Organizando algumas caixas no armário, umas com papel sem importância ou importância pouca e burocrática — notas de cartão de crédito, documentos, tíquetes de estacionamento —, deparei-me com algumas fotos antigas. Fotos do tempo de eu-menino, como diria Manuel Bandeira. Mas não era Pasárgada, não. Era São Roque, cidade do interior de São Paulo.
É… O cronista que agora tece esta crônica morou um bom tempo em São Paulo. Precisamente no interior: Cachoeira Paulista, Guaratinguetá, Cruzeiro, Lorena, Itapeva, Sorocaba, São Roque. Uma cidadezinha de pouco mais de 60.000 habitantes. Tempo de eu-menino. Mas mãe-d’água não me chamava. Chamavam-me os amigos, a poeira, as brincadeiras e o sol.
Uma das fotos era da antiga estação ferroviária. Paredes amarelas e telhados vermelhos. Quantas corridas foram feitas sobre os trilhos… Parece que sinto agora o calor do trem! Quantas pedras jogadas de um lado para o outro. Algumas, as pequenas e pontudas, jogadas uns nos outros. E as conversas? O campeonato de futebol (e a briga era grande, porque cada um torcia para um time diferente e achava que o seu era o melhor), a menina de olhos verdes. Eu não lembro o seu nome, mas lembro dos olhos: olhos verdes! As incontáveis histórias da escola.
É… Uma foto faz lembrar tanta coisa! O tempo parado, como se fosse nosso. Como se pudéssemos pegá-lo com as mãos, agarrá-lo à força. O tempo tem vozes! As vozes, todas elas, guardadas num pedaço de papel. E chego a escutar algumas: “Olha a pedra!”, “Aposto que eu ganho de você!”, “Até perto da cachoeira!”.
Não sei o que fazem ou por onde andam alguns desses intrépidos personagens das minhas lembranças. Não sei. Sei que sinto saudade.
Não vou embora para Pasárgada, entretanto. Quando relembro um tempo, relembro a mim, e a viagem que faço é inesquecível!
Tempos de eu-menino…