Filme

  • Cinema com meus olhos

    Ver filme é um prazer solitário, mesmo em grupo. Porque não se vê o filme pelos olhos dos outros. Você compartilha a experiência do momento e, não raro, as sensações que cada um teve na exibição.

    Mas o entendimento e os sentimentos que nascem a partir dessa reflexão são únicos. Não há como transferi-los ou recebê-los.

    Nunca li resenha de filme antes de assisti-lo. No máximo, uma sinopse bem curtinha para saber se é faroeste ou argentino. Nada além disso.

    Não sou contra as resenhas, há vários bons profissionais que escrevem textos sobre cinema maravilhosamente bem. Mas me reservo o direito de só conhecer a visão deles da obra depois que eu tiver a minha.

    Não quero ler nada que possa influenciar, de alguma forma, minha capacidade de perceber o que será projetado na tela, do cinema ou da televisão. Amo a sensação de ver o filme como se tivesse, dentro da cabeça, uma tela nunca antes usada.

    As impressões que as cenas vistas me causarão vão cobrir o espaço em branco dessa tela. Ao final, a obra pictórica mental marcará meu conjunto de sensações e lembranças da obra. Cinema é bom demais.

    Diferenças de opiniões sobre filmes são bem-vindas e saudáveis. Vou ao cinema desde, sei lá, quando minha mãe pode me levar. Mas nunca encontrei ninguém com as mesmas percepções que as minhas e, consequentemente, com os mesmos sentimentos surgidos após cada projeção. Logo, quase nunca com as mesmas opiniões.

    Na adolescência, me lembro dos debates acalorados com meus amigos nerds — naquele tempo, isso era xingamento — depois de assistirmos, juntos, “Star Wars – V: O Império Contra-Ataca”. Vimos o mesmo filme, mas cada um enxergou algo diferente.

    E o que dizer do meu adorado “Dersu Uzala”? Até hoje não encontrei ninguém, além de mim, que tenha chorado depois de assisti-lo.

    No fim, a gente enxerga o que quer. Ou não. Porque não tem nada mais gostoso que ser atropelado por uma revelação.

    A revelação é uma onda que nos atinge e nos atravessa sem pedir licença. A experimentação fora da regra, fora da linha-guia.

    Porque, no fim, quem gosta de ser conduzido é gado.

  • ‘Rio, Zona Norte’: de Nelson Pereira dos Santos

    Retornamos com os comentários sobre filmes brasileiros nesta página, falando sobre o filme “Rio, Zona Norte”, de 1957, dirigido por Nelson Pereira dos Santos. O filme se passa na cidade do Rio de Janeiro e conta com as atuações de Grande Otelo, Jece Valadão e Paulo Goulart.

    Ele conta a história do sambista Espírito da Luz que, após sofrer um acidente em uma linha de trem e ter um traumatismo craniano, tem sua história revelada para o público que assiste ao filme. A trama se desenvolve em dois momentos distintos. Em um deles, são contados os momentos após o acidente sofrido pelo protagonista. No outro, os acontecimentos anteriores a esse mesmo acidente.

    Nelson Pereira dos Santos é, sem dúvidas, um dos grandes expoentes do cinema brasileiro, se não for o maior. Nesse filme, ele faz uma junção da abordagem da arte, por meio do samba, com problemas sociais enfrentados por uma população que, apesar de ter muito potencial e evidente talento, fica à margem da sociedade.

    Espírito de Luz é a representação das injustiças dessa sociedade que não olha com olhos de interesse para quem vem da periferia. Um sambista que tem uma capacidade ímpar de compor sambas, de uma forma que comprova ter nascido para fazer aquilo. Apesar disso, com seu espírito esperançoso e alegre, é constantemente enganado por pessoas que se aproveitam de seu talento para faturar, deixando-o em uma situação de miséria. Quantos Espíritos existiram ou ainda existem nesse mundo?

    Dessa forma, o filme de Nelson se aproxima muito de uma realidade marcada pelas injustiças sociais. Nesse contexto, a fronteira entre ficção e realidade passa a ser uma mera questão de detalhe.

    Essa obra mostra como o cinema brasileiro é rico e pode abordar temas variados de diversas formas. Ainda mais do que isso, só comprova que o cinema brasileiro já tem uma qualidade enorme desde muito cedo. É necessário que valorizemos nossa cultura pretérita para que possamos construir um Brasil cada vez mais carregado de identidade. “Rio, Zona Norte” ajuda a fazê-lo.

    Ficha do filme:
    5 de maio de 1958 No cinema | 1h 30min | Drama.
    Direção: Nelson Pereira dos Santos | Roteiro Nelson Pereira dos Santos.
    Elenco: Grande Otelo, Jece Valadão, Paulo Goulart.

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