não teve como fazer uma música, mesmo porque Mila Cox combinou esse split de última hora.

    Mila Cox fez a guitarra, que aprendeu rapidamente, ouvindo a música original duas vezes.

    Antes, repudiou a ideia de chamar o guitarrista virtuose que conheciam e que morava no mesmo quarteirão que eles. 

    Ele andava na rua com um estojo retangular da Gibson.

    Mas ele não seria necessário porque era uma música simples.

    A rapidez com que ela gravou sua parte naquela faixa lhe deu confiança e credibilidade para seguir sem chamar músicos convidados, principalmente para a guitarra.

    Ela gostava de tocar e gravar guitarra, mas ao vivo prefere ser baixista e se desdobra até com instrumentos de brinquedo adaptados para preencher a falta de um guitarrista nos shows.

    Já fizeram isso mantes, mas a principal ideia a ser seguida é a de trabalhar com o que há disponível.

    Os dedos de duas mãos eram suficientes para contar os shows que fizeram com participação de guitarristas. 

    Mila Cox não chegava a repudiar esses episódios, mas prefere não falar sobre as lembranças que tem dessas ocasiões.

    Havia algo nos guitarristas que ela conhecia, desde o mais virtuoso até o mais tosco, que parecia travar o processo criativo para compor ou gravar uma música.

    Talvez fosse algo relativo ao ego deles.

    Ela também tinha vontade de ter controle sobre o direcionamento artístico da banda, mas curte fazer parcerias. 

    Zími era importante para não deixar que ela fique eternamente tentando finalizar uma única música. 

    Ele fazia intervenções importantes.

    Os Major Flops eram uma banda de Taubaté, e o baterista é neto da ex- vizinha de Mila Cox no bairro da Penha, onde ela até meses antes vivia com a mãe e a avó, que vivem lá até hoje.

    Fariam um show em São Paulo dois dias depois, e chegariam na cidade no dia seguinte, se hospedando na casa da avó do baterista, que é a vizinha da avó de Mila Cox.

    Os Crop Circles enfim terminaram a música, chamada ‘When monday comes’.

    No dia seguinte iriam buscar os Majos Flops na rodoviária, ao meio-dia, na Kombi do vizinho uruguaio Silvano, que os levaria para a Penha.

    Eram dez e meia, quando Zími, Mila Cox e Silvano entraram no elevador, no sexto andar, onde moravam. Iam para a garagem, sair com a Kombi, a caminho da rodoviária.

    O elevador parou no terceiro andar, e um sujeito incrivelmente parecido com o Brian Ferry entrou e deu bom dia.

    Quando ouviu aquela voz, Zími ainda processava em seu cérebro qual seria a zoeira sobre a semelhança do sujeito com o Brian Ferry.

    Foi quando soube que aquele era o cara que se casou com a filha de alguém para destruir o marido dessa pessoa.

    Mila Cox já saiu do elevador segurando uma risada, e Zími agora pensava que o fato do cara parecido com o Brian Ferry provavelmente ser um canalha merecia ser mencionado.

    Já estavam ouvindo o primeiro álbum do Roxy Music quando a Kombi saía do prédio.

    Na rua, durante a música ‘If there is something’, Zími contou sobre o que o vizinho parecido com o Brian Ferry falou, e ninguém falou mais nada até chegarem à rodoviária.

  • Logística Mambembe

    Zími entregou a Mila Cox uma sacola para discos com um LP dentro.

    Ele não a havia presenteado em seu aniversário, dois dias antes.

    Conhecem-se desde o nascimento de Mila Cox, e trocavam presentes eventualmente, mas sempre com alguma zoeira sutil envolvida.

    Era uma edição nacional e comum de uma coletânea da Siouxsie and the Banshees, em bom estado de conservação.

    A contracapa, no entanto, trazia uma dedicatória escrita com esferográfica, que deixava claro que alguém ganhou o disco de presente e passou adiante sem remorsos.

    A dedicatória tomava quase a metade da contracapa, e Zími havia comprado por dois reais, por conta de depreciação.

    Zími havia esquecido a sacola na Kombi de Silvano no dia anterior, e a encontrou naquele momento, num compartimento oculto que há no banco traseiro.

    Zími falou: Não é um disco raro, mas essa edição vem com um texto na contracapa.”

    Mila Cox: “Nossa! Dedicatória de 1985! Amei! Valeu!”

    Eram onze horas da noite do sábado, fazia frio e o camarim e ponto comercial dos Crop Circles era a kombi do camarada Silvano, uruguaio que morava no mesmo prédio que Mila Cox e Zími.

    Mila Cox e Zími eram os Crop Circles.  Um duo, com baixo, sintetizador e bateria.

    Silvano definia o som deles como uma mistura de Violeta de Outono com X-Ray Spex.

    Ele era músico também e atuava como uma monobanda.

    Tocava sentado, usando violão microfonado ou guitarra, e fazia a bateria com os pés, uma gambiarra com caixa, bumbo, chimbal e muita silver tape.

    Zími também usava um kit minimalista de bateria e tocava de pé. Era apenas caixa, prato e chimbal.

    Silvano falava português sem sotaque porque vivia em São Paulo desde os quatro anos de idade.

    Para pagarem suas contas, Mila Cox era copywriter, assim como Zími.

    Silvano fazia carretos e entregas com sua kombi.

    Ambas as atrações se apresentaram numa festa junina nessa noite de sábado.

    Silvano tocou antes. Os Crop Circles haviam encerrado seu show às dez horas. Ambos os shows agradaram o público.

    Esses shows aconteceram na casa de Miro, um agitador cultural do bairro da Casa Verde, que já teve uma banda de Hard Core chamada ‘Colaterais’, e queria fazer uma festa junina com rock alternativo.

    Era uma casa grande, a última de uma rua curta e sem saída. Os demais moradores da rua endossaram a ideia e tudo correu dentro do previsto.

    Conheceram-se num show dos Crop Circles ocorrido meses antes, em Santo André.

    Tinham outro show marcado para o fim da tarde do domingo, em São Caetano.

    Era como se estivessem no intervalo entre o primeiro e o segundo tempo de um jogo de futebol.

    Mila Cox tinha vinte anos sabia que a vitória só se consolidaria ao término do show do dia seguinte, caso tudo fosse mantido sob controle.

    Zími e Silvano tinham quase cinquenta.

    Os dois sabiam que muitos artistas com a idade deles, nos dias de hoje, começam a se preocupar com excessos, especialmente naquele momento em que uma agenda estivesse apenas parcialmente cumprida.

    Quando bebiam, sempre repetiam um ao outro, em meio a gargalhadas, que só não eram completamente inúteis para o sistema, porque ainda faziam mercado e pagavam por gasolina.  

    Com medo de que os dois ficassem muito loucos e dessem milho no show de domingo, Mila Cox buzinava na kombi parada a cada vez que um deles cochilava de bêbado, enquanto ficavam vendendo camisetas dos Crop Circles por mais um tempo depois do show.

    Quando ela buzinava, o som era tão estrondoso dentro e próximo ao veículo, que os dois pulavam de susto e ela ria.

    Zími e Silvano estavam felizes porque estavam com gasolina paga e alguma bonança financeira com o show de sábado. Tomavam Domecq, cada um com sua garrafa, bebendo no gargalo.

    Era o dia de aniversário de Gene Vicent, e naquele dia Silvano tocou clássicos desse mestre e de alguns de seus contemporâneos, em versões mais aceleradas, para complementar seu repertório de músicas próprias.

    Silvano falou para Mila Cox: “Você deveria ter paciência conosco, e entender que sair pra tocar num sábado sem ter prejuízo financeiro como muitos artistas que pagam pra tocar, e ainda lucrar com camisetas e discos, e além de tudo ter um show no dia seguinte, num ambiente completamente diferente, com o tanque da kombi cheio! Amanhã não tem cachê. Terá o pagamento do valor de um tanque de kombi cheio de gasolina, mesma coisa que foi hoje. Amanhã quando voltar pra São Paulo e estacionar na garagem do prédio, teremos lucrado com essa logística bem elementar. Eu e o Zími somos coroas, mas você sabe que mesmo que um de nós morrer hoje, vai levantar e fazer o show assim mesmo, zumbi. Então fique sossegada. A gente já vai voltar pra casa, quando miar o movimento aqui.”

    Zími falou: “Eu adoro a ideia de ter show amanhã. Eu descanso na segunda. Estou vivendo um momento sublime. Na segunda dormirei, enquanto algum escravo assalariado contemplará o próprio retrato na parede de alguma firma por ter sido eleito o funcionário do mês, enquanto seus verdadeiros superiores hierárquicos estarão em orgias, em plena manhã de segunda. E em seguida um gerente patético o chamará de mocorongo e o fará voltar ao trabalho. E nós poderemos lamentar essa condição social mórbida criando mais uma música.”

    Mila Cox: “Eu tenho paciência suficiente. Sei que a Carole King não gravou o ‘Tapestry’ do nada. Foi preciso passar por muita coisa antes de entrar definitivamente pra história. Está tudo bem, agora nós temos uma kombi. Antes de mudarmos pro apartamento e conhecermos o Silvano, foram dois anos com um Chevette 79, e naquele tempo o Zími tinha pavor de fazer shows em dias seguidos. Vocês já estão cozidos por essa bebida e nem sentem o frio que está fazendo. Mas eu não reclamo. Fazer merda virar adubo tem que ser um lema quando ainda se está construindo uma reputação.”

    Zími: “Alcançamos alguma prosperidade sem sucumbir a ideias megalomaníacas de estrelato. Seguirei com essa postura em tudo que eu fizer. Lembre-se sempre que se nós tivéssemos nos transformado naquilo que nossos pais sonharam pra gente, teríamos um destino tão diferente que nem é bom tentar imaginar. Então estar aqui é uma glória. Expectativas exageradas sobre o futuro diminuem a importância do nosso presente vitorioso. Além do mais, São Caetano é perto.”

    Mila Cox: “Você pelo menos fez faculdade. Pelo menos um de nós. Eu ainda sofro com esse tipo de pressão. A vida acadêmica me tomaria um tempo precioso.”

