Glória e o dia dos namorados

  • Glória e o dia dos namorados

    No início não dei tanta atenção. Podia ser só implicância ou mania besta. Cismou com o meu biquíni de oncinha. Até aí, tudo bem, tentei relevar. A maioria dos homens é inseguro mesmo. O curioso é que ele não via problema com as outras mulheres.

    — Glória, você vai à praia com esse biquíni?

    — Vou, por quê?

    — Tem pouco pano pra muito peito.

    Eu tentava manter a calma.

    — Você acha?

    — A calcinha está entrando na bunda.

    — Tem dó, Ernesto, todo mundo usa assim.

    O biquíni só era indecente no meu corpo. Estava começando a me irritar com aquilo. Agora dera também para reclamar do vestido, das calças justas, da blusa transparente, tudo era motivo de discussão. Troço mais chato.

    Procurei uma blusa sem manga e não achei. Podia ter deixado no varal. Revirei as gavetas, fucei todo o armário e nada. Deixei pra lá. Me lembro de o Ernesto ter comentado que era curta demais e deixava o umbigo à mostra. Na semana seguinte, a calça jogging desaparece. Não podia ser coincidência. Ernesto estava sumindo com minhas roupas, justamente as que ele criticava. Claro que negou, Ernesto não assume seus erros. Imagine se eu resolvo sumir com as sungas dele.

    Ele argumenta que não quer me ver exposta ao ridículo, que me vejam como vulgar. Diz que só quer me proteger. Muita cara de pau. Isso não é amor, apenas dominação. Disso, eu sei bem.

    Ernesto nunca me bateu. Nem meus pais me bateram, não seria ele. Mas me sinto agredida quando ele quer me impedir de sair para beber com minhas amigas. Tentou sugerir que eu devia selecionar as amizades. Amiga solteira não presta para companhia, me avisava. Para mim, são as melhores, mais alegres. E vivas.

    “Glória, aonde você vai? Vai sair com quem? Glória, você vai de novo ao shopping gastar com bobagens?”. Me sentia vigiada, bisbilhotada, invadida. Se dependesse dele, eu teria de dar satisfação de cada ato, de cada passo. Por falar em satisfação, o pior é que meu tesão foi para as cucuias. Custo a me excitar e torço para não ser tocada. Ernesto não quer saber e se eu ameaço recusar, ele diz que não o amo mais. Faz drama. Vou para a cama coagida, para manter a paz e as aparências. Faço sexo e penso no Matt Dillon.

    Ernesto se queixa da minha frieza. Distante. Gelada. Pergunta se tenho outro homem. Na hora, respondo “que bobagem é essa, Ernesto? Claro que isso nunca me passou pela cabeça”. Internamente, vivo sonhando com isso.

    O casamento anda por um fio e ele nem nota. Ou pouco se importa. Num raro acesso de autocrítica, ele, uma noite, me perguntou se o problema com o sexo era dele. Pensei duas vezes e resolvi dizer que não, que ele era ótimo, coisa e tal. Menti descaradamente para não parecer que mentia a mim mesma.

    Não sei por quanto tempo vou esticar a corda. Ernesto é tóxico e se acha o suprassumo do homem moderno, compreensivo e calhorda. O calhorda é por minha conta.

    Decidi que não consigo – nem pretendo – mudar meu marido. Pau torto que nasce torto…Por falar em pau, o Ernesto tem o dele pequeno.

    Há limite para tudo.

    O amor, que antes parecia um filme romântico da sessão da tarde, tinha virado um Almodóvar do início de carreira, com cenas de um casamento imaginadas por Bergman, de mau humor e exilado numa ilha da Suécia em pleno inverno. Nosso amor deu uma esfriada. Eu e Ernesto, perdidos em um labirinto sufocante. Quando me olho no espelho, percebo o quanto de mim desapareceu para caber nas expectativas dele.

    12 de junho. Ernesto não esquece o dia dos namorados. Anoitece. Ambiente com luz indireta, velas seria um exagero. Mesa posta para dois. Lasanha. Ernesto adora lasanha. Bem podia colocar veneno de rato no molho bolonhesa, mas minha índole é pacífica. Vinho na taça. Malbec com toques de cicuta, revelando um vinho com mais tempo de envelhecimento. Como nosso relacionamento. Podre de velho. Meu maior presente neste dia continua sendo o silêncio confortável de um filme mudo. Daqui a pouco o Ernesto está chegando.

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