Não tinha nenhuma pretensão de me esquivar. Sou jogo aberto, embora um pouco carrancudo. Apesar da minha masculinidade exacerbada, dei total liberdade aos meus filhos. Paulinho era o único que não se abria muito. Vez ou outra, mesmo depois da separação de sua mãe, tentava uma saída só nossa, para assistir a um filme ou tomar uma. Ele sempre desconversava, e eu sentia uma saudade danada. Paulinho, depois dos dezessete, notei, se tornou introvertido. Um menino superativo na infância havia se tornado tímido, retraído, por conta, decerto, da pressão social. Lógico percebi a mudança de voz, ou uma leve mudança de voz. Acompanhado a isso, traços de feminilidade transbordavam, não tinha jeito, por mais que tentasse camuflar. Nunca toquei nesse assunto, para não o atordoar com bobagens. Que me importava se meu filho fosse gay? Porra, nunca tive preconceito algum! Paulinho não me permitiu ser seu amigo como gostaria de ser. Outras pessoas da família, sim, pegavam no pé, e eu mandava todos se ferrarem. Peguei uma briga foda com parte da família sacana, cacete, bolsonarista – agora, não me faz a menor falta. Nada poderia atacar o meu menino doce e humano. Quando pequeno, na casa dos dez anos, Paulinho começou a ir aos hospitais para cuidar de crianças com câncer. Ele ia vestido de palhaço, com sua trupe, e eu ficava superenvaidecido. Sensibilidade à flor da pele. Paulinho só queria viver sua vida tranquilo, em paz. Os irmãos não o incomodavam. Jorginho e Juninho não metiam o bedelho, e era uma festa quando se encontravam, apesar da diferença de idade – Paulinho era bem mais velho que os novos rebentos de um outro casamento. Estou, na qualidade de pai e amigo, pegando na mão de meu filho neste segundo e rezando para que esse pesadelo passe logo. Ele está na UTI porque consumiu grande quantidade de remédios. Os médicos e a polícia fizeram um calhamaço de perguntas sobre a tentativa de suicídio; se eu sabia qual era o motivo; se alguém poderia ter influenciado essa atitude desvairada. Respondi que a merda da sociedade era que tinha arrebentado o coração do meu filho. “Seu guarda, meu filho só queria ser gay em paz, entende?!”. A psicóloga do hospital veio conversar comigo, para que eu me desarmasse quando meu filho voltasse à vida. Disse a ela que eu era o seu maior incentivador; que isso não era problema algum. Está sedado agora. Mas pode me escutar, eu creio. Prometi que ele seria a bicha mais linda do mundo, ou a mulher que desejasse ser. Que eu faria de tudo para que, de uma vez por todas, ele fosse feliz. Percebi uma lágrima caindo de seu olho esquerdo. A verdade é que vamos sair daqui direto para um salão de beleza, e Paulinho, ou Paulinha, se sentirá a mulher mais bela do Brasil. Todo meu dinheiro será empregado para isso. Nenhuma dor assolará mais o coração de meu filho.
filhos
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Fervor
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Estou pobre de heroínas…
Neste site, onde publicamos crônicas, poemas, contos e reflexões, existe uma aba chamada Autores. Lá está a nossa descrição: quem somos, o que nos qualifica como escritores, nossa formação. Enfim, um retrato resumido de cada um.
Tenho filhos, netos, família e amigos. Estudo. Publiquei livros de contos e crônicas, além da minha autobiografia. Tenho três graduações, fiz pós-graduação e posso afirmar: estudar foi e, ainda é parte importante de quem sou.
No entanto, minhas referências como autora em “nosso site” são as pautas que me inquietavam quando decidi me dedicar exclusivamente à escrita: envelhecer e parar de trabalhar.
Dois dilemas que me ocupavam a mente, provocavam reflexões e despertavam temores.
Águas passadas…
Aposentei-me entre os cinquenta e oito e os sessenta e seis anos.
Nesse intervalo, flertei com a leveza de não ter horários, com a liberdade de escapar da rigidez hierárquica, da dureza das opiniões e de tudo aquilo em que me transformara como funcionária pública.
Passei a ser uma estagiária sênior.
Gostei! E, quando cansei, deixei de vez a vida pública e me tornei aposentada.
Quanto ao envelhecer, só me dei conta quando troquei o batom vermelho pelo “cor de boca”; quando substituí os saltos pelos tênis, seja por conforto, seja por questões físicas.
Aos sessenta e nove anos, saudei a minha velhice com um poema. Fiz isso com galhardia, consciência e verdade.
Resolvidos, portanto, os dilemas da idade e do tempo ocioso, restava-me outra inquietação: quem seriam, agora, as minhas heroínas?
As heroínas!
Aquelas que, das páginas dos romances, nos forjaram, inspiraram, despertaram inveja ou compaixão.
Mulheres que nos fizeram pensar não só em nós mesmas, mas no mundo, nas relações, em nossos direitos…
Ou aquelas de quem apenas copiamos modelos de roupas ou frases de efeito.
As mocinhas destemidas, submissas ou valentes, lindas e amadas.
E também as que sofriam, ou faziam sofrer, a quem condenávamos ou aplaudíamos.
Também conhecemos personagens que, mesmo em sua feiúra ou pequenez, nos fascinaram a ponto de não conseguirmos abandonar a leitura antes do fim.
Mulheres descritas de forma nua e crua, com falhas humanas, como aquela que, ao perder a beleza e os prazeres da carne, passou a comer sem parar até se tornar obesa em Shangri-la, o Horizonte Perdido?
Ou a governanta cruel de Primo Basílio?
O que dizer de Madame Bovary, no misto de idealização romântica, insatisfação crônica e busca por relações insustentáveis?
Tudo mesmo já foi dito, escrito, lido?
Não haverá mais heroínas que possam me inspirar?
Ou será que elas continuam escondidas nas entrelinhas, aguardando que eu as descubra, como quem abre uma janela e deixa entrar um sopro de vento novo?
Quero ainda me surpreender, enternecer, admirar…
No meio da multidão, no silêncio dos asilos, nos cabelos brancos exaltados pelo modismo, eu busco, eu quero, eu preciso.
Onde estão minhas heroínas?