    Zími: Fiz a faculdade de jornalismo apenas pra me livrar dessa pressão. Não reclamo daquele tempo. Hoje eu vejo no que meus colegas se transformaram e agradeço ainda mais pela minha sorte. Com diploma, ainda que inútil pra minha vida prática, sem filhos, com uma banda, e tentando prolongar a juventude sem fazer um papel ridículo.”

    Ao redor da kombi, estacionada na frente da casa de Miro, adultos conversavam e bebiam, crianças brincavam, cachorros passavam farejando alimentos que caíam no chão, e uma trilha sonora mais tradicional em festas juninas era o que se ouvia naquele momento.

    Pessoas que sabiam que a segunda feira chegaria rápida e impiedosamente, dançavam bêbadas com o sossego de estarem próximas de suas casas.

    Eram cerca de duzentas pessoas.

    Silvano pensava secretamente se realmente valeria a pena voltarem para casa, ou se seria vantajoso dormir na kombi com os equipamentos, e na tarde seguinte seguir para São Caetano e fazer o show.

    Dessa vez, mais duas bandas tocariam: Silvícolas e Secreção.

    Zími falou: “Amanhã será outro dia de glória. Vamos tocar antes das duas bandas. É um jogo ganho. Há um sabor especial em fazer a nossa parte e ter mais dois shows pra assistir. Gosto de tocar domingo. A atmosfera não é carregada daquela urgência em se divertir a qualquer custo. Os Silvícolas são ‘posers’, certamente vai ser engraçado de assistir. Ouvi umas músicas na internet e não consegui entender se eles fazem sátira com o ‘hair metal’ ou se realmente se levam a sério. Espero que seja sátira. O Secreção tem umas músicas boas, mas vamos ver se ao vivo chamam a atenção. Mas gosto da forma como eles desprezam o sistema e todo tipo de estrelismo no comportamento de quem se torna afetado por ter uma banda e consegue agendar um show. Musicalmente são de uma linhagem derivada do Minor Threat. Eu não sei se a pessoa que chamou essas bandas tão diferentes fez de propósito ou se faltou critério. O antagonismo entre eles é brutal. Mas é bom misturar. Não é possível que vá rolar alguma treta. Mas se rolar, o Silvano vai filmar pra colocarmos num documentário futuro.”

    Silvano: “Ainda existe treta desse tipo? São moleques criados pela avó, não vai ter nada disso. Além do mais, será outra festa junina!”

    Mila Cox: “Existe gente cretina o suficiente pra tudo que se imaginar, mas eu conversei com eles pela internet, vai ser sossegado. O público que eles vão levar será as namoradas e meia dúzia de amigos também criados pela avó.”

    Zími: “Sim, são moleques da sua idade. Vão ficar com vergonha de fazer qualquer merda juvenil depois que o Silvano e nós tocarmos. Provavelmente eles têm grandes expectativas sobre o futuro, e como quase ninguém os conhece, não vão querer queimar o filme.”

    Por volta da meia noite, as pessoas começaram a se despedir e ir embora.

    Mila Cox falou: “Vamos embora, temos que atravessar o rio Tietê pra chegar no centro. É um rolê. Antes que fiquem ainda mais bêbados.”

    Ao ver abortada sua ideia secreta de estacionar perto de alguma loja de conveniência e dormir na kombi, Silvano se ajeitou ao volante resmungando sutilmente.

    Foram embora dormir em casa.

  • Ímpios

    Zími e Silvano tinham várias piadas sobre o fato de Mila Cox às vezes pensar em inglês.

    Quando criança, ela conviveu bastante tempo com sua tia Sara Cox, que havia morado muitos anos na Inglaterra, depois de viver a juventude numa casa proletária no bairro da Penha.

    Sara tinha ido para lá aos dezoito anos, para estudar. Seus pais economizaram dinheiro por muito tempo para que isso fosse possível, assim que ela atingisse a maioridade.

    Então casou-se com um inglês funcionário de pub para viabilizar uma permanência mais longa no país.

    Sara foi fundamental na educação musical da sobrinha. Foi quem lhe apresentou os discos que vieram a moldar o gosto musical da garota. Estava à frente do tempo das outras pessoas de sua família.

    Previu que o futuro seria de luta e resistência contra a barbárie fascista.

    Conversavam em inglês, e Mila Cox, ainda criança, aprimorava o entendimento do idioma traduzindo as letras das músicas que ouvia.

    Sara dizia para a sobrinha que muitas pessoas se irritam com aquelas que adotam padrões de vida mais individualizados. Sentem-se insultadas, humilhadas e reduzidas a seres ordinários.

    Já naquela época, Mila Cox já pensava que a falta de uma resposta definitiva parar o sentido da vida era algo a ser encarado como liberdade  Não havia a pressão e nem a tristeza de um futuro pré-decidido.

    Certa vez, ouviu da tia que a vida é uma longa preparação para algo que nunca acontece. Diversas vezes ouviu também que a utopia é algo que está sempre no horizonte, e que se afasta à medida que avançamos, e que serve justamente para não ficarmos parados no mesmo lugar.

    A tia lhe contava coisas do século vinte, fazendo comparações com fatos ocorridos no presente. Sempre lembrava que também há riqueza potencial naquilo que não precisamos ter.

    Havia uma foto das duas na sala do apartamento que Mila Cox dividia com Zími. Mila Cox tinha quatro anos, e Sara tinha vinte e oito.

    A tia usava uma camiseta do Television, que dizia ser melhor que Talking Heads. A sobrinha nunca havia chegado a nenhuma conclusão sobre isso, e gostava igualmente das duas bandas.

    Então, em 2024, com vinte e um anos, ao saber da morte de Wayne Kramer pela internet, Mila Cox disse: “Oh fucking god!”, na sala do apartamento que dividia com Zími. Ele e Silvano estavam presentes.

    Os dois sabiam que se tratava de algo sério, e portanto fizeram as piadas antes que ela contasse o ocorrido.

    Enfim, ela contou e foi feito silêncio por trinta segundos.

    “Caiu mais um pilar de resistência. Tinha sonoridade e atitude.” – disse Zími.

    “Pelo menos ele teve uma longevidade razoável para a vida que levou, e provavelmente terá mais sossego agora do que teve em vida. E fica o legado. Falava para as ruas, era mais próximo da nossa realidade, mesmo em outro país e em outra época, diferente de gente que fazia parte de bandas que tinham aviões, falavam de escadas para o céu e tinham contas bancárias milionárias. Medalhões que eternizaram sua obra e estão com idade muito avançada, ou mortos. “– disse Silvano, que é uruguaio mas não tem sotaque, porque vive no Brasil desde muito criança.

    “Ainda esse ano cairão outros pilares, entre eles, medalhões que no nosso imaginário pareciam eternos. Pessoas que quando eu era moleque já estavam consolidadas na carreira, com grana e que há algumas décadas causavam em mim um sentimento que beirava a inveja. Hoje, alguns ainda são milionários, mas estão no fim da vida. Deve ser triste para eles, porque para esse caso o dinheiro não é solução” – disse Zími.

    “A melhor idade é estar vivo. Os próximos pilares a cair podem ser até mesmo vocês, isso seria devastador pra mim. E apesar de eu ainda ser jovem posso ser eu a próxima a morrer, sabe-se lá como. Nesse ponto estamos todos nivelados. Viver contra a existência de música marqueteira popularesca é uma boa causa.” – disse Mila Cox.

    Dias depois, quando ela escrevia uma música sobre tabus que oprimem a sexualidade feminina, souberam da morte de Damo Suzuki.

    A tristeza foi ainda maior, especialmente para Zími, que o tinha como exemplo, quase como um guru artístico. Ele havia presenciado um show de Suzuki em São Paulo, já em carreira solo.

    Agora que moravam na região central, viviam perto do local onde aquele show aconteceu.

    Na ocasião, Zími havia ficado surpreso com o número de garotas presentes na platéia, o que só fez aumentar sua admiração por esse artista magnífico.

    No dia da morte dele, os três reouviram discos do Can, antiga banda de Damo Suzuki.

    Durante a audição, Zími fazia anotações num caderno, para depois editá-las e transforma-las em alguma música nova para o projeto musical Crop Circles, que mantinha com Mila Cox.

    Ela, que à noite ficou embasbacada ao saber que um censor da ditadura brasileira chegou a emitir um mandado de prisão para o filósofo Sófocles, pela autoria da peça Édipo-Rei, escrita cerca de quatrocentos e vinte e sete anos antes de Cristo, e que seria encenada naquele período, no Brasil, caso a censura liberasse.

    Pensou então na maluquice que seria viver num tempo em que teria que enviar suas músicas para censores completamente senis, reacionários e ignorantes, sabendo que nenhuma delas seria aprovada para lançamento.

    Sem contar as outras dificuldades. O alto custo de qualquer gravação feita na época, além da absurda falta de informação, por conta da censura à imprensa e a outros artistas da época, e isso somado ao fato de que muitos discos internacionais relevantes não eram lançados no Brasil, e quando eram, custavam caro.

    Foi logo trazida à realidade de seu tempo por Zími, que insistia em dizer que sua vida jovem no último quarto do século vinte foi uma experiência nada saudosa, ao mesmo tempo em que tinha sérias críticas e restrições ao primeiro quarto do século vinte e um, em que a informação abundante e fácil formou uma geração fútil, que não lê, ouve músicas ruins e tem uma vida social debilitada pela tecnologia.

    Para Mila Cox, Zími e Silvano, a tecnologia trazia benefícios e algumas desvantagens.

    Assim como a tia de Mila Cox, tanto Zími como Silvano. falavam para ela coisas do século vinte e faziam comparações entre o presente e o passado.

    Ela ouvia muito deles também sobre o fato dela ter nascido no século vinte e um. Ela aprendia com eles o uso de recursos primitivos em casos de emergência. Coisas do século passado, que eram corriqueiras.

    Já sabia o que era gambiarra antes que conhecesse a palavra.

    Tinha a vantagem de considerar desde sempre que todo o Rock da segunda metade do século vinte foi criado em condições gerais que não mais se aplicavam.

    A convivência com gente mais velha também lhe ensinou que sempre há um limite além do qual a tolerância deixa de ser uma virtude.

    Então foi à padaria e a televisão estava ligada num programa popularesco da programação aberta.

    Viu uma pseudo celebridade do momento, que ela não sabia porque tinha fama, e muito menos qualquer motivo decente para que aquele retardado tivesse espaço na televisão aberta, falando para milhões de pessoas.

    Falava  de si na terceira pessoa, e era ainda mais jovem que ela.

    Mila Cox lembrou mais uma vez de sua tia Sara, que desmistificava para a sobrinha, desde cedo, a fama e os meios de comunicação convencionais, que apresentam conteúdo capaz de convencer milhões no rebanho humano, deixando a grande massa retardada  e facilmente manipulada.

    Matando uns aos outros por motivos de fé cega em coisas sobre as quais nada sabem., especialmente o charlatanismo religioso ao qual estão sujeitas, futebol, política e música.

    Ela tomou uma cerveja e ficou olhando a televisão e os circunstantes à sua volta.
    Saiu e foi comprar cerveja no mercado antes de voltar para casa, pois era mais barato.

  • Urubu de pelúcia

    Mila Cox já nasceu em revolta contra o machismo e o racismo que via em muitos homens mais velhos e em muitos de seus contemporâneos.

    Ela praguejava ainda mais quando se tratava de pessoas mais jovens que ela, nascidos no século vinte e um, e com mentalidade tosca e medieval.

    Cox diz que apesar da obrigação de morrermos menos estúpidos do que nascemos, essa lógica parecia não se aplicar entre muitos jovens, na proporção devida.

    Exceção feita a Zimi, seu velho amigo e parceiro musical, esse era um problema recorrente na sociedade.  

    Conheceram-se através de Sara Cox, prima de Mila, pois Sara e Zimi estudaram jornalismo na mesma classe da faculdade.

    Zimi, apesar de já ter feito muito merda na juventude, era agora um exemplo de conduta para Mila Cox.

    Ele, tão criticado por uma inadimplência bancária que por décadas pareceu crônica, mas que foi superada por meio do desapego, quando vendeu a casa em que morava, herança de sua avó, para viver de renda, quitar a dívida no banco, comprar uma parte do sítio das Cox e morar numa quitinete alugada em São Paulo.

    Mila Cox era baixista e Zimi era baterista, e juntos atendiam pelo nome de Crop Circles.

    O sobrinho de Cox veio conversar sobre uma redação que precisava entregar no colégio, sobre sustentabilidade libertária, tema escolhido por ele mesmo, já que o professor passou a tarefa com o tema livre.

    Era um tema que o garoto conhecia satisfatoriamente para escrever sobre, porque era algo aplicado por sua tia e por Zimi, especialmente quando eles estiveram em quarentena durante a pandemia, no sítio que tinham em Itapecerica.

    Mila Cox desde criança já era tia. E mesmo sabendo que era jovem e aproveitando gloriosamente essa condição, ainda assim era tia.

    Ostentava, em sua cabeça, uma posição hierárquica superior, mas não opressora, na relação de parentesco  com o rapaz, sobretudo pela necessidade de não permitir que o jovem seguisse a cartilha machista que lamentavelmente ainda era seguida por alguns familiares.

    No entanto, era preciso ter cuidado para não se colocar naquela posição de soberba que tanto desprezava.

    No mesmo dia em que soube do trabalho escolar do sobrinho, resolveu escrever uma música sobre um dia do futu,ro em que ela estaria mais velha e tocando num festival europeu ao ar livre, numa tarde de sol, bem antes dos shows das novas atrações musicais desse período vindouro.

    Essas  atrações contemporâneas tocariam à noite, e os Crop Circles agora estava ali só para assistir e tomar umas bebidas atrás do palco.

    Ela havia sonhado com isso na noite anterior e gostou do sonho.

    Ela e a banda (na verdade era um duo formado por ela e Zimi, e que contava eventualmente com a participação de algum guitarrista em shows ao vivo) estavam escalados como coadjuvantes veteranos para o festival, embora tivessem prestígio de banda ‘cult’ na comunidade indie de então.

    Um sonho que lhe renderia viagens que jamais pagariam com um emprego comum de escravo assalariado.

    No sonho, sua aceitação entre os indies europeus do futuro, munidos de estrutura para um evento memorável, fariam finalmente com que a vida valesse a pena. 

    A partir daí, gostaria de se tornar um ser inorgânico, um espírito livre.

    Em contrapartida, o anonimato entre o grande público na vida acordada também podia ser vantajoso. Poder andar nas ruas sem serem abordados por quase ninguém (pelo menos no que se refere a tocarem em uma banda) era bom.

    Na vida real, quando ela ganhava algum dinheiro como copywriter, guardava um terço. pagava as contas com o segundo terço e gastava o resto.

    Os festivais europeus do futuro a encontrariam madura e entendendo que o envelhecimento é uma consequência dura e implacável, que demanda a busca de uma trajetória digna, de preferência com algum legado autoral.

    Mila Cox fez o trabalho escolar para o sobrinho e ainda não havia escrito uma linha sequer da música a que havia se proposto a fazer.

    O sobrinho pediu que ela fizesse o trabalho, pois estava ocupado gravando uma música, como uma monobanda. 

    Alegou que a ideia sobre o trabalho já estava cristalizado em sua mente, mas a música em que trabalhava ainda estava em desenvolvimento.

    Ele exercitava tal modalidade há algumas semanas, tendo um single gravado, sob o nome de Cox.

    Afirmou que Brian Wilson era futurista quando apostava na longevidade da sua obra, e que isso demandava tudo, principalmente tempo, e ela entendia o porquê.

    Para ela, enfatizar o que parece óbvio era um ingrediente na receita de hits.

    Uma receita que muitas vezes pode dar errado.

    O erro, nesse caso, nada tem a ver com sucesso ou fracasso comercial, mas sim poder ouvir a música anos depois sem ter vergonha de ter gravado.

    A consciência da finitude pessoal também é algo que apesar de óbvio, muitas vezes não é assimilado, mencionado e aceito. É algo, que no entanto deve ser levado em consideração caso haja a intenção de criar algo mais duradouro do que o autor.

    Mila Cox, que nos primórdios de sua banda, também teve em seu embrião uma fase dela como monobanda.

    Ser tia do estudante que ganhou fama de nerd com um trabalho feito por ela era bom.

    Ela sabia que o sobrinho realmente tinha conhecimento sobre o conteúdo do trabalho, antes mesmo de ter aceito a incumbência de fazê-lo.

    O garoto alegava que exercitaria seu poder de edição numa canção sua que lhe seria bem mais exigente do que escrever sobre uma ideologia que já havia assimilado.

    A tia, em troca, prometeu jogar duro na avaliação da música.

    Era uma responsabilidade, pois o sobrinho sabia que carregaria aquelas palavras para o resto de sua vida artística.

    O que lhe preocupava era saber da importância da dosagem de confiança que se deve imprimir numa empreitada como aquela, e  não era o caso de estar abusar dessa confiança naquele momento.

    Se a tia tivesse acesso ao rascunho que existia da música até então, saberia quem ele estava tentando plagiar. 

    Havia, portanto, uma parte significativa da música a ser feita.

    Ele precisava apenas distorcer o que parecia óbvio com outra influência que fosse obscura a ponto de sua menção como influência se tornasse exagero, tornando o produto final aceitável no que diz respeito à originalidade.

    Tentaria aplicar a fórmula de um hit, mas sua equação para isso era mais complicada do que os padrões de produtores clássicos.

    Envolvia camuflar influências, que apesar de soarem óbvias para sua tia, pesando negativamente em seu critério de avaliação.

    Mas confiava que se safaria alegando plágio involuntário, na pior das hipóteses.

    Ele lembra de ouvir a tia praguejar os piores horrores sobre os artistas que desprezava, e sabia o quão doloroso seria ouvir aquilo sobre sua própria criação artística.

    Ele havia escolhido o nome da família para batizar o projeto, o que também pesaria na avaliação de sua tia.

    Acabou por fazer um trabalho satisfatório, mas não escapou da observação de Mila Cox, que comentou que a música parecia uma mistura de Brian Eno com a primeira fase do Ultravox.

  • Defasagem

    Quando Zími ouviu Mila Cox bater à porta de seu quarto, pensou que fosse por causa das pilhas do controle remoto da televisão da sala.

    Ele as havia trocado,colocando pilhas usadas no lugar.

    Pecou miseravelmente e estava envergonhado.

    As pilhas dele já tinham acabado e eram da mesma marca das pilhas usadas por ela na outra televisão, pois foram compradas na mesma ocasião.

    Compraram poucas, mas ele compraria outras no dia seguinte.

    Antes de dividirem o apartamento, Zími nunca tinha tido à disposição tantos canais de documentários para assistir sozinho, numa tela grande.

    Isso deixava sua parceira musical intrigada, pois antes eram apenas os livros que o deixavam ausente por horas, como se ela estivesse sozinha em casa e ele fosse uma planta em outro cômodo.

    Ela gostava disso, mas era uma condição inédita em sua vida.

    Cox vivia antes numa casa de classe média na Penha, com a mãe e a avó, que consideravam o novo apartamento um muquifo. 

    Mas para ela era ideal. E para Zími era como um hotel de luxo.

    Ela não reclamou das pilhas.

    Na verdade, Mila Cox estava aflita naquele momento por conta de um e-mail que recebeu de um cara que assistiu a um show dos Crop Circles numa festa de aniversário em Santana do Parnaíba, no fim de semana anterior.

    Ela estava ali bebendo café numa caneca de chope e usava uma camiseta rosa, furada, do Black Flag.

    No dia desse show, aconteceu a estreia do amigo Silvano tocando ao vivo, que ensaiou seu repertório em menos de uma semana, em seu apartamento, vizinho de andar de Zími e Cox, isolado acusticamente com caixas de ovos nas paredes.

    No tal e-mail, o sujeito fez elogios à apresentação de Silvano e dos Crop CIrcles, acrescentando que nunca tinha ouvido falar deles, e que instantaneamente os viu como uma ‘pérola da obscuridade’. 

    Disse também nunca ter visto de perto, ao vivo, algo tão ‘cool’.

    Mila Cox sabia que Zími estaria satisfeito se passasse o resto da vida no underground, com trabalhos paralelos à música, para pagar as contas. 

    Ele prezava ir ao mercado e sair de bicicleta sem ser abordado a todo momento.

    Sabia também que continuar no underground era, na concepção dele, continuar sendo ‘cool’.

    Ele sabia que ela queria as duas coisas. 

    Ter algumas vantagens do mainstream, mas sob uma aura underground.

    Zími dizia que uma vida brasileira normal, com preocupações financeiras, políticos escrotos, fanáticos religiosos e a repulsa que a maior parte da população tem pelo rock, e especialmente pelo rock alternativo, dão legitimidade ao trabalho.

    Em tempos de internet, uma eventual repercussão no exterior se torna mais possível agora do que quando ele tinha a idade dela.

    Zími tinha quarenta e seis anos, e Mila Cox, dezenove. Além disso, ele gostava de se expressar através da música, sem pitacos de gente que não é do ramo. 

    Queria poder até mesmo errar de forma livre, e depois fazer de novo da maneira correta.

    Pediu que ela, no contexto do e-mail, pensasse apenas nas palavras ‘pérola’ e ‘cool’, ignorando a palavra ‘obscuridade’, caso se incomodasse com ela.

    A Zimi, isso não incomodava.

    Damo Suzuki era obscuro ao grande público e era uma das principais referências artísticas para ele, que também nunca escondeu seu desprezo por tudo que é mainstream no Brasil.

    Segundo Zími, toda sua contribuição para a banda, formada apenas por ele na bateria e vocal, e Mila Cox no baixo, vocal e sintetizadores, sem um guitarrista, é tirada do que ele via no dia a dia, admirando ou repudiando o que estava lá, e muitas vezes se favorecendo de seu anonimato.

    Cox sabia, no entanto, que ele adoraria se ganhasse dinheiro suficiente para que não tivesse que fazer mais nada que não quisesse.

    Com o dinheiro, ele poderia perder o interesse pela música, pagaria as contas no débito automático e ficaria em casa fumando maconha e vendo documentários enquanto estivesse acordado.

    E ele estaria tão pleno, etéreo e abstrato, que ela jamais ousaria incomodá-lo, sabendo principalmente que ele diria, de imediato, que estava com os boletos pagos. E a sua tendência de se tornar recluso e misterioso se acentuaria.

    Sem contar que não era segredo que Zími preparava um livro havia um bom tempo, e dizia que ainda não havia ficado pronto por causa dos compromissos musicais, sendo essa a vertente cultural a que daria prioridade.

    Mas dizia que o livro ficaria pronto a tempo do lançamento futuro de um box da banda, com todo o material gravado, para atender aos desejos megalomaníacos de Mila Cox.

    Ele desconversava quando o assunto era ter mais dinheiro do que ele jamais teve, porque não contava com essa sorte, e não queria gastar seu tempo de sonhar com algo que considerava ilusório.

    Enquanto não escondia sua vontade de se tornar relevante para um público maior, principalmente fora do país, Mila Cox alegava que não podia entrar nos sonhos dele para saber se ele dizia a verdade., em relação ao que ela chamava de conformismo.

    A isso, Zími chamava de aproveitar a recompensa pelos esforços do passado, e não contava com essa recompensa enquanto não considerar ter feito tudo que podia.

    Ele disse que a arte tem que ser produzida de forma independente porque ela jamais vai se sobrepor aos valores do mercado, que poderia estar vendendo o que fosse, desde que gerasse lucros.

    Então, sempre que as conversas entre eles sobre esse assunto chegavam a essa parte das diferenças que tinham entre si, Zími dizia que para ele nunca houve zona de conforto em nenhum setor da vida, em nenhum período, e a arte, antes de uma fonte de renda, deveria ter um propósito em si mesma, antes que pudesse ser vendida como o produto arte.

    Insistia também sobre o fato do amanhã ser um bônus. Tudo o que tinham de fato, era tempo, sem saber quanto.

    Ele lembrou que enquanto Silvano fazia seu primeiro show no último fim de semana abrindo para os Crop Circles, eles já estavam no show de número duzentos e trinta e nove, além de trinta e quatro singles e duas coletâneas.

    Silvano nem mesmo havia terminado seu disco no dia de sua estréia.

    Tinha gravado um esboço tosco com as dez músicas que entrariam no disco, e se apresentou tocando guitarra sentado, também tocando bumbo e caixa acionados por pedais. Zími usava o mesmo kit,acrescentando apenas um chimbal.

    A guitarra era uma imitação de Rickenbacker, comprada na semana anterior, e seu amplificador era um cubo preto sem marca aparente.

    Deixou para lançar o disco no show seguinte, que ainda não havia sido marcado, e seria gravado com a produção de Zími.

    Silvano queria ver a reação do público e também a sua própria diante dele, perder a virgindade de tocar ao vivo e só então disponibilizar o álbum na internet.

    No caminho de ida, ouviram duas vezes seguidas o álbum ‘Enemy of the enemy’, do Asian Dub Fundation, colocado por Silvano, que dirigiu em um silêncio nunca visto antes em dias de show.

    Zími e Mila Cox não sabiam se ele estava muito nervoso ou se estava apenas concentrado para seu show. Era um sítio grande, e havia ali, entre muitos carros, uma Veraneio 73 de colecionador, que fez com que Silvano parasse para olhar por vários minutos, sem soltar o case de sua guitarra, nem o amplificador, que levava com a outra mão.

    Mila Cox tirou a foto e postou no dia seguinte nas redes sociais da banda.

    A garota que fazia aniversário em Santana do Parnaíba era filha do dono do sítio, e havia ouvido falar deles por conta da repercussão de um show em Tanabi, semanas antes. Alguém que esteve presente os recomendou para que tocassem na festa.

    A providencial aparição do uruguaio Silvano em suas vidas fez com que eles mudassem de patamar em termos de estrutura, e mais do que nunca seria preciso, de acordo com Zími falando para Mila Cox, ter paciência para que a popularidade deles também alcançasse um nível superior, como ela desejava.

    Agora que viajavam na Kombi de Silvano, Zími deixou de se queixar das noites seguintes aos shows, com eles dormindo no Chevette Jeans 79 de Cox. 

    Dormir na Kombi era bem mais fácil e o veículo era muito mais apropriado para aquele tipo de rolê.

    A estreia ao vivo de Silvano correu bem, durou trinta e cinco minutos e gerou curiosidade das cerca de trezentas pessoas presentes e conseguiu arrancar aplausos. Antes do show estava tenso, mas se controlou na bebida, deixando para beber depois da apresentação.

    Era uma monobanda, algo ainda mais minimalista que o duo que tocaria em seguida. 

    O som era uma mistura convincente de blues e punk rock.

    Ninguém ali diria que era o primeiro show daquele sujeito.

    De maneira nenhuma Silvano era alguém que projetava sua autoestima na própria aparência, mas ele tinha um tênis Pony de cano alto, uma calça preta de moletom e um colete jeans, que foram o suficiente para que as pessoas saíssem da frente quando ele passava.

    Parecia um Pappo Napolitano brasiguaio.

    Ele assistiu ao show dos Crop Circles na lateral do palco, sem camisa e enrolado numa toalha, com uma caneca em que bebia alguma das cachaças artesanais que, como sempre, haviam sido compradas com antecedência num alambique local.

    Bastava que Mila Cox anunciasse um show fora da cidade de São Paulo, para que ele pesquisasse onde compraria as bebidas, e logo entrasse em contato com o fornecedor.

    Ela havia colocado o Chevette à venda, para comprar um amplificador Orange para seu baixo.

    Zími mencionou também esse fato para lembrar a ela que estavam evoluindo, e o tempo que os separava de uma eventual fama maior, deveria ser aproveitado para tentarem entender o que seria ter problemas que não fossem financeiros.

    Mila Cox respondeu dizendo que problemas financeiros infelizmente são, no mundo tosco em que viviam, a causa de muitas outras aflições.

    Zími concordou e pediu a ela novamente que tivesse paciência, salientando que se ela conseguir logo viver apenas de música, isso pode se tornar tão ou mais exaustivo do que ter trabalhos paralelos para sustentar a banda.

    Os trabalhos que eles pegavam como copywriters podiam ser chatos às vezes, mas eram previsíveis, toleráveis e pagavam o suficiente para que eles existissem como pessoas e artistas.

    Ao bater na porta de Zími, Mila Cox interrompeu um pensamento sobre como a maturidade não vem com a idade, e agradecia pelo fato de Mila Cox compensar essa sua defasagem.

    A isso, eles chamavam mutualismo não simbiótico.

  • Um dia na vida

    Era quinta-feira e Mila Cox marcou dois shows para os Crop Circles no fim de semana.  

    Duas festas juninas, uma delas raiz, na periferia de São Paulo, e a outra era mais gourmetizada.  

    Sexta na Casa Verde e sábado em São Caetano.  

    Na sexta seria sossegado, show deles com abertura do uruguaio Silvano.  

    No sábado foram quatro shows.

    Dessa vez deram sorte, porque a organização do evento os colocou para fazer o segundo show, logo depois que Silvano tocasse.

    Depois deles, mais duas bandas tocaram, os Silvícolas e o Secreção.  

    Nenhum dos dois tinha ouvido falar dessas bandas, mas prontamente pesquisaram ao verem o flayer do evento.  

    Zími falou: “O Secreção é banda punk com caras jovens e os Silvícolas são Glam, tem vocalista de penhasco e são espalhafatosos. Na pesquisa constatei relatos sugerindo que eles usam as cuecas uns dos outros sem problemas. Não vai haver nada de novo ali. Acho incrível que algumas bandas gostem de tocar por último. Espero que seja sempre assim, até mesmo se a nossa popularidade crescer com o tempo. Assistir ao último show com a sensação de missão cumprida e com um grande drink na mão é um momento glorioso. Não importa nem mesmo qual seja o último show.”

    Para eles, haveria mais necessidade de conhecer as bandas se o show dos Crop Circles fosse o último da noite.  

    Gostavam de tocar em festas juninas. Elas eram diferentes entre si, e eles quebravam por pouco mais de uma hora os protocolos desse tipo de evento.

    Então, Zími entrou no apartamento que dividia com Mila Cox, e ela estava na sala tratando dos detalhes desses shows, pelo computador.

    Ele fechou a porta e falou: “Devemos fazer uma música sobre o coach. Ele me abordou no elevador, e todas as suposições que tínhamos sobre o charlatanismo dele se confirmaram.”

    O ‘coach’ era um vizinho do prédio que treinava as pessoas para serem felizes.

    A cara que ela fez quando foi interrompida, lembrou a Zími a cara que a gata de sua avó fazia quando era tirada de cima de um travesseiro enquanto dormia.  

    Ela usava uma camiseta com a cara do Jello Biafra fazendo uma careta.

    Ela falou: “De qualquer maneira essa música só ficaria pronta na semana que vem. Não estamos atrasados em termos de lançamentos. Lançamos um single há dez dias.”

    Zími: “Então o tema já fica estabelecido pra próxima faixa. Ele me falou sobre como seus clientes tiveram resultados incríveis e agradecem a ele diariamente. Ele nunca teve banda, nunca jogou bola, talvez nunca tenha tido namorada. Ele gosta de Coldpay e Silverchair.”

    Mila Cox: “Que show de horror! É muita loucura que ele tenha te abordado tão rápido. Falamos dele ontem.”

    Zími: “Eu estava entrando no elevador, enquanto ele entrava no prédio. Eu fingi que não vi, e não esperei. Mas ele chegou a tempo e abriu a porta antes que o elevador subisse. Extraí o máximo de informação que pude, mas ele viu que viraria zoeira e deu fuga antes de responder mais perguntas.”

    Mila Cox: “Zoar o coach numa música pode gerar uma crise com a classe dos coachs, caso sejamos mal interpretados.”.

    Zími: “Se a música atingir essa repercussão, então será um single de sucesso. Mas não acho que seremos mal interpretados. Esse vizinho é o único coach para ensinar as pessoas a serem felizes que conhecemos com essa proximidade. Ele me abordou questionando minha insatisfação com o mundo sem nunca ter conversado comigo antes. Mas ele já me viu antes tomando cerveja na padaria, de manhã, no meio da semana, e ficou bege. Se a música estourar, as pessoas saberão que estamos falando do indivíduo e não necessariamente da classe. Quando eu perguntei do que ele gostava de música, ele se engasgou, respondendo sem saber se a resposta merecia ou não o constrangimento de ambos. Mas foi quando perguntei sobre a concepção que ele tem de felicidade, e qual era a felicidade que seus clientes atingiam, que ele se esquivou alegando pressa, desceu no quarto andar, e eu vim pra casa.”

    Mila Cox: “Essa gig de sábado em São Caetano vai ser louca, ainda estaremos na força do show de sexta.”

    Zími: “Eu tenho o dobro da sua idade e acho meio cansativo, mas são coisas da vida. Não é uma questão de resistência física. Eu tenho prática e sei que o artista tem que melhorar com o tempo, e não piorar. Mas o que eu não tenho mais é a urgência juvenil, de se jogar como se fosse a última chance sempre. E também fui ter internet pela primeira vez na minha casa quando eu já era mais velho do que você é hoje. A gente era obrigado a estar mais nas ruas por mais tempo, para tomar conhecimento de qualquer coisa que estivesse acontecendo. A telefonia naquele período anterior à internet era completamente precária não apenas pela falta de portabilidade dos telefones, mas pelos intermediários que atravessavam as chamadas, que muitas vezes eram atendidas por alguém que não era a pessoa com quem se desejava falar. A impressão que eu tenho é que apesar dessa tosquidão, havia a necessidade de mais compromisso com o que era combinado, especialmente se você tivesse uma banda. Mas esse rolê de São Caetano vai ser bom mesmo. Temos kombi pra levar e servir de acampamento. É uma vitória.”

    Então Silvano bateu à porta, foi chamado para entrar em coro por Mila Cox e Zími.

    Ele anunciou que vai comprar um gerador de gasolina para poder ligar amplificadores em lugares descampados e ermos. Seria bom para shows, ensaios e atividades experimentais.

    Disse também que a ideia do gerador já era antiga para outros fins.  Mas durante o ensaio para os dois shows do fim de semana, ocorreu-lhe que agora precisava do gerador também para ligar o amplificador da guitarra, já que se consolidava como artista monobanda que dá ênfase a esse instrumento.

    Oitenta por cento de sua prática é num violão uruguaio que comprou usado e que ficou encostado por anos, mas pelo qual tinha grande estima. Os outros vinte por cento era com uma Guibson ligada ao pequeno amplificador que usa em casa, para avacalhar um pouco menos com as regras do condomínio. Tinha um maior que leva a shows onde não há qualquer equipamento.Também falou que tem uma música nova pronta.

    Então Zími falou: “A gente lançou single há dez dias, mas já definimos o tema da próxima música.”

    Silvano: “Qual é o tema?”

    Zími: “É o coach, aquele vizinho que treina as pessoas para serem felizes.”

    Silvano: “Aquele sujeito do quarto andar? Aquele é um picareta de marca maior! Eu apenas tento me esquivar das abordagens. Já me fiz de louco pra escapar algumas vezes.”

    Zìmi: “Eu tentei escapar. O cara correu e abriu o elevador antes que ele subisse.”

    Silvano: “Aí você vai usar o estereótipo desse cretino pra dizer que quanto mais ignorante alguém seja, mais obediente esse alguém é. depositando a maior e mais absoluta confiança em quem o dirige. Pode ser um político de estimação, um pastor que vende terrenos no céu ou esse cretino que treina as pessoas pra que elas se tornem felizes.”

    Zími: “Isso mesmo! E a sonoridade vai soar como uma mistura de Ministry e B52’s!”.

    Mila Cox: “No lado B vai entrar uma música sobre ser livre na medida do possível. Sobre o transtorno de saber que não nascemos livres. E que a luta é por uma liberdade pelo menos parcial, já que a liberdade total é um conceito complexo que existe mais para que seja buscado, do que realmente alcançado. O rebanho não é livre, nem quer ser livre, porque nem sabe que não é livre. O rebanho é rancoroso, poque a única alegria que tem é quando o lobo come a ovelha ao lado. Essa faixa vai sair só no compacto em vinil de sete polegadas. E depois de anos será relançada numa caixa que lançaremos com tudo que gravamos.”

    Silvano: “E com e gerador, ao longo desses anos a gente vai poder fazer muito mais coisa, tocando até de graça em certos lugares. Levamos tudo na kombi, montamos nos lugares remotos e tocamos. Logicamente isso não é algo pioneiro, mas é tão viável que é exatamente o que faremos.”

    Do forno de padaria na cozinha de Mila Cox e de Zími saíram quatro pizzas naquela véspera de show. Zími guardava as bordas para comer com requeijão na manhã seguinte.

    Na televisão colocaram um show do Fugazi, que terminava e começava de novo, servindo como inspiração.

  • Avarias

    Na sala do apartamento que dividia com Mila Cox, Zími cantava e tocava no teclado dela uma versão de ‘Always the sun’, dos Stranglers.

    Usando apenas acordes rudimentares, executou a canção de maneira belíssima.

    A rouquidão de sua voz, a falta de técnica vocal e a embriaguez tiveram efeito favorável para o resultado apresentado.

    Mila Cox e Silvano observavam.

    A visceralidade mostrada ali, do nada, com Zími alcoolizado, improvisando, era algo tão raro  atualmente, que os fez pensar imediatamente na vergonha que tinham das pessoas que se arriscam a ser artistas, e que eles eventualmente presenciavam se apresentando sozinhas ou com outras pessoas em bares da cidade, com repertório constrangedor e interpretação ainda pior.

    Cox, que apareceu quando ele já havia começado a música, olhava fixamente, encostada na lateral da porta de seu quarto.

    Estava vestindo apenas uma camiseta cinza, muito grande para ela, como se fosse um vestido, com a cara da Anette Peacock na frente.

    Silvano estava na sala com Zími, e alternava o foco de seu olhar entre ele e Mila Cox.

    A cara que Cox fazia enquanto olhava Zími e ouvia a música era a mesma que ela fez numa das fotos que estavam coladas na porta de seu quarto , em que ela, ainda criança, segurava e olhava a capa do primeiro disco da Suzi Quatro.

    Talvez a ideia de se tornar contrabaixista tenho surgido naquele momento.

    Ela também tinha o teclado e o sintetizador, para sanar a falta de um guitarrista na banda.

    Antes de Zími começar a tocar a música, Cox estava dentro do quarto ouvindo outra música ,enquanto ele falava na sala sem parar e às vezes tocava sons aleatórios no teclado.

    Ele falava sobre como são as pessoas que estão distópicas, e não os ambientes ou as paisagens.

    Contava sobre o desprezo que sente pelo sistema de um modo geral, focando naquilo que havia feito dele a pessoa que se tornou.

    Mencionou as dinâmicas de grupo para selecionar funcionários em empresas.

    Em seu monólogo semiembriagado, ele levantou uma questão.

    Questionou  o porque de, entre o desespero causado pelo capitalismo, que obriga milhões de pessoas a buscar um salário baixo em troca de uma carga horária de trabalho alta (além de ter que passar eventualmente pelo constrangimento das abomináveis dinâmicas de grupo), há pessoas, que vivendo exatamente no mesmo contexto, que simplesmente acham que as coisas são assim mesmo?

    Essas pessoas também dizem que se deve agradecer no caso de conseguirem uma oportunidade dada por corporações bilionárias, que irão sugar toda a energia vital de cada um dos escravos assalariados, cuspindo depois o caroço deles no limbo.

    Vivem acreditando que todo o sofrimento e humilhação diários serão recompensados depois da morte com a vida eterna num paraíso.

    Mila Cox tinha ido para a sala assim que ele parou de falar e começou a tocar a música.

    Quando Zími terminou, Cox olhou para Silvano e sabia o que ele estava pensando.

    Silvano estava pensando em como seria se Zími desencanasse da banda Crop Circles (que é um duo formado por Cox e Zími) e seguisse carreira solo.

    E Mila Cox sabia que Silvano estava pensando isso porque ela às vezes dizia que caso se cansasse da parceria musical com Zími,  iria substituí-lo por uma bateria eletrônica e seguiria com o nome da banda, mesmo tocando sozinha.

    Ela estava com vinte e um anos e provavelmente teria tempo para acertar e errar.

    Mas Silvano também tinha pensado em como Zími era cool e exercia influência sobre ele, mesmo tendo estilos e ideais musicais diferentes.

    Zími, que é baterista e vocalista dos Crop Circles, tem mais estofo musical, mas Silvano é mais determinado.

    Silvano é uruguaio, mas falava português quase sem sotaque, pois vivia em São Paulo desde os três anos de idade. Tem agora quarenta e nove.

    É vizinho de porta de Zími e Mila Cox,e tem uma Kombi para fazer carretos e pagar as contas.

    Cox e Zími pagam as contas trabalhando como copywriters, geralmente fazendo publicidade para corporações que não aprovavam.

    Antes de Mila Cox e Zími mudarem para lá, Silvano já morava naquele prédio havia onze anos.

    Ele parece o Pappo Napolitano, e também era guitarrista e cantor. Canta em inglês por opção estética, fazendo uma mistura de rock a billy, blues e punk rock.

    Se apresentava tocando guitarra sentado para fazer a parte percussiva com uma gambiarra de chimbal e bumbo, que ele tocava com os pés.

    Mila Cox sabia que Zími não seguiria carreira solo.

    Mas ele também dizia brincando que caso fosse despedido por Cox, juntaria outras três pessoas mais jovens que ele e montaria outra banda.

    E seria uma banda de apoio, para que ele se tornasse um crooner.

    Elaboraria um repertório primoroso de músicas autorais, misturadas com pérolas obscuras da música mundial do século vinte.

    Ambos sabem que isso nunca aconteceria, porque Zími sabe da falta de glamour que isso significaria em sua vida pessoal.

    Faria shows esporádicos, e gravaria em casa, também esporadicamente

    Estaria satisfeito. Estava com quarenta e sete anos e pensava mesmo era em preservar sua saúde mental e viver com o mínimo de conforto.

    Mas ele não sairia mesmo em carreira solo, porque seria um trabalho duro para ele fazer sozinho, considerando seu entusiasmo para ser artista, que somente aparece por causa da motivação constante por parte de Mila Cox.

    Zími entendia esse sentimento como a superação de sua necessidade de autoafirmação, e não como falta de entusiasmo pela arte.

    Afinal, mesmo que ele não fosse parte de uma banda, ainda assim, seria um apreciador e de alguma outra forma, um apoiador das artes.

    Zím terminou a música e alguns segundos depois Mila Cox falou: “Você deveria gravar essa do jeito que você tocou agora, deixar eu completar a gravação e a gente lançaria como single.”

    Zími respondeu: “Agora seria melhor lançar uma música autoral. Pra lançar cover, eu já estava pensando em uma outra, que é ‘Baby’s on fire’, do Brian Eno. Aproveitar que é uma música legal e é obscura o suficiente pras massas. Embora essa dos Stranglers também tenha essas características. Toquei porque ela me veio à cabeça sem que eu tivesse pensado nela. Eu te enviei a letra de uma música inédita, mas ainda não pensei na parte musical dela, então te mandei pra ver se você tinha alguma ideia.”

    Mila Cox havia mesmo recebido a letra da música, mas não havia começado a trabalhar na canção.

    Naquele momento se lembrava apenas que a letra era em inglês e definia o amor moderno como uma transação bancária em peças publicitárias de bancos.

    Numa outra parte, dizia que quem precisa ser liderado por um pastor, tem a inteligência de uma ovelha.

    Em outro trecho, a letra dizia em primeira pessoa que uma grande parte da humanidade é composta por pessoas com as quais ele jamais se envolveria, em qualquer nível e em quaisquer que fossem as circunstâncias.

    Exaltava ainda a desobediência às convenções.

    Então o interfone tocou e ninguém foi atender.

    Não estavam esperando ninguém, e menos ainda uma notícia minimamente razoável sendo dada pelo interfone naquele momento.

    O toque do interfone não foi persistente, tocou apenas uma vez.

    Então Zími disse que atenderia, mas que fumaria um cigarro na janela antes.

    Olhou para baixo, e nada acontecia na frente de seu prédio, nada que pudesse anunciar algo realmente ruim a ser comunicado.

    Não havia incêndio e nem invasão. A Rua da Glória estava normal.

    Zími tomava o vinho uruguaio direto da garrafa e fumou três cigarros.

    Então ele finalmente  foi atender o interfone, e o porteiro disse que havia ligado para avisar que a água do banheiro seria fechada por meia hora, mas que naquele momento o reparo já havia sido resolvido.

    Zími explicou a situação para Mila Cox e Silvano.

    Fizeram silêncio e pensaram na chateação que haviam evitado, apenas por deixar de ouvir o que um outro humano tinha para lhes dizer.

    Alguém iria querer usar o banheiro só porque estava sem água.

    A preguiça coletiva de comentar pairava densa.

    Uma pequena chateação evitada que causou um bem estar enorme naquele momento.

    As famílias tradicionais e conservadoras muitas vezes começam a ruir com esses pequenos aborrecimentos, que viram ataques de fúria quando a frustração por uma vida farsante pesa mais do que tentar manter aparências.

    Sossego é uma premissa para a felicidade, e a felicidade não é algo para durar incessantemente, pois assim perderia seu sentido.

    Eles tentavam  eliminar as chateações gratuitas, para aguentarem aquelas que são inevitáveis, e que tem alguma razão decente para surgir.

    Silvano voltou para seu apartamento, Mila Cox voltou para seu quarto e Zími ficou na sala, sabendo que a solidão é um luxo e a desobediência às vezes é a ordem de uma intuição que não costuma falhar.

    O aluguel pago fazia agora com que Zími não quisesse estar em nenhum outro lugar.

    Houve um tempo  em que ele dormia num armário no corredor de uma pensão no centro da cidade.

    Ele não tem filhos porque sabe que não daria conta de ser um pai aprovado pelo status quo, então mais tarde poderia dormir bêbado no sofá.

    Gostava de crianças, mas odiava playgrounds de condomínio.

  • Cheiro de jaula

    Ainda era um pensionato aquela casa da rua Humaitá, onde Zími sempre parava na frente quando passava por ela, e ficava olhando durante a duração de um cigarro .

    Ele havia morado lá por alguns anos, atravessando o período da pandemia ali. Aquele lugar não havia sido a sua última moradia antes de dividir um apartamento com sua parceira musical Mila Cox.

    Ele alugou o quarto menor no apartamento de seu irmão mais novo, e ficou ali por seis meses. Era o prazo que tinha para tomar outro rumo.

    E então Mila Cox, que queria sair da casa em que morava com a mãe e a avó, no bairro da Penha, aceitou dividir um apartamento com Zími, num lugar mais perto do centro.

    Encontraram o lugar com melhor custo-benefício no bairro da Liberdade. Num domingo, Mila Cox estava de bicicleta, voltando da feira cultural do Bixiga, e parou na frente da pensão que Zími havia morado.

    Viu um casal que morava ali sair para a rua. O portão ficava destrancado, Não havia placa indicando que ali havia aluguel de quartos.

    Então ela entrou na casa e a conheceu parcialmente a parte de baixo por dentro. Havia ainda uma escada e um andar superior.

    Pela escada, logo apareceu um sujeito que era gerente, e ele mostrou a Cox um quarto que estava disponível. Depois mostrou-lhe o resto da casa.

    Os moradores ficaram curiosos com a presença de qualquer pessoa nova na casa dela. Abriram suas portas e a viram passar com o gerente.

    O cheiro que pairava nos corredores era uma mistura de xampú, maconha e incenso. Nos quartos em que moravam mulheres, havia mais ordem e limpeza, mas na maioria dos quartos, onde apenas moravam homens, havia quartos em ordem e outros degradados.

    Mas havia um quarto que tinha cheiro de jaula. Dois sujeitos dividiam o cômodo. Havia um deles que Mila Cox já tinha visto antes, e não estava lembrando de onde. O cara também a olhou como se já a tivesse visto.

    Antes de sair, Mila Cox perguntou ao gerente se ele conheceu Zími.

    O cara disse que sim, mas que nunca mais teve notícias desde que ele foi embora dali. Falou também que Zími dividia o espaço com um dos sujeitos que ainda morava no quarto com cheiro de jaula, o que esclarecia parcialmente a questão sobre como ela conhecera aquele cara.

    O gerente falava e a olhava embasbacado, quase intrigado com aquela figura tão cool. Quase baixinha, jovem, cabelo chanel vermelho, com franja, tatuada, e usando uma camiseta com estampa do álbum ‘No more heroes’, dos Stranglers.

    Tinha um olhar seco, sério e fulminante.

    O sujeito pensava sobre como ela conhecera Zími, se havia entre eles algum parentesco ou se havia outros motivos.

    A verdade é que antes de Mila Cox nascer, Zími foi colega de faculdade de Sara Cox, tia de Mila, e os dois ajudaram muito a moldar o gosto musical da garota.

    Zími e Sara se formaram em Jornalismo nos anos noventa. Depois, ela se mudou para a Inglaterra e ele seguiu uma jornada errante, da qual ele nunca se arrependeu.

    E agora Mila Cox pensava novamente sobre a podridão do universo masculino, ao mesmo tempo em que tentava imaginar o que aconteceria com o apartamento que dividia com Zími, caso ela tivesse que se ausentar por alguns dias.

    Cox saiu da pensão sem memorizar a fisionomia do cara que a atendeu, mas não esqueceu do cheiro de jaula até chegar em casa.

    Ela pegou a bicicleta e desceu da Bela Vista até a Liberdade. O caminho era de descida e ela chegou rápido.

    Subiu ao apartamento e ali estava Zími.

    Com ele estava Silvano, o vizinho uruguaio que morava na porta ao lado, que é multiinstrumentista e morava sozinho em seu apartamento.

    Silvano já morava naquele prédio muito antes de Mila Cox e Zími. Seu apartamento, embora não tivesse cheiro de jaula, não primava pela ordem.

    À essa altura, Mila Cox já entendia e partilhava dessa que era a razão em comum para quem resolve morar sozinho.

    E era muito simples. Poder fazer em casa o que não se fazia quando ainda se morava com a mãe. E provavelmente o que não faria depois, se a pessoa fosse casada.

    Zími e Silvano fumavam, bebiam a comiam no sofá.

    Ainda não estavam tão horrendamente bêbados. Nunca ficavam muito loucos antes que ela chegasse em casa.

    Ficavam mais bêbados só depois que ela soubesse antecipadamente que isso aconteceria inevitavelmente, quando era dia de folga das atividades que exerciam para pagar as contas, ou atividades musicais.

    E preferiam beber em casa, pois é mais barato que beber na rua.

    O assunto era música e Zími dizia: “Pelo menos três discos dos Beach Boys são ainda melhores que o Pet Sounds, e estão naquele período posterior a ele. Nesse bloco, entram o ‘Friends’, ‘Wild Honey’ e o espetacular ‘Surf’s Up’, que tem na faixa título a prova daquilo que estou querendo dizer. O ‘Holland’ também é muito bom. Depois veio aquela coletânea que só abrangia a primeira fase, sobre surf e carros, o que estigmatizou ainda mais a banda, depois da tentativa de fazer uma música muito mais abrangente nas temáticas. Foi uma tentativa muito bem sucedida, mas não comercialmente falando O que importa é que aqueles discos ficaram pra provar a relevância que deveriam ter também na época. Mas no fim dos anos sessenta e início dos anos setenta foram lançados tantos discos maravilhosos e as pessoas ainda associavam os Beach Boys à velha fórmula com que tiveram sucesso dez anos antes, falando de surf e carros.”

    Silvano queria fazer uma cover de Beach Boys.

    Zími falou: “Se é pra fazer cover, que seja como os Byrds fizeram com as músicas do Bob Dylan, dando uma roupagem diferente, recriando as músicas.”

    Quando ele falou essa frase, Mila Cox percebeu em sua voz, agora já um pouco pastosa, os primeiros sinais de embriaguez.

    Então ela falou: “Entrei na pensão que você morava, na Bela Vista.”

    Zími respondeu: “Nem posso imaginar o atual estado daquele lugar. Mas a época em que morei lá será mencionada no livro que estou escrevendo.”

    E o cara com quem você dividia o quarto?” – Mila Cox perguntou.

    “É o Elton, é baterista, tocou em várias bandas.”– Zími respondeu.

    Mila Cox: “Ele estava lá, e eu não lembrava de onde o conhecia. Na verdade não lembro ainda”

    Zími: “Foi num show em Catanduva, a banda dele tocou no mesmo evento. Na época ele era baterista de uma banda chamada ‘Quase’. O tempo em que morei lá com ele foi o pior momento da minha vida. Eu estava sem grana e dividi quarto pra baratear o aluguel. Dividir um quarto com quem quer que seja é inconcebível pra mim. Não sei quanto aos outros, e espero que façam o que quiserem com suas vidas, mas ter um quarto individual é essencial.”

    A pergunta seguinte de Mila Cox seria sobre o cheiro de jaula, mas ela preferiu deixar quieto naquele momento, já que Zími, de uma certa forma, já havia respondido.

    Antes de ter lembrado do cheiro de jaula e esperado pela oportunidade de falar sobre isso, Mila Cox pensou sobre sua antisociabilidade, já que tinha apenas vinte e um anos e também preferia beber em casa, independente da economia feita com a compra de bebidas no mercado.

    Eventualmente bebiam na padaria que havia no quarteirão onde moravam, quando o aluguel já estava pago e havia como gastar ali para beber.

    Mesmo sendo jovem, viu o declínio das competências linguísticas e intelectuais das pessoas, produto da falta de leitura e de referências culturais de qualidade.

    A qualidade humana, de uma maneira geral, parecia estar em declínio, principalmente pelo fato de tanta gente ter perdido a capacidade de pensar com a própria cabeça, ou mesmo nem ter desenvolvido essa capacidade ao longo da vida, o que resulta em vidas infelizes e a espera de uma recompensa póstuma. Essa é uma deixa para pastores e coachs picaretas lucrarem milhões. E a quantidade de charlatões não para de crescer.

    Então Mila Cox via aqueles dois sujeitos que só sociabilizavam realmente quando faziam shows. Quem realmente importava estava lá e havia diálogo.

    Nessas ocasiões havia amigos que eles não podiam encontrar sempre e mulheres que gostavam de rock.

    Por isso ela os compreendia. A diferença é que os dois já beiravam os cinquenta anos e ela tinha vinte e um.

    Ela já havia lido nos livros o que os filósofos dizem sobre não se misturar ao rebanho e sobre como é alarmante se ver ao lado da maioria, no que quer que seja. Zími era o baterista e eventual vocalista da banda Crop Circles, um duo formado por ele e Mila Cox, que além de tocar contrabaixo e sintetizadores, se revezava com Zími nos vocais. O mote da banda eram as angústias da existência e o som lembra o da banda Suicide. Quando se uniram para tocar, Zími já conhecia essa banda, mas Mila Cox, ainda não.

    Silvano era uma monobanda. Autodidata, Nos shows, ele tocava guitarra e fazia a parte de bateria minimalista de suas músicas no pedal.

    Eles e Zími diziam que Mila Cox era um prodígio em coisas que eles tanto prezavam, entre elas, buscar sempre frustrar as expectativas capacitacistas, higienistas, competivistas e produtivistas da asquerosa sociedade neoliberal em que vivem.

    Os três sabiam que qualquer solução ou revolução só pode realmente acontecer se for primeiramente pelo indivíduo, e talvez depois pela sociedade. Nunca pelo Estado.

    Eles sabiam também que o medo da opinião dos outros é a maior escravidão do mundo.

    Para ter paciência com a maioria das pessoas, lembravam que nem todo mundo é artista.

  • O Chute na tomada

    Bueninho era o vocalista da banda ‘Impunes’.

    Ele saiu do metrô na estação Liberdade, a caminho da Rua da Glória.

    Faltavam sete minutos para as treze horas.

    Logo chegou ao portão do prédio em que moram Zími e Mila Cox, que juntos são a banda Crop Circles.

    Era um trajeto curto, onde ele pensou em como algumas influências musicais deles podiam ser identificadas.

    Mas eram influências obscuras, e eram numerosas também.

    Muitas delas poderiam ser mais populares do que são, mas estão fora do radar das massas, e era isso que o atraía.

    As letras de Mila Cox e Zími eram muitas vezes em inglês, por opção estética, e embora fossem simples, conseguiam não apenas ridicularizar a sociedade, como também apresentar verdades incômodas.

    O estado sendo uma doença que se apresenta como cura, a igreja fazendo lavagem cerebral nas massas através do medo e outros assuntos que a essa altura ainda são tabus.

    A simbiose entre eles era apenas musical. Cada um tinha e prezava loucamente por sua individualidade.

    Mila Cox parecia uma jovem Lydia Lunch, e Zími lembrava um Slim Jim Phantom de quase cinquenta anos.

    Bueninho tem dezenove anos.

    Ele foi chamado porque Zími viu o clipe feito para o primeiro single que a banda ‘Impunes’ tinha lançado recentemente.

    Musicalmente, aquilo era o som do álbum ‘Metal Machine Music’, com algumas intervenções vocais e instrumentais por cima.

    Se fosse lançado em 1976 ou 1977, seria vanguarda.

    Mas o que agradou a Zími foi que o vídeo começa com um cachorro caminhando em direção a uma parede, então levanta a pata, e mija sobre uma tomada, causando um caos apocalíptico, com imagens de centenas de pessoas em desespero, explosões, destruição em massa, e um diabo cristão interpretado por Bueninho, que gargalhava de maneira esquizofrênica.

    No dia em que foi à casa dos Crop Circles, Bueninho vestia uma camiseta do New Model Army e levava um carrinho com uma bolsa térmica cheia de latas de cerveja.

    Ele havia tentado beber destilados com Zími com Tito, baterista da banda Provetas, depois de um show que aconteceu em Avaré, no dia em que se conheceram.

    As três bandas haviam tocado no evento.

    Bueninho deu um vexame horrendo, e desde então, o pouco que se lembrava do episódio era suficiente para deixá-lo completamente deprimido.

    Na madrugada seguinte ao evento, ele acordou pelado, enrolado numa toalha, no sofá de uma casa em que nunca havia estado antes.

    Todos na casa dormiam, com as portas dos quartos fechadas.

    Ele ouvia roncos e televisão ligada.

    Ele não encontrava suas roupas e documentos.

    Nunca se sentiu tão ridículo.

    Algum tempo depois, quem saiu de dentro de um dos quartos foi Tito.

    Tito contou que Bueninho saiu bêbado no meio de uma conversa.

    Pensaram que ele tinha ido mijar e logo voltaria.

    Como Tito era da cidade e também estava bêbado, voltava a pé para casa e viu

    Bueninho deitado no chão de um posto de gasolina que estava fechado. Acordou-o e o levou para sua casa.

    Tito havia chamado as bandas e ajudado a organizar aquele festival, realizado numa casa onde funcionava uma sociedade de amigos do bairro.

    E agora, enquanto subindo naquele elevador, Bueninho sentiu certo nervosismo, pensando se seria ou se já estava sendo motivo de chacota pela sua bebedeira.

    Ao sair, viu Zími praguejando na sala do apartamento, que estava com a porta aberta para o corredor.

    Aquela visão mostrava a ele alguém com uma vida bem diferente da sua.

    Mas acima de tudo, mostrava a Bueninho que eles eram na vida cotidiana o mesmo tipo de gente que eram quando saíam para tocar.

    A embriaguez de Zími ainda não era aguda, e ele estava desenrolando um monólogo.

    Enquanto gesticulava para que Bueninho entrasse, Zími dizia:

    “O diabo cristão nunca vai ser tão horroroso quanto algumas pessoas com as quais ainda preciso lidar de vez em quando. Um tipo que eu sei que existe, que não precisam e nem deveriam fazer parte do meu convívio social. Se eu saio pra comprar cigarros a cinquenta metros desse prédio, essa saída rápida pode se tornar uma epopéia, apenas porque pessoas me abordam gratuitamente. Seria glorioso poder evitar. Ainda não sou livre a esse ponto. Ao longo da minha vida, a pior parte da luta era quando me interrompiam enquanto eu estava tentando virar o jogo. As pessoas conseguem estragar tudo, só por estarem no meio do caminho. Algumas vezes foi preciso abrir mão de certas coisas materiais, pra que junto delas eu me livrasse de certas pessoas. De um modo geral, as pessoas tem um potencial enorme pra estragar tudo. Estão condicionadas a isso. São patrulhas ideológicas e comportamentais. Sempre tive atração pela decadência, mas quando falo sobre isso, preciso explicar para não ser mal interpretado. Eu sei que um artista, por exemplo, precisa melhorar com o tempo. No rock, ele pode estar melhor como músico depois de envelhecer, e será chamado de decadente. Ele pode, quando jovem, produzir algo de acordo com sua idade, mas se suas temáticas forem juvenis, ele terá que se adaptar ao envelhecimento. Caso contrário fará papel ridículo e se mostrará realmente decadente. Muitas vezes será lembrado pelos hits antigos. Mesmo tendo lançado grandes álbuns mais maduros, muitas vezes essa evolução é completamente ignorada. Odeio a palavra ‘amadurecimento’ quando usada pra pessoas que envelhecem. Há também muitas que pioram com o tempo. Mas esse tipo de suposta decadência artística em que o artista continua produzindo mais e melhor, e mesmo assim as mídias ignoram, ah, esse tipo me interessa. Muito mais do que a decadência dessa sociedade podre, onde a qualidade humana só deteriora.”

    Zími estava completando quarenta e oito anos naquela sexta-feira, e a sua banda, Crop Circles, não tinha show marcado no fim de semana.

    Sua parceira musical Mila Cox já dizia que estavam num hiato de shows.

    Tinham músicas novas que nunca haviam sido tocadas ao vivo.

    Ela disse para Zími que o aniversário dele deveria servir como um motivo a mais para tocarem naquele dia, ou no dia seguinte.

    Parece ter ficado brava e foi para a janela.

    Olhou para a rua, e bastaram dois minutos para lembrar exatamente porque estava ali.

    Virou-se de volta à reunião e ficou quieta.

    Então eles não marcaram show porque estavam na festa de Zími, no apartamento de sessenta metros quadrados que ele dividia com Cox e Zími repetiu várias vezes que dizia para sua mãe que nunca chegaria aos trinta anos de idade.

    Olhando para Mila Cox, Zími falou: “A parte mais louca é que se eu olhasse quando tinha a sua idade pra quem eu sou agora, muitos anos depois, acho que ficaria feliz, apesar de tudo. Foi uma vida que eu mesmo considero errante. Meus pais achariam pior ainda, então está tudo certo. O que eles queriam que eu me tornasse é aquilo que nós criticamos na música e na vida.”

    O ambiente parecia o camarim que Zími idealizou para usar sempre que fosse tocar, onde quer que fosse.

    Não havia deslumbramento,nem luxo. Havia um padrão utópico.

    Janela grande, banheiro, refrigerador, controle sobre quem entra e sai. Os camarins nunca eram assim. Eram geralmente improvisados e precários.

    Mas o que interessava mesmo é que agora ele tinha um lugar decente para viver.

    Zími estava morando num armário localizado no corredor de uma pensão perto dali, porque estava sem computador para exercer o trabalho de copywriter, que agora paga suas contas.

    “Havia naquele lugar um cara que limpava a bunda com sabugos de milho, e os atirava na casa vizinha, causando uma série de problemas.”

    Essa era uma das histórias que ele repetia muito.

    Mila Cox também vive do trabalho de copywriter.

    Ser baixista e vocalista dos Crop Circles não lhe dá lucro e nem prejuízo financeiro. Na sala do apartamento também estava Lola, que é baixista e toca na banda Main Drags.

    Foi ela quem pediu para que Bueninho levasse cerveja, mas àquela altura estava tomando vodka com suco de maracujá com Mila Cox, enquanto Zími e Silvano tomavam rum com limão e hortelã.

    Silvano é o vizinho uruguaio que mora no apartamento ao lado.

    Ele é um guitarrista que tem uma Kombi para fazer carretos e poder pagar as contas, e também para transportá-los em dias de show,quando geralmente também se apresentava, fazendo uma mistura de punk rock, blues e rock a billy.

    A nuvem de maconha ali era tão intensa que teria disparado qualquer alarme contra incêndios que estivesse numa distância razoável.

    Bueninho pensou: “Meu Deus, como eles aguentam? Devem cheirar pó no banheiro pra aguentarem!”

    Na frente dele, Silvano mostrava perícia manuseando a faca para cortar hortelã e fazer os drinks que bebia com Zími em copos grandes.

    O problema alcoólico de Bueninho depois do show em Avaré não havia sido mencionado.

    Duas semanas haviam se passado, e no fim de semana anterior, a banda de Bueninho tocou em Santo André sem que ele bebesse nada de álcool.

    Ele gostava de beber, mas havia descoberto isso há pouco tempo, e não tinha o vício da bebida.

    E morava com os pais, que eram advogados, e repudiavam a idéia de Bueninho levar música mais a sério do buscar uma carreira acadêmica.

    No ano anterior, ele havia concluído o ensino médio a duras penas, e não conseguia se ver novamente sentado num banco escolar.

    E era ainda mais desesperador imaginar uma vida nos moldes que seus pais planejavam para ele.

    Isso era o que ele sabia que não queria, muito antes de conceber algum caminho viável para sua vida.

    É claro que havia a opção de mandar tudo às favas, arrumar um emprego, alugar um lugar para morar, e se ainda houver tempo e energia, seguir com a música.

    Ele pensava nisso todos os dias.

    Bueninho não é um instrumentista, não sabe ler música, canta apenas músicas que sua voz pequena permite, e sua banda, formada por mais três jovens com problemas similares aos dele, tinha apenas um single lançado na internet.

    Além disso, largaram-no no interior quando ele ficou bêbado depois do show e acabou sumindo na cidade.

    Então ele foi à geladeira pegar mais uma cerveja e quando virou-se de volta, Zími estava de pé e, quase exaltado falou:

    “A vida tem que começar de verdade em algum momento. É preciso tirar o band-aid. A minha vida já terminou e recomeçou várias vezes pra que eu não cumprisse o que dizia pra minha mãe sobre não passar dos trinta anos. Um dia, quando eu morava numa pensão abandonada, dormia num armário fodido no corredor, eu passei aqui perto, descendo a Brigadeiro Luís Antônio, voltando pra casa, com o saco cheio da vida, cansado da rua e cansado do lugar em que eu morava, e então passei pela praça e havia no centro dela uma tenda armada, e havia um evento religioso. Passei olhando o evento cheio de som e luzes, e do nada, chutei algo sem querer e, simultaneamente, as luzes do culto piscaram e se apagaram. O gerador de luz era a bateria de um carro estacionado na calçada ao redor da praça. Continuei andando, num sentimento que era um mix de vergonha e perplexidade, enquanto cerca de oitenta pessoas olhavam pra mim, também parecendo perplexas. Eu andava e eles olhavam. Virei pra frente, segui o caminho até sair do campo de visão do grupo. Quando já estava numa padaria perto de casa pra usar o wi-fi, acendi um cigarro e não havia ninguém me seguindo. Depois de fumar, entrei na padaria, e havia uma mensagem da Cox me convidando pra tocar bateria num experimento musical caseiro que ela estava tramando. Ela morava na Penha, com a mãe e a avó, estava com o saco cheio e queria se mudar dali. Então nos juntamos pra pagar o aluguel desse apartamento. Tive que fazer um empréstimo, que depois me sugou até o tutano, mas já está quitado. Precisei comprar um computador e outras coisas. Mudamos pra cá, trabalhando em casa e saindo pra tocar. O momento satisfatório que vivo agora custou. Um dia contei a história do chute na tomada pro Falkner, o porteiro daqui do prédio que te anunciou no interfone. Ele disse que certamente aquele episódio libertou pelo menos meia dúzia de ovelhas daquele pastor, mesmo que tantas outras tenham ficado sob o domínio dele. Não chegamos a uma conclusão sobre a relação desse episódio com o fato da minha vida ter mudado a partir de então. Pode ser coincidência também. Mas aconteceu. E você precisa fazer alguma coisa também. Aquele clipe que vocês gravaram pode ter sido decisivo. E hoje é melhor você dormir nesse sofá pra não chegar bêbado em casa. Sei que ainda não está bêbado, mas provavelmente vai ficar, e deve evitar atritos na sua casa. Saia de casa de vez antes que atritos mais sérios surjam.”

    Mila Cox foi até Bueninho, dando-lhe um copo grande de vodka com suco de maracujá.

    Ela falou: “Já que não tem show e estamos aqui, tome esse drink e deixe a cerveja pro café da manhã.”

    As horas se passaram com Bueninho anotando nomes de bandas e ouvindo conversas sobre música alternativa e anarquia.

    Acordou no sofá na manhã seguinte sem se lembrar do momento em que adormeceu. Ninguém mais ali parecia ter dormido.

    Para o terror de Mila Cox, que é vegana, Zími e Silvano fritavam quantidades astronômicas de bacon e continuavam com as bebidas fortes.

    Bueninho foi até a geladeira e as cervejas ainda estavam todas lá.

    Ele quase morreu de tristeza ao recusar as fartas porções de bacon oferecidas por Zími, porque estava apaixonado por Mila Cox e não queria decepcioná-la.

    Inclusive mentiu a ela dizendo que também era vegano.

    Não iria jamais contá-la que estava apaixonado, mas mesmo assim preferiu manter alguma chance, apelando para a questão do veganismo por ter sido a primeira que surgiu.

    Sua autoestima era extraordinariamente baixa, e ele montou uma banda para tentar melhorar essa condição.

    Passou todas aquelas horas longe da tela do celular, e o lado ruim disso, é que iria sofrer opressão ao voltar para casa.

    Começou a pensar em sair de casa e largar a banda para tocar sozinho, com um teclado Casio que compraria usado.

    Arrumaria um emprego tosco, só pelo salário e pela revolta, que seria canalizada através de músicas contra o sistema.

